TRAUMATOLOGIA FORENSE PESQUISA CRIMINALÍSTICA Rogéria M. Ventura, PhD Biomedicina FMU 1
I. CONCEITOS Traumatologia forense é o ramo da Medicina Legal que estuda a ação de uma energia externa sobre o organismo do indivíduo, ou seja, estuda as lesões traumáticas. Lesão corporal é "toda e qualquer ofensa ocasional à normalidade funcional do corpo ou organismo humano, seja do ponto de vista anatômico, seja do ponto de vista fisiológico ou psíquico" (Nelson Hungria). Basicamente, a lesão corporal é constituída pelo contato súbito de agente que ofereça maior força do que a resistência do corpo ou tecido, gerando perda de tecidos de continuidade com ruptura ou não de vasos sanguíneos e linfáticos. As lesões corporais são, portanto, vestígios deixados pela ação da energia externa ou agente vulnerante. Podem ser fugazes, temporárias ou permanentes. Podem também ser classificadas em superficiais ou profundas. II. AGENTES VULNERANTES Os diversos tipos de energias ou agentes vulnerantes são classificados, conforme sua natureza em: - Meios mecânicos (ou instrumentos); - Meios físicos (energia térmica, elétrica, luminosa, sonora, radiação ionizante, pressão atmosférica); - Meios químicos (substâncias cáusticas ou corrosivas, venenos); - Meio físico-químico (asfixia); - Meio bioquímico (inanição). III. PRINCIPAIS INSTRUMENTOS VULNERANTES Os diversos meios mecânicos ou instrumentos vulnerantes são os principais causadores de lesões corporais. Estes instrumentos estão classificados segundo a sua forma de atuação em: a) Instrumentos perfurantes: atuam pelo afastamento dos tecidos em torno de um ponto que avança no sentido da profundidade. Ex: Adaga, agulha, flecha, etc; b) Instrumentos cortantes: atuam pelo deslizamento de uma lâmina sobre uma linha, seccionando os tecidos. Ex. lâmina de barbear, bisturi; c) Instrumentos contundentes: atuam pela pressão exercida sobre uma superfície pelo seu peso ou energia cinética de que estejam animados, esmagando os tecidos e rompendo vasos sanguíneos e linfáticos locais. Causam contusão. Ex: porrete, solo, pedra arremessada; 2
d) Instrumentos corto-contundentes: associam os mecanismos de ação dos instrumentos cortantes e contundentes. Ex. facão, enxada, machado; e) Instrumentos perfuro-contundentes: associam os mecanismos de ação dos instrumentos perfurantes e contundentes. Ex. projétil de arma de fogo. f) Instrumentos perfuro-cortantes: associam os mecanismos de ação dos instrumentos perfurantes e cortantes. Ex. Punhal, espada, etc. IV. LESÕES GERADAS POR INSTRUMENTOS VULNERANTES Cada tipo de agente vulnerante registra sua ação no corpo, deixando impressas suas características. Os principais tipos de lesão traumática são: a) Lesões contusas ou contundentes - Frutos da ação dos instrumentos contundentes. As feridas contusas, em geral, apresentam bordos irregulares e não coaptantes, margens contundidas, fundo irregular com pontes de tecido íntegro entre as vertentes, hemorragia difusa e pouco intensa, cicatriz larga e irregular dependendo da forma do agente vulnerante utilizado. Entre estas lesões encontramos: a.1. Equimose - infiltração hemorrágica dos tecidos, sem formar coleções, mas interpenetrando na malha tissular. Reveste-se de particular importância, pois sua forma, com freqüência, denuncia o instrumento e sua coloração é precioso indicador da idade da lesão (espectro equimótico), conforme descrito na tabela abaixo. Espectro equimótico Tempo para surgimento da cor cor vermelho escura minutos à horas cor negra ou arroxeada 2 a 3 dias cor azulada 3 a 6 dias cor esverdeada 6 a 10 dias cor verde amarelada 10 a 15 dias cor amarelada 16 a 20 dias a.2. Hematoma - coleção líquida sanguínea na intimidade de tecidos moles. A contusão representada pelo hematoma é mais profunda do que a equimose. Seu tempo de reabsorção é muito variável, dependendo fundamentalmente das dimensões. 3
a.3. Bossas sanguíneas ou linfática e hemática - coleção líquida de linfa ou sangue entre tecidos cutâneos, tecidos moles e plano ósseo. Reabsorve-se em 24 horas (bossa linfática) ou mais de 20 dias (bossa sanguínea). a.4. Escoriação - exposição da derme por remoção da epiderme. Não deixa cicatriz já que não há lesão da camada proliferativa da derme, mas pode ocorrer mancha hipocrômica (mais clara) transitória. Quando forma crosta (resultado da transudação de soro), esta costuma se destacar entre o 4º e 10º dias, na dependência da espessura de derme lesada. A reepitelização ocorre por volta do 15º dia. a.5. Lesões profundas - a mesma energia que lesa as estruturas superficiais do corpo humano, pode ser transmitida às estruturas profundas. Dependendo de sua intensidade, da resistência natural das estruturas profundas e da sua condição momentânea, fisiológica ou patológica, a energia transmitida pode ser suficiente para dar causa a lesões das estruturas profundas (fraturas ósseas, luxações, rupturas ou contusões de órgãos internos). b) Lesões incisas (feridas incisas ou cortantes) - bordos regulares e coaptantes, margens nítidas, fundo liso, hemorragia localizada e mais intensa, cauda finas e lisas, cicatriz delgada. O termo ferida incisa, embora seja a denominação mais correta para todas essas lesões, costuma ser reservado às feridas produzidas pelo cirurgião com finalidade terapêutica. Em criminalística, utilizamos com maior freqüência o termo lesão cortante. c) Lesões perfurantes - há marcado predomínio da dimensão profundidade sobre as dimensões de superfície (comprimento e largura). Sua forma é definida pelas linhas de força da pele do local e pelo calibre e forma do instrumento. Costuma ser circular, elíptica ou triangular. As dimensões na superfície são habitualmente menores que o calibre do instrumento, devido à elasticidade dos tecidos. Tal característica não se manifesta nas feridas produzidas nos cadáveres. d) Lesões perfuro-incisas ou perfuro-cortantes - produzidas por instrumentos que possuem ponta e gume como faca, punhal, lima, entre outros. Há predomínio da profundidade, em uma das extremidades, sobre a largura e comprimento. A superfície se traduz por uma fenda regular com uma extremidade arredondada e outra em ângulo agudo (no caso dos instrumentos de um só gume como as facas), duas extremidades em ângulo agudo (no caso dos instrumentos de dois gumes como os punhais) ou em forma triangular ou estrelada (no caso dos instrumentos com mais de dois gumes como as limas). 4
e) Lesões corto-contusas ou corto-contundentes - podem assumir os mais variados aspectos, mas têm como características constantes os bordos irregulares e contundidos, freqüentemente lineares. São as feridas geradas por ações mutilantes. As feridas com retalhos também são exemplos destas lesões. f) Lesões perfuro-contusas ou perfuro-contundentes - são as lesões tipicamente provocadas por projéteis de arma de fogo. Os projéteis de arma de fogo são animados por movimentos que determinam as características das lesões perfuro-contundentes. Um dos movimentos é o de rotação, exclusivo dos projeteis de armas de cano raiado, que consiste na rotação do projetil em torno de seu eixo longitudinal e que é responsável pela estabilidade da trajetória externa. As lesões produzidas pelo disparo de arma de fogo são decorrência de ação hidráulica ou explosiva do projétil, em conseqüência das ondas de choque que se propagam em função do elevado teor líquido dos tecidos do corpo atingido. Em uma lesão perfuro-contundente pode-se observar também um segundo mecanismo de lesão, que é a formação de projeteis secundários pela fragmentação do projetil ou pelo estilhaçamento de estruturas ósseas atingidas. Os disparos de armas de fogo podem gerar lesões do tipo: f.1. Tangenciais - que provocam apenas escoriações na área dérmica atingida; f.2. Perfurantes - que penetram e permanecem no corpo e f.3. Transfixantes - que apresentam orifício de entrada, trajeto da lesão (também vista na lesão perfurante) e orifício de saída. Alguns autores consideram as lesões perfurantes e transfixantes como uma só, sendo a perfurante considerada transfixante apenas com orifício de entrada e permanência do projétil em cavidade do corpo atingido. As lesões transfixantes com orifícios de entrada e de saída promovem a formação de lesões diferenciadas entre eles e ao longo do trajeto do projétil, conforme descrito abaixo: f. I. Ferida de entrada É a lesão produzida pelo projetil em sua penetração no corpo. Suas características são: - forma: circular quando o projetil incide perpendicularmente e habitualmente ovalada quando o faz obliquamente; - dimensões: diâmetro transverso menor que o calibre do projetil; 5
- bordos invertidos: os bordos da ferida habitualmente encontram-se voltados para dentro; - orla de contusão e enxugo: a ferida apresenta margens escoriadas e coradas por impurezas como óleo, resíduos de pólvora e outras carregados pelo projetil e das quais ele se limpa ao atravessar a pele; - orla de chamuscamento: área de queimadura da pele produzida pelos gases aquecidos expelidos pela boca da arma. Presente apenas nos tiros de curta distância ("queima roupa"); - zona de esfumaçamento: área da pele em que há deposição de fuligem expelida pela arma. Removível pela lavagem com água e presente apenas nos tiros de curta distância; - zona de tatuagem de pólvora: pequenas partículas de pólvora incombusta ou parcialmente queimada são expelidos pela arma, logo atrás do projetil e podem se incrustar na pele em torno do orifício de entrada. É um dos elementos mais úteis na determinação, pelo perito, da direção do tiro. Não é removível por lavagem e também só se faz presente nos tiros de curta distância; - câmara de mina ou buraco de mina: quando o disparo é feito com a boca da arma apoiada na pele, os gases e resíduos expelidos penetram pelo orifício feito pelo projetil. Os gases se expandem e retornam pelo mesmo caminho, dilacerando e revirando os bordos da ferida de dentro para fora. Tal fato confere ao ferimento um aspecto que lembra o solo revolto pela explosão de mina subterrânea. Logicamente, neste tipo de ferida, a zona de tatuagem de pólvora não será encontrada na superfície externa e sim na intimidade dos tecidos internos. A presença ou ausência dos elementos buraco de mina, chamuscamento, esfumaçamento e tatuagem de pólvora permitem classificar os tiros, quanto à distância com que são disparados, em: - tiro encostado (quando presente o aspecto em buraco de mina), -tiro próximo (quando presentes chamuscamento, esfumaçamento ou tatuagem de pólvora) e - tiro à distância (quando ausentes estes elementos). A distância que corresponde a cada um desses tipos de tiros varia em função da arma e da munição utilizadas, mas é relativamente fixa para a mesma arma e munição. Chega a um máximo de 70 cm para as armas civis. Há, porém que se considerar que a presença de vestes pode impedir a formação destes elementos na pele. 6
f. II. Trajeto do projétil É o caminho que une a lesão de entrada e a de saída ou o local onde o projetil se aloja. Pode ser penetrante, quando termina em fundo cego ou fundo de saco no qual se aloja o projétil ou transfixante quando presente lesão de saída. Nem sempre é retilíneo, podendo assumir as formas mais caprichosas em função dos desvios de direcionamento causados pelas variadas resistências oferecidas pelos tecidos que atravessa. Os desvios de trajeto são também função inversa da energia cinética do projetil, a qual depende de sua massa e velocidade. f. III. Ferida de saída É a lesão produzida pelo projetil em sua saída do corpo. Suas características são: - forma variada em função das deformações sofridas pelo projetil ao se impactar contra diversas estruturas internas; - dimensões maiores ou menores, dependendo do sítio de saída, que as do orifício de entrada também em função da deformação do projetil; - bordos evertidos ou seja, voltados para fora; - maior sangramento em função da eversão dos bordos. V. OUTRAS LESÕES E AGENTES VULNERANTES FÍSICOS E QUÍMICOS Os agentes físicos e químicos podem gerar as seguintes lesões traumáticas: V.1. Termonoses - resultado da ação do calor difuso e menos intenso. Pode ser insolação (por exposição ao sol) ou intermação (por outras fontes de calor). V.2. Queimaduras - resultado da ação de fonte localizada de calor intenso. São classificadas em: - 1º grau (caracterizada pela rubefação local fugaz e intensa dor); - 2º grau (caracterizada pela formação de flictemas ou bolhas sob a epiderme com perda líquida e da barreira natural de proteção contra a invasão bacteriana. Sua gravidade é função direta da extensão, sendo que quando superior a 50% da superfície corporal caracteriza por si só o perigo de vida); - 3º grau (caracterizada pela coagulação e destruição de derme, com perda de substância tecidual importante); - 4º grau (caracterizada pela carbonização dos tecidos profundos). V.3. Geladuras - lesões produzidas pela exposição a temperaturas extremamente baixas. V.4. Lesões elétricas - são chamadas, quando resultantes de eletricidade cósmica, fulguração (se há sobrevivência da vítima) ou fulminação (se resulta em 7
morte). Quando se trata de eletricidade artificial, usam-se os termos eletrocussão para o evento fatal e eletroplessão para o não fatal. V.5. Vitriolagem - Vitríolo era o nome empregado para o ácido sulfúrico. Atualmente o termo vitriolagem é empregado para todas as lesões causadas por substâncias cáusticas ou corrosivas. Esta lesão é similar à gerada por queimaduras de 2. o e 3. o grau. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS EÇA, A. J. Roteiro de Medicina Legal. Rio de Janeiro. Editora Forense, 2004. ESPÍNDULA, A. Perícia Criminal e Cível. Campinas, SP. Editora Millenium. 2.a Edição, 2006. FRANÇA, G. V. Medicina Legal. Rio de Janeiro. Editora Guanabara Koogan. 9.a Edição, 2011. LUIZ, C. Medicina Legal. São Paulo. Editora Campus. 2.a Edição, 2006. 8