Cálculos eleitorais No Brasil adotamos o sistema político denominado Democracia Representativa. Nele os eleitores concedem um mandato eletivo, ou seja, através do voto, a alguns cidadãos que se candidataram na forma da lei. Uma vez eleitos, esses cidadãos agora na condição de representantes, externam a vontade popular e tomam decisões em nome do povo. A esse instituto é dada a denominação de Mandato Político. No entanto, ainda que mandado político seja a capacidade de representar o povo adquirida através da manifestação popular do voto, o termo também é usado para designar o tempo de duração desta capacidade. Assim, Mandado político também é o lapso temporal compreendido entre a posse em cargo eletivo e o seu término. No Brasil, em conformidade com o nosso ordenamento, o mandado político do Presidente da República, dos Governadores, dos Prefeitos, dos Deputados Federais, dos Deputados Distritais, dos Deputados Estaduais e dos Vereadores é de quatro anos, já o dos Senadores é de oito anos. 2
Desta forma de 4 em 4 anos participamos de um pleito eleitoral. Os cargos majoritários são decididos por maioria de votos, já os cargos legislativos dependem de outros fatores, ou seja, uma vaga para ser preenchida pode depender de cálculos específicos. É justamente sobre estes cálculos que versa a presente cartilha que a Fundação JK coloca à disposição de acordo com os objetivos determinados pela Série Formação Cidadã: tornar acessível a todos as nuances da legislação eleitoral possibilitando uma real formação político-partidária. Myrian Massarollo Presidente 3
Cálculo do número de cadeiras por partidos e quociente eleitoral Chamamos quociente eleitoral ou coeficiente eleitoral ao método pelo qual são distribuídas as vagas, ou cadeiras, nas eleições proporcionais, ou seja, aquelas que elegem para os cargos eletivos de deputado federal, deputado estadual ou distrital e vereador. Não se confunde coeficiente eleitoral com coeficiente partidário. O primeiro esta disposto no artigo 106 do Código Eleitoral, enquanto o segundo esta expresso no artigo 107 do mesmo diploma. Assim, Art. 106 CE - Determina-se o quociente eleitoral dividindo-se o número de votos válidos apurados pelo de lugares a preencher em cada circunscrição eleitoral, desprezada a fração se igual ou inferior a meio, equivalente a um, se superior. Art. 107 CE. Determina-se para cada partido ou coligação o quociente 4
partidário, dividindo-se pelo quociente eleitoral o número de votos válidos dados sob a mesma legenda ou coligação de legendas, desprezada a fração. Desta forma, Portanto, para que se saiba qual o número de parlamentares eleitos por um partido, ou seja, qual o número de cadeiras obtidas por ele, basta descobrir qual a parte inteira do quociente partidário, pois o número de cadeiras corresponde a ele. Na hipótes da soma das cadeiras obtidas pelos partidos ser diferente do total de cadeiras disponíveis, as cadeiras que sobrarem serão divididas em conformidade com o sistema de médias, ou seja por distribuição das sobras, conforme o disposto no art. 109 do Código Eleitoral. Art. 109 CE... I dividir-se-á o número de votos válidos atribuídos a cada partido pelo número de lugares por ele obtido, mais um, cabendo ao partido que apresentar a maior média um dos lugares a preencher; II repetir-se-á a operação para a distribuição de cada um dos lugares. 1º O preenchimento dos lugares com que cada partido for contemplado far-se-á 5
segundo a ordem de votação recebida pelos seus candidatos. 2º Só poderão concorrer à distribuição dos lugares os partidos e coligações que tiverem obtido quociente eleitoral. Em verdade trata-se de um calculo bastante trabalhoso ainda que não especialmente difícil, tomamos a liberdade de aproveitamos um Calculo de Quociente Eleitoral obtido no site do TRE/SP 1, a título exemplificativo. No exemplo referido criou-se uma situação hipotética onde ocorrerá a divisão de 17 cadeiras de vereadores em um município onde 50.037 cidadãos votaram. Vamos elencar todas as operações necessárias, passo a passo, de forma a podermos compreender perfeitamente o racíocinio. 1ª Operação: Tem por objetivo determinar o número de votos válidos. Assim, do total de comparecimento, ou seja, dos eleitores votantes, no caso em questão 50.037 votos, retiramos os votos nulos e os votos em branco, conforme disposto no art. 106, único do Código Eleitoral e art. 5º da Lei nº 9504/97. Comparecimento = 50.037 eleitores (votos) Votos em branco= 883 Votos nulos = 2.832 1 Disponível em:http://www.tre-sp.gov.br/eleicoes/2004/quociente.htm 6
50.037 883 2.832 46.322 Portanto, temos um total de 46.322 votos válidos. 2ª Operação: Objetiva determinar o quociente, dividindo-se os votos válidos pelos lugares a preencher, conforme o disposto no artigo 106 do Código Eleitoral. Importante observar que será desprezada a fração que for inferior ou igual a 0,5, ou seja, o chamado arredondamento para menos ou para baixo. No entanto, se a fração for superior a 0,5, haverá o arredondamento para cima ou para mais. Votos válido = 46.322 Número de cadeiras= 17 46.322 17 2.724,8 O resultado da divisão dos votos válidos pelo número de cadeiras apresentou uma fração superior a 0,5, assim teremos um arredondamento para mais. Portanto, o quociente eleitoral 7
obtido será igual a 2.725 votos. Isso significa que são necessários 2.725 votos para eleger um candidato. 3ª Operação: Tem por objetivo determinar os quocientes partidários. Aqui, precisa-se de um pouco mais de atenção, pois trata-se de uma operação um pouco mais complexa. Divide-se a votação obtida por cada partido, ou seja, a soma dos votos nominais dos candidatos com os votos de legenda, pelo quociente eleitoral, conforme o disposto no artigo 107 do Código Eleitoral. Partido A = 15.992 votos Partido B = 12.811 votos Partido C = 7.025 votos Partido D = 6.144 votos Partido E = 2.237 votos Partido F = 2.113 votos A 15.992 2.725 5,8 B 12.811 2.725 4,7 8
C 7.025 2.725 2,5 D 6.144 2.725 2,2 E 2.237 2.725 0,8 F 2.113 2.725 0,7 No resultado da operação matemática efetuada para obtenção do quociente partidário, despreza-se a fração, qualquer que seja ela. Isso significa que não existem arredondamentos para mais ou para menos, valendo apenas o número inteiro. Vamos verificar qual a situação concreta dos partidos do exemplo: 9
Partidos Quociente Partidário Candidatos Eleitos A 5,8 5 5 B 4,7 4 4 C 2,5 2 2 D 2,2 2 2 E 0,8 0 * F 0,7 0 * Total 13 Sabemos que existem 17 vagas sendo disputadas no município, sendo que apenas 13 foram preenchidas através do quociente partidário alcançado pelos partidos. Assim, temos 4 vagas para distribuir, as chamadas sobras. Ao analisarmos a tabela podemos perceber que os partidos E e F não alcançaram o quociente eleitoral. Desta forma, conforme o disposto no 2º do artigo 109 do Código Eleitoral, não concorrem à distribuição das vagas que sobraram. 4ª Operação: Objetiva a distribuição das sobras dos lugares não preenchidos pelo quociente partidário. Para isso, conforme o disposto no inciso I do artigo 109 do Código Eleitoral divide-se a votação de cada partido pelo número de lugares obtidos por ele mais 1. O partido que obter a maior média será contemplado pela 1ª sobra. 10
Partidos Votação Lugares +1 Médias A 15.992 6 (5+1) 2.665,3 B 12.811 5 (4+1) 2.562,2 C 7.025 3 (2+1) 2.341,6 D 6.144 3 (2+1) 2.048,0 A maior média foi obtida pelo partido A, que fica com a 1ª sobra. 5ª Operação: Objetiva a distribuição da 2ª sobra. Em verdade repete-se a divisão do número de votos pelo número de vagas obtidas pelo quociente partidário, só que agora o partido A, que já foi beneficiado pela 1ª sobra, conta com seis vagas, aumentando seu divisor para 7 (6+1), conforme o disposto no inciso II do Código Eleitoral. Partidos Votação Lugares +1 Médias A 15.992 7 (6+1) 2.284,5 B 12.811 5 (4+1) 2.562,2 C 7.025 3 (2+1) 2.341,6 D 6.144 3 (2+1) 2.048,0 11
Desta feita, foi o partido B que obteve a maior média, fazendo juz à 2ª sobra. 6ª Operação: Objetiva a distribuição da 3ª sobra. Repete-se o procedimento de divisão, sendo que agora o partido B, conta com 5 vagas, sendo, portanto, seu divisor aumentado para 6 (5+1), de acordo com o inciso II do Código Eleitoral. Partidos Votação Lugares +1 Médias A 15.992 7 (6+1) 2.284,5 B 12.811 6 (5+1) 2.135,1 C 7.025 3 (2+1) 2.341,6 D 6.144 3 (2+1) 2.048,0 O partido C obteve a maior média, portanto foi beneficiado com a 3ª sobra. 7ª Operação: Visa distribuição da 4ª e última sobra. O partido C que foi beneficiado pela obtenção da 3ª sobra, e portanto conta com 3 vagas, terá seu divisor aumentado para 4 (3+1), conforme o inciso II do Código Eleitoral Partidos Votação Lugares +1 Médias A 15.992 7 (6+1) 2.284,5 B 12.811 6 (5+1) 2.135,1 12
C 7.025 4 (3+1) 1.756,2 D 6.144 3 (2+1) 2.048,0 Em virtude da média mais alta novamente o partido A foi beneficiado ficando com a 4ª e derradeira sobra. Se existissem mais sobras a serem distribuidas, os cálculos prosseguiriam até que todas as vagas fossem ocupadas. Através do gráfico infra colocado podemos verificar o resultado final da nossa eleição fictícia. Partidos Número de Cadeiras Obtidas Pelo quociente partidário Pelas Sobras Total A 5 2 7 B 4 1 5 C 2 1 3 D 2 0 0 E 0 0 0 Total 13 4 17 Agora que já conhecemos o procedimento, é colocar o conhecimento em atividade. 13