Gisele C. Parabocz Atualmente, os mercados estão mudando com grande rapidez. Há o fenômeno da globalização e das transformações tecnológicas, porém, também testemunham-se alterações conceituais, ditadas por consumidores preocupados com a saúde e atentos à qualidade dos produtos que compram. No clima dos negócios de hoje, as empresas estão adotando novas políticas e investindo alto na promoção do bemestar social. Em constante evolução, a indústria cosmética aposta nessa atitude como vantagem competitiva e volta-se para o filão dos fitocosméticos. A fitocosmética, ramo da cosmetologia voltado ao uso de insumos vegetais, começa a atrair o interesse da indústria, apesar de ainda ser considerada cara. O termo fitocosmético já é conhecido pela indústria brasileira há cerca de 10 anos, mas só de uns tempos para cá que vem sendo caracterizado como tendência mundial e nacional. O segmento de fitocosméticos ainda não possui dados específicos sobre sua rentabilidade, pois é uma categoria muito pequena dentro da diversidade do setor de cosméticos, cujo faturamento, no ano passado, foi de R$ 7,5 bilhões (sem os impostos).
Apesar da pequena participação, acredita-se no potencial da categoria. Prevê-se que daqui a dois anos no máximo, os fitocosméticos estarão consolidados. A fitocosmética só será incorporada pelo consumidor se empresas sérias investirem nas formulações e baratearem os preços. O segmento possui um potencial sem fim. No entanto, são necessários ainda alguns ajustes quanto à industrialização dos extratos vegetais. Uma questão chave é conhecer as plantas para então provar seu efeito positivo. O primeiro passo seria aprimorar as pesquisas, fazendo um diagnóstico dos indicadores etnobotânicos, com ênfase no conhecimento de culturas primitivas, para a partir daí realizar um estudo científico e assim concluir o processo com a conversão dos resultados em tecnologia e produtos. A natureza em extratos - Entendida como o segmento da Cosmetologia que se dedica ao estudo e aplicação das substâncias de origem vegetal, a fitocosmética tem como grande aliada a biodiversidade brasileira. Tendo como principal foco o apelo natural, a categoria apresenta os extratos vegetais como produtos substitutos dos derivados minerais e animais. Os óleos vegetais representam uma parcela importante entre os componentes utilizados pela indústria cosmética, pois são fonte de obtenção de ácidos graxos, ésteres e álcoois graxos, que, modificados, constituem emulsionantes, emolientes e hidratantes, entre outros. No entanto, indo além da definição convencional, pode-se abordar outro aspecto do setor. Os fitocosméticos são produtos que se apresentam como cosméticos, porém exercem atividade fisiológica ou biológica. Devido a essa característica exige-se menos comprovação de eficácia, segundo os critérios típicos dos fármacos. Essa categoria intermediária (
dos cosmecêuticos, na qual os fitocosméticos estão inseridos) é favorecida, porque não são muitas as exigências no registro dos produtos. Benefícios Usar derivados de plantas como componentes das formulações cosméticas, de acordo com os especialistas possui diversos aspectos positivos. O mais citado refere-se à biodiversidade brasileira, pois é inquestionável a idéia de que a Floresta Amazônica oferece uma riqueza vegetal impressionante. Outro ponto a favor da categoria está associado a uma postura politicamente correta. Os consultados são unânimes em salientar, por motivos óbvios, as vantagens de lidar com fontes renováveis. Além disso, a questão do risco de contaminação dos derivados animais é outro ponto a ser considerado. Segundo o diretor técnico e industrial da Ionquímica Indústria e Comércio, Joãosinho A. Di Domenico, fabricantes e consumidores ficaram assustados com a doença da vaca louca, daí a preferência por alternativas vegetais. Domenico enfatizou as particularidades dos fitoesteróis. Com estrutura similar ao colesterol, porém sintetizados apenas por plantas, eles ocorrem principalmente na forma livre ou como estéres de ácidos graxos. As pesquisas confirmam que os fitoesteróis protegem a pele e as membranas celulares da ação dos agentes ambientais, tais como poluição, substâncias irritantes, variações climáticas e raio UV, informa. Domenico citou ainda alguns óleos exóticos. Segundo o engenheiro químico, os óleos vegetais substituem com perfeição as características de emoliência e hidratação dos óleos minerais e animais. O mais utilizado
entre eles é a manteiga de karité, pois contém alta porcentagem de insaponificáveis e proporciona emoliência acentuada, melhorando a proteção solar das emulsões, com atuação no combate a danos causados a pele. Outro exemplo é o óleo de semente de manga. Estável à oxidação, trata-se de um excelente emoliente, co-emulsificante para cremes e loções. Tendência comprovada De olho nas vantagens desse filão, industriais brasileiros somam às linhas tradicionais de cosméticos lançamentos de fitocométicos, seguindo a tedência dos mercados europeu e norte-americano de oferecer ao consumidor produtos que aliam beleza à saúde. Os extratos vegetais agregam valor, dando mais confiabilidade ao produto. Sendo assim, mais do que colocar no mercado formulações à base de vegetais, as empresas também as aproveitam como ferramentas de marketing para melhorar a imagem da marca junto ao consumidor. 1 O que é Natural nos cosméticos? Geralmente, quando os consumidores se referem a cosméticos naturais, realmente querem dizer relativos a plantas (extratos vegetais), mas agora é possível trabalhar com uma base mais ampla, na qual todos os ingredientes são naturais e com isto alcançar um cosmético verdadeiramente natural. Entretanto, para alcançar este objetivo devese adotar uma visão mais ampla dos ingredientes naturais e, talvez, refinar um pouco mais a classificação para expressar uma diferença entre ingredientes naturais e ingredientes ativos naturais. Reunindo estas duas classes de ingredientes pode-se produzir um produto verdadeiramente natural com características melhoradas de biodegrabilidade. Desta forma, este torna-se não somente um produto para alcançar a beleza, mas também beleza sem danos ao meio ambiente.
Ingredientes ativos naturais Derivados de plantas (extratos vegetais) e os seus extratos glicólicos de misturas clássicas tituladas apresentam amplo espectro de ação. - Atividade específica: Extratos titulados + eficácia testada. - Atividade específica: frações purificadas de plantas (ácido 18-beta-glicerretínico da raiz de alcaçuz, escina de castanha da índia, etc). - Filtros solares: frações purificadas de plantas com propriedades de filtro solar. - Ativadores de bronzeamento: misturas de aminoácidos + DHA (diidroxiacetona). - Perfume e estado de espírito: óleos essenciais e as suas misturas. - Efeitos brandos: águas florais. - Atividade específica: produtos obtidos por biotecnologia (hialuronato de sódio, etc). - Atividade específica: ingredientes de alta tecnologia podem ser misturados com extratos vegetais (captores de radicais livres), como as enzimas obtidas por métodos específicos de extração (colunas cromatográficas). Ingredientes naturais - Tensoativos: emulsificantes naturais (proteína láctea, extratos de gema de ovo, proteína de soja, fosfolipídeos). - Detergentes: detergentes naturais biodegradáveis para shampoos. - Condicionadores para cabelo: proteínas vegetais hidrolizadas. - Agentes gelificantes: polissacarídeos, goma xantana, etc.
- Óleos: óleos vegetais e manteigas vegetais. - Antioxidantes: frações purificadas de vegetais. - Preservantes: misturas de enzimas. - Fragâncias: óleos vegetais. As frações purificadas de plantas são comumente utilizadas em formulações devido ao seu excelente desempenho, mas algumas vezes a alta concentração terá como resultado uma forte coloração ou um forte odor. Os departamentos de marketing algumas vezes não concordam com essas concentrações, pois os componentes vegetais estarão colocados na final, na lista de ingredientes, juntamente com os preservantes e corantes, o que torna mais difícil convencer o consumidor que uma dose pequena de um ingrediente concentrado é mais eficaz que doses maiores do mesmo ingrediente diluído. As frações purificadas de vegetais mostram excelentes propriedades como filtro solar (tanto UVA como UVB), o que as levou a serem usadas como agentes protetores em cremes de uso diário, ou como reforçadores em produtos de proteção solar. Está claro que é melhor acelerar o bronzeamento fornecendo à pele a tirosina biodisponível utilizada para a melanogênese. Não um acelerador de bronzeamento, mas mais propriamente, um melhorador de bronzeamento, isto reduz a queimadura solar e aumenta, concomitantemente, a captura de radicais livres. Os óleos essenciais estão emergindo não somente como componentes de fragrâncias indispensáveis para os cosméticos naturais, mas como algo para influenciar o estado de espírito. Os óleos para a massagem do corpo tornaram-se muito populares no Reino Unido e, a aromaterapia mostrou ser mais do que uma moda passageira na Europa e nos Estados Unidos. As águas florais são alternativas bemvindas à simples água deionizada apresentada em tantas listas de ingredientes dos produtos cosméticos. Os ingredientes naturais ativos não deverão ser utilizados sem levar em conta a sua compatibilidade com a base, mesmo que esses
ativos proporcionem a ação desejada e estejam sendo utilizados nos níveis corretos de dosagem. Na categoria dos óleos essenciais, estão disponíveis vários novos e atraentes óleos, mesmo que os insaturados (óleos de prímula, borragem, rosa mosqueta) sejam de certa forma difíceis de serem estabilizados. As frações purificadas de alecrim fornecem um bom antioxidante natural. Para checar se estes ingredientes ativos naturais agem em determinados cosméticos, deve ser feita uma avaliação científica utilizando alguns dos métodos padrões desenvolvidos recentemente. Ingredientes Naturais para Cosméticos Impulsionados no início quase que exclusivamente por ações de marketing, o uso de ingredientes naturais em cosméticos, adquiriu status que nos dias de hoje os coloca na condição de matérias-primas quase imprescindíveis nas formulas desses produtos, notadamente dos chamados cosméticos de tratamentos. Esta segmentação foi alcançada com o passar dos tempos, graças ao grande volume de pesquisa cientifica aplicada e, devido ao nível de desenvolvimento tecnológico que permitem sua obtenção atualmente, em padrões de qualidade cosmeticamente aceitáveis, além da possibilidade de caracterizar sua ação no produto final. Apesar de todo essa avanço, uma questão ainda está cercada de muita polêmica, a definição do que seja um ingrediente ou principio ativo natural, já que a própria palavra em si tem sentido ambíguo. Os mais puristas, consideram natural, somente o que for proveniente de uma planta renovável, e não tenha sido modificado ou alterado quimicamente.
Outros, numa definição mais ampla, consideram natural a substancia ou seus derivados obtidos de fonte natural. Evidentemente essa ultima definição pode dar margem a que todas as substancias químicas possam ser utilizadas como natural, já que têm várias origens: vegetal, animal ou mineral. Extratos botânicos O crescimento da popularidade dos extratos botânicos pode ser atribuído a percepção e aceitação dos seus benefícios pelo consumidor. Recentemente, surgiram como opção para substituir extratos biológicos animais, quer seja por questões de ordem mercadológica, quer seja por questões de qualidade, onde aspectos como cor, odor e solubilidade, limitam muitas vezes o uso de tais produtos nas formulações. Um exemplo dessas opções é a substituição dos cerebrosídeos bovinos (atualmente os preferidos para uso nos produtos cosméticos, devido às suas excelentes propriedades de regeneração da barreira de permeabilidade da pele) por extratos botânicos que contenham quantidades apreciáveis de ativos. Duas espécies de plantas, Malvaceae e Penissetum glaucum apresentam quantidades razoáveis de glicolipídeos, para fornecer cerebrosídeos. Mesmo que estes contenham menos cerebrosídeos que os extratos animais, o preço, o odor e as características de solubilidade fazem esses extratos extremamente viáveis do ponto de vista comercial. Têm adicionados benefícios estéticos e de marketing por serem derivados de plantas. Um segundo exemplo da utilidade alcançada através da purificação seletiva é o desenvolvimento do uso de extrato da noz cola como um poderoso antiirritante. 2
Referências 1 - Fitocosmética. Disponível em: http://www.quimica.com.br/revista/qd401/fitocosmetica4.htm 2 - Cosmetics & Toiletries. Vol. 5, nº 01, janeiro/fevereiro 1993. p. 26-33.