O PASSADO MINEIRO E O PRESENTE, NA REGIÃO DE REBORDELO, ERVEDOSA E MURÇÓS 27 de Agosto de 2008 PERCURSO: Vila Real Rebordelo Ervedosa Murçós Vila Real ORGANIZAÇÃO: Elisa Preto, Paulo Favas & Nuno Figueiredo
O PASSADO MINEIRO E O PRESENTE, NA REGIÃO DE REBORDELO, ERVEDOSA E MURÇÓS ACESSOS, ENQUADRAMENTO GEOGRÁFICO E GEOMORFOLÓGICO A área é acessível pela estrada nacional nº 103 (Chaves Bragança) e pelas estradas nacionais nº 315 (Rebordelo Mirandela) e nº 206 (Valpaços Bragança), sendo necessário, em qualquer caso, seguir as estradas municipais que ligam Rebordelo a Ervedosa; Torre de D. Chama Mirandela e Vilarinho de Agrochão a Murçós. A sul da região encontra-se o itinerário principal nº 4 (IP4), que liga Vila Real a Bragança. Localização geográfica das minas de Ervedosa, Agrochão e Murçós (Google Earth, 2008). A mina de Ervedosa, também conhecida por mina do Tuela, localiza-se na freguesia de Ervedosa e, tal como as minas do Monte de Agrochão, situa-se no concelho de Vinhais; enquanto a mina de Murçós se localiza no concelho de Macedo de Cavaleiros, todas pertencem ao distrito de Bragança e inserem-se na folha nº 49 (Torre de Dona Chama) da Carta Militar de Portugal, à escala 1:25.000, editada pelo Instituto Geográfico do Exército (IGE). 3
De acordo com a Carta dos Solos, do Uso Actual e da Aptidão da Terra do Nordeste de Portugal (AGROCONSULTORES & COBA, 1991), a área das minas de Ervedosa Murçós situa-se na transição da região natural de Bragança para a região natural do Tua. Esta zona é, assim, caracterizada pelo profundo encaixe da rede hidrográfica do Tuela Rabaçal, que provoca uma acentuada movimentação da superfície, com o característico relevo de formas onduladas e pequenas plataformas. A componente geomorfológica dominante nesta área é definida pelos vales dos rios Rabaçal e Tuela. Junto às minas de Ervedosa, o rio Tuela descreve um trajecto com uma orientação próxima de N30ºE e atravessa essencialmente, formações xistentas, o que determina um perfil mais suave e evoluído, bem como o seu encaixe em vertentes abruptas ao interceptar rochas graníticas. O rio Tuela é, nesta fase do seu percurso, fortemente meandrizante (curvas acentuadas) e com traçado ortogonal, como consequência do controle estrutural, que origina troços rectilíneos com direcções próximas das da fracturação dominante na zona (NNE-SSW e N70W) e do controlo litológico, pois inicia a inflexão quando encontra as cristas quartzíticas. O controle estrutural determina igualmente a forte assimetria das vertentes do vale do rio. ENQUADRAMENTO GEOLÓGICO A área mineira a visitar localiza-se na Zona da Galiza Trás-os-Montes, fazendo parte da Província metalogénica tungsténio-estanífera do NW da Península Ibérica, na faixa mineira Laza-Rebordelo-Agrochão. Dois tipos de mineralização bem distintos estão presentes: 1) mina de Ervedosa (Sn) jazigo estanífero, com pouca volframite associado a um maciço de leucogranito com moscovite; e 2) minas de Monte Agrochão e Murçós (W) - jazigos com scheelite e rara cassiterite associadas aos granito e granodiorito biotíticos de Rebordelo- Agrochão. MINA DE ERVEDOSA No Arquivo da Câmara Municipal de Vinhais as primeiras referências ao jazigo estanífero de Ervedosa remontam a 1857, altura em que é registada a sua descoberta (NOVAIS, 2006). Após uma longa série de novos registos, em 1908 é demarcada e atribuída a primeira concessão (Mina do Alto do Pereiro), segundo informação constante nos arquivos da Direcção Regional da 4
Economia do Norte, à empresa belga Société des Mines d Étain d Ervedosa. A mina foi explorada para estanho e arsénio, desde logo com alguns trabalhos subterrâneos, essencialmente preparatórios e de pesquisa e prospecção, tendo também sido construída uma lavaria, na margem direita do rio Tuela. Porém, em 1917, aquela empresa abandona os trabalhos mineiros, que logo foram retomados, em 1920, mas agora a cargo da empresa inglesa Ervedosa Tin Mines, L.T.D.. Sob esta administração é construída uma nova lavaria, na margem esquerda do rio Tuela, como complemento da já existente, no entanto, em 1927, a empresa encerrou a exploração (PATRÍCIO, 2000). A empresa é adquirida por alguns dos seus antigos funcionários que reiniciam em 1928 a exploração (PATRÍCIO, 2000) e a mantêm em lavra mais ou menos regular. Em 1938 as concessões passam a constituir o designado Couto Mineiro de Ervedosa, sendo já um dos maiores produtores de concentrados de cassiterite (CARNEIRO, 1959). Entre 1939 e 1965, a mina trabalhou em lavra contínua tendo sido retiradas da mina de Ervedosa, também chamada mina do Tuela, cerca de 6000 toneladas de estanho e idêntica quantidade de óxido de arsénio (As 2 O 3 ). De acordo com os relatórios existentes, verificou-se um empobrecimento da mineralização desde 1959. Entre 1958 e 1969 a exploração fez-se dominantemente a céu aberto e, simultaneamente, nos aluviões do rio Tuela, onde os teores de cassiterite podiam atingir cerca de 4 kg por tonelada (CASMINEX, 1982). As minas encerraram a actividade em 1969. Em 2007 reiniciaram-se trabalhos de prospecção e pesquisa para estanho, pela Empresa Mining Technology Investiments (MTI). A exploração do jazigo processou-se ao longo de um filão principal ( Balbiani ), de grande espessura, com direcção ~ N40ºW e inclinação de 70-80ºNE a sub-vertical, mas pouco mineralizado. Porém, dele parte uma rede de filões e filonetes com forma irregular e espessura decimétrica (jazigo de tipo «stockwork»), muito mineralizados, que constituíram o principal suporte da exploração mineira. PROCESSAMENTO DE MINÉRIOS EM ERVEDOSA O material dos desmontes subterrâneos era transportado através de galerias inclinadas e poços até à galeria principal, sendo depois transportado 5
em vagonetas para o exterior e encaminhado para um silo de graúdos na lavaria nova, na margem esquerda do rio Tuela. Uma vez na lavaria, o minério em bruto era submetido a trituração, num moinho de bolas com capacidade para 360 toneladas/dia, fragmentando todo o produto a cerca de 3 mm. Este lote de finos seguia para uma secção de concentração em mesas. A secção de mesas oscilantes recebia o produto fragmentado, concentrando-o em dois estágios. Utilizavam-se dez mesas de concentração primária, cujos mistos de cassiterite e arsenopirite eram granulados a 2 mm e alimentavam outras quatro mesas, onde se obtinham os concentrados hidrogravíticos a enviar ao apuramento. Os rejeitados eram diluídos no rio Tuela. O apuramento era feito na lavaria velha, na margem direita do Rio Tuela, pelo que os concentrados eram transportados por cabo aéreo. Este tratamento final era efectuado por várias técnicas, em sequência: ustulação, lavagem e flutuação em mesas e flutuação por espumas, separação electromagnética de alta intensidade de campo e, sempre que os concentrados continham fósforo, lixiviação com ácido clorídrico. Numa primeira fase, os concentrados eram colocados num forno de ustulação, construído em granito, que funcionava a lenha. Devido à passagem de uma corrente de ar, num ambiente muito aquecido, ocorria a reacção entre o enxofre e o arsénio, da arsenopirite, e o oxigénio do ar, que conduzia à produção de formas oxidadas (SO 2, As 2 O 3 e Fe 2 O 3 ). Os gases da combustão eram encaminhados por uma estrutura em forma de espiral, até à chaminé, onde ocorria a precipitação do óxido de arsénio, enquanto que o dióxido de enxofre era libertado para a atmosfera. No final do processo, o óxido de arsénio era removido da espiral e acondicionado em barricas. Os concentrados de cassiterite, já sem o arsénio, eram lavados em mesas, seguindo depois, os calibres mais grosseiros, para a flutuação em mesas e, os mais finos, para a flutuação por espumas, de forma a remover os sulfuretos. Após secagem, os concentrados eram calibrados (divisão em lotes) e enviados à secção de separação electromagnética para remoção de óxidos de ferro e apuramento dos concentrados de cassiterite. 6
MINAS DE MONTE AGROCHÃO E MURÇÓS Ocorrências de estanho e/ou volfrâmio - Ligadas a granitóides biotíticos, sob a forma de redes densas de filões quartzosos mineralizados em scheelite e com pouca cassiterite e instalados em rochas silúricas metamorfizadas próximo do tecto de pequenas apófises de granodiorito e granito. O facto dos sistemas filonianos quartzosos serem mineralizados em scheelite e com pouca cassiterite, instalados em cisalhamentos conjugados, que afectaram os granitóides e a existência das redes de filões de aplito ou pegmatito ricos em turmalina e granada sugerem a existência de cúpula subjacente do tipo endogranítico, com metassomatismo de contacto. A mina de Monte de Agrochão situada na encosta sul do monte com o mesmo nome, aonde se localiza o santuário do senhor da Piedade, está em situação de abandono. As suas escombreiras são constituídas por material grosseiro. A mina de Murçós composta por quatro cortas foi alvo de intervenção recente por parte da EDM sofrendo trabalhos de recuperação ambiental que consistiram em: protecção à boca do poço de drenagem; limpeza/saneamento de lamas e escombros dispersos e regularização dos taludes com degraus de segurança e inclinação adequada; vedação de protecção e manutenção dos respectivos lagos e recriação de condições de desenvolvimento de plantas macrófitas (Typha e Juncus) (EDM, 2008). BIBLIOGRAFIA AGROCONSULTORES & COBA (1991). Carta dos solos, carta do uso actual da terra e carta da aptidão da terra do Nordeste de Portugal. Memórias e anexos. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. CARNEIRO, F.S. (1959). A riqueza da indústria extractiva metropolitana. Estudos, Notas e Trabalhos Serviço de Fomento Mineiro, 13(3-4): 152 p. CASMINEX (1982). Relatório técnico, não publicado, 9 pp. Casminex prospecções mineiras, Lda. EDM (2008). Disponível em http://www.edm.pt/html/proj_murcos.htm. Acedido em 28/07/2008. FAVAS, P.J.C. (2008). Biogeoquímica em áreas mineiras estano-volframíticas. Tese de doutoramento. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Vila Real. 805 p. GOMES, M. (1996). Mineralogia, petrologia e geoquímica das rochas granitóides da área de Rebordelo- Bouça-Torre de D. Chama-Agrochão e as mineralizações associadas. Tese de doutoramento. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Vila Real. 323 p. INETI (2008). Disponível em http://e-geo.ineti.pt/bds/ocorrencias/. Acedido em 28/07/2008. NOVAIS, H.J.G.S.Q. (2006). Avaliação da qualidade dos solos e da água subterrânea na envolvente das Minas de Ervedosa (NE de Portugal). Produção de recursos didácticos. Tese de mestrado. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Vila Real. 211 p. PATRÍCIO, C. (2000). Entre o campo e a fábrica. Vinhais, Terra e Gentes (pp. 37-44). Câmara Municipal de Vinhais. Vinhais. 7
Minas de Ervedosa: (a) vista panorâmica, com a corta ao fundo e a lavaria nova à direita; (b) e (c) aspectos da corta; (d) boca de mina; (e) ruínas da lavaria nova; (f) aspecto das escombreiras; (g) vista panorâmica, com o bairro mineiro à esquerda, a lavaria velha em baixo e a chaminé do forno de ustulação ao fundo; (h) e (i) aspectos do bairro mineiro. 8
Minas de Murçós (Fotos da situação inicial): (a) Vista geral da área de anexos industriais, vendo-se as ruínas da antiga lavaria e o aspecto caótico de escombreiras dispersas; (b) Poço de drenagem; (c) Vista de detalhe da antiga lavaria industrial em completa ruína e desmantelamento; (d) Edifícios industriais diversos em bom estado geral de conservação; (e) Barragem de "finos" da lavaria. Observam-se os dois cachimbos de drenagem e a erosão cónica e ravinamento intenso; (f) Aspecto de uma das cortas de exploração. 9
Minas de Murçós (Fotos da obra): (a) Demolição de edifícios em ruínas; (b) Movimentação do material existente na escombreira de finos; (c) Plantação da vegetação aquática; (d) Construção de lintel na base do portão de acesso à corta 1; (e) Vedação de segurança anti-intrusão e vedação complementar para viaturas na corta 4; (f) Vedação anti-intrusão no perímetro da corta 1. 10
Minas de Murçós (Fotos da situação actual): (a) (b) (c) e (d) Aspectos das várias cortas de exploração; (e) Vista da antiga lavaria industrial; (f) aspecto das escombreiras estruturadas em patamares e do poço de drenagem. 11