Materiais supercondutores

Documentos relacionados
10 - SUPERCONDUTIVIDADE

TÓPICOS EM FÍSICA DO ESTADO SÓLIDO SUPERCONDUTIVIDADE 1. HISTÓRIA

Introdução a Física do Estado Sólido: Propriedades Elétricas, Óticas e Magnéticas de Materiais Prof. André Avelino Pasa Departamento de Física UFSC

Questionário de Física IV

FORÇA ELECTROMOTRIZ INDUZIDA

Lei da indução de Faraday

ELECTROMAGNETISMO. EXAME 1ª Chamada 18 de Junho de 2010 RESOLUÇÕES

I N S T I T U T O F E D E R A L D E E D U C A Ç Ã O, C I Ê N C I A E T E C N O L O G I A D E S A N T A C A T A R I N A C A M P U S L A G E S

Corrente e Resistência

Física III Escola Politécnica GABARITO DA P3 16 de junho de 2011

O Mundo das Baixas Temperaturas

Campo Magnético - Lei de Lenz

Eletromagnetismo II. Preparo: Diego Oliveira. Aula 3. Equação da Onda e Meios Condutores

Eletromagnetismo I. Aula 16. Na aula passada denimos o vetor Magnetização de um meio material como. M = n m. n i m i

2.4 O campo electrostático: um campo conservativo

Teorema de Gauss p/ o campo magnético Em 1819 Oersted observou que uma bússola próxima a um condutor que transporta corrente sofre uma deflexão na

INDUÇÃO MAGNÉTICA (2)

A força magnética tem origem no movimento das cargas eléctricas.

r r r F = v Q B m ou r r df = I ( ds B ) 1

Universidade Federal do Rio de Janeiro Instituto de Física Prova Final (Noturno) Disciplina: Fisica III-A /1 Data: 05/07/2018 V 2B 2 R 2

Física III Escola Politécnica GABARITO DA PS 30 de junho de 2011

Aula 20 Condução de Eletricidade nos Sólidos

Em um circuito RLC série, a potência média fornecida pelo gerador é igual a potência média dissipada no resistor. Com isso: 2

Energia envolvida na passagem de corrente elétrica

Cap. 8 - Indução Eletromagnética

Lista 10. Indução Eletromagnética

INDUÇÃO MAGNÉTICA. Indução Magnética

Electromagnetismo Aula Teórica nº 21

Unidades. Coulomb segundo I = = Ampere. I = q /t. Volt Ampere R = = Ohm. Ohm m 2 m. r = [ r ] = ohm.m

Corrente elétrica e Resistência

EQUAÇÕES DE MAXWELL, POTENCIAL MAGNÉTICO E EQUAÇÕES DE CAMPO

O QUE É ENERGIA? CONVERSÃO DE ENERGIA ELÉCTRICA. É o princípio de tudo.

Antenas e Propagação. Artur Andrade Moura.

ELETRICIDADE GERAL E APLICADA. Armando Alves Hosken Neto

NOTAS DE AULAS DE ESTRUTURA DA MATÉRIA

(a) Determine o fluxo magnético através da área limitada pela espira menor em função de x 1. Na espira menor, determine. (b) a fem induzida e

Halliday Fundamentos de Física Volume 3

Teoria de Bandas 1 Elétrons Livres. CF086 - Introdução a Física do Estado Sólido 1

Escola Politécnica FGE GABARITO DA SUB 6 de julho de 2006

EO- Sumário 9. Raquel Crespo Departamento Física, IST-Tagus Park

4 e 6/Maio/2016 Aulas 17 e 18

Capítulo 9.Corrente Eléctrica e Resistência

Equação Geral da Condução

Electricidade e Magnetismo

NOTAS DE AULA DE ELETROMAGNETISMO

Tópico 01: Estudo de circuitos em CC com Capacitor e Indutor Profa.: Ana Vitória de Almeida Macêdo

Capítulo 2 Leis essenciais de eletromagnetismo Equações de Maxwell Lei de Faraday Lei de Biot Savart

[02] Incorreta. Mesmo neutro, o tanque possui cargas elétricas, porém, em equilíbrio.

Electromagnetismo Aula Teórica nº 22

NOTAS DE AULAS DE ESTRUTURA DA MATÉRIA

Conversão de Energia I. Capitulo 2 Circuito Magnético

Física III Escola Politécnica GABARITO DA P3 6 de julho de 2017

5 Produção de energia eléctrica

Ondas planas sinusoidais monocromáticas

Capítulo 7. Fontes de Campo Magnético. 7.1 Lei de Gauss no Magnetismo

Figura 1: Forma de onda da tensão quadrada.

Aula II Lei de Ohm, ddp, corrente elétrica e força eletromotriz. Prof. Paulo Vitor de Morais

Eletromagnetismo I. Preparo: Diego Oliveira. Aula 2

Princípios de Circuitos Elétricos. Prof. Me. Luciane Agnoletti dos Santos Pedotti

Eletromagnetismo I. Preparo: Diego Oliveira. Aula 4

Física 3. Fórmulas e Exercícios P3

A penetração de campos em meios condutores

Introdução à Magneto-hidrodinâmica

Auto-indutância de uma Bobina

Aula II Lei de Ohm: ddp, corrente elétrica e força eletromotriz. Prof. Paulo Vitor de Morais

FICHA DE TRABALHO DE FÍSICA E QUÍMICA A DEZEMBRO 2010

Capítulo VIII Lei de Faraday e a Indução Electromagnética

Máquinas Eléctricas. Índice

SEL 404 ELETRICIDADE II. Aula 08 Circuitos Magnéticos Parte III

Propriedades Físicas da Matéria

Transcrição:

0.21. MAGNETISMO EM MEIOS MATERIAIS 91 0.21.5 Materiais supercondutores No âmbito das propriedades eléctricas e magnéticas dos materiais, importa detalhar os materiais supercondutores, cuja importância fundamental e tecnológica tem crescido imensamente nas últimas décadas, sobretudo depois da descoberta em 1986 de uma família de óxidos cerâmicos que apresentam propriedades supercondutores até temperaturas superiores á da temperatura da liquefacção do ar. A descoberta da supercondutividade deve-se a Kammerlingh Onnes, que em 1911, no âmbito de uma série de estudos de materiais em temperaturas muito baixas (da ordem da temperatura da liquefacção do hélio, que acontece para T 4 K, e que foi obtida pelaprimeiraveznolaboratóriodek.onnes). Deacordocomosmodelosdacondução eléctrica, a condutividade é proporcional ao tempo médio entre colisões dos transportadores de carga. Para temperaturas muito baixas, este tempo médio é muito grande e depende essencialmente dos defeitos e impurezas presentes, que origina um valor máximo da condutividade e um valor mínimo da resistividade. Foi este comportamento que K. Onnes descobriu, por exemplo, na prata e no ouro. No entanto, numa amostra muito pura de mercúrio, verificou que a resistividade diminuia gradualmente com a diminuição detemperatura,talcomoparaaprataeoouro,masquesubitamente,abaixode4.1k, desapareciam todos os sinais de resistividade. Esta transição ocorre a uma temperatura bemdefinida,ditatemperaturacrítica,t C,oqueindicaquesetratadeumatransiçãode fase(talcomoaebuliçãodaágua,queocorrea373k)entreduasfases(porvezestambém designados imprecisamente por estados ): a fase normal e a fase supercondutora. Resistividade nula e correntes persisitentes Sendonulaaresistividadenoestadosupercondutor,aequaçãoJ=(1/ρ)Esómantéma sua consistência, se ocorrer E=0 (272) o que permite que haja uma corrente finita no interior do supercondutor. No entanto, experimentalmente é difícil (leia-se: impossível) estabelecer que a resistividade é exactamente zero. Uma das evidências mais fortes em favor não é directa, mas provém do estabelecimento de correntes persistentes num supercondutor. Vejamos como. ConsideremosumanelsupercondutorsujeitoaumcampomagnéticoB;ofluxoφqueatravessaa superfície delimitada pelo anel é: φ= B ds (273)

92 A lei de Faraday, que recordaremos no próximo capítulo, assegura que a taxa de variação do fluxo magnético corresponde à força electromotriz induzida, que é simplesmente a circulação do campo eléctrico num circuito(fechado): dφ dt = ɛ= E dl (274) C Podemos tomar a circulação no interior do anel supercondutor. Sendo nula a resistividade,entãotemose=0nointeriordosupercondutoretambém: dφ dt =0 (275) O fluxo do campo magnético permanece assim constante. A forma de estabelecer uma corrente persistente num supercondutor é a seguinte. Começa-se com um anel supercondutor acima da temperatura crítica, que se submete a um campo magnético externo B, queoriginaumfluxoφnoanel. Seagoraarrefecermosomaterialatéumatemperatura inferior á temperatura crítica, obtemos a fase supercondutora, onde o fluxo magnético permanece constante. Se desligarmos o campo magnético externo, o fluxo permanece, o que implica que o próprio supercondutor gera o fluxo magnético que o atravessa através da geração de uma corrente I. Gerámos assim uma corrente no anel supercondutor, que permanece inalterada enquanto se mantiver o material na fase supercondutora. Experimentalmente, verificou-se já a permanência deste tipo de corrente durante anos, o que constitui o melhor indício de que a resistividade é exactamente nula. Efeito de Meissner-Ochsenfeld e diamagnetismo perfeito Os supercondutores apresentam ainda outras propriedades magnéticas característizam, mais ainda do que a resistividade nula. O chamado efeito de Meissner-Ochsenfeld constitui modernamente a identificação definitiva da ocorrẽncia da fase supercondutora. Consideremos novamente a nossa espira supercondutora e, partindo de T > T C (fase normal)consideremos a seguinte sequência de passos experimentais: arrefeçamosatét <T C ; liguemos de seguida um campo magnético externo fraco; Tal como anteriormente, o supercondutor garante que o fluxo magnético se mantém constantenoseuinterior(nestecasoφ=0),oqueequivaleadizerqueocampomagnético externo fraco não é capaz de penetrar o supercondutor, devido à geração de correntes persistentes.

0.21. MAGNETISMO EM MEIOS MATERIAIS 93 No entanto, se a fase supercondutora for(e é) um estado de equilíbrio termodinâmico, então o estado final não pode depender da sequência de passos experimentais. Façamo então o procedimento ao contrário, partindo da fase normal: ligamos um campo magnético externo, que penetra o material, uma vez que este não está na fase supercondutora; arrefeçemos de seguida até T < T C : o supercondutor expele o campo magnético, através da geracção de correntes persistentes! Este resultado inesperado da expulsão de um campo magnético externo fraco do interior de um supercondutor designa-se efeito de Meissner-Ochsenfeld e, constitui, conforme indicámos inicialmente, uma das manifestaccões mais características da fase supercondutora. Concluímos assim o seguinte: sob acção de um campo externo fraco H, o campo magnético B no supercondutor é nulo. Da equação(266), obtemos então: isto é, da definição de susceptibilidade(eq. 268): M= H (276) χ m = 1 (277) Os supercondutores designam-se assim diamagnetes perfeitos. Supercondutividade detipo Iedetipo II O que é que acontece se aumentarmos a intensidade do campo magnético externo aplicado? Será que o campo magnético é sempre expulso do interior do supercondutor, independentemente da respectiva intensidade? Experimentalmente, verifica-se existir um campo máximo a partir do qual a supercondutividade é destruída. Nalguns supercondutores, ditos supercondutores do tipo I, é esta destruição da supercondutividade acontece abruptamenteapartirdeumcampoaplicadoh c,ditocampocr ıtico;noutrossupercondutores, ditos supercondutores do tipo II, a destruição ocorre progressivamente a partir de umcampocríticoinferior H c1,emqueafasenormalpassaacoexistircomafasesupercondutora, ocorrendo o desaparecimento completo da fase supercondutora para campos aplicadossuperioresaocampocríticosuperior H c2. Ascurvasdamagnetizaçãoemfunção do campo aplicado encontram-se esquematizadas na figura 18 para os dois tipos de supercondutores. Os campos críticos para os dois tipos de supercondutores são dependentes da temperatura, diminuindo com a temperatura até se anularem na temperatura crítica, conforme ilustra a figura 19.

94 Tipo I Tipo II Figure18: CurvasdemagnetizaçãotípicasdesupercondutoresdotipoIedotipoII. Tipo I Tipo II Figure 19: Dependência com a temperatura dos campos críticos, para supercondutores dotipoiedotipoii.

0.21. MAGNETISMO EM MEIOS MATERIAIS 95 A penetração parcial do campo magnético no material que ocorre para os supercondutores do tipo II pode explicar-se recorrendo ao conceito de vórtice, proposto por Abrikosov, em que uma supercorrente circula em torno de um centro de material na fase normal, através do qual penetra o campo magnético. A equação de London e o comprimento de penetração O modelo mais simples capaz de descrever o efeito de Meissner-Ochsenfeld é devido aos irmãosf.eh.london,queopropuseramem1935. Nocasodeumsupercondutorsujeitoa um campo magnético externo estático B, o modelo de London descreve uma supercorrente j cuja circulação é simplesmente proporcional ao fluxo do campo magnético aplicado B: C j dl= n se 2 m e B ds (278) onde n s é a densidade de electrões na fase supercondutora, e e m e são a carga e a massa do electrão, respectivamente. Desta equação resulta, por aplicação do teorema de Stokes: e,sendob= A,vem: j= n se 2 m e B (279) j= n se 2 m e A (280) Esta última expressão é válida também no caso não estático e costuma designar-se equação de London. Da equação de London na forma estática (eq. 279) e da lei de Ampère B=µ 0 jresulta: n s e 2 ( B)= µ 0 B= 1 m e λ2b (281) onde λ tem dimensões de comprimento e costuma designar-se comprimento de penetração, sendo: ( ) 1/2 me λ= (282) µ 0 n s e 2

96 De facto, se considerarmos um supercondutor plano cuja superfície seja paralela ao planoy z, eaplicarmosumcampoparaleloàsuperfície, B=B 0 ê z,rapidamenteconcluímos(verifique!) que a equação(281) se reduz a: cuja solução é: d 2 B z (x) dx 2 = 1 λ 2B z(x) (283) ( B z (x)=b 0 exp x ) λ (284) Assim, a equação de London prevê que o campo magnético decaia exponencialmente no interior do supercondutor, sendo λ o comprimento típico de decaimento (o campo magnético reduz-se do factor e ao fim de um comprimento de penetração). Figure 20: Decaimento do campo magnético na superfície de um supercondutor, ilustrando o conceito de comprimento de penetração.