RESUMO ELEMENTOS GEOGRÁFICOS EM UM CONTO 56 Bruno Novaes de Andrade Acadêmico - Geografia - UNESPAR/Paranavaí 12brunoonho@gmail.com Maísa Cardoso (orientadora) Prof a. Me. - Col. Letras - UNESPAR/Paranavaí profmaisa2009@hotmail.com O presente artigo tem como objetivo mostrar a importância de se analisar obras literárias para desenvolver o conhecimento da Geografia. Este artigo focará especificamente no conto literário Passeio Noturno de Rubem Fonseca, com a intenção de mostrar como uma história pode ser utilizada para análises de categorias geográficas. Como consideramos que Os estudos geográficos realizados a partir da análise de textos literários já constituem uma linha de pesquisa consolidada na Geografia internacional (...) (BARCELLOS, apud SOUZA, 2009, p. 244), buscamos contribuir também fazendo este diálogo entre algumas categorias literárias e geográficas, de modo interdisciplinar por meio de duas matérias Geografia e Língua Portuguesa. Palavras-Chave: Categorias Geográficas, Interdisciplinaridade, Texto Literário. INTRODUÇÃO Nós, como geógrafos ou envolvidos com a Geografia, observamos em artigos a relevância de textos literários para a Geografia internacional e, ao mesmo tempo, a pouca relevância para a Geografia que é feita no Brasil. Baseados nisso, temos o intuito de enriquecer nossa geografia cultural já que cremos na seguinte citação o objeto de estudo geográfico deveria dar uma importância maior ao lugar e à relação que os indivíduos estabelecem com ele (BARCELLOS, citado por SOUZA 2009, p. 245). Desse modo, desejamos propor a análise do conto Passeio Noturno de Rubem Fonseca, procurando mostrar a possibilidade real de fazer Geografia com estes elementos literários.
MATERIAIS E MÉTODOS 57 Utilizamos como material para este artigo o conto literário de Rubem Fonseca intitulado de Passeio Noturno, o método de avaliação que utilizamos foi, primeiro observar as categorias gramaticais espaço e tempo, delimitando-as teoricamente. Depois disso, fazer a identificação desses elementos geográficos no texto em questão. A escolha do conto se deu porque se trata de uma literatura instigante e que pode ser usada em salas de Ensino Médio. DESENVOLVIMENTO Segundo Correa (1982, p.25), espaço é a superfície de terra enquanto morada, potencial ou de fato, do homem sem o qual tal espaço não poderia sequer ser pensado. Boudeville (1957 apud SERRA, 1984) afirma que a noção de espaço está relacionada aquele que o pensa, sendo possíveis diferentes visões. Pode ser o contorno, a lei ou o objetivo, por exemplo. Em princípio, o espaço foi definido geograficamente, porém depois se observa a noção de espaço econômico, sendo este elemento sendo visto mais complexo e multidimensional (SERRA, 1984). Braga (2007) afirma que o espaço seria essa coabitação de homem e natureza e é prenhe de intencionalidade (já que depende da vontade do homem). MOREIRA (1982 apud BRAGA,2007) entende o espaço geográfico como estrutura de relações sob determinação do social; é a sociedade vista com sua expressão material visível, através da socialização da natureza pelo trabalho. É uma totalidade estruturada de formas espaciais. Observa-se a importância do conceito de formação econômicosocial, que na opinião do autor abarca as classes dominantes e o modo de produção.
O enfoque é mudado por Milton Santos na abordagem do espaço geográfico do Estado e do território para os lugares. O espaço geográfico para Milton Santos é a forma conteúdo de base sartreana, onde as formas não existem por si só, mas são significadas através da ação humana em relação ao seu entorno. O espaço é o império da técnica, dos tempos diferenciais, rápidos para uns e lentos para outros. O espaço geográfico também é o cotidiano, o espaço banal de todos nós, carregado de símbolos e significações. Ainda em Santos (1979), o espaço pode ser definido pelo conjunto de lugares compreendidos como porções do espaço produtivo e de consumo. Barrios (1986 apud BRAGA, 2007) vai dizer que o espaço é resultado da produção humana, apresentado em três níveis: econômico, cultural simbólico e político. Braga (2007) conclui que o espaço geográfico é o contínuo resultado das relações sócio - espaciais. Mas e tempo? Como fica na Geografia? Pode-se definir tempo nas palavras de Santo Agostinho: se me perguntam se eu sei o que é, respondo que sim; mas se me pedem para defini-lo, pondo não sei. Procurando elucidar um pouco mais esta questão, entende-se que o tempo está ligado intimamente ao espaço geográfico, espaço é onde se desenvolve as ações, pois este é tudo que está sobre a superfície da terra sendo vulnerável a ação do tempo e das pessoas (SERRA, 1984, pág. 01). Assim, os espaços ditos geográfico e econômico seriam definidos pela dosagem de tempos de ritmos de deslocamentos (...) tempo não seria mais que uma datação e uma escala cronológica de eventos ou de realizações materiais (SERRA, 1984, pág. 14). 58
RESULTADOS E DISCUSSÃO 59 Após a leitura e análise do conto a luz da teoria geográfica já explicitada, podese realizar a seguinte discussão. O desenvolvimento do conto se dá em dois espaços distintos e que se complementam: o primeiro é a casa do personagem que, ao chegar, encontrou sua mulher bebendo vinho e jogando paciência. Esta o convidou para beber vinho também, porém ele não aceitou e foi para a biblioteca da casa onde, como de costume sentou-se e não fez nada. Aqui já se estabelece uma relação de tempo com o social quem neste Brasil pode ter um espaço como uma biblioteca em casa? Ora, neste contexto, observa-se a relação social com o contexto do espaço, marcase uma família de classe alta. Assim, o aspecto espacial não é só espacial, mas revela questões sociais de desigualdade e de preconceito que, mais a frente, serão esclarecidas pela história. Então, como sempre fazia (relação temporal estabelecida) todos os dias, por volta do mesmo horário, infere-se, portanto - o personagem resolve sair de carro à noite (marcação temporal ligada ao espaço), pois como, depois de convidar sua mulher (já sabendo que esta não iria, pois era horário da novela marca temporal que limitaria a sua ida). Saindo de casa, teve que tirar o carro dos filhos da garagem (novamente percebe-se o tempo e o espaço atrelados: a garagem apertada e os movimentos repetidos de retirar os carros dos filhos ligação entre espaço e tempo ele tinha um horário e o espaço o limitava e isto o deixou levemente irritado. Ressaltando novamente a ênfase ao lugar social do conto por meio do espaço, pois os carros dos filhos apertavam o espaço, ou seja, família de ótimo nível social em que cada membro deles pode ter um carro. Nas ruas, espaço urbano, espaço de violência muitas vezes, espaço da pressa... andando e sentindo a potência de seu motor, ficou tenso pensando em
quem seria a vítima perfeita e, ao sair da Avenida Brasil, que julgou muito movimentada, chegou a uma rua mal iluminada e cheia de árvores escuras, era perfeito, mas seria homem ou mulher? Então ele viu uma mulher caminhando na calçada, havia árvores de 20 em 20 metros o que exigia perícia, mas ele apagou a luz do carro e acelerou para cima da mulher que só percebeu o carro ao ver a borracha do pneu na calçada e foi atropelada ficando espichada no muro enquanto seu assassino voltava para casa orgulhoso de seu feito. Percebe-se a ironia do narrador por meio do espaço: o personagem narrador sai de sua casa nobre localizada em bairro igualmente nobre e então escolhe assassinar alguém em um bairro da periferia, metaforizando a luta de classes em que o pobre é sempre subjugado pelo rico. Ora, questões ideológicas de crítica social podem se desvendar ao analisar o espaço deste conto. O tempo na estória está intimamente ligado ao espaço, pois todas as marcas de tempo, a pressa, o pensamento acelerado, o jantar da família, o andar de carro pela cidade e depois pelo bairro e então a arrancada final se ligam aos espaços geográficos construindo uma história e uma representação de sociedade. A ironia de Rubem Fonseca é demostrada quando o narrador se sente confiante ao entrar em seu carro e também quando ele se sente confiante para matar a mulher na rua mal iluminada e não na avenida Brasil, calculando exatamente o lugar onde o carro baterá como também onde ela cairá. Observa-se: a rua mal iluminada um espaço que revela um lugar não atendido pelas políticas públicas de segurança ou de infraestrutura necessária, muito diferente do espaço frequentado pelo narrador assassino Por fim, percebe-se que a narrativa muda de ritmo e torna-se mais lenta ao final, uma vez que o tempo denota a calma produzida no narrador após ele se desestressar matando alguém em bairro pobre. 60
CONSIDERAÇÕES FINAIS 61 Consideramos que este artigo seja de uma contribuição para nós, geógrafos, e poderá incentivar a muitos cientistas da Geografia a pesquisar e discutir as categorias geográficas por meio do conto literário. Isso porque a história é atraente para os alunos, fazendo uso do conto, podemos tratar de categorias geográficas básicas, mas nem sempre simples. Como já mencionamos, isso já tem sido feito na Geografia internacional. Ressaltamos que tratamos de uma proposta de ensinoaprendizagem de Geografia que deve evitar interpretações erradas, sem a intenção de que as nossas definições de tempo e espaço sejam levadas ao extremo e consideradas como únicas, já que é impossível dar uma única definição para estes. No entanto, pode-se afirmar que o tempo e o espaço na Geografia revelam muito mais que aspectos físicos e temporais. Denotam questões ligadas à cultura, ao social aos aspectos sócio históricos da história vivenciada, o que pode proporcionar a construção de leitores críticos de Geografia e de mundo. REFERÊNCIAS BRAGA, Rhalf Magalhães. O Espaço geográfico: um esforço de definição. GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, n. 22, p. 65-72, 2007. CORREA, Roberto Lovato. O espaço geográfico: algumas considerações In:. Novos rumos da geografia brasileira. São Paulo: Hucitec, 1982, p. 25-49. FONSECA, Rubem. Passeio noturno, parte I In:. 64 contos de Rubem Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
SERRA, Elpídio. Noções de espaço e tempo em geografia. Maringá, 1984. p.1 62 SOUZA, M. D. Geografia e cultura, o espaço em prosa, mapa literário e imaginação. Curitiba, 2009. p. 244-245.