MULHERES LIVRES E LIBERTAS NO GOVERNO DE ESCRAVOS ENTRE 1850-1870. Dayana Vieira Silva 1 ; Dra. Adriana Dantas Reis 2 ; Iralina Alves do Nascimento 3 ; 1. Bolsista PIBIC/FAPESB, Graduanda em Licenciatura Plena em História, Universidade Estadual de Feira de Santana e-mail: Day.mandala@hotmail.com 2. Orientadora, Departamento de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Estadual de Feira de Santana, e-mail: adrihis@hotmail.com 3. Bolsista PIBIC/FAPESB, Graduanda em Licenciatura Plena em História, Universidade Estadual de Feira de Santana e-mail: bandninha2@yahoo.com.br Palavras Chave: gênero, poder, escravidão. MULHERES LIVRES E LIBERTAS NO GOVERNO DE ESCRAVOS ENTRE 1850-1870. INTRODUÇÃO A proposta deste trabalho que tem como tema Mulheres livres e libertas no governo de escravos entre 1850-1870 visa compreender as práticas de gestão por mulheres, na cidade de Salvador e no Recôncavo baiano. Ao apresentar como principal elemento de pesquisa, o poder das mulheres brancas, livres e libertas na administração de seus bens e escravos, visa salientar a condição da mulher, mas não sob o signo de fragilidade e submissão. E através desse estudo, observar que mulheres livres e libertas do século XIX possuíam um pecúlio significativo, em certa medida proveniente do seu trabalho. Assim, é importante ressaltar a atuação dessas mulheres na sociedade, como sujeitos que reescreveram novos rumos para suas histórias. MATERIAL E MÉTODO Esta pesquisa baseia-se na utilização da historiografia especializada e da documentação primária, especialmente com a análise de testamentos e inventários. Inicialmente, houve o reconhecimento e adaptação com a leitura dos documentos, que por sua vez, foram essenciais para o andamento da pesquisa. Segundo Felexor os inventários e testamentos são uma importante fonte de pesquisa, ela aponta que:
Os Inventários e Testamentos são documentos da maior valia como fontes históricas. Aparentemente simples documentos de caráter jurídico-civil e eclesiástico, quando bem analisados, mostram, ou deixam transparecer, informações de ordem social, econômica, cultural, educacional, religiosa, política e administrativa. (FLEXOR, 2005, p.1) A pesquisa e o contato direto com as fontes são primordiais para o levantamento da documentação primária e que só após familiarização com leitura e a escrita desses documentos é possível notar seus diferentes significados para a sociedade do período oitocentista. Muitas vezes, esses documentos revelam muito mais do que uma formalidade jurídica, ao passo que descortinam novas histórias. Dessa maneira, esse reconhecimento documental tornou-se imprescindível para um melhor norteamento da pesquisa, sendo este um trabalho indispensável e continuo para o pesquisador. A partir da análise de testamentos e inventários disponíveis no Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB), foi possível perceber que mulheres livres e libertas declararam bens diversos. Inicialmente, formam analisados os inventários do Barão de Cajaíba 1 e o de sua filha Dona Maria Augusta 23, o de Custódia Machado de Barros 4 e o testamento de Juvencia de Araujo 5. Segundo Adriana Reis (2010), em Salvador e no Recôncavo do século XVIII e XIX várias mulheres esteve à frente na administração de escravos ou cuidando de negócios na cidade de Salvador. (REIS, 2010, p.45). DISCUSSÃO A Bahia da segunda metade do século XIX passou por transformações econômicas e sociais, essas mudanças puderam ser notadas principalmente, no sistema escravista brasileiro e na Bahia, sobretudo, em Salvador e no Recôncavo. Segundo Chaves (2001), a Bahia da segunda metade do século XIX, a sua economia passou uma de suas piores crises. Essa crise teve estreita ligação com o atraso de novas técnicas de plantio da cana de açúcar, a concorrência com o açúcar das Antilhas, pela descoberta na 1 APEB. Inventário do barão da Cajaíba (Alexandre Gomes Ferrão Argolo), maço 01/96/139/02-1870, 180 p. (incompleto). 2 APEB. Inventário de Maria Augusta Argolo de Saldanha Gama, maço 05/2212/2712/03-1873,42p. 3 Agradeço a professora Adriana Dantas Reis, pelas indicações dos inventários do Barão de Cajaíba e de D. Maria Augusta. 4 APEB. Inventário de Custódia Machado de Barros, maço 05/2022/2493/07-1834 a 1872, 289p. 5 APEB. Testamento de Maria Juvencia de Araújo, maço 5/2147/2616/3 1884, 14p.
Europa do açúcar extraído da beterraba e pela diminuição da mão de obra escrava com a interrupção do tráfico negreiro e o deslocamento de uma grande quantidade de escravos para a região sul cafeeira, ao se destacar com uma economia emergente. Isso resultou na diminuição do preço do açúcar, arruinando muitos donos de engenhos baianos. (CHAVES, 2001, p 30). Dentre essas modificações, com a extinção do tráfico negreiro, através da Lei Eusébio de Queirós em 1850, houve uma gradativa diminuição da mão de obra cativa nas lavouras baianas. Mas, a utilização da força de trabalho escravo na indústria açucareira se manteve forte e foi utilizada pelos senhores de engenho até às vésperas da abolição. Além disso, o fim do tráfico negreiro foi apenas a primeira de uma série de medidas que levaram à completa abolição da escravidão no Brasil, em 1888. (BARICKMAN, 2003, p.85). Em 1971, com a Lei do Ventre Livre, já se observava a falência do sistema escravista, já que a mesma é resultado de inúmeras pressões sociais, decorrentes da luta de negros pela liberdade. Contribuindo com tal análise Chalhoub ressalta que [...] a Lei do Ventre Livre representou o reconhecimento legal de uma série de direitos que os escravos vinham adquirindo pelo costume, e a aceitação de alguns dos objetivos das lutas dos negros. (CHALHOUB, 1990, p.27). Segundo Mattoso (1992), a composição da sociedade baiana oitocentista se apresentou de maneira heterogênea. Além da diferenciação em grupos sociais, dois outros fatores exerciam papel importante, no que diz respeito ao estatuto jurídico (livres, alforriados, escravos) e a cor da pele (nega, mulata, branca) de seus integrantes. Numa sociedade desse tipo, distintos critérios determinavam as clivagens. (MATTOSO, 1992, p.389). Em meio a tantas mudanças no cenário brasileiro, pretendendo vislumbrar o movimento de mulheres livres e libertas no comando de seus bens e evidenciar a atuação dessas mulheres, que por sua vez, redefinem seus espaços e modificam as relações sociais impostas pela dominação masculina. A autora Adriana Dantas Reis, enfatiza as relações sociais no período escravista, ao apontar que: [...] Essa sociedade foi fortemente marcada por relações de poder interpessoais (REIS, 2010, p.41).
As mudanças exercidas por essas mulheres livres e libertas puderam ser observadas principalmente, na maneira como elas conduziram as suas histórias nos diferentes grupos sociais, tanto no século XVIII, como no século XIX. Desse modo, a autora Maria Beatriz Nizza da Silva se debruçou no estudo sobre a mulher branca no fim do período colonial, na chefia de bens diversos, o que contraria com a ideia de alguns viajantes que estiveram no Brasil no século XIX e que relataram sobre a ociosidade dessas mulheres, como cita a autora: Os viajantes estrangeiros que percorreram o Brasil na segunda década do séc. XIX contribuíram para divulgar a ideia da ociosidade da mulher branca. Victor Athanase Gendrin, que esteve no Rio de Janeiro em 1817, escreveu serem as mulheres de uma preguiça inimaginável, passando o tempo acocoradas em esteiras de onde se não levantavam para nada; Adèle Toussaint- Samson insistia que a mulher branca se envergonharia de ser vista em qualquer ocupação e que por isso as tarefas domésticas eram todas realizadas por escravos.(silva, 1995,p.76). Contudo, não foram somente as mulheres brancas livres que conduziram seus bens. As mulheres livres de cor e libertas também se destacaram no que diz respeito ao acúmulo de pecúlio e no governo de escravos e de outros bens. Nas últimas décadas observa-se que vários historiadores vêm debruçando no estudo dessa temática. Adriana Reis; alude que as mulheres livres e libertas foram capazes de atuar e gerir seus bens, ao afirmar que Na Bahia dos séculos XVIII e XIX, muitas mulheres estiveram no governo de escravos, em grandes plantações ou administrando negócios na cidade de Salvador. (REIS, 2010, p.45). CONSIDERAÇÕES FINAIS A pesquisa com as fontes primárias é de grande valia para o oficio do pesquisador, a análise de testamento e inventários acontece a partir do reconhecimento de sua estrutura, conteúdo e também de adaptação da caligrafia presentes na documentação, que por desgaste oriundo do tempo apresentam uma difícil leitura, pois cada documento tem suas particularidades e nelas é acrescido um nível de análise, muitas vezes árduo, mas no final muito gratificante. A análise da historiografia especializada assim como as fontes primárias, possibilitou uma melhor compreensão do meu objeto de estudo, sendo essa indispensável para pesquisa.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DOCUMENTAÇÃO: Arquivo Público do Estado da Bahia APEB Seção judiciária. Inventário do barão da Cajaíba (Alexandre Gomes Ferrão Argolo), maço 01/96/139/02-1870, 180 p. (incompleto). Inventário de Maria Augusta Argolo de Saldanha Gama, maço 05/2212/2712/03-1873,42p. Inventário de Custódia Machado de Barros, maço 05/2022/2493/07-1834 a 1872, 289p. Testamento de Maria Juvencia de Araújo, maço 5/2147/2616/3 1884, 14 p. REFERÊNCIAS: CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na corte. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1990. 287p. CHAVES, Cleide de Lima. De um porto a outro: A Bahia e o Prata (1850-1889). Salvador : EDUFBA,2001. BARICKMAN, B. J. Um contraponto baiano: açúcar, fumo, mandioca e escravidão no Recôncavo, 1780-1860. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 445p. 2003. FLEXOR, Maria Helena Ochi, Testamentos e inventários como fonte de pesquisa. jan. 2005. GIACOMINI, Sônia Maria. Mulher e escrava: uma introdução ao estudo da mulher negra no Brasil. Rio de Janeiro: Vozes, 1988. MATTOSO, Kátia M. de Queiros. Bahia, século XIX: uma província no Império. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1992. 747 p. SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Mulheres brancas no fim do período colonial. Cadernos Pagu. Revista do Núcleo de Estudos de Gênero. São Paulo: UNICAMP. Vol. 4, 1995, p. 75-96.
REIS, Adriana Dantas. As mulheres negras por cima. O caso de Luzia jeje. Escravidão, família mobilidade social, Bahia, c.1780-1830. Tese de doutorado, UFF, 2010. REIS, Adriana Dantas. As mulheres negras por cima. O caso de Luzia jeje. Escravidão, família mobilidade social, Bahia, c.1780-1830. Tese de doutorado, UFF, 2010.. Mulheres afro-ascendentes na Bahia: gênero, cor e mobilidade social (1780-1830). In: XAVIER, Giovana (org). Mulheres negras no Brasil escravista e do pós-emancipação. São Paulo: Selo Negro, 2012. cap. 2, p. 24-34.