Pº R.P. 71/2008 SJC-CT Aditamento a alvará de loteamento Ampliação de área de lote por redução da área do domínio público municipal Título para registo. DELIBERAÇÃO Relatório: O Município de. requisitou na 2ª Conservatória deste Concelho a alteração ao alvará de loteamento nº 1057, que havia sido emitido em 6 de Outubro de 199... A alteração cujo registo é peticionado está titulada no Aditamento àquele alvará, emitido em 15 de Outubro de 200 pela Câmara Municipal de, e dele consta que, nos termos do nº 7 do art. 27º do D.L. nº 555/99, de 16 de Dezembro, com a redacção dada pelo D.L. nº 177/01, de 4 de Junho, o Aditamento foi emitido em nome da Câmara Municipal de.e diz respeito à alteração do uso e área do lote 19 que, mantendo as componentes de comércio e serviços, passa a incorporar também habitação e equipamento, acrescendo ao referido lote 349,54m2 retirados à área cedida para o domínio público (arruamentos e passeios). O referido lote 19 está descrito na ficha nº 3004., com aquisição registada em nome do Município de (Ap. 27/981009) aliás, este lote foi cedido ao Município pelo loteador, no âmbito do processo do loteamento -, com a área de 4478m2, pelo que, em decorrência da alteração, o lote passou a ter a área de 4827,54m2. Por outro lado, os 18.137m2 que haviam sido cedidos para domínio público para arruamentos, estacionamentos, passeios e canteiros ajardinados (cfr. ficha nº 11., respeitante ao prédio objecto do loteamento, maxime a insc. F-1/Ap. 01/041198) foram reduzidos, também em consequência do acréscimo da área do lote 19, para 17.787,46m2. A alteração descrita foi aprovada por deliberação camarária de 1 de Outubro de 2007, e consta expressamente do Aditamento que foi cumprido 1
o disposto no nº 1 do art. 22º do RJUE não tendo sido apresentadas quaisquer reclamações, observações ou sugestões. O registo mereceu a qualificação de provisório por dúvidas, porque a alteração ao alvará de loteamento, apesar de necessária, não é título suficiente para se proceder à desafectação do domínio público da área de 349,54m2 cedidos para integrar o lote 19. Terá que ser apresentado um documento que titule essa desafectação do domínio público para o domínio privado. Do despacho de qualificação vem agora interposto o presente recurso hierárquico, cujos termos aqui se dão por integralmente reproduzidos. A Senhora Conservadora sustentou a qualificação minguante do registo peticionado, em despacho cujos termos também aqui se dão por integralmente reproduzidos. O processo é o próprio, as partes legítimas, o recurso tempestivo, a recorrente está devidamente representada, e inexistem questões prévias ou prejudiciais que obstem ao conhecimento do mérito. A posição deste Conselho vai expressa na seguinte Deliberação O Aditamento a alvará de loteamento que licenciou a alteração da operação de loteamento, que se traduziu na ampliação da área de um lote pertencente ao Município através da correspondente redução da área do domínio público municipal que tinha resultado do licenciamento inicial, é título bastante para o registo predial do facto 1 2. 1 - A controvérsia dos autos assenta na parcela de terreno com 349,54m2, que passou a domínio público municipal com o licenciamento da operação de loteamento e que, com o licenciamento da alteração, passaria a integrar o lote 19, de que é titular o Município. Se bem interpretamos o pensamento da Senhora Conservadora recorrida, expresso nos despachos de qualificação e de sustentação, o Aditamento ao alvará de loteamento não é suficiente para o registo do facto. Será ainda necessário que o Município proceda à prévia 2
desafectação dessa parcela do domínio público, que fará reingressar essa mesma parcela de terreno na titularidade do loteador, e ulteriormente o loteador terá que ceder por escritura pública o direito de propriedade sobre a parcela de terreno em causa ao Município, para o seu domínio privado, só então sendo viável executar o licenciamento da alteração com a ampliação da área do lote 19 e a redução correspondente da área do domínio público municipal. A recorrida invoca a seu favor os pareceres deste Conselho emitidos nos Pºs R.P. 160/2003 DSJ-CT, in BRN nº 2/2005, e R.P. 231/2004 DSJ-CT, in BRN nº 11/2004. Por seu lado, o recorrente entende que a alteração ao alvará é o título apresentado a registo e o que dele consta a tal respeito não deve ser objecto de dúvida, estando a recomposição dos lotes de terreno e rearranjo dos espaços públicos suficientemente documentados pela citada alteração ao alvará apresentada com o pedido de registo. Apoia-se o recorrente no parecer deste Conselho emitido no Pº 1/61 R.P. 95. É sobre esta controvérsia que teremos que nos pronunciar, ainda que perfunctoriamente. 2 - Como ensina Ana Raquel Gonçalves Moniz, in O Domínio Público, O Critério e o Regime Jurídico da Dominialidade, 2005, pág. 126 e nota 69 e pág. 393 e nota 232, apesar do que dispõe o nº 2 do art. 84º da nossa Constituição, relativamente ao domínio público autárquico não existe qualquer acto legislativo que individualize um conjunto de bens qualificados como dominiais. A própria Lei nº 169/99, de 18 de Setembro, alterada pela Lei nº 5-A/2002, de 11 de Janeiro, determina que compete à assembleia municipal, sobre proposta da câmara municipal, deliberar sobre a afectação (acto administrativo que coloca a coisa pública a desempenhar a função que justificou a sua sujeição pelo legislador a um regime específico de direito público, o regime jurídico-administrativo da dominialidade pública Autora e ob. citados, págs. 138/139), ou sobre a desafectação (acto administrativo através do qual a entidade administrativa, por imperativo de interesse público, desvincula o bem do destino a que o mesmo se encontrava adstrito por força da afectação Autora e ob. citados, pág. 155) de bens do domínio público municipal, nos termos da lei (cfr. Art. 53º, nº 4). Porém, como refere a Autora, «não encontramos qualquer acto legislativo que identifique os bens do domínio público municipal e estabeleça a respectiva regulamentação, no seguimento, aliás, do estabelecido pelo nº 2 do artigo 84º da Constituição» (cfr. citada nota 69). No que em especial tange às parcelas de terreno integradas no domínio público municipal por cedências, ao abrigo da lei, no âmbito dos loteamentos urbanos, cremos que, no ponto que ora afloramos, são pertinentes os comentários que integram a anotação de Fernanda Paula Oliveira ao Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo de 20.10.1999, in Cadernos de Justiça Administrativa nº 21, Maio/Junho 2000, págs. 47 e segs. (no âmbito do D.L. nº 448/91, de 29.11, mas que a Autora reconhece serem aplicáveis ao RJUE do D.L. nº 555/99, de 16.12). Basicamente, defende que «a cedência de parcelas de terrenos para o domínio público depende, necessariamente, da concreta operação de loteamento que se pretende levar a cabo, ou seja, do arranjo urbanístico que ela propõe para a zona», do que resulta que «sempre que se altere o arranjo urbanístico que resulta do licenciamento da operação de loteamento, pode deixar de se justificar o regime de protecção jurídica especial do domínio público para aquelas parcelas de terreno». Assim 3
sendo, entende a Autora que no procedimento de alteração a um alvará de loteamento, porque está em causa um novo arranjo urbanístico, «a aprovação da alteração ao alvará tem, num caso destes, como efeito a desanexação daquela parcela do domínio público». Cremos ter demonstrado, nos termos sobreditos, que, no caso dos autos, o Aditamento ao alvará de loteamento comprova a desafectação do domínio público da falada parcela de terreno com 349,54m2. Quais, então, os efeitos jurídicos que a desafectação provoca no estatuto jurídico da coisa, a concreta parcela de terreno com 349,54m2? Citamos a propósito Marcelo Caetano, in Manual de Direito Administrativo, Vol. II, 1994, pág. 896: «A noção de propriedade pública, acentuando que a coisa dominial pertence ao seu dono, embora sujeita a um regime de direito público, tem ainda a vantagem de permitir compreender como, intervindo uma desafectação ou desclassificação, essa coisa continua a pertencer em propriedade ao mesmo sujeito, agora noutro regime jurídico o do domínio privado». Precisamente com base neste entendimento, ensina o Mestre Seabra Magalhães: «Estamos, pois, perante um acto eminentemente declarativo que nem mesmo por ficção pode configurar qualquer relação transmissória e não supõe, por conseguinte, a pessoa do transmitente» (cfr. Formulário do Registo Predial, 1972, pág. 94). Não descortinamos, assim, como seja possível sustentar que a desafectação do domínio público da parcela de terreno em causa através do Aditamento ao alvará de loteamento tem como efeito o reingresso dessa parcela na esfera jurídica do loteador. Ainda que se defenda que ao acto administrativo de desafectação pode ser atribuída eficácia retroactiva [cfr. art. 128º, nº 2, a), do C.P.A.), ou que «o pedido de alteração de alvará de loteamento dá lugar a uma nova apreciação e reponderação de toda a solução urbanística, de modo que a aprovação deste novo loteamento não é um acto sobre acto, mas um acto sucessivo, que veio tomar o lugar do primeiro» (cfr. Acórdão do S.T.J. de 9/7/96, citado no também já citado Acórdão do mesmo Tribunal de 20.10.1999), daí não é possível partir para chegar à conclusão de que o licenciamento de alteração de operação de loteamento por si só tem como efeito a transferência do direito de propriedade (ou de quaisquer outros direitos reais) sobre as coisas (lotes ou parcelas, do domínio privado ou do domínio público) objecto de disciplina urbanística unitária (cfr., a título exemplificativo, o parecer emitido no Pº R.P. 267/2004 DSJ-CT). Assentemos, nos termos expostos, que a desafectação do domínio público da referida parcela de terreno produziu o efeito da mudança de estatuto jurídico da coisa, que passou a integrar o domínio privado do mesmo sujeito, o Município de. Assim sendo, não tendo havido mudança de titularidade, não descortinamos qualquer obstáculo a que o Aditamento ao alvará de loteamento produza por si só o efeito da deslocação da parcela de terreno para o lote 19, também do domínio privado do Município, sendo, por isso, título bastante para o registo do facto. Ainda que se viesse a sustentar a nosso ver, ao arrepio do regime jurídico da reversão estabelecido no art. 45º do RJUE (cfr. Fernanda Paula Oliveira, op. cit., pág. 49, nota 13, no âmbito do D.L. nº 448/91), que não se aplicará quando a mudança de afectação das parcelas cedidas decorra do procedimento de licenciamento de alteração ao alvará de loteamento - que o cedente tinha direito de reversão da parcela de terreno desafectada do domínio público 4
Nos termos expostos, é entendimento deste Conselho que o recurso merece provimento. Deliberação aprovada em sessão do Conselho Técnico de 18 de Dezembro de 2008. João Guimarães Gomes de Bastos, relator. Esta deliberação foi homologada pelo Exmo. Senhor Presidente em 21.12.2008. através do Aditamento ao alvará de loteamento, nem por isso, a nosso ver, o registo do facto poderia ser inviabilizado pelo conservador, dada a natureza potestativa do direito de reversão. Nesta conformidade, deve o conservador, na dependência do registo da alteração (que a recorrida decidiu lavrar por inscrição, ao arrepio do entendimento firmado no citado parecer emitido no Pº R.P. 267/2004, o que eventualmente configurará um simples erro na forma do registo), averbar à descrição do lote 19 a nova área (ampliada), sem necessidade sequer de qualquer averbamento de desanexação do prédio objecto do loteamento (cfr. parecer emitido no Pº R.P. 13/2000 DSJ-CT, in BRN nº 7/2000, pág. 43). 5