Investigando a sala de aula de línguas estrangeiras: estudos recentes em lingüística aplicada e a teoria sócio-semiótica de Halliday

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Transcrição:

Vol. 3, n. 3, p. 209-213, set/dez 2005 2005 by Unisinos heberle@cce.ufsc.br Investigando a sala de aula de línguas estrangeiras: estudos recentes em lingüística aplicada e a teoria sócio-semiótica de Halliday Introdução Neste artigo apresento considerações sobre interação na sala de aula, a partir do texto da Profa Maria José Coracini, conferencista plenária do Congresso Internacional Linguagem e Interação, realizado na Unisinos, São Leopoldo, RS, em agosto de 2005. Embora haja muitas confluências nos estudos sobre a interação nas salas de aula, há também divergências em relação à pluralidade temática, perspectivas teóricas e tipo de pesquisas desenvolvidas por profissionais de ensino de línguas estrangeiras no Brasil. Minhas reflexões são oriundas de estudos baseados na perspectiva de base angloamericana e australiana da lingüística aplicada e análise do discurso. As questões apresentadas pela Profa. Coracini são sem dúvida relevantes para nós profissionais de linguagem. Considero a interação em sala de aula um espaço muito importante para o desenvolvimento de pesquisas na área de Lingüística Aplicada e, assim como a Profa. Maria José Coracini, também tenho grande preocupação com a educação e as práticas pedagógicas. Igualmente, conforme proposto por Coracini, com base em Bakhtin, entendo que as relações sociais se dão inevitavelmente na interação e pela linguagem e a concepção de língua não é vista como sistema externo ao sujeito, o que é válido também para estudiosos de diferentes abordagens da análise do discurso ou sociolingüística. Na sala de aula, os participantes/interlocutores (a professora e seus alunos) co-constroem a experiência da aula, e formam o que Lave e Wenger (1991) denominam uma comunidade de prática, ou seja, um grupo de pessoas que vivenciam interesses, problemas e/ou objetivos comuns (in Johnson e Freeman, 2001). A interação na sala de aula de língua, em relação a identidades sociais de raça, gênero e sexualidade, é investigada por Moita Lopes (2002, p. 37), a partir de estudos em análise crítica do discurso e teorias socioconstrucionistas. Moita Lopes afirma: as identidades sociais não estão nos indivíduos, mas emergem na interação entre os indivíduos agindo em práticas discursivas particulares nas quais estão posicionados.... Nossas identidades caracterizam-se por serem fragmentadas, contraditórias, heterogêneas, multifacetadas, dinâmicas e ambíguas (Moita Lopes, 2002). Questões referentes a múltiplas identidades de aprendizes de línguas também são investigadas, por exemplo, por Norton e Toohey (2002). Cabe lembrar, conforme Lemke (1989), que as escolas são instituições sociais e a maior parte das interações sociais da escola acontece na sala de aula. Todavia, muitas vezes os professores e alunos não têm voz e poder para tomar decisões sociais mais significativas sobre as práticas da sala de aula. Em seu texto, a Profa. Coracini também aponta para a questão de relações de poder e o caráter híbrido e confuso das interações, entre a rigidez das estruturas sociais e o imprevisível das subjetividades. Essa bidirecionalidade ou tensão pode também ser destacada nos trabalhos em análise crítica do discurso de Fairclough, pois se enfatiza que: A linguagem é uma forma de prática social, sendo que há sempre uma relação bidirecional entre textos e sociedade, isto é, as formas discursivas e as estruturas sociais se influenciam mutuamente (Meurer, 2005, p. 82) Com base em excertos de transcrições de aulas de língua, Coracini questiona a questão de interação e o ensino de língua estrangeira: é possível falar de ensino de uma língua estrangeira se não há nenhum envolvimento do aluno com a língua, do aluno com o texto, do aluno com o professor, que, afinal, precisa funcionar como um sujeito de suposto saber, capaz de provocar identificações no aluno, de cutucar o seu desejo, o desejo do outro? E também faz referência à responsabilidade social dos professores, os quais devem questionar e rever posições, bem como ouvir, envolver e respeitar as posições dos alunos. Seus dados parecem evidenciar que nas salas de aula observadas não houve de fato envolvimento entre o professor e seus alunos. Também demonstram uma preocupação por parte dos professores com dados lexicais e gramaticais pontuais ou de leitura como decodificação, conforme aponta Coracini. Cabe salientar ainda que questões socioculturais com tarefas motivadoras para os alu- 08_art07_Heberle.pmd 209

nos ou o desenvolvimento de habilidades em língua não parecem ser privilegiadas. No intuito de contribuir para a discussão sobre práticas de sala de aula que se distanciem desses problemas e sejam mais efetivas para o ensino e aprendizagem de línguas, destacarei nas seções que seguem estudos sobre ensino e/ou aprendizagem de línguas, sob as perspectivas da lingüística aplicada e lingüística sistêmico-funcional. Pesquisas recentes sobre ensino e aprendizagem de inglês como língua estrangeira Estudos recentes oriundos da lingüística aplicada (LA) discutem questões socioculturais mais amplas (não meramente questões gramaticais/ formais ou ligadas ao ensino de funções comunicativas) e apontam para a aprendizagem de uma língua como um processo dinâmico, interativo e discursivo (Heberle, [2001] 2003; Heberle e Meurer, 2001; Fortkamp e Tomitch, 2000; Kaplan, 2002). Segundo Duff (2002), pesquisas em LA têm se voltado tanto para questões cognitivas, lingüísticas e/ou afetivas, como também para aspectos socioculturais, históricos, políticos e ideológicos, em estudos que utilizam diferentes métodos de análise quantitativos e qualitativos, em paradigmas de pesquisa que estão se expandindo e incluem uma variedade de abordagens e instrumentos. De acordo com Celani (2000, p. 20), tendo em vista que a linguagem permeia todos os setores de nossa vida social, política, educacional e econômica, uma vez que é construída pelo contexto social e desempenha papel instrumental na construção dos contextos sociais nos quais vivemos, está implícita a importância da LA no equacionamento de problemas de ordem educacional, social, política e até econômica. Para Celani, possíveis áreas de atuação da LA são: ensino/aprendizagem de línguas; distúrbios da comunicação, formação de docentes e práticas pedagógicas. A interação em sala de aula insere-se dentro da área Práticas pedagógicas, a qual também inclui produção de programas e de materiais de ensino, bem como avaliação. Com abrangência semelhante, porém mais detalhado por se tratar de um handbook, o livro editado por Kaplan (2002) contém as seguintes divisões: as quatro habilidades: falar, ouvir, ler e escrever; análise do discurso; aprendizagem de segunda língua; ensino de segunda língua; variação no uso da linguagem; bilingüismo e o aprendiz individual; política e planejamento lingüísticos; tradução e interpretação; avaliação e também aplicações tecnológicas em lingüística aplicada. Outras publicações internacionais, para exemplificar, incluem Byrnes (1998), Riggenbach (1999), Burns e Coffin (2001), Hall e Hewings (2001) e Cook (2001). Periódicos especializados (vários já incluídos no Portal da CAPES) incluem Applied Linguistics, Journal of Pragmatics, Discourse Studies, Discourse & Society, Language Learning, Tesol Quarterly, International Review of Applied Linguistics, Text, Studies in Second Language Acquisition, Language in Society, Australian Review of Applied Linguistics, Annual Review of Applied Linguistics, Journal of Applied Linguistics, entre outros. No Brasil, pesquisas recentes sobre o ensino e aprendizagem de línguas vêm aumentando consideravelmente (ver, por exemplo, Grigoletto e Carmagnani, 2001; Costa et al., 2002; Freire et al., 2004), além de artigos nos periódicos Trabalhos em Lingüística Aplicada; Linguagem e Ensino, Revista Brasileira de Lingüística Aplicada; the ESPecialist; Ilha do Desterro; Linguagem em (Dis)curso, Intercâmbio, Letras de Hoje, Delta, Cadernos de Tradução, Calidoscópio, entre outros. O livro editado por Freire et al. aponta as seguintes vertentes: enfoques contemporâneos; práticas identitárias e ideologias; práticas discursivas; práticas docentes e ensino-aprendizagem; aprendizagem e autonomia; formadores e formação de professores; tecnologia e educação; avaliação; linguagem e patologias da linguagem e também tradução. Numa edição especial voltada para abordagens críticas do ensino de inglês para falantes de outras línguas, Pennycook (1999) argumenta que as abordagens críticas sobre o ensino de inglês para falantes de outras línguas devem ser vistas como um complexo de questões sociais, culturais, políticas, e pedagógicas, pois assim nós professores de línguas estrangeiras e também pesquisadores de outras áreas afins poderemos melhor compreender os contextos de ensino e aprendizagem de línguas e oferecer possibilidades de mudanças. Na edição mencionada, vê-se questões como a inter-relação entre identidade e aprendizagem de jovens afrodescendentes, através de rap e hip-hop; o uso de práticas pedagógicas favoráveis a diferentes identidades sexuais e teorias queer ou experiências e empoderamento de professores de inglês não-falantes nativos. Kumaravadivelu (1999), por exemplo, propõe uma análise crítica do discurso da sala de aula, com base em perspectivas pós-estruturalistas e póscolonialistas e um aparato de etnografia crítica. Este autor enfatiza a importância de estratégias instrucionais que possibilitem aos professores refletir e saber lidar com estruturas socioculturais e sóciopolíticas que direta ou indiretamente moldam o caráter e o conteúdo do discurso na sala de aula, para a geração de conhecimento, em vez de transmissão de conhecimento, e para independência pedagógica, em vez de dependência. Diz Kumaravadivelu: Ao reconhecer e respeitar as diferentes formas de capital cultural que os participantes trazem consigo, ao envolvêlos na aprendizagem e no ensino, e ao analisar o discurso da sala de aula resultante através de etnografia crítica, os professores podem se tornar mais abertos a significados e possibilidades alternativas (1999, p. 480, minha tradução). 210 08_art07_Heberle.pmd 210

Vol. 03 N. 03 set/dez 2005 Dentre os diversos tipos de investigação em LA ligados ao ensino de línguas pode-se mencionar os estudos sobre: 1) gêneros textuais; 2) novas tecnologias no ensino de línguas; e 3) formação de professores de línguas. Tais pesquisas vêm adquirindo relevância nacional e podem oferecer subsídios valiosos para os profissionais da linguagem. Em relação a gêneros textuais, houve em agosto de 2005, na UFSM, o III SIGET, Simpósio Internacional de Gêneros Textuais, com os trabalhos apresentados em cinco linhas temáticas: Análise de gêneros textuais; Gêneros textuais, ensino e aprendizagem da linguagem; Gêneros textuais e formação de professores; Metodologia de análise de gêneros textuais e Outros tópicos relacionados aos gêneros textuais. Estudos recentes dessa área incluem os de Dionísio et al. (2002), Meurer e Motta-Roth (2002), Marcuschi e Xavier (2004) e Meurer et al. (2005). Atualmente entende-se que o novo paradigma dos profissionais de Letras deve incluir competências em tecnologias de informação (ver, por exemplo, Herring, 1996; Braga e Costa, 2000; Paiva, 2001; Motta- Roth, 2001; LABLER, s/d). Segundo Warschauer (2000, p. 528), o profissional de inglês como língua estrangeira deverá saber navegar e efetuar pesquisas online, ser autor de hipermídias, em comunicações síncronas ou assíncronas 1. A interação na sala de aula, quer seja através da análise de gêneros textuais ou da utilização de novas tecnologias poderá contribuir para uma mudança de atitude por parte dos professores e alunos. De acordo com Paiva (2001, p. 98), as tecnologias de informação deveriam fazer parte dos currículos de Letras, pois os professores deste século precisam estar tecnologicamente alfabetizados para que possam integrar essas novas formas de comunicação ao seu planejamento pedagógico. Na área de pesquisa em LA relacionada à formação de professores, pode-se mencionar os estudos recentes de Leffa (2001); Celani (2003); Gimenez (2002; 2003); Gimenez et al. (2005) e Gil et al. (2005). Igualmente, deve-se salientar o papel das associações de professores de línguas em vários estados do país, não somente em relação às publicações, mas também aos eventos que oportunizam reciclagens, oficinas, seminários e cursos para futuros professores e aqueles em serviço. Na verdade, investigações sobre a formação incluem aspectos como aqueles apontados acima, tais como crenças, visões, práticas pedagógicas e/ou estratégias de comunicação. Conforme Lin (1999), a compreensão de práticas de sala de aula e sua situação sociocultural e institucional pode ser um passo para se explorar práticas discursivas alternativas que poderão levar a uma transformação de um novo habitus (segundo Bourdieu) dos alunos. Estudos sobre ensino de línguas pela perspectiva da semiótica social de Halliday Para finalizar este breve panorama, procedo ao relato de pesquisas em lingüística aplicada, a partir de uma perspectiva da lingüística sistêmico-funcional (LSF, também denominada teoria sócio-semiótica) iniciada por Halliday já nos anos 1960 e que hoje se expande internacionalmente 2. A LSF entende a linguagem como semiótica social, ou seja, como recurso de construção de significados na sociedade. O estudo da linguagem abrange a léxico-gramática, a semântica e o contexto. Os recursos semióticos (incluindo imagens, sons, gestos, por exemplo), que dão expressão ou realizam a léxico-gramática, a semântica e o contexto, permitem-nos vivenciar significados e representar as nossas experiências, (referente à metafunção ideacional); também estabelecer e manter as interações entre interlocutores (metafunção interpessoal) e, finalmente, estruturar e organizar as mensagens em textos orais, escritos ou multimodais (metafunção textual). A LSF, pois, desenvolve uma teoria da linguagem como processo social e também uma metodologia analítica que permite a descrição detalhada e sistemática de padrões de linguagem (Eggins, 2004). Um argumento importante da LSF refere-se ao caráter fundamental da linguagem para a aprendizagem e socialização, pois aprendemos a linguagem, aprendemos pela linguagem e também aprendemos sobre a linguagem. Pela perspectiva da LA e LSF, a aprendizagem sobre a língua não significa o conhecimento da terminologia gramatical, mas sim das funções e opções lingüísticas disponíveis para se produzir e interpretar significados, incluindo sua conexão com o contexto. Entre os inúmeros estudos sobre questões educacionais e ensino de línguas sob a perspectiva da LSF, pode-se destacar os de Hasan e Williams (1996); Painter (1999); Butt et al. (2001), Unsworth (2000) e Christie (2002; 2005). Em seu livro Classroom Discourse Analysis: A functional perspective, com base na LSF, na teoria de Bernstein sobre a natureza do discurso pedagógico e também na sua vasta experiência como educadora e pesquisadora, Christie (2002) propõe um modelo sistemático de análise do discurso da sala de aula. Essa autora enfatiza a 1 Enquanto a comunicação síncrona refere-se à comunicação em tempo real, como no telefone ou numa sessão de bate-papo na Internet, a comunicação assíncrona diz respeito ao acesso a informações em tempos diferentes, como por e-mail. 2 Em 2006, o XXXIII Congresso Internacional Sistêmico-funcional será no Brasil, na PUC SP. Investigando a sala de aula de línguas estrangeiras: estudos recentes em lingüística aplicada e a teoria sócio-semiótica de Halliday 211 08_art07_Heberle.pmd 211

necessidade de os professores criarem andaimes (scaffolding), para o desenvolvimento da linguagem 3. De acordo com Lemke (1989), pelo aparato teórico da LSF, pode-se analisar o discurso da sala de aula e descrever as atividades rotineiras das salas de aula e as estratégias de interação utilizadas por professores e alunos. A interação em sala de aula pode ser considerada um microcosmo social, onde os interlocutores constroem identidades, estabelecem relações e desenvolvem o conhecimento (Fairclough, 1989; Heberle e Meurer, 2001). Considerações finais Há muito ainda a ser pesquisado sobre o microcosmo da sala de aula de línguas. Neste trabalho, procurei levantar questões relacionadas a estudos em lingüística aplicada que possam contribuir para outros olhares sobre a interação em sala de aula. Embora estudiosos de LA reconheçam a importância dos estudos pioneiros de van Ek, Searle, Grice, Canale e Trim (mencionados por Coracini), atualmente as pesquisas em LA têm avançado consideravelmente e vêm incorporando questões como conscientização da linguagem, atenção, foco na forma, padrões de interação entre professor e alunos, aprendizagem por tarefas, formação continuada de professores (Kaplan, 2002; Gil et al., 2005), bem como outras já apontadas acima. Parece-me importante realizarmos estudos que possam, de alguma forma, contribuir para o desenvolvimento de práticas discursivas/semióticas alternativas que dêem oportunidade de ação para os alunos, que os envolvam em tarefas educacionais significativas. Referências BRAGA, D.B. e COSTA, L.A. 2000. O computador como instrumento e meio para o ensino/aprendizagem de línguas. Trabalhos em Lingüística Aplicada, 36:61-79. BURNS, A. e COFFIN, C. 2001. Analysing English in a global context: a reader. 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