AVALIAÇÃO DOS COMPOSTOS FENÓLICOS

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Transcrição:

AVALIAÇÃO DOS COMPOSTOS FENÓLICOS E DA CAPACIDADE ANTIOXIDANTE DE INGREDIENTES PARA ELABORAÇÃO DE GELEIAS DE ERVA-MATE (ILLEX PARAGUARIENSIS ST-HIL) COM GENGIBRE (ZINGIBER OFFICINALE) J. P. Fortes 1 ; C. O. Santos 1 ; M. L. R. Silveira 1 ; N. S. P. S. Richards 1 ; C. K. Sautter 1 1 Universidade Federal de Santa Maria, Departamento de Tecnologia e Ciência de Alimentos. E-mail para contato: clarissa_obem@hotmail.com RESUMO Ultimamente estudam-se as ervas aromáticas e especiarias para tratamento e prevenção de doenças, tornando o uso destas em alimentos uma fonte importante destes benefícios. A erva-mate é uma espécie nativa da Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai com papel socioeconômico e cultural. Apresenta compostos bioativos como fenólicos que são antioxidantes e metilxantinas (cafeína, teobromina e teofilina) com ação estimulante. O gengibre tem ação farmacológica, sendo os maiores benefícios atribuídos à solução de distúrbios gastrointestinais. O objetivo deste estudo foi avaliar o teor de compostos fenólicos e capacidade antioxidante de extratos aquosos de matérias-primas para elaboração de geleias de erva-mate com gengibre. O delineamento experimental foi inteiramente casualizado com nove tratamentos e três repetições. Na formulação dos extratos utilizou-se infusão aquosa de erva-mate (3%), gengibre em pó (0,1 e 0,4%) e açúcar (60 e 80%). Determinaramse compostos fenólicos por Folin Ciocalteu e a capacidade antioxidante por DPPH. Os extratos de erva-mate elaborados com 60% de açúcar e 0,1 e 0,4% de gengibre demonstraram elevados teores de compostos fenólicos (838,9±48,3 e 785,6±58,0 mg EAG L -1 ). Os extratos apenas com gengibre (0,1 e 0,4%) apresentam baixo teor de fenólicos, no entanto apresentaram alta capacidade antioxidante, com EC 50 de 0,33±0,05 e 0,84±0,03mL extrato. A adição de gengibre na elaboração de geleias de erva-mate contribui para a capacidade antioxidante. 1. INTRODUÇÃO A erva-mate (Ilex paraguariensis St. - Hil) pertence à família Aquifoliaceae e é uma espécie nativa das regiões temperadas e subtropicais da América do Sul, cultivada principalmente na Argentina, Paraguai e Brasil, sendo neste amplamente difundida nos estados da região sul (ESMELINDRO et al., 2002). A erva-mate possui inúmeras aplicações, sendo o chimarrão e os chás os produtos mais difundidos, embora possa ser utilizada como ingrediente na elaboração de refrigerantes, sucos, cervejas e vinhos, corante e conservante natural de alimentos e em sorvetes, Área temática: Engenharia e Tecnologia de Alimentos 1

balas, gomas, bombons e caramelos (CORRÊA et al., 1999). As substâncias bioativas que têm despertado maior interesse em pesquisas com a erva-mate são os compostos fenólicos e a cafeína, sendo os principais compostos fenólicos encontrados na erva-mate o ácido cafeíco, a rutina e os derivados dos ácidos clorogênicos com propriedades antioxidantes (PARANÁ, 2000). Os compostos fenólicos e metilxantinas são produtos naturais, conhecidos como metabólitos secundários produzidos pelos vegetais, apresentando funções ecológicas importantes como proteção contra herbívoros e patógenos (DUTRA, 2009). Por muito tempo as metilxantinas foram consideradas os principais compostos de interesse encontrados na erva-mate, sob o ponto de vista farmacológico e terapêutico, sendo a cafeína um dos constituintes mais estudados (ESMELINDRO et al., 2002). Atualmente, os compostos fenólicos são os constituintes de maior interesse, por apresentarem propriedades benéficas à saúde, atuando como antioxidantes naturais (BRAVO et al., 2007). O gengibre (Zingiber officinale) é uma das especiarias mais importantes e valorizadas no mundo, sendo uma planta de alto potencial terapêutico em diversas patologias. É uma planta herbácea, da família das Zingiberacea, nativa da Índia, não apresenta raízes, e sim, numerosos rizomas, dos quais são extraídos elementos resinosos bastante aromáticos e de gosto picantes (FILHO e MURTA, 1999). Os principais compostos presentes no gengibre são os óleos essenciais constituindo-se em torno de 1 a 3 %, sendo encontrado principalmente o d-canfeno, felandreno, zingibereno, cineol, citral, borneal, gingerol e resina (OLIVEIRA e AKISUE, 2003). Estudos mostram que o gengibre é utilizado no combate de algumas doenças e perturbações da saúde, mas a principal propriedade farmacológica atribuída a essa planta é no combate de problemas gastrointestinais, como náuseas, vômitos, dores de estômago, diarreia, flatulência e úlceras gástricas (CONCEIÇÃO, 2013). Na indústria de alimentos, o principal emprego dos produtos destes rizomas, ocorre como matéria prima em diversas formulações de molhos, sopas, embutidos e em produtos de padaria e confeitaria, como pães, bolos, biscoitos e geleias (LUCIO, 2010). Considerando as inúmeras aplicações da erva-mate e do gengibre, este estudo tem como objetivo avaliar o teor de compostos fenólicos e a capacidade antioxidante a partir da elaboração de extratos aquosos de geleia de erva-mate com gengibre em diferentes concentrações de sacarose e gengibre em pó. 2. MATERIAL E MÉTODOS 2.1. Delineamento experimental O delineamento experimental foi inteiramente casualizado com nove tratamentos com três repetições. 2.2. Formulações dos extratos de erva-mate e gengibre Área temática: Engenharia e Tecnologia de Alimentos 2

As amostras de erva-mate moída grossa do tipo chimarrão foram cedidas pela Indústria e Comércio de Erva-mate Santiago LTDA (Santiago RS), embora a matéria-prima para a produção de erva-mate nativa tipo chimarrão seja proveniente do município de Cruz Machado PR. O gengibre em pó utilizado foi adquirido no comércio local do município de Santa Maria RS. Realizou-se uma infusão aquosa da erva-mate moída grossa tipo chimarrão (30 g L -1 ), mantida em ebulição por 3 minutos e após filtrada em algodão. Com os ingredientes utilizados para a elaboração de geleia de erva-mate condimentada com gengibre, foram elaborados nove extratos aquosos para avaliar o teor dos compostos fenólicos e da capacidade antioxidante, além do possível interferente açúcar, conforme descrito na Tabela 1. Para a elaboração destes extratos, todos os ingredientes foram pesados e adicionados em erlenmeyers de 250 ml, posteriormente adicionou-se água destilada ou infusão de erva-mate, de acordo com o extrato a ser elaborado. A extração ocorreu em sistema de banho-maria fechado com agitação constante, a uma temperatura de 100 ºC durante 15 minutos, simulando as condições de tempo e temperatura necessários para atingir 63º Brix. Durante este processo, os erlenmeyers permaneceram herméticos com plástico filme. Após o período de cocção, os extratos foram filtrados em papel filtro e acondicionados em frascos de vidro âmbar de 50 ml e armazenados em temperatura de refrigeração (4 ºC) até o momento das análises. Tabela 1 Ingredientes utilizados para a elaboração dos extratos. Ingredientes Extratos I II III IV V VI VII VIII IX Água destilada (ml) 150 150 - - - - - - - Infusão de erva-mate (ml) - - 150 150 150 150 150 150 150 Açúcar (g) Gengibre em pó (mg) - - - - - 90 120 90 120 - - - - - (60%) (80%) (60%) (80%) 150 600-150 600 150 150 600 600 (0,1%) (0,4%) - (0,1%) (0,4%) (0,1%) (0,1%) (0,4%) (0,4%) 2.3. Compostos Fenólicos A determinação da concentração dos compostos fenólicos nos extratos de erva-mate elaborados foi realizada por meio da reação de oxirredução com reagente de Folin Ciocalteu o qual reage com as hidroxilas presentes nos polifenóis. As leituras em triplicata da absorbância foram realizadas em espectrofotômetro (FEMTO 600 plus ) em comprimento de onda de 765 nm, conforme o método de Singleton e Rossi (1965). Utilizou-se como padrão o ácido gálico, nas concentrações de 2; 4; 6; 8 e 10 μg ml -1 para construir a curva de calibração (y = 16,63x Área temática: Engenharia e Tecnologia de Alimentos 3

0,3215; R 2 = 0,9877 ) e os resultados obtidos foram expressos em equivalentes de ácido gálico (mg L 1 EAG). 2.4. Capacidade Antioxidante Para avaliar a capacidade antioxidante dos extratos de erva-mate foi utilizado o método DPPH (2,2-difenil-1-picrilhidrazila), segundo Brand-Williams et al. (1995). O método DPPH baseia-se na desativação do radical DPPH (2,2-difenil-1-picril-hidrazil) por antioxidantes produzindo um decréscimo da absorbância a 517 nm que pode ser detectado por espectrofotometria. Os resultados foram expressos em EC50, concentração de amostra capaz de remover 50% o radical livre DPPH (EC 50 ml de extrato). 2.5. Análise estatística Todas as análises foram realizadas em triplicata e os resultados foram submetidos à análise de variância (ANOVA), seguido do teste de Tukey (p < 0,05), com auxílio do programa Statistic versão 9.0. 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO As análises dos compostos fenólicos e da capacidade antioxidante nos diferentes extratos aquosos com adição de erva-mate, gengibre e açúcar forneceram os resultados apresentados na Tabela 2. Observou-se que os extratos VI e VIII com maior concentração de açúcar (60%) apresentaram os maiores valores de compostos fenólicos 838,89 e 785,60 mg L -1 EAG, respectivamente. Este ingrediente pode ter interferido no método, pois os açúcares possuem hidroxilas (OH) que podem ter sido quantificadas como compostos fenólicos, já que reagem com o tungstato de sódio e o molibdênio presente no reagente de Folin Ciocalteu. Assim, os extratos III, IV e V, elaborados somente com infusão de erva-mate; e infusão de erva mate e gengibre em pó nas concentrações 0,1 e 0,4%, respectivamente, apresentaram resultados mais representativos para os compostos fenólicos. Área temática: Engenharia e Tecnologia de Alimentos 4

Tabela 2. Teores de compostos fenólicos e capacidade antioxidante nos extratos elaborados com os ingredientes utilizados para formulações de geleia de erva-mate com gengibre. Extratos Compostos fenólicos DPPH* (mg L -1 EAG) (EC 50 ml extrato) I 3,64 ±0,40 d 332,77 ±54,28 B II 8,83 ±0,83 d 841,41 ±34,25 B III 727,95 ±20,38 abc 2240,01 ±237,37 A IV 666,83 ±5,20 bc 1761,99 ±169,33 A V 764,32 ±21,01 ab 2014,48 ±61,63 A VI 838,89 ±48,27 a 2013,24 ±29,29 A VII 619,08 ±33,94 c 1983,91 ±59,23 A VIII 785,60 ±58,01 ab 2344,44 ±479,09 A IX 656,33 ±89,01 bc 1833,66 ±31,43 A *2,2-difenil-1-picrilhidrazila. Letras minúsculas diferentes na mesma coluna correspondem a diferenças significativas entre os noves tipos de extratos com os ingredientes utilizados para formulações de geleia de erva-mate com gengibre analisados, pelo teste de Tukey (p<0,05) n = 3. Os extratos aquosos I e II, elaborados com 0,1 e 0,4% de gengibre em pó apresentaram a maior capacidade antioxidante, pois foram suficientes para inibir 50% do agente oxidante 2,2- difenil-1-picrilhidrazila, diferindo estatisticamente dos demais extratos. No entanto, tal propriedade está correlacionada a outros compostos não fenólicos, pois estes mesmos extratos apresentaram os menores teores de compostos fenólicos (Tabela 2). O extrato V com adição de 0,4 % de gengibre em pó e infusão de erva-mate apresentou o terceiro maior valor de atividade antioxidante, apesar de não diferir estaticamente dos demais extratos isso mostra que a erva-mate e o gengibre em pó são fontes de antioxidantes. Rodrigues e Lira (2013) analisaram o conteúdo de polifenóis em extrato hidroalcoólico com etanol a 70 ºC por sete dias do rizoma do gengibre a 25% (Zingiber officinale), e encontraram o valor de 1,5 mg L -1 EAG. De acordo com os autores, este valor estaria relacionado com a presença de baixas concentrações de taninos. Comparando-se os resultados obtidos neste estudo com os de Rodrigues e Lira (2013), os extratos analisados com 0,1% e 0,4% de gengibre em pó, em meio aquoso extraíram os compostos fenólicos com maior eficiência, apresentando valores de 3,6 a 8,8 mg L -1 EAG. Essa diferença deve-se possivelmente a extração ser em temperatura elevada (100 ºC/15 min.). Poucos trabalhos utilizam erva-mate como matéria prima na produção de alimentos. Berté et al. (2011) obtiveram um extrato aquoso de erva-mate na proporção de 10:100 (m/v) sob aquecimento a 85 ºC durante 30 minutos, e após submetido à secagem em spray dryer para obtenção do extrato de erva-mate em pó com maior concentração de compostos bioativos em relação às folhas. Este extrato foi utilizado para formulações de sete gelatinas funcionais com diferentes tipos e proporções de fibra alimentar e para analisar o teor dos compostos fenólicos (ácido cafeíco, 5-CQA e rutina) em sistema de cromatografia a líquido de alta eficiência (CLAE). Os compostos fenólicos quantificados apresentaram um valor médio de 88,52 mg para 100 g de sobremesa de gelatina preparada Área temática: Engenharia e Tecnologia de Alimentos 5

4. CONCLUSÃO A geleia de erva-mate é uma inovação tecnológica que pode trazer efeitos benéficos à saúde do consumidor. Os resultados deste estudo evidenciam que o extrato de erva-mate é fonte de compostos fenólicos totais e o gengibre em pó contribui para elevar a capacidade antioxidante da geleia. 5. AGRADECIMENTO Os autores agradecem a Indústria e Comércio de Erva-mate Santiago LTDA pelo fornecimento do material vegetal. 6. REFERÊNCIAS BERTÉ, K. A. S.; IZIDORO, D. R.; DUTRA, F. L. G.; HOFFMANN-RIBANI, R. Desenvolvimento de gelatina funcional de erva-mate. Ciênc. Rural, v.41, p.354-360, 2011. BRAND-WILIAMS W.; CUVELIER M. E.; BERSET C. Use of a free radical method to evaluate antioxidant activity. Food. Sci. Technol., v. 28, p. 25-30, 1995. BRAVO, L.; GOYA, L.; LECUMBERRI, E. LC/MS characterization of phenolic constituents of mate (Ilex paraguariensis, St. Hil.) and its antioxidant activity compared to commonly consumed beverages. Food Res. Int., v. 40, p. 393-405, 2007. CONCEIÇÃO, S.F.S.M et al. Efeitos do Gengibre, do Alho e do Funcho na Saúde. Dissertação (Mestrado) - Universidade Fernando Pessoa, Faculdade Ciências da Saúde, Mestre em Ciências Farmacêuticas, p.4-7, Porto, 2013. CORRÊA S.; KIST B.B.; QUINTANA. Anuário Brasileiro da Erva-Mate. Santa Cruz do Sul, RS: Grupo de Comunicações Gazeta; p.53-55. 1999. DUTRA, F.L.G. Compostos Fenólicos e Metilxantinas em Erva-Mate Armazenada em Sistemas de Estacionamento Natural e Acelerado. Dissertação (Mestrado) Universidade Federal do Paraná, Setor de Tecnologia, Curso de Pós-Graduação em Tecnologia de Alimentos. Curitiba, 2009. ESMELINDRO, M. C.; TONIAZZO, G.; WACZUK, A.; DARIVA, C.; OLIVEIRA, D. Caracterização físico-química da erva-mate: Influência das etapas do processamento industrial. Ciênc. Tecnol. Aliment., Campinas,SP, v. 22, p. 193-204, 2002. FILHO, A.Z.; MURTA, A.L. Extração do óleo e resinas de gengibre encontrado no litoral paranaense. B. CEPPA, Curitiba, PR: v.17, p.211-228, 1999. Área temática: Engenharia e Tecnologia de Alimentos 6

LUCIO, I. B. Caracterização da inflorescência de gengibre orgânico (Zingiber officinale Roscoe) e sua utilização como alimento. Tese (Doutorado) - Universidade Federal do Paraná, Setor de Tecnologia, Curso de Pós-Graduação em Tecnologia de Alimentos. Curitiba, 2010. OLIVEIRA, F.; AKISUE, G. Fundamentos de Farmacobotânica. São Paulo: Editora Atheneu, 2003. PARANÁ. Produtos Alternativos e Desenvolvimento da Tecnologia Industrial na Cadeia Produtiva da Erva-Mate. Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Erva-Mate, Curitiba, PR: Série PADCT III, nº 1, p.160, 2000. RODRIGUES, M. L.; LIRA R. K. Perfil fitoquímico e biológico do extrato hidroalcoólico dos rizomas do gengibre (zingiber officinale roscoe). SaBios: Rev. Saúde e Biol., v.8, p.44-52, 2013. SINGLETON, V. L.; ROSSI J.A. Colorimetry of phenolics with phosphomolybdic-phosphotungstic acid reagents. Am. J. Enol. Vitic., v. 16, p. 144-58, 1965. Área temática: Engenharia e Tecnologia de Alimentos 7