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Transcrição:

Pº R.P. 17/2010 SJC-CT Aquisição. Registo requerido online. Recusa. Falta de pagamento, no prazo legalmente previsto, do emolumento devido pelo processo de recurso. Rejeição do recurso nos termos do disposto no artigo 173.º e) do CPA. PARECER Em / /, Notário, requisitou online o registo de aquisição de ½ da fracção autónoma designada pela letra, descrita na ficha nº, da freguesia de, do concelho d, a favor de, proprietário da outra ½, facto que titulou por escritura de / /, lavrada no seu Cartório no Livro de Notas nº, a partir de fls, donde consta a declaração do comprador de que aquela fracção autónoma se destina a habitação própria e permanente. O pedido de registo foi distribuído à Conservatória do Registo Predial de e apresentado sob o nº em / /, data do pagamento da quantia de 150,00 (cfr. art. 23º, nº 2, da Portaria nº 1535/2008, de 30.12, e cópia do talão de fls ). Por e-mail de / /, a Senhora Conservadora recorrida, alegando contacto telefónico anteriormente efectuado, solicitou ao Senhor Notário ora recorrente para no prazo de 5 dias pagar a quantia em falta de 50,00 conforme o preceituado nos art.s 21º/2.3 com a redução conferida no art. 28º/26 do R.E.R.N., sob pena de o registo ser recusado, uma vez que estamos perante a falta de pagamento da importância devida pelo acto, que conforme o já citado art. 21º/2.3 é de 200,00. Em / /, a Senhora Conservadora recorrida exarou no processo de registo o seguinte despacho de qualificação : O registo foi recusado por se verificar que não foi feito o pagamento da importância de 50,00 Euros, importância essa em falta respeitante ao pedido de registo de aquisição efectuado, já que foi feita a advertência em / / da recusa do acto no caso de não ser efectuado o pagamento da aludida importância de 50,00 Euros. Verificase que com o Dec. Lei 116/2008 foi dada nova redacção ao texto do nº 1 do art. 28º do RERN, mantendo-se no entanto a redacção do nº 4 do referido art. Assim sendo, entendo que os benefícios nele previstos se aplicam apenas à celebração da escritura de compra e venda de imóvel destinado a habitação própria e permanente e não ao acto de registo desse facto aquisitivo. ARTº 21º/2.3, 28º/26 do RERN e ainda art. 68º e 69º nº 2 do CRP. 1

Este despacho foi notificado ao Senhor Notário ora recorrente em / / Em / / foram apresentadas na Conservatória recorrida duas petições simultaneamente dirigidas ao Ex.mo Juiz de Direito do Tribunal Judicial da Comarca de e ao Ex.mo Presidente do Instituto dos Registos e do Notariado, I.P., exactamente com o mesmo conteúdo, em que o Senhor Notário Lic. vem interpor recurso hierárquico para o Instituto dos Registos e do Notariado, I.P., e intentar acção de impugnação judicial da recusa da feitura do registo respeitante ao pedido de registo de aquisição efectuado pela Ap. de / /, contra a Senhora Conservadora da Conservatória do Registo Predial de. A final da douta petição, cujos termos aqui se dão por integralmente reproduzidos, o Senhor Notário ora recorrente requer a anulação do despacho de recusa da Senhora Conservadora obrigando-a a registar o facto aquisitivo tal como foi pedido, e condená-la, a título de indemnização por danos patrimoniais e não patrimoniais a determinar em execução de sentença, ao pagamento da quantia de... ao meu [dele, Senhor Notário] Cartório. Por despacho de / /, cujos termos também aqui se dão por integralmente reproduzidos, a Senhora Conservadora recorrida sustentou a recusa. Em / / a Senhora Conservadora recorrida fez subir, através do ofício nº /2010, o processo de recurso hierárquico ao IRN, I.P. Em / / a entidade ad quem enviou ao Senhor Notário ora recorrente o ofício nº, registado, a notificá-lo para, no prazo de 10 dias, proceder junto da Conservatória do Registo Predial de ao pagamento do emolumento devido pela interposição do recurso hierárquico, no valor de (cfr. art. 27º, nº 5.1 do R.E.R.N.) ou, ultrapassado aquele prazo, proceder nos 10 dias seguintes ao pagamento em dobro daquela quantia, sob pena de rejeição do recurso. Em / / o presente recurso hierárquico foi distribuído ao ora relator. Em / /, através do ofício nº /2010, a Senhora Conservadora recorrida enviou à entidade ad quem cópia do despacho proferido no Pº Recurso de Conservador, em que é recorrente o Cartório Notarial d e recorrida a Conservatória do Registo Predial de... -, com data de / /, em que o Mmo Juiz decidiu que os autos aguardassem a decisão proferida no recurso hierárquico. Questão prévia: 1- Sobre a questão de saber qual a consequência da não entrega das quantias devidas pelos actos de registo peticionados no âmbito do pedido de registo online já este 2

Conselho se pronunciou nos Pºs C.P. 13/2009 SJC-CT e C.P. 31/2009 SJC-CT, nos exactos termos que passamos a reproduzir: «Segundo se prescreve no nº 1 do art. 151º do CRP, os emolumentos e taxas devidas pelos actos praticados nos serviços de registo são pagos em simultâneo com o pedido ou antes deste, determinando a al. e) do nº 1 do art. 66º que o não pagamento das quantias devidas implica a rejeição da apresentação. Ora ocorre que no pedido de registo online é da inteira responsabilidade do utilizador proceder ao enquadramento emolumentar do acto ou actos cujo pedido submete. Nomeadamente, cabe-lhe dizer se o acto se insere nalguma das hipóteses de gratuitidade ou isenção legal que a aplicação residente no referido sítio da Web lhe apresenta sob a forma visual de lista pendente. De modo que pode muito bem suceder, e vem de facto sucedendo, que o utilizador assinale indevidamente, por inverificação dos respectivos pressupostos, uma qualquer opção de não exigência de pagamento. Decorrendo o processo de interacção, do lado receptor, de forma completamente automatizada, não há qualquer possibilidade de evitar a apresentação, em caso de erro de enquadramento, do pedido de registo. O que quer dizer que o pedido de registo online nunca se vê confrontado com a rejeição da apresentação por falta de pagamento das quantias que, pese embora a indicação em contrário do requerente, se mostrem devidas. Não tendo sido, por constrangimentos de ordem técnica, rejeitada a apresentação, como actuar perante o pedido recebido? Tal como se sustentou no Processo R.Co. 39/2007 DSJ-CT no que respeita à área do registo comercial, onde o problema recebe tratamento normativo idêntico (cfr. art. 46º/1, b)), julgamos que, em tais circunstâncias, o pedido de registo, se não foi rejeitado, deverá ser recusado. Transcrevemos, reiterando-a, a justificação então avançada: A rejeição redunda na recusa de um pedido que não entrou no sistema. A recusa refere-se a um pedido que já entrou no sistema. É uma sanção menos pesada, que protege o apresentante. A ideia de que se não foi rejeitada a apresentação o registo deve ser normalmente qualificado não merece o nosso aplauso. É claro que antes da recusa o apresentante deverá ser contactado para pagar a quantia devida. Quer dizer: se o pedido, por qualquer motivo mais ou menos anómalo, mais ou menos evitável, consegue vencer as defesas da admissibilidade da apresentação, isso não parece que seja bastante para justificar que o sistema ignore que o pedido se fez com preterição das regras de admissão e se sinta obrigado a qualificá-lo como se tivesse sido submetido sem mácula. 3

Nem se argumente com o facto de não figurar semelhante motivo de recusa no elenco do art. 69º. Não figura nem tem de figurar, porquanto, na arquitectura do sistema, um pedido não acompanhado do pagamento das importâncias a que está sujeito é um pedido que nele não deve sequer ingressar, e, logo, um pedido em relação ao qual a questão da qualificação não pode sequer pôr-se. Concluir isto, porém, não nos impede de reconhecer a particular natureza de semelhante recusa, por assim dizer sistematicamente postulada. A decisão de recusa que se reconduza a alguma das causas genéricas previstas no art. 69º apresenta-se com efeito como o resultado dum efectivo juízo de qualificação exercido segundo os parâmetros definidos no art. 68º, ao passo que na hipótese de que curamos a qualificação não chegará sequer a iniciar-se. A recusa não sobrevém ditada por razões de mérito, portanto, mas antes liminarmente por não se achar preenchido um requisito indeclinável da própria possibilidade de qualificação. E se da pretensão de registo não vem de todo a apreciar-se a viabilidade, isso justificará, cremos bem, que não deva também por tal recusa cobrar-se o que quer que seja. Insistimos porém neste ponto: no registo online, como em qualquer outra situação de omissão de rejeição por falta de pagamento, o que se deve começar por fazer é contactar o requerente para que efectue o pagamento exigível. E só quando a este se não proceda é que a recusa se imporá». Ainda sobre esta atípica decisão de recusa de qualificação, reproduzimos o seguinte trecho da deliberação deste Conselho emitida no Pº R.P. 57/2009 SJC-CT: «Não é demais chamar a atenção para a especialidade da recusa fundada no não pagamento das quantias que se reputem devidas. Em boa verdade, uma tal recusa não vem a ser senão um mero sucedâneo da decisão de rejeição que não houve e devia ter havido, pelo que nela não entra elemento algum de valoração nos termos do art. 68º. Donde decorre, por sua vez, que a impugnação que triunfantemente contra ela se deduza se traduzirá tão-somente na admissão do pedido, como venha instruído, ao exercício da dita valoração da qual não está excluído que possa conduzir a nova recusa, subsumível, desta feita, nalguma das causas elencadas no art. 69º. Tudo o que fortemente recomenda, portanto, que à eventual impugnação se aplique o regime da impugnação da rejeição da apresentação, cujas especialidades relativamente ao da impugnação da recusa, que em princípio segue (art. 66º/3), foram tratadas no parecer emitido nos procs. RCo 22/2008 SJC-CT e CP 73/2008 SJC-CT. É de resto por consideração da sua especial natureza que se explica que por semelhante recusa se não deva cobrar emolumento algum». 4

2- Decorre do anteriormente exposto que à impugnação da decisão de recusa da feitura do registo peticionado por falta do pagamento das quantias devidas se deve aplicar o regime de impugnação da decisão de rejeição da apresentação do próprio pedido de registo. Ora, de acordo com o disposto no citado art. 66º, nº 3, do C.R.P., a impugnação da decisão de recusa da qualificação do pedido de registo por falta de pagamento das quantias devidas segue os termos do processo de impugnação das decisões do conservador/oficial de registo previsto e regulado no título VII do Código do Registo Predial (cfr. art.s 140º e segs.). Afigura-se-nos evidente que este processo se aplica não só à impugnação da decisão de mérito como também à impugnação da decisão em que o conservador/oficial de registo se abstém de apreciar a procedência ou improcedência do pedido, por falta de um pressuposto essencial para o efeito (cfr. art. 83º do CPA, Mário Esteves de Oliveira et alli, in Código do Procedimento Administrativo, 2ª ed., 2005, págs. 396 e segs. e pág. 791, e Antunes Varela et alli, in Manual de Processo Civil, 2ª ed., 1985, pág. 104). O pagamento das quantias devidas é indiscutivelmente um pressuposto do procedimento registal, sendo o não pagamento dessas quantias motivo de rejeição da apresentação do pedido de registo [cfr. art. 66º, nº 1, e, do C.R.P.]. 3- Tratando-se, aquela decisão, de «decisão de recusa da prática do acto de registo nos termos requeridos» (cfr. art. 140º, nº 1, do C.R.P.), ainda que não verse sobre o mérito, susceptível portanto de impugnação pela via do recurso hierárquico, coloca-se a questão da determinação do prazo para o pagamento do emolumento devido pelo respectivo processo. Sobre o ponto também já este Conselho se pronunciou no Pº R.P. 177/2008 SJC- CT (conclusão 3ª), nos seguintes termos: «O emolumento devido pela interposição do recurso hierárquico deve ser pago no acto da «apresentação» da petição de recurso no serviço de registo competente ou antes dessa apresentação, consoante a modalidade que para esta for adoptada, mas a lei (art. 151º, nº 1, do C.R.P.) não liga ao incumprimento desta regra, na hipótese considerada, quaisquer consequências; não sendo pago o emolumento até à «apresentação» da petição de recurso, o recorrente deve ser notificado para no prazo de 10 dias efectuar o pagamento, podendo ainda o recorrente obstar ao indeferimento liminar do recurso hierárquico se realizar o pagamento em dobro da quantia devida nos 10 dias seguintes ao termo daquele prazo inicial (de 10 dias) para o seu pagamento, nos termos das 5

disposições combinadas dos art.s 71º, nº 2, e 113º, nº 2, do CPA, contando-se ambos os prazos nos termos do art. 72º deste Código, ex vi do art. 147º-B do C.R.P.». O Senhor Notário ora recorrente foi notificado para pagar o emolumento devido, mas não procedeu ao seu pagamento nos prazos legais que lhe foram assinalados. Em face do exposto, não descortinamos outra solução que não seja a rejeição do recurso [cfr. art. 173º, e), do CPA, ex vi do art. 147º-B do C.R.P.]. 4- Na deliberação tomada nos Pºs 13/2009 SJC-CT e 31/2009 SJC-CT, anteriormente citada (ponto 1.) sustentou-se que, não havendo na decisão de recusa de qualificação conhecimento do mérito do pedido de registo, não deve pela recusa cobrarse o que quer que seja. No concreto caso dos autos, a Senhora Conservadora recorrida conheceu do mérito. A esta conclusão chegamos a partir da designação dada ao despacho de qualificação e à inclusão na fundamentação de direito da decisão dos art.s 68º e 69º, nº 2, do C.R.P. Se conheceu do mérito, porém, a Senhora Conservadora fê-lo a nosso ver indevidamente, pelo que a decisão deve valer como decisão de recusa da qualificação do pedido de registo, por falta de pagamento das quantias devidas. Do que resulta, na nossa opinião, que, tornando-se definitiva a decisão de recusa de qualificação do pedido de registo, a quantia de... paga em / /.2009 deve ser restituída ao «apresentante». 5- Tem constituído prática deste Conselho conhecer do objecto do recurso, pese embora a sua rejeição liminar, assim antecipando a sua posição sobre a matéria controvertida para que a mesma seja ponderada em eventual novo processo de registo. No caso dos autos, porém, tal prática não se justificaria, atenta a simultânea interposição de impugnação judicial da mesma decisão que aliás está pendente, a aguardar a decisão deste recurso hierárquico -, porquanto poderia ser vista como uma intromissão ilegítima na soberana esfera judicial. Acontece, porém, que a concreta questão controvertida nos autos de saber se permanece em vigor a redução emolumentar concedida ao registo de aquisição de imóvel para habitação própria e permanente já foi também apreciada na deliberação tomada nos já citados Pºs C.P. 13/2009 SJC-CT e 31/2009 SJC-CT, nos seguintes termos: 6

«Dispõe genericamente o nº 4 do art. 28º do RERN que os benefícios previstos no nº 1 são aplicáveis à aquisição por compra e venda de imóvel para habitação própria e permanente. Sucede que o DL nº 116/2008, se deixou intocada a redacção deste nº 4, veio todavia dar nova forma ao texto do nº 1. Com efeito, onde antes se dizia que os emolumentos devidos por actos notariais e de registo decorrentes de compra e venda, doação e partilha mortis causa de imóveis rústicos são reduzidos em função do valor do acto, passou entretanto a dizer-se (cfr. art. 20º do DL nº 116/2008) que os emolumentos devidos pela celebração da escritura pública de compra e venda, de doação e de partilha mortis causa de imóveis rústicos são reduzidos em função do valor do acto. O benefício previsto no nº 1 passou assim a estar unicamente reservado ao acto de titulação que revista a forma de escritura pública, ficando de fora do seu círculo de previsão quaisquer actos de registo de propriedade de imóveis rústicos que nesses mesmos títulos houvessem de fundar-se. Não é que o favor emolumentar concedido ao registo de factos relativos a prédios rústicos tenha sido abandonado pelo legislador; ao invés, esse favorecimento ficou vincadamente expresso e, pode dizer-se, fortalecido na inclusão no corpo do art. 21º, sob o nº 2.14, da previsão dum preço substancialmente inferior para quaisquer factos a lavrar por inscrição ou averbamento à inscrição que tenham unicamente por objecto prédios da dita natureza. Reformulado o citado nº 1, porém, reformulada necessariamente terá resultado a disciplina por assim dizer extensora do nº 4 a facti-species cuja verificação envolve a concessão do benefício que aqui se prevê passou a ser constituída tão-somente pela celebração de escritura pública de compra e venda de imóvel destinado a habitação própria e permanente. De fora dela, segundo nos parece, terá ficado o acto de registo do facto aquisitivo». A divulgação da posição assumida por este Conselho aliás homologada por despacho do presidente do IRN, I.P. de 21/10/2009 não visa mais do que esclarecer e salientar que a posição sobre o ponto assumida pela Senhora Conservadora recorrida no processo de registo onde foi proferida a decisão objecto do presente recurso hierárquico é coincidente com a posição desta Casa. Por isso, desde logo, não se justificam, por totalmente impertinentes, quaisquer considerações sobre o pedido que, parece, também é dirigido ao presidente do IRN, I.P., entidade ad quem da petição de recurso hierárquico de condenação da Senhora Conservadora recorrida no pagamento de indemnização por danos ao Cartório do Senhor Notário ora recorrente. 7

Pronúncia: Nos termos expostos, é entendimento deste Conselho que o recurso deve ser rejeitado nos termos do disposto no art. 173º, e), do CPA, por não ter sido pago nos prazos legalmente previstos o emolumento devido pelo processo. É ainda entendimento deste Conselho que: a) Adquirindo definitividade a decisão de recusa de qualificação do pedido de registo, deve ser restituído ao «apresentante» o emolumento de 150,00 pago em / / ; b) A decisão de rejeição do presente recurso hierárquico deve ser comunicada ao Mmo Juiz do processo Recurso de Conservador nº, que corre no Juízo Cível do Tribunal Judicial de Parecer aprovado em sessão do Conselho Técnico de 27 de Maio de 2010. João Guimarães Gomes Bastos, relator, Isabel Ferreira Quelhas Geraldes, António Manuel Fernandes Lopes, Maria Eugénia Cruz Pires dos Reis Moreira, Luís Manuel Nunes Martins, Maria Madalena Rodrigues Teixeira, José Ascenso Nunes da Maia. Este parecer foi homologado pelo Exmo. Senhor Presidente em 08.06.2010. 8