Resistência e Corrente Elétrica



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Transcrição:

Nesta prática discutiremos os conceitos de resistência e corrente elétrica e sua relação com as propriedades microscópicas dos materiais. Veremos a origem das leis de Ohm atraés de um modelo de condução conhecido como modelo de Drude, que dá uma explicação microscópica para a resistência elétrica. Nos experimentos, inestigaremos como aria o potencial ao longo de um condutor e determinaremos a resistiidade elétrica do mesmo. Sempre que surgir uma dúida quanto à utilização de um instrumento ou componente, o aluno deerá consultar o professor para esclarecimentos. Quando for trocar a função de um multímetro, desconecte os fios, gire o botão e só então reconecte ao circuito. Lembre-se que as entradas para oltímetro e ohmímetro são diferentes das entradas para amperímetro. I. As Leis de Ohm Em 187, Georg Simon Ohm, físico e matemático alemão, publicou os resultados do que é hoje conhecido como as leis de Ohm. Nessa época, Ohm trabalhaa como professor de física e matemática numa escola colegial em Colônia, e usaa o laboratório da escola para experiências com circuitos elétricos, que eram uma noidade então (Volta haia desenolido a bateria eletrolítica poucos anos antes). Os resultados dessas experiências foram publicados no trabalho O circuito galânico inestigado matematicamente. Ohm descobriu que a corrente que atraessa um fio condutor é proporcional à diferença de potencial aplicada, à área da seção transersal do fio e inersamente proporcional ao comprimento. A proporcionalidade entre a corrente e a diferença de potencial obserada em alguns tipos de materiais é hoje conhecida como a primeira lei de Ohm, e os componentes que apresentam essa propriedade são chamados de ôhmicos. A razão V / I denota o quanto de tensão tem de ser aplicada para passar certa corrente em um dispositio de circuito. Assim, quanto maior for a dificuldade que o dispositio impõe a passagem da corrente, maior dee ser a tensão aplicada para estabelece um certo alor 1

de corrente. Logo dize-se que a razão V/I é uma medida da dificuldade imposta pelo dispositio à passagem da corrente elétrica e por isso é denominada de resistência elétrica (R). A unidade de resistência no SI foi denominada Ohm (Ω) em homenagem a Georg Simon Ohm. A formulação matemática dessa lei é: V = RI (1) Outra obseração feita por Ohm em seus experimentos foi que a resistência elétrica é proporcional ao comprimento do condutor e inersamente proporcional a área da seção transersal, o que ficou conhecido como a segunda lei de Ohm, o que pode ser escrita como: L R = ρ A () O coeficiente de proporcionalidade é conhecido como resistiidade, e é uma característica de cada material. A tabela 1 mostra a resistiidade de alguns deles. Tabela 1 resistiidade de alguns materiais. Obsere a diferença nas ordens de grandeza Material ρ (Ω.m) Material ρ (Ω.m) Prata 1,59. 10-8 Germânio 4,6. 10-1 Cobre 1,7. 10-8 Silício 6,4. 10 Alumínio,8. 10-8 Parafina 10 17 Os metais têm resistiidade da ordem de 10-8 Ω.m, enquanto os isolantes têm resistiidade superior a 10 10. A resistiidade dos semicondutores (como o germânio e o silício) encontra-se entre esses extremos. Uma grande inspiração para o trabalho de Ohm foi o trabalho de Fourier sobre a condução de calor, publicado anos antes. Fourier descobriu que a condução de calor entre dois pontos é proporcional à diferença de temperatura entre eles e a condutiidade térmica do meio que os separa. Fazendo a analogia, a corrente faz o papel do calor, o potencial faz o papel da temperatura e a resistência faz o papel do inerso da condutância térmica.

A tensão e a corrente são grandezas macroscópicas, que se referem a todo o condutor, e por esse motio as equações 1 e são também chamadas de lei de Ohm macroscópicas. Combinando as equações 1 e, podemos escreer: V L I = ρ A (3) Mas V / L é o campo elétrico que age sobre o condutor, e I / A é chamado de densidade de corrente, simbolizado por J. Logo: E = ρj (4) Essa equação é usualmente escrita em termos da condutiidade σ, que é o inerso da resistiidade: J = σ E (5) A densidade de corrente e o campo elétrico podem ser definidas à partir de características microscópicas e por isso a equação 5 é chamada de lei de Ohm microscópica. II. O modelo de Drude No final do século XIX, foi descoberto o elétron, partícula carregada que seria responsáel pelos fenômenos elétricos. Haia então necessidade de explicar os fenômenos usando a idéia do elétron, incluindo as leis de Ohm. Isso foi feito por Paul Drude em 1900. Da eletrostática sabia-se que o alor do potencial elétrico é o mesmo em todos os pontos de um condutor em equilíbrio eletrostático. Em outras palaras, nessa situação não há diferença de potencial entre dois pontos quaisquer de um metal eletrostaticamente carregado. No entanto, em um material condutor os elétrons mais externos aos átomos estão fracamente ligados aos núcleos. Deido à energia térmica, esses elétrons estão lires para se moer aleatoriamente ao longo do condutor (por isso 3

são chamados de elétrons de condução). Portanto, uma isão simplista de um material condutor, seria de um mar de elétrons lires em moimento aleatório deido às flutuações térmicas, e um conjunto de íons de fundo, proenientes dos átomos dos quais os elétrons de condução se originaram. Na presença de um campo elétrico, surge uma força sobre os elétrons lires, fazendo com que além do moimento aleatório eles possuam um moimento ordenado na direção do campo. Quando isso acontece, o condutor não está mais em equilíbrio eletrostático. Uma análise preliminar pode dar a impressão que sob a influência dessa força a elocidade dessas cargas aumentaria indefinidamente. Na erdade, isso não ocorre deido a colisões entre os elétrons de condução e os íons de fundo. Para descreer este mecanismo de condução podemos utilizar um modelo microscópico conhecido como modelo de Drude, cujas principais hipóteses são: i. Não há interação elétron-elétron ou elétron-íon no interalo entre as colisões; ii. As colisões ocorrem abruptamente e os íons não se moem; iii. Existe um tempo médio entre colisões ( t); i. Após cada colisão, o elétron perde a memória sobre sua trajetória e elocidade; Então amos assumir que um condutor de comprimento L (figura 1) está submetido a uma diferença de potencial V. A aplicação de V faz com que apareça um campo elétrico de intensidade E = V / L no condutor. Logo, um dado elétron de condução será submetido a uma força elétrica (F=-eE), sendo acelerado até atingir uma elocidade durante um tempo t. Então, podemos escreer que a ariação de elocidade atingida por esse elétron é: L Va a A b V b E I Figura 1 Condutor submetido à diferença de potencial 4

ee t m = ee = (6) t m A quantidade de carga que flui atraés da seção transersal do condutor pode ser escrita da forma Q = n(-e)a m t, onde n representa a densidade olumétrica dos elétrons de condução, e a carga do elétron, A a seção transersal do condutor, m a elocidade média de deslocamento dos elétrons e t o tempo decorrido. Logo a corrente elétrica que flui atraés do condutor pode ser escrita da forma: Q I = = nea t m (7) A elocidade média atingida pelo elétron é: m I = nea (8) É importante enfatizar que esse alor médio de elocidade é o alor da elocidade de arraste dos elétrons deido à aplicação do campo e não a elocidade indiidual dos elétrons, que é, sobretudo, determinada pela agitação térmica. Uma estimatia da elocidade adquirida pelos elétrons deido a agitação térmica pode ser feita considerando um teorema da Física estatística, (denominado Teorema da Equipartição da Energia), que estabelece que a cada grau de liberdade de translação dos elétrons contribui com k B T/ para a energia térmica dos mesmos (k B é denominada de constante de Boltzman e T é a temperatura). Assim, igualando a energia cinética média dos elétrons com a energia térmica, obtemos: 1 3 me = kbt (9) Onde m e é a massa do elétron e á a média do quadrado das elocidades dos elétrons. De onde tiramos que: 5

rms = = k T m 3 B e (10) rms é usualmente referido como alor quadrático médio da elocidade dos elétrons (do inglês root mean square). temperautre ambiente (300 K) e sabendo que 31 m e = 9,11 10 kg, obtemos que rms Fazendo um cálculo dessa elocidade em 3 kb 1, 38 10 J / K = e 5 = 1,17 10 m / s. De fato, esse alor é ainda maior quando se usa a mecânica quântica para fazer o cálculo. Neste caso o alor de elocidade obtido é conhecido como elocidade de Fermi, sendo o seu alor F 6 = 1,57 10 m / s. Para fim de comparação, amos estimar a elocidade média de arraste dos elétrons deido ao campo quando uma corrente de 1A atraessa um fio de cobre de 1 mm de raio. A densidade do cobre é de 8,9 g/cm 3 e sua massa atômica é de 63,5g o que diz que a massa de um mol de cobre é de 63,5 g. Como o número de átomos em um mol é dado pela constante de Aogadro N A = 6,0x10 3, o número de átomos por cm 3 no cobre é 8,9 6, 0 10 8, 46 10 atomos/cm 63,5 3 3 =. Considerando que cada átomos de cobre contribui com um elétron para a condução, temos que a densidade olumétrica de elétrons e 8 3 n = 8, 46 10 atomos/m. Assim, usando que a carga do elétron é de 19 = 1,6 10 C, temos, segundo a equação 8, que a elocidade média dos elétrons é: I nea 1 8, 46 10 1, 6 10 π 10 5 m = = =, 35 10 m / s = 8,5 cm / h 8 19 3 ( ) (11) Vemos então que a elocidade média de arraste dos elétrons deido ao campo é muito menor que a elocidade deido a agitação térmica. Da quarta hipótese, a elocidade de um elétron após uma colisão tem direção aleatória. No entanto, o que importa é o comportamento coletio dos elétrons, e não os comportamentos indiiduais. Assim, fazemos uma média de elocidades sobre todos os elétrons, que resulta que a elocidade após a colisão é nula ( i = 0). Assim, podemos escreer: 6

= = f f + i f m = = i f (1a) (1b) Logo, a ariação de elocidade que um elétron sofre ( na equação 6) é o dobro da elocidade média ( m na equação 8). Usando esse fato, escreemos: I ee = t nea m (13) E o tempo médio entre colisões pode ser estimado como: t = mi ne AE (14) Uma outra grandeza usualmente definida é o lire caminho médio l, que expressa a distância percorrida pelos elétrons entre colisões sucessias. Sabendo que o tempo médio entre colisões é t e que a elocidade térmica média dos elétrons é F o lire caminho médio pode ser calculado como: F mi l = F t = ne AE (15) O campo elétrico pode ser escrito em função da diferença de potencial E = V/ L, permitindo reescreer a equação acima da seguinte forma: V m L (16) I ne t A = Essa equação mostra que a diferença de potencial é proporcional à corrente, o que é dito pela primeira lei de Ohm. A resistência (razão entre tensão e corrente) é dada por: 7

R V m L (17) = I ne t A = A resistência elétrica é proporcional ao comprimento do condutor e inersamente proporcional à área da seção transersal, o que concorda com as obserações de Ohm. Comparando as equações 5 e 17, emos que: ρ m ne t = (18) O modelo de Drude fornece uma expressão para a resistiidade dos materiais (uma grandeza macroscópica) que depende apenas de grandezas microscópicas (a carga e a massa do elétron, a densidade de elétrons lires e o tempo médio entre colisões). Embora no tratamento acima tenhamos falado somente em elétrons de condução, podemos fazer o mesmo tratamento para íons (condução iônica) ou mesmo buracos (falta de elétrons). 8

Experimentos 1. Um condutor em forma de escada percorrido por corrente a) Neste experimento utilizaremos uma fita condutora de alumínio em forma de escada tal como mostrado na figura a. Inicialmente ocê deerá medir todas as dimensões (comprimento, espessura e largura em cada região). b) Monte o circuito indicado na figura b utilizando uma fita de alumínio e uma resistência R = 4,7 Ω e potência máxima de 5 W. Ajuste a fonte para obter uma corrente de aproximadamente 0,5 A (nessa situação, a potência dissipada no resistor será cerca de,5 W). c) Para cada uma das três regiões distintas, indicado por I, II e III na figura, meça 5 alores de tensão V em função do comprimento x (assuma V = 0 na extremidade da fita). d) Faça um gráfico da tensão em função do comprimento x, destacando as 3 regiões. Qual o comportamento obserado em cada região? (a) (b) I II III A R Corte transersal da fita e V x V H Figura (a) fita condutora de alumínio. (b) Circuito para estudar a tensão sobre a fita condutora. e) Analise o coeficiente angular da reta em cada uma das regiões do gráfico obtido no item anterior e explique o resultado com base nas áreas transersais da fita metálica. 9

f) Usando a expressão E = V / x, calcule o campo elétrico médio em cada uma das 3 regiões da fita. A partir da geometria da fita e da corrente I, calcule também a densidade de corrente J em cada uma das regiões. g) Com esses dados, Faá um gráfico em escala linear de E s. J, erifique a equação 5, e obtenha a condutiidade do material. Lembre-se que esse alor é o inerso da resistiidade. h) Usando o alor da resistiidade obtido, estime o tempo médio entre colisões. Estime também a elocidade média dos elétrons e o lire caminho médio. Como essas grandezas ariam quando a corrente aria? Como o lire caminho médio se compara com as distâncias interatômicas? Valor medido para a corrente: Resultados das medidas de tensão ersus posição em uma fita metálica em forma de escada. Região Posição Tensão Campo Elétrico Dens. de corrente Região I: Largura da Fita: Espessura da Fita: Região II: Largura da Fita: Espessura da Fita: Região III: Largura da Fita: Espessura da Fita: Resistiidade do Material: Calculada: Valor tabelado: 10

. Um condutor trapezoidal percorrido por corrente (opcional) a) Vamos usar agora uma outra fita metálica, com formato de trapézio (figura 3). Ligue os terminais da fita a um resistor de 4,7 Ω e ajuste a fonte de tensão para que a corrente na fita seja 0,5 A. d d 1 L Figura 3 Fita condutora de alumínio (experimento opcional) b) Meça todos os parâmetros geométricos da fita. c) Meça a tensão V em função do comprimento x ao longo da fita (assuma V = 0 na extremidade mais fina). Obtenha cerca de 15 pontos. Características geométricas da fita d 1 d L h I Resultados das medidas de tensão ersus posição em uma fita metálica em forma trapezoidal. Posição Tensão Posição Tensão 11

Para determinar a resistiidade da placa ocê precisará encontrar uma equação que descrea o perfil de tensão como função de x. Para isso, note que a área transersal cresce linearmente ao longo da placa de modo que: ( ) = + ( ) A x d1h d d1 h L Onde d 1 e d são as larguras inicial e final, L o comprimento total e h a espessura da placa. A resistência então aria ponto a ponto, mas a corrente total é constante. Temos que integrar a lei de Ohm: x V x ρi dx ' = I dr = h d + ( d d ) x '/ L 0 1 1 logarítmica: O resultado dessa integral (resola-a e apresente no relatório) é uma função ρli ( d d1) x V ( x) = ln 1+ ( d d1). h d1 L resistiidade. d) Ajuste a função acima aos pontos obtidos experimentalmente e obtenha a 1