Vidas secas Graciliano Ramos
Contexto Crise econômica provocada pela quebra da bolsa de valores de Nova Iorque; Crise cafeeira; Revolução de 1930. Romancistas de 30 Visão crítica das relações sociais; Regionalismo (homem hostilizado pelo ambiente, pela terra; homem devorado pelos problemas que o meio lhe impõe); Neo-Realismo.
Graciliano Ramos (1892-1953) Nasceu em Quebrângulo, Alagoas. Preso em 1936 sob acusação de ser comunista (Memórias do Cárcere). Em 1945, ingressou no Partido Comunista Brasileiro. Estreou em 1933 com Caetés, depois vieram São Bernardo, Angústia e Vidas Secas.
Vidas secas: particularidades Vidas Secas: último romance de Graciliano Ramos e única experiência do autor com foco narrativo na terceira pessoa. Estrutura: obra espiral. Início: Mudança ; desfecho: Fuga. Elo da miséria, da fome e da pobreza. Entre os dois capítuloslimites são constituídos 11 quadros que, aparentemente, nada têm em comum a não ser os personagens e a paisagem. Fio narrativo: tênue. Enredo: história de uma família de retirantes nordestinos que foge da seca, encontra período de passageira estabilidade e parte novamente em retirada quando as chuvas deixam de cair, prenunciando um novo período de seca. A economia (de estilo, de linguagem, de vida e de cenário) pode ser destacada como a característica básica do volume.
Muitas pessoas que dominam bem uma língua sentem uma penosa insegurança em determinadas esferas da comunicação, pois lhes falta o domínio das formas específicas daquele gênero. (Bakhtin)
A narrativa é em terceira pessoa e predomina-se o discurso indireto e discurso indireto livre. Os principais personagens são: Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais novo e o menino mais velho, que compõem a família de retirantes; a cachorra Baleia, que é praticamente da família também; Seu Tomás da bolandeira, que aparece apenas das lembranças dos retirantes; o soldado amarelo, o dono da fazenda em que os retirantes se estabelecem e o cobrador da prefeitura, estes representam instituições que oprimem Fabiano (a polícia, o latifundiário e o governo).
Os capítulos... Cada capítulo enfoca uma perspectiva de um membro da família, mesmo com o narrador em terceira pessoa.
1) O primeiro capítulo, Mudança, mostra o ambiente nordestino da seca, apresenta os personagens que estão migrando e mostra a chegada deles à fazenda em que se instalam. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos.
2) O segundo capítulo, Fabiano, acompanha as divagações de Fabiano, suas preocupações e sua autodegradação. Você é um bicho, Fabiano. Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, umbicho, capaz de vencer as dificuldades. Fabiano sabe que seu nível de rudeza está próximo do mundo animal e percebe que não consegue falar com clareza, apesar de admirar as pessoas que conseguem se expressar: Seu Tomás da bolandeira falava bem, estragava os olhos em cima de jornais e livros, mas não sabia mandar: pedia.
3) O terceiro capítulo também apresenta a perspectiva de Fabiano. Ele vai à cidade comprar querosene, fica bêbado, envolve-se num entrevero com o soldado amarelo e é agredido e preso. Vivia preso como um novilho amarrado ao mourão, suportando ferro quente.
4) O capítulo Sinhá Vitória acompanha a esposa de Fabiano e mostra a vontade dela de ter uma cama de couro. Sentou-se na janela baixa da cozinha, desgostosa. Venderia as galinhas (...), deixaria de comprar querosene. Inútil consultar Fabiano, que sempre se entusiasmava, arrumava projetos. Esfriava logo e ela franzia a testa, espantada, certa de que o marido se satisfazia com a ideia de possuir uma cama. Sinhá Vitória desejava uma cama real, de couro e sucupira, igual à de seu Tomás da bolandeira.
5) O quinto capítulo, O menino mais novo, gira em torno deste personagem, de sua admiração pelo pai e de sua tentativa de se destacar montando num bode. O menino deitou-se na esteira, enrolou-se e fechou os olhos. Fabiano era terrível. No chão, despidos os couros, reduzia-se bastante, mas no lombo da égua alazã era terrível.
6) O menino mais velho enfoca o primeiro filho da família de Fabiana e suas investigações a respeito do significado da palavra inferno. Como era possível haver estrelas na terra? Entristeceu. Talvez Sinhá Vitória dissesse a verdade. O inferno devia estar cheio de jararacas e suçuaranas, e as pessoas que moravam lá recebiam cocorotes, puxões de orelhas e pancadas com bainha de faca.
7) No sétimo capítulo, Inverno, a incomunicabilidade dos personagens fica evidente, já que eles estão reunidos em volta do fogo, mas não se comunicam entre si, suas falas apenas se misturam. Baleia, imóvel, paciente, olhava os carvões e esperava que a família se recolhesse. Enfastiava-a o barulho que Fabiano fazia.
8) O oitavo capítulo, Festa, mostra a ida da família à cidade e o modo como eles ficam excluídos em meio à sociedade urbana. Fabiano roncava de papo para cima, as abas do chapéu cobrindo-lhe os olhos, o quengo sobre as botinas de vaqueta. Sonhava, agoniado, e Baleia percebia nele um cheiro que o tornava irreconhecível. Fabiano se agitava, soprando. Muitos soldados amarelos tinham aparecido, pisavam-lhe os pés com enormes reiúnas e ameaçavam-no com facões terríveis.
9) Baleia é um capítulo que mostra que a cachorra da família está doente. Para tristeza dos meninos, Fabiano resolve matá-la. Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo. Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.
10) O décimo capítulo, Contas, mostra Fabiano sendo explorado pelo patrão na hora do pagamento. Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo.
11) No capítulo O soldado amarelo, Fabiano encontra o homem que o agrediu (capítulo 3), pensa em vingar-se, mas acaba se curvando ao poder. Afastou-se, inquieto. Vendo-o acanalhado e ordeiro, o soldado ganhou coragem, avançou, pisou firme, perguntou o caminho. E Fabiano tirou o chapéu de couro. Governo é governo. Tirou o chapéu de couro, curvou-se e ensinou o caminho ao soldado amarelo.
12) O capítulo O mundo coberto de penas mostra Fabiano, na esperança de combater a seca, atirando em pássaros que bebem a água de onde ele mora. Se a cachorra Baleia estivesse viva, iria regalar-se. Por que seria que o coração dele se apertava? Coitadinha da cadela. Matara-a forçado, por causa da moléstia. Depois voltara aos látegos, às cercas, às contas embaraçadas do patrão. Subiu a ladeira, avizinhou-se dos juazeiros. Junto à raiz de um deles a pobrezinha gostava de espojar-se, suspirou, sentiu um peso enorme por dentro. Se tivesse cometido um erro? Olhou a planície torrada, o morro onde os preás saltavam, confessou às catingueiras e aos alastrados que o animal tivera hidrofobia, ameaçara as crianças. Matara-o por isso.
13) O último capítulo, Fuga, acompanha a saída da família da fazenda, novamente fugindo da seca. Iriam para diante, alcançariam uma terra desconhecida. Fabiano estava contente e acreditava nessa terra, porque não sabia como ela era nem onde era. Repetia docilmente as palavras de Sinhá Vitória, as palavras que Sinhá Vitória murmurava porque tinha confiança nele. E andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias. Eles dois velhinhos, acabando-se como uns cachorros, inúteis, acabando-se como Baleia. Que iriam fazer? Retardam-se temerosos. Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos.
Alegorias? Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais novo e o menino mais velho: personagens representantes dos brasileiros excluídos socialmente pela pobreza.
Incomunicabilidade Quando [os meninos] iam pegando no sono, arrepiavam-se, tinham precisão de virar-se, chegavam-se à trempe e ouviam a conversa dos pais. Não era propriamente conversa, eram frases soltas, espaçadas, com repetições e incongruências. Às vezes uma interjeição gutural dava energia ao discurso ambíguo. Na verdade nenhum deles prestava atenção às palavras do outro: iam exibindo as imagens que lhes vinham ao espírito, e as imagens sucediam-se, deformavam-se, não haviam meio de dominá-las. Como os recursos de expressão eram minguados, tentavam remediar a deficiência falando alto. (RAMOS, 1989, p. 63-4)
Cadeia (terceiro capítulo) Fabiano vai sozinho à cidade fazer compras. Decide beber uma cachaça. O soldado amarelo o convida para jogar, ele vai. Joga, mas está preocupado com a esposa que o está esperando. Sai de repente. O soldado vai atrás dele e empurra-o. - Vossemecê não tem o direito de provocar os que estão quietos. - Desafasta, bradou o polícia. E insultou Fabiano, porque ele tinha deixado a bodega sem se despedir. - Lorota, gaguejou o matuto. Eu tenho culpa de vossemecê esbagaçar os seus possuídos no jogo? - Engasgou-se. A autoridade rondou por ali um instante, desejosa de puxar questão. Não achando pretexto, avizinhou-se e plantou o salto de reiúna em cima da alpercata do vaqueiro.
- Isso não se faz, moço, protestou Fabiano. Estou quieto. Veja que mole e quente é o pé da gente. O outro continuou a pisar com força. Fabiano impacientou-se e xingou a mãe dele. Aí o amarelo apitou, e em poucos minutos o destacamento da cidade rodeava o jatobá. - Toca pra frente, berrou o cabo. Fabiano marchou desorientado, entrou na cadeia, ouviu sem compreender uma acusação medonha e não se defendeu. (RAMOS, 1989, p. 29)
Festa (oitavo capítulo) A família vai à cidade. Eles não interagem com as pessoas e fica claro que pertencem a mundos diferentes delas. Os meninos estranham a situação. Os dois meninos espiavam os lampiões e adivinhavam casos extraordinários. Não sentiam curiosidade, sentiam medo, e por isso pisavam devagar receando chamar a atenção das pessoas. Supunham que existiam mundos diferentes da fazenda, mundos maravilhosos na serra azulada. Aquilo, porém, era esquisito. Como podia haver tantas casas e tanta gente? Com certeza os homens iriam brigar. Será que o povo ali era brabo e não consentia que eles andassem entre as barracas? Estavam acostumados a aguentar cascudos e puxões de orelhas. Talvez as criaturas desconhecidas não se comportassem como Sinhá Vitória, mas os pequenos retraíram-se, encostavam-se às paredes, meio encandeados, os ouvidos cheios de rumores estranhos. (RAMOS, 1989, p. 73-4)
Fabiano também não pertencia ao mundo da cidade: Evidentemente as criaturas que se juntavam ali não o viam, mas Fabiano sentia-se rodeado de inimigos, temia envolver-se em questões e acabar mal a noite. (RAMOS, 1989, p. 75). Comparando-se aos tipos da cidade, Fabiano reconhecia-se inferior. Por isso desconfiava que os outros mangavam dele. Fazia-se carrancudo e evitava conversas. Sólhe falavam com o fim de tirar-lhe qualquer coisa (RAMOS, 1989, p. 76). Até mesmo a cachorra Baleia sentia desconforto naquele ambiente: Achava é que perdiam tempo num lugar esquisito, cheio de odores desconhecidos (RAMOS, 1989, p. 83)