PARECER DO REPRESENTANTE DO MINISTÉRIO PÚBLICO Sobre pedido de vistas na 94ª Reunião do COPAM SUL DE MINAS Processo Administrativo para exame da Licença Prévia LP. Procedimento de Licenciamento Ambiental: PROTOCOLO Nº. 0722553/2012- Licenciamento Ambiental Nº 1872/2012/001/2012 Empreendimento: AGROTORA REFLORESTAMENTO PECUÁRIA E CAFÉ LTDA EPP Atividades objeto do licenciamento: Código DN 74/04 Descrição Classe G-03-07-7 Tratamento químico para preservação de madeira 5 Município: Andrelândia DD. Sr. Superintendente da SUPRAM Sul de Minas; DD. Diretor Técnico da SUPRAM Sul de Minas; Eminentes Conselheiros e Conselheiras; Ilmo. Corpo Técnico; Conforme relata o Parecer Único da SUPRAM SUL DE MINAS, o empreendimento Agrotora Reflorestamento, Pecuária e Café Ltda EPP formalizou em 18/07/2012 nesta SUPRAM as documentações para compor o processo nº. 1872/2012/001/2012 de Licença Prévia LP para a atividade de tratamento químico para preservação de madeira. INTRODUÇÃO A AGROTORA REFLORESTAMENTO, PECUÁRIA E CAFÉ LTDA, foi criada em 2002 e instalou-se na região do campo das vertentes, no município de Andrelândia/MG para atuar no setor agroflorestal, visando a produção de toras de eucalipto com alto valor agregado, tendo como foco a produção de madeira para serraria, como um dos principais produtos de origem florestal. 1
Atualmente, a AGROTORA possui uma área de 3.000 hectares de terra plantada com uma variedade de clones de eucalipto, sendo que o objetivo é atingir 5.000 hectares de florestas plantadas com clones de eucalipto geneticamente melhorado. 1 (Grifamos) DESERTO VERDE O termo deserto verde vem ganhando um grande destaque na mídia, tanto no âmbito nacional quanto no internacional, devido à grande repercussão que tem causado os atritos que envolvem esse termo. Mas o que afinal define deserto verde? A expressão deserto verde é utilizada pelos ambientalistas para designar a monocultura de árvores em grandes extensões de terra para a produção de celulose, devido aos efeitos que esta monocultura causa ao meio ambiente. As árvores mais utilizadas para este cultivo são sobretudo o eucalipto, pinus e acácia. Grande parte desta discussão se deve ao fato de as terras utilizadas para o cultivo de monoculturas em larga escala, não atingirem um grande contingente de mão-de-obra humana, já que grande parte destas propriedades são altamente mecanizadas, e quando há o emprego de mão-de-obra esta não é devidamente remunerada. Outro fator que tem importância nessa discussão é o fato dessas culturas serem capazes de absorver enormes quantidades de água, podendo até mesmo ressecar rios e outras fontes hídricas existentes no entorno dessas grandes plantações. 1 Dados obtidos no s i t e do empreendimento: http://www.agrotora.com.br/ (acesso em 08/10/2012) 2
OS POSSÍVEIS IMPACTOS DA MONOCULTURA DO EUCALIPTO A intensidade destes impactos depende das condições ambientais anteriores ao plantio, da espécie de árvore a ser plantada e da extensão da área de cultivo. De modo geral, pode-se inferir os riscos de: Desertificação das regiões plantadas: por serem árvores de crescimento rápido, há grande absorção de água, podendo levar ao secamento das nascentes e exaustão de mananciais de água subterrânea, afetando seriamente os recursos hídricos locais. Estudos apontam que no Espírito Santo 130 córregos secaram após a introdução da monocultura no estado, o que impacta nas comunidades que vivem nas regiões vizinhas. Prejuízo aos solos: como toda monocultura, há exaustão dos solos, o que inviabiliza outras culturas. Além disto, o solo fica exposto durante dois anos após o plantio e dois anos após a colheita, facilitando a erosão. Redução da biodiversidade: a alteração do habitat de muitos animais faz com que nas regiões de monocultura de árvores só haja formigas e caturritas. Concentração de terras: para produzir em grandes extensões, as terras são adquiridas aos agricultores, que se deslocam da região gerando um vazio populacional, associado ao êxodo rural. Pouca geração de empregos: as monoculturas são altamente mecanizadas. Desmatamento: no Brasil, a associação do eucalipto como alimento aos fornos das siderúrgicas tem induzido o desmatamento nas regiões vizinhas a estas indústrias. 3
O termo deserto então provém tanto do efeito de desertificação e erosão dos solos quanto do vazio em biodiversidade e em populações humanas encontrado nas regiões de cultivo. Para mitigar estes efeitos, alguns especialistas propõem o plantio de outras espécies vegetais entre corredores dedicados ao plantio de eucalipto. Entretanto, as empresas resistem à aplicação de tal técnica, pois sua meta é maximizar os lucros. Tais empreendimentos, como se vê, trazem inúmeras externalidades positivas, mas também negativas. Nesse contexto, o Ministério Público tem acompanhado questões relacionadas a esse tema com o intuito de prevenir a ocorrência deste problema. Assim, foi realizada uma pesquisa no site do SIAM para verificar se a empresa AGROTORA possui o licenciamento para a atividade silvicultura (3.000 hectares de cultivo de eucalipto) onde não foi encontrada nenhuma licença ou processo de licenciamento em curso. Ante o exposto, manifesta-se o Ministério Público pela CONCESSÃO da licença prévia para o empreendimento AGROTORA Reflorestamento, Pecuária e Café Ltda, dado que o se requer aqui é o tratamento químico de madeira. No entanto chama atenção que um empreendimento dessa dimensão, instalado há muitos anos na Bacia do Alto Rio Grande, não tenha regularizado suas obrigações quanto à legislação ambiental (reserva legal), não formalizado o devido licenciamento ambiental de suas impactantes atividades, sem qualquer indicação de compensação ambiental. O Ministério Público (Coordenadoria Regional das Promotorias de Justiça do Meio Ambiente da Bacia do Rio Grande) tem desenvolvido um trabalho de prevenção e recuperação de áreas degradadas na Bacia do Alto Rio Grande, em parceira com institutos de pesquisa técnica e unidades de ensino regionais, e pretende contar com os empreendedores desse importante segmento na região, para definição de uma estratégia de atuação e cooperação, junto a 4
outros empreendedores com o mesmo perfil de produção da região (plantio de eucaliptos). Tudo isso visando a prevenção de danos à biodiversidade, aos recursos hídricos e ao patrimônio florestal na região, garantindo assim, numa parceria que possa trazer bons frutos à sociedade, uma melhor e mais sadia qualidade de vida na Bacia do Alto Rio Grande. Lavras/Varginha, 08 de outubro de 2012. Bergson Cardoso Guimarães Promotor de Justiça - Coordenador Regional das Promotorias de Justiça do Meio Ambiente da Bacia do Rio Grande. Conselheiro Titular COPAM-SM Representante do Ministério Público 5