Curso Online MEDIUNIDADE & ESPIRITUALIDADE com Maísa Intelisano Aula 03 - Fenomenologia orgânica e psíquica da Mediunidade Bloco 02 - Fenomenologia Maísa Intelisano
AULA 3 FENOMENOLOGIA ORGÂNICA E PSÍQUICA DA MEDIUNIDADE BLOCO 2 Mecanismos do transe mediúnico: cristais de apatita e desdobramento do eu Influência no funcionamento do organismo Interferência no processamento de estímulos sensoriais e emoções Olá. Neste bloco, vamos falar um pouco sobre como a sensibilidade mediúnica e os transes afetam nosso psiquismo e nosso organismo. Como vimos nas aulas anteriores, a mediunidade é uma capacidade natural transcendente da consciência humana e está presente em todas as pessoas, em diferentes graus de intensidade. Também vimos que, quando a mediunidade não é do tipo natural, consequência do crescimento e evolução espirituais da própria pessoa, ela é uma capacidade emprestada e produzida no corpo do médium por meio de modificações orgânicas e energéticas feitas antes de seu reencarne. No livro Missionários da Luz, escrito em 1945 pela psicografia de Chico Xavier, André Luiz, no capítulo 2, traz a explicação de seu instrutor Alexandre, tratando a pineal como glândula da vida espiritual do homem, o que vai ao encontro da percepção do filósofo Renê Descartes que, já em 1640, dizia que existiria no cérebro uma glândula que seria o local onde a alma se fixaria mais intensamente. A pineal (ou epífise neural) é uma glândula endócrina, do tamanho aproximado de uma ervilha, localizada bem próxima do centro do cérebro. Do ponto de vista médico, apesar de suas funções serem muito discutidas, parece não haver dúvidas quanto ao importante papel que ela exerce na regulação dos chamados ritmos circadianos (ciclos vitais, principalmente o do sono), e no controle das atividades sexuais e de reprodução. Sérgio Felipe de Oliveira, médico pela Faculdade de Medicina da USP e mestre em Anatomia Funcional pelo Instituto de Biociências da mesma universidade, responsável pelo curso de extensão universitária denominado Bases Biofísicas e Epistemológicas da Integração Cérebro-Mente-Corpo-Espírito, ministrado de 1995 a 2001 nas dependências da USP, ele mesmo espírita e médium, conta que, tomando contato com o relato de André Luiz e sendo incentivado por mentores espirituais, teria sido levado a fazer pesquisas sobre a glândula pineal, observando que, em vários médiuns mais desenvolvidos e atuantes, essa glândula havia sofrido um processo de biomineralização e apresentava-se mais calcificada, quando observada em imagens de tomografia computadorizada. Analisando, então, essa calcificação, ele teria constatado tratar-se de um tipo de apatita, um mineral do grupo dos fosfatos, naturalmente sintetizado e presente no corpo humano, com função metabólica, inclusive, já que apresenta microcirculação sanguínea. O que chamou sua atenção foi o fato de, em vários médiuns ostensivos e atuantes, a pineal aparecer mais calcificada, com maior quantidade de cristais de apatita. Ao que tudo indica, segundo seus estudos e observações, os cristais são estruturas previstas na constituição física da pessoa, ou seja, ela já nasce com a predisposição para ter um determinado número de cristais dentro da glândula e, quanto mais envelhece, mais esses cristais crescem, formando lamelas concêntricas, exatamente como vemos no tronco de árvores quando as cortamos transversalmente. Essa observação o levou a formular a hipótese de que os cristais de apatita presentes na glândula pineal, uma glândula importante para a espiritualidade desde a antiguidade, favorecessem a ocorrência de transes mediúnicos e alguns tipos de percepções extrassensoriais. 2
Segundo Sergio Felipe, esses cristais seriam capazes de captar ondas eletromagnéticas emitidas pelo processo do pensamento, retransmitindo-as internamente no cérebro para outras áreas, onde seriam decodificadas, interpretadas e transformadas em informação. Em sua hipótese de estudo, nas pessoas com vivência espiritual, que cultivam a transcendência, envolvendo a tolerância, a capacidade de amar, a empatia, essas ondas seriam transformadas em estímulos neuroquímicos dirigidos ao lombo frontal, sede do pensamento lógico, onde seriam então interpretados e transformados em mensagens. Nas pessoas que não demonstram interesse por sua transcendência, no entanto, que não buscam a espiritualidade em sua vida, de forma saudável e estruturada, segundo ele, esses estímulos não alcançariam o lobo frontal, ficando restritos à região do hipotálamo, responsável pelo controle das emoções, da atividade sexual, da temperatura corporal, da fome e da sede, atividades orgânicas muito associadas a impulsos instintivos de sobrevivência e perpetuação da espécie, podendo gerar desequilíbrios e comportamentos compulsivos, como bulimia ou anorexia; insônia ou sonolência exagerada; compulsão sexual ou ausência de libido; agressividade e violência; alterações bruscas de humor; etc. Segundo Sergio Felipe, os médiuns que apresentam os cristais de apatita na pineal seriam os responsáveis pelos verdadeiros fenômenos mediúnicos, que envolvem a participação direta de espíritos, como psicofonia (incorporação), psicografia (escrita mediúnica) e pintura mediúnica, e a telepatia, uma comunicação mediúnica que pode ocorrer tanto entre vivos, como entre vivos e mortos. No entanto, em suas observações, Sergio Felipe notou também que alguns médiuns apresentavam fenômenos espirituais mesmo não tendo cristais de apatita em sua pineal, e que esses fenômenos eram diferentes daqueles apresentados pelos médiuns com cristais de apatita. Em sua hipótese, nesses médiuns os fenômenos se dariam pelo que ele chamou de desdobramento do eu, ou seja, os corpos sutis se deslocariam em relação ao corpo físico, produzindo um estado alterado de consciência e ampliando a percepção da realidade espiritual. Em resumo, a pessoa sai parcial ou totalmente de seu corpo físico e entra no mundo espiritual com os corpos sutis. Nesse caso, os fenômenos não têm a participação direta de espíritos e, portanto, não seriam fenômenos mediúnicos, no sentido estrito do termo criado por Kardec, mas fenômenos anímicos, resultantes de uma característica inata do próprio médium, que não depende da ação de espíritos para ser ativada ou se manifestar. Estão nesse grupo, por exemplo, os fenômenos de clarividência, clariaudiência, psicometria, precognição, premonição, sonambulismo, ectoplasmia (materialização) e retrocognição. Esse desdobramento do eu ou deslocamento de corpos sutis pode ser provocado por vários fatores: sono; envenenamento; uso de drogas psicoativas de qualquer tipo, lícitas e ilícitas, sob a forma de medicamentos, bebidas, cigarros ou alimentos; meditação; exercícios e práticas respiratórias que aumentem a oxigenação cerebral; anestésicos; alguns tipos de músicas e sons; alguns tipos de dança; ioga; choques emocionais mais intensos; doenças graves que causem enfraquecimento físico profundo; traumas na cabeça; alguns movimentos físicos, especialmente os repetitivos; privação de sono; insolação; rezas ou orações intensas; etc. Vale destacar que, embora esses fenômenos não dependam da ação direta de espíritos para ocorrer, eles também podem ser usados para contatos com espíritos, uma vez que, estando em estado alterado de consciência e vendo ou ouvindo os espíritos em sua própria realidade, o sensitivo pode transmitir informações sobre eles ou que eles transmitam à sua audição e visão astral. Outro aspecto importante a destacar é que um tipo de mediunidade não exclui o outro, ou seja, um mesmo mé- 3
dium pode apresentar fenômenos por cristais de apatita e também por desdobramento do eu, o que o tornaria um sensitivo muito mais versátil e, por consequência, mais suscetível à influência espiritual de qualquer tipo. E por que diferenciar os dois tipos? Pelo fato de que as reações e sintomas causados por cada um, quando em desequilíbrio ou descontrole, são diferentes e, sabendo o tipo, é mais fácil ajudar o sensitivo que se encontra nessa situação. Embora nossas dimensões orgânica, psicológica e espiritual não sejam dissociáveis, elas têm aspectos diferentes que podem ser considerados e trabalhados mais diretamente ao dar orientações aos médiuns. Nos médiuns de cristais de apatita, segundo Sérgio Felipe, parece haver sintomas mais orgânicos, em consequência da aceleração do metabolismo, como aumento da pressão arterial, taquicardia, lentidão na digestão, aumento do fluxo renal e da circulação sanguínea da cabeça, além de diminuição da circulação periférica, o que causa, por exemplo, palidez e frio nas extremidades. Além disso, esses médiuns têm um aumento de estímulo na região do hipotálamo e, sem treinamento espiritual, podem desenvolver distúrbios associados a essa área do cérebro, como bulimia, anorexia, obesidade, insônia ou compulsão sexual. O médium de desdobramento do eu, por sua vez, quando não treinado, apresenta mais distúrbios associados ao sono, como sonambulismo, terror noturno, bruxismo e catalepsia do sono, além de poder desenvolver também mais desequilíbrios de fundo emocional, como ansiedade, fobia ou pânico, por estar exposto à realidade espiritual sem saber do que se trata, sem saber o que fazer e sem poder fugir dela. Além disso, esses médiuns apresentam também alguns sintomas orgânicos opostos ao dos médiuns de cristal de apatita, como queda da pressão arterial e aumento da atividade digestiva. Essas observações de Sergio Felipe vão muito ao encontro do que registrou Stanislav Grof, pioneiro da psicologia transpessoal, quando começou seus estudos sobre a transcendência humana, a partir do uso de LSD, na década de 60, quando ainda não era droga ilícita e, depois, com a técnica de respiração holotrópica, desenvolvida por ele para substituir o LSD quando se tornou ilegal. Além dos sintomas descritos acima, Grof detectou vários outros tipos de experiências dramáticas, estados mentais incomuns, supostos distúrbios mentais, diagnosticados como patologias, mas dotados de conteúdo ou sentido espiritual explícito. Ao conjunto dessas experiências ele chamou emergências espirituais, entre elas o despertar da kundalini; os transes xamânicos; os contatos com OVNIs; as experiências de quase-morte (EQMs) e as projeções da consciência; lembranças espontâneas de vidas passadas; comunicações com espíritos ou guias; fenômenos de abertura psíquica, etc. Em seu livro Emergência Espiritual, Grof e sua esposa Cristina, além de citarem as comunicações com espíritos ou guias, que Sergio Felipe chama de mediunidade por cristais de apatita, descrevem a mediunidade por desdobramento do eu, chamando-a de abertura psíquica, demonstrando que o fenômeno de contato com a realidade espiritual está totalmente dissociado de crença religiosa e diz muito mais respeito ao funcionamento da mente e da consciência humana como um todo. Hoje o CID 10 (Código Internacional de Doenças), em seu item F44.3, já inclui em sua classificação os estados de transe, definindo-os como transtornos caracterizados por uma perda transitória da consciência de sua própria identidade, associada a uma conservação perfeita da consciência do meio ambiente. Devem aqui ser incluídos somente os estados de transe involuntários e não desejados, excluídos aqueles de situações admitidas no contexto cultural ou religioso do sujeito. (grifo nosso). Ou seja, os estados de transe não são considerados patologias pela medicina, desde que se manifestem associados a contextos culturais e religiosos em que sejam 4
cultivados de forma frequente e natural. Importante notar, no entanto, que há, sim, estados de transe patológicos, frutos de distúrbios e transtornos que precisam ser tratados adequadamente com medicamentos e psicoterapia, com a participação de psiquiatras e psicólogos. Nem todo transe é mediúnico e nem toda experiência mística é doença mental. É preciso cuidado nessa diferenciação, para não incorrermos em erros graves de avaliação, prejudicando ainda mais a pessoa que tentamos ajudar. Por isso, antes de classificarmos os fenômenos como mediunidade ou como doença psiquiátrica, o ideal é que a pessoa seja avaliada por médicos e psicólogos familiarizados com a realidade espiritual, que tenham uma abordagem mais transpessoal, e também por outros médiuns experientes e preparados, para que receba o suporte e a orientação adequados ao seu caso. O cuidado espiritual não deve nunca substituir o acompanhamento médico profissional. E o cuidado médico deve, sempre que possível, incluir e considerar a dimensão espiritual em seus procedimentos, especialmente quando lida com possíveis médiuns ou sensitivos. Vale destacar que, muitas vezes, os dois quadros podem se apresentar juntos na mesma pessoa: a mediunidade se manifestando sem controle e um distúrbio psiquiátrico ou psicológico causando desequilíbrios mentais e/ou emocionais. Por isso, a avaliação deve ser abrangente e o mais holística possível, sempre com cuidado para não negligenciar nada. Até porque, muitas vezes, uma coisa pode levar à outra: a mediunidade sem controle pode levar a quadros psiquiátricos e vice-versa, problemas psiquiátricos podem provocar fenômenos espirituais reais e, quase sempre, assustadores para aqueles que os experimentam. De tudo o que falamos nesta aula, além da compreensão de que os fenômenos espirituais são naturais e fazem parte da nossa própria constituição física e psicológica, fica também o nosso desejo de que espiritualidade e ciência possam se associar cada vez mais na busca de mais compreensão a respeito da consciência humana. Até a próxima aula! 5