A Nova Geopolítica do Petróleo Introdução ao problema: A expressão geopolítica engloba assuntos que são concebidos como de enorme importância para países numa determinada região, continente, hemisfério ou em todo o globo. Pode ser entendida como um conjunto de trabalhos dentro das ciências sociais que lida com as múltiplas interações e geografias nas quais esses dois termos são imaginados, a partir de uma configuração triangular. Num vértice do triângulo, estão política e poder e, nos outros, território e lugar (JONES, 2004). Nosso recorte é o dos recursos energéticos. Sua produção e sua distribuição no mundo, mais diretamente do petróleo e seus compostos, fontes primárias de energia, apresentam-nos números globais de consumo altíssimos, concomitantemente com a dependência que geram nos países. Desde que o petróleo se tornou fonte energética básica para o desenvolvimento da indústria, transporte e até mesmo a segurança de um país, sua procura e vinculação a tais setores vêm crescendo a cada ano. Todavia, a procura pelo recurso se tornou peça fundamental para a estabilidade de potências mundiais, tais como: Estados Unidos, Rússia, China, Brasil, Alemanha, Venezuela e outros. Dentro das articulações existentes em torno do recurso energético petróleo, não somente Estados estão envolvidos na política petrolífera. A OPEP Organização dos Países Exportadores de Petróleo, fundada em 1960, por Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Venezuela, apresenta sua relevância no que tange aos interesses das nações em alimentar toda demanda existente em diversas áreas. Atualmente, a organização conta com os seguintes membros, além dos supramencionados: Argélia, Angola, Equador, Indonésia, Líbia, Nigéria, Qatar e Emirados Árabes Unidos. Percebemos logo a formação de uma organização internacional a defender interesses de países distintos daqueles que compõem o núcleo capitalista dominante. Antes, a OPEP oferece um desenho sulista/oriental em sua formação, com predominância de países africanos e do Oriente Médio. Com efeito, a região do Oriente Médio é hoje detentora das maiores reservas mundiais. A partir dessa constatação, podemos incluir em nossa discussão diversos temas correlatos à questão do petróleo, tais como: embate Ocidente/Oriente, liberdade democrática, luta contra o terror, guerra no Iraque (1990/2003) etc. Esses temas se multiplicam a cada ano e sempre representam para o mundo uma ameaça belicista, em função do esforço contínuo dos Estados pela defesa e dominação do ouro negro, de que tanto nos tornamos dependentes para o desenvolvimento.
Histórico do Problema: Diversos estudos e análises políticas apontam o petróleo como epicentro de conflitos ao longo do século XX, como as duas Guerras Mundiais, Guerra Irã-Iraque, Guerra do Golfo, e, no século XXI, a Guerra do Iraque. Apesar de sua relevância em tais fatos, não podemos reduzir a busca pelo óleo negro como causa que guia inevitavelmente as potências a um conflito. Importa-nos entender como tais conflitos, ou ao menos os mais vultosos, conseguiram causar influência na política externa brasileira, num rearranjo geopolítico que alguns choques conseguiram gerar. Na década de 1970, mais especificamente em 1973, as nações integrantes da OPEP quadruplicaram o preço do barril do petróleo num esforço pelo controle de oferta. Tal ação dos membros da OPEP foi entendida como resposta aos países ocidentais pelo apoio dado a Israel, principalmente pelos Estados Unidos e pela Europa, no conflito de Yom Kippour. Percebemos que, para o governo brasileiro, tal ação repercutiu dentro do plano de ação econômica do governo militar, o qual buscava acelerar o desenvolvimento econômico e conter o processo inflacionário. Naquele presente período, o endividamento do governo brasileiro com moeda estrangeira tornou-se necessário para que o desenvolvimento se mantivesse estável com os programas econômicos, pois, com o primeiro choque do petróleo, as feridas externas do Brasil ficaram à mostra, uma vez que o desenvolvimento dos bens de capital dependia do recurso energético. Assim, gastos das reservas do governo e um déficit na balança de pagamentos abalaram a economia brasileira. Em 1979, por causa de outra instabilidade política, agora restrita a uma nação integrante da OPEP, Irã, fez-se sentir o segundo choque do petróleo na economia mundial com a paralisação da produção do petróleo iraniano em decorrência da revolução islâmica. Todavia, com um crescente endividamento gerado pela abundância de petrodólares no mercado mundial, as taxas de juros aumentam com o segundo choque do petróleo e acarretam, somadas ao desequilíbrio interno, pressões inflacionárias em toda economia brasileira. As ligações de recursos energéticos com um Estado nacional não estão atreladas apenas no âmbito econômico. Como afirmado antes, há a questão da estabilidade militar, além da preocupação econômica e ambiental com a utilização racional da energia. Após a 2ª Guerra Mundial, poderíamos afirmar que uma reconfiguração na balança de poder se fez com o surgir dos Estados Unidos da América como superpotência. Seu discurso universalista, enraizado em fundos ocidentais de democracia e liberdade, embaça a percepção do complexo militar que apoia o poder do discurso. Numa simples exposição da capacidade militar norte-americana, somos guiados a entender a maciça fomentação energética necessária para que as forçar aéreas, forças terrestres e navais dos Estados Unidos possam realmente ser efetivas como o são.
Porém, nesse jogo de equilíbrio energético-militar, outras nações estão em franco rearranjo, como os próprios membros da OPEP, a União Europeia, e, ainda, a Rússia, com toda sua capacidade de extração petrolífera e militar em alinhamento recente com outra grande potência do petróleo, a Venezuela. Além de alinhamentos políticos com a América do Sul, a grande irmã russa busca incessantemente estabelecer ligações com ex-repúblicas socialistas soviéticas, como Azerbaijão e Cazaquistão. Em solo africano, as atenções de Estados Unidos e da China têm se voltado principalmente para as nações subsaarianas, em especial o Sudão, país em constante crise humanitária, que contabiliza crimes contra a humanidade e genocídio. Chad e República Centro-Africana também têm merecido olhares pretensiosos das potências do século XXI. Algumas dessas configurações guiadas pela busca de energia têm a participação do nosso país. O Brasil, como ator internacional, no abrangente espaço geopolítico da América do Sul, vem a cada ano firmanod acordos de cooperação em infraestrutura energética com Venezuela e Bolívia, como os que envolvem cooperação e negociação do petróleo e exploração do gás. Contudo, uma outra imagem forte a respeito da América do Sul contemporânea é o alinhamento russo-venezuelano, o qual fomenta negociações e treinamentos militares, além de cooperação petrolífera. Em contraposição à ação de dois países não amigos dos Estados Unidos, a Quarta Frota foi reativada, e os mares de treinamento russo-venezuelano serão os mesmos em que o poderio naval americano transitará. Não nos esqueçamos da recentemente descoberta reserva de petróleo brasileiro, Tupi, em costa paulista e das estimativas de extração para 2025. Decididamente, o petróleo e sua busca têm levado a cada ano a mais acirramento, vide os comportamentos de Rússia, países membros da OPEP, Estados Unidos e China. Políticas econômicas, como perdão à divida externa de países africanos, incentivos em infraestrutura no subcontinente latinoamericano, acordos políticos e até conflitos, como na Guerra do Iraque e a luta contra o Talibã no Afeganistão, são alguns fatos que têm o petróleo e seus derivados como razões para os arranjos geopolíticos que se configuram. Por fim, urge termos conhecimento da futura extinção do recurso petróleo como fonte energética. Seja num prazo estimado de 50 ou de 100 anos, as reservas mundiais, que chegam a extrair cerca de 1,5 trilhão de barris diários, estão perto do seu fim. Impactos relacionados à extração são previstos, e, como em 1973 e 1979, o Brasil sobreviverá aos impactos, mas sérios danos serão causados a sua economia e população, assim como aos diversos países cuja principal fonte energética em todos os âmbitos de desenvolvimento e segurança seja o petróleo. Para outro aspecto é interessante se atentar: estabilidade política, demográfica e econômica dos países asiáticos. Há a preocupação de uma crise política e demográfica se instalar em países que dependem do recurso para consumo, como China, e para a extração, como Arábia Saudita, antes mesmo do fim das reservas mundiais de petróleo, acontecimento que poderia ainda antecipar uma crise ou um terceiro choque do petróleo, um tanto quanto similar ao segundo choque de 1979.
Posição do Brasil: O governo Lula tem se alinhado no âmbito energético em operações políticas de cooperação com nações latinoamericanas, principalmente Venezuela e Bolívia, além de estender a política de uma nova fonte energética, o biocombustivel, a países da América Central, Estados Unidos e Europa. As reservas de petróleo da PETROBRAS hoje atingem a margem de 21 bilhões de barris, e um discurso presente e constante do presidente Lula destaca o biocombustível como o futuro energético dentro de algumas décadas. Nas recentes palavras do próprio presidente Lula, durante o programa Café com o Presidente, destacou-se essa orientação de nossa política externa: Eu penso que nós, depois de fazermos uma boa política com a América do Sul, com a América Latina, com a África, com a Ásia e com a União Europeia, nós agora estamos estreitando os laços com os Estados Unidos, sobretudo na área de biocombustíveis, que é uma coisa que eu penso que nos próximos 15 ou 20 anos vai mudar um pouco a história da humanidade no que diz respeito à questão de combustíveis (Brasília, 2 de abril de 2007). Posição dos outros atores: As principais questões estão relacionadas aos países produtores, por meio da figura institucional da OPEP, e aos maiores consumidores e outras potências mundiais, como Rússia e China. Os movimentos atuais de tais nações em busca do controle e estabelecimento de preço no mercado do barril tendem a afetar todas as nações que se envolvem no mercado petrolífero. O fato agravado pela limitação de extração da fonte energética petróleo, que é finita. Seguem alguns exemplos concretos de problemas no campo da geopolítica do petróleo no século XXI: a aproximação Rússia-Venezuela, aqui levantada, que mescla aspectos econômicos e estratégicos num arranjo cooperativo entre as nações; a China e suas incursões em territórios africanos, como o Sudão, e o seu constante crescimento econômico; as nações islâmicas Irã e Arábia Saudita, cada qual com suas pendências políticas com os Estados Unidos, etc. Enfim, logo percebemos que a análise completa de uma geopolítica do petróleo não se limita a uma discussão da aproximação do seu fim ou dos impactos econômicos que a sua extinção acarretará.
Principais pontos para o debate: Qual a possibilidade de um terceiro choque do petróleo e quais suas consequências diretas para a economia mundial e para o Brasil? Os conflitos passados, os atuais e possíveis podem ser entendidos apenas pela busca do óleo negro? Estaria o Brasil em risco com a descoberta da reserva Tupi? As intenções russas e venezuelanas são um risco para o Brasil? Os biocombustíveis serão tão eficazes como alega nosso presidente? Uma mudança na balança energética mundial afetará e mudará as potências mundiais? Como reduzir a dependência de um país quanto ao uso do petróleo? Como a escassez do petróleo poderá afetar a vida de cada um em seu país? Referências adicionais para pesquisa: www.globalsecurity.org www.bbcbrasil.com www.reuters.com www.mundorama.net www.geomundo.com.br www.pucminas.br/conjuntura