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Uma Biblioteca de Sensações e Emoções Patrícia Cristóvão

Em Maio de 2006, Maria era a única menina a morar numa pequena aldeia do concelho de Proença-a-Nova. Com 8 anos, era uma menina muito inteligente e gostava muito de ler e ouvir histórias. As aulas estavam quase a terminar e a Maria sentia-se triste. A mãe ao vê-la assim perguntou-lhe: Maria, o que se passa contigo? Tenho notado que andas triste. Conta-me o que foi. Estou triste porque as aulas estão a terminar E estás triste por isso? Interrompeu-a a mãe. Não exatamente. O problema é que nós moramos um bocadinho longe da biblioteca e não posso lá ir sempre que me apetecer, durante as férias de verão. Então a mãe, percebendo o que Maria queria dizer, tentou dar-lhe algum ânimo: Não te preocupes, quando quiseres um livro, pedimos a alguém que o traga da biblioteca. Nessa noite, quando já estava deitada a Maria pensou como seria bom ter uma biblioteca, ali pertinho de casa, para poder lá ir sempre que lhe apetecesse procurar um livro novo para ler. Entretanto adormeceu e sonhou que num dia, durante as férias de verão, todos os habitantes da sua aldeia, se reuniriam no largo à espera da biblioteca itinerante que sabiam que iria passar por ali. Uns leriam os jornais para saber das últimas notícias do país e do mundo e outros descobririam revistas sobre diversos temas. A Maria, o que queria mesmo era uma história fantástica para ler. E havia ainda as pessoas mais idosas que pediam que alguém lesse para elas. Quando chegou a hora da biblioteca itinerante ir embora a Maria pensou: Quem me dera que um dia volte. Na manhã seguinte quando acordou, a menina tinha um ar mais feliz do que no dia anterior. A mãe nem teve tempo de lhe perguntar nada, pois ela estava tão contente com o sonho que tinha tido que começou logo a contar: Mãe, nem imaginas o sonho que tive esta noite! Não faço a mínima ideia, mas para estares tão contente, deve ter sido uma coisa muito boa. Foi maravilhoso! Sonhei que num dia das minhas férias de verão passou aqui pela aldeia, uma biblioteca itinerante e que as pessoas iam lá escolher o que queriam ler: uns liam o jornal, outros liam revistas, e eu escolhi um livro com uma história muito bonita. Mas foi só um sonho. Disse-lhe a mãe. Eu sei, mas tenho esperança que um dia se torne realidade. 1

Mal a Maria sabia que o seu sonho ia mesmo tornar-se realidade e que, uma biblioteca itinerante, iria permitir que as gentes de todo o concelho tivessem acesso a livros, jornais e revistas entre outros serviços, ali mesmo ao virar da esquina. E foi isso mesmo que aconteceu. No dia 26 de Junho, o projeto do Município em conjunto co a Santa casa da Misericórdia de Sobreira Formosa: a BIBLIOMÓVEL, deu os primeiros passos. A partir desse dia, a BIBLIOMÓVEL, com o Nuno, o bibliotecário-ambulante ao volante, fez-se à estrada percorrendo todos os lugares onde haveria sempre alguém à espera de uma nova leitura. E finalmente um dia, a BIBLIOMÓVEL chegou à aldeia da Maria. Estava um dia quente e a menina estava em casa quando ouviu a mãe chamar por ela: Maria, Maria! Vem cá depressa, preciso que vás comigo ali ao largo, tenho uma surpresa para ti. A mãe de Maria já tinha ouvido falar da BIBLIOMÓVEL, mas não lhe quis dizer nada, queria que fosse surpresa. O que é Mãe? A mãe limitou-se ao silêncio e não disse nada até chegarem ao largo. Quando chegaram e a menina viu o que a mãe lhe queria mostrar ficou radiante. Não acredito! Uma biblioteca itinerante como a do meu sonho! Exprimiu ela em voz bem alta. Ao seu encontro veio o bibliotecário-ambulante que a cumprimentou com um sorriso. Olá. Eu sou o Nuno. Sim é verdade, é uma biblioteca itinerante. Queres entrar e ir conhecê-la por dentro? Sim gostava muito de conhecer a biblioteca!!! Ahh, eu sou a Maria. Deram-lhe o nome de BIBLIOMÓVEL disse Nuno à menina anda, vamos conhecêla. E lá foi a menina cheia de curiosidade para saber se a BIBLIOMÓVEL era como a biblioteca itinerante que imaginara no seu sonho umas semanas antes. Quando entrou olhou em redor para ver com muita atenção o que havia dentro daquele espaço. Era bem mais pequena do que a Biblioteca Municipal, que ela já tinha visitado algumas vezes. É mais pequena do que aquelas bibliotecas a que estamos habituados, mas ainda assim tem muitas das coisas que tem uma biblioteca dita normal. Disse-lhe o bibliotecário, que ao ver o ar alegre da menina continuou vou mostra-te o que temos por aqui. E espreitando cada prateleira, a Maria foi ouvindo com muita atenção as explicações que o Nuno lhe ia dando. Era tal e qual como no seu sonho, havia muitos livros (não tantos como na biblioteca que ela visitava) de vários temas e para todas as idades. Havia revistas dos

mais variados temas, muitos jornais para manter as pessoas informadas do que se passa pelo pais e pelo mundo. Havia ainda um computador para quem quisesse explorar o mundo virtual. A Maria estava tão absorvida nos livros que quando deu por si já havia mais gente: uns a ler o jornal, outros a ver revistas e outros ainda à procura de um bom livro, tal como ela. Mas nada a distraia. Pegou no livro que escolheu e começou a ler ali mesmo, encostada à prateleira, sem sequer dar qualquer importância ao facto de estar em pé. Ela estava tão alheada da realidade que nem ouvia as conversas que passavam à sua volta. E quando chegou a hora da partida da BIBLIOMÓVEL, o bibliotecário chegou-se ao pé da menina e vendo-a tão concentrada, tentou não a assustar e falou numa voz baixa: Maria, está na hora de me ir embora. Já? Mas eu estava a gostar tanto desta história. Proferiu ela. Mas tu podes continuar a ler a história. Ai posso?! Sim. Só temos de preencher o formulário da requisição e levas o livro contigo e daqui a duas semanas quando a BIBLIOMÓVEL passar por aqui vens cá devolvê-lo. Mas isso é uma ótima ideia. Obrigada! Depois de requisitar o livro a Maria despediu-se do bibliotecário e saiu para a rua ficando no largo a acenar, até deixar ver a BIBLIOMÓVEL e o bibliotecário-ambulante, ao fundo da rua. E a partir desse dia, e sempre que podia, a menina era uma presença habitual naquele espaço mágico trazido pelo Nuno à sua aldeia. E tal como na aldeia da Maria, era assim todos os dias por todas as aldeias e instituições do concelho. Quando Nuno chegava, já havia sempre alguém à espera dele nem que fosse apenas para dar dois dedos de conversa. Havia sempre alguém à espera das boasnovas. Os anos foram passando e os laços criados entre o bibliotecário e os frequentadores daquele espaço fantástico, foram-se tornando cada vez mais fortes. O Nuno passou a ser o amigo que tinha sempre uma palavra amiga para aqueles que faziam dele mais do que um bibliotecário-ambulante. Quando alguém faltava à chamada, lá ia ele tentar saber o que se passava. Nos lares de idosos e jardins-de-infância esperava-se sempre com muita expetativa para saber qual seria a próxima história a ser lida para os preciosos ouvintes que também gostavam de contar as suas histórias. 3

Em 2014, já a Maria frequentava o ensino secundário. Num dia de férias, numa das habituais passagens da BIBLIOMÓVEL pela sua aldeia, lá foi ela como era habitual sempre que não havia escola. Apesar de ter crescido, continuava a gostar de frequentar a biblioteca que era tal e qual aquela que um dia tinha sonhado. Olá Nuno. Disse ela alegremente como era seu costume. Olá Maria. Então como estão as coisas por aqui? Por aqui vai tudo andando. As aulas e os exames já acabaram, por isso agora já tenho tempo para as minhas visitas à BIBLIOMÓVEL. É bom saber que as pessoas não se cansam de nos receber. Informou o bibliotecário Eu gosto de vir aqui porque, mais do que ler um livro, há sempre coisas novas que posso aprender com os mais velhos. É verdade. Também eu tenho aprendido muito com esta gente. Mais do que as histórias que lemos nos livros, as histórias que ouvimos contar aos mais experientes são grandes ensinamentos que devemos levar para a vida. Imagino que seja essa uma das razões pelas quais o Nuno continua a gostar de lidar diariamente com estas pessoas. Claro que sim. É bom sentir o afeto de todos. Muitos deles vivem sós e nos dias que sabem que venho estão sempre à espera de uma palavra amiga que os conforte, e eu fico contente por poder ser esse mensageiro. Imagino que deva ser gratificante. É muito mesmo. Disse-lhe o bibliotecário visivelmente feliz. Agora a Maria já não passava aquela hora só a ler para si, lia também para os mais velhos que gostavam de a ouvir ler histórias ou poemas, pois ela tinha um jeitinho especial para interpretar cada palavra. Bem, qualquer dia vens tu substituir-me quando eu não puder vir. Tens muito jeito para lidar com os livros e as palavras. Informava o bibliotecário em jeito de brincadeira. Quem sabe, um dia... Respondeu ela a sorrir. E lá foi ela aproveitar o tempo que ainda restava até à hora da partida, mas em vez de ir ler para os outros, ficou como da primeira vez que ali estivera, em pé, encostada à prateleira, mas desta vez pegou num livro ao acaso e olhou em redor e pensou que aquilo era muito mais do que uma biblioteca itinerante. Era um lugar de afetos onde se trocavam experiências de vida, onde havia sempre um afeto e uma palavra amiga, onde cada um era um amigo, não de sempre, mas para sempre. Ali ficou absorvida pelos pensamentos até que viu o

Nuno a desligar o computador, e percebeu que estava na hora de regressar a casa. Quando ia a sair despediu-se como habitualmente, mas parou à porta e olhou para trás. Então? Perguntou o bibliotecário. Posso dar-lhe um abraço? Pediu ela. Ele acenou com a cabeça afirmativamente. E deram um abraço. Não foi longo mas foi o tempo suficiente para a troca de afetos entre dois amigos. Obrigada por trazer até nós muito mais do que conhecimento e informação. Obrigada por trazer afetos. Sim. Porque mais do que uma biblioteca, a BIBLIOMÓVEL é um espaço de afetos, de aprendizagem e com muitas memórias. Disse ela, sentindo profundamente cada palavra e é isso que me faz voltar sempre. É ainda melhor do que aquela biblioteca itinerante, com a qual sonhei na minha infância. Obrigado, eu, pelo reconhecimento. Porque mais do que ser uma obrigação profissional, é algo que faço de coração. Respondeu-lhe o bibliotecário visivelmente emocionado. E como sempre lá ficou ela a acenar sorridente até perder a BIBLIOMÓVEL de vista. E depois lá foi ela contente por saber que daí a duas semanas podia voltar àquele mesmo local, para ler, conversar, ou simplesmente estar ali, onde sabia ser bem-vinda. O bibliotecário por sua vez sentia que tinha sido mais um dia de dever cumprido e que no dia seguinte haveria mais um percurso e mais alguém à espera de, mais do que livros, jornais ou revistas, um simples bom dia, como tem passado?. Ele sabia que seria sempre assim enquanto houvesse alguém à espera para aprender ou para ensinar algo mais, e fazer sonhar. 5