FONTES DO DIREITO DO TRABALHO Vitória Xavier Serafim* 1. CONCEITO Falar em fontes do direito do trabalho é saber de onde vem, qual é a origem das normas trabalhistas. O Bueno em uma de suas definições de fonte conceitua como origem, causa, princípio. De acordo com Nunes, as fontes do direito são: elementos diretos e essenciais da formação das instituições jurídicas de uma nação ou do seu direito positivo. Nesse sentido Cassar ressalta que o direito positivo não significa apenas, como muitos erroneamente pensam, direito escrito. Direito positivo é aquele que age coercitivamente sobre a sociedade. O destinatário cumpre a norma porque se sente obrigado a tanto, mesmo que ela não esteja escrita, como acontece, por exemplo, com o costume. 2. CLASSIFICAÇÃO A doutrina diverge quanto ao tema da classificação das fontes. Usualmente as fontes são divididas em duas espécies: formais e materiais. Vale destacar que as fontes formais se subdividem, ainda, em autônomas e heterônomas. Para alguns doutrinadores existem duas correntes para classificar as fontes formais: a teoria monista e a teoria pluralista. Os monistas afirmam que as fontes formais do direito têm no Estado o único centro de positivação. Pensamento diferente dos pluralistas que não concordam com o exclusivismo estatal, pois existem vários centros (costumes, sentença arbitral, convenções e acordos coletivos dentre outros). Portanto, prevalece a teoria pluralista em que as fontes formais são divididas em autônomas e heterônomas. Gomes chama as fontes autônomas de profissionais; de estatais as confeccionadas pelo Estado; de mistas, aquelas em que o Estado participa junto com os agentes sociais na confecção da norma; e de internacionais, as emanadas de organismo estrangeiro. * Vitória Xavier Serafim: Advogada. Bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica De Goiás em 2013/2.
2.1 Fontes Materiais As fontes materiais estão situadas em um momento pré-jurídico, ou seja, antes das fontes formais, por isso, é correto afirmar que toda fonte formal já foi uma fonte material. São fontes materiais os acontecimentos econômicos, políticos, sociais que envolvem o direito do trabalho. O direito laboral é fruto da escravidão, da servidão, das Corporações de Ofício, do trabalho assalariado que pregava a liberdade um dos ideais do Iluminismo, da Revolução Francesa, e ainda, da Revolução Industrial. A liberdade do trabalho assalariado gerou uma desigualdade monstruosa e o empregador se transformou no lobo do empregado, no lobo do próprio homem (Thomas Hobes). Essa liberdade aprisionou o empregado que só foi libertado com o surgimento da legislação trabalhista. As teorias socialistas tinham como lema a união dos trabalhadores para lutarem contra o capitalismo que os explorava de forma desumana. Além disso, houve o surgimento das associações que hoje são denominados sindicatos. Vale ressaltar que, na Inglaterra e na França, a associação entre trabalhadores era tipificada como crime. A Revolução Industrial, o associacionismo, a encíclica Rerum Novarum em que a igreja denunciava as injustiças dos trabalhadores nas indústrias e principalmente a exploração das meias forças, todos esses acontecimentos históricos são fontes materiais do direito do trabalho. 2.2 Fontes formais Fonte formal significa norma positiva. Para Cassar essa norma significa aquela que tem força coercitiva sobre seus destinatários e não precisa estar necessariamente escrita. As fontes formais como já mencionado subdividem em autônomas e heterônomas.
2.2.1 Fontes formais autônomas Também são chamadas de diretas, não estatais ou primárias. Essas são elaboradas pela participação dos próprios destinatários, sem a intervenção do Estado. São elas: convenção coletiva do trabalho (CCT), acordo coletivo do trabalho (ACT), regulamentos de empresa e o costume. 2.2.2 Fontes formais heterônomas São chamadas de imperativas ou estatais e são aquelas que em que o Estado participa ou interfere. São elas: a Constituição Federal, leis (em geral), decretos expedidos pelo Poder Executivo, sentença normativa, súmulas vinculantes. Sussekind acrescenta que também são fontes formais de direito do trabalho as fontes subsidiárias previstas no art. 8 da CLT: As autoridades administrativas e a Justiça do Trabalho, na falta de disposições legais ou contratuais, decidirão, conforme o caso, pela jurisprudência, por analogia, por equidade e outros princípios e normas gerais de direito, principalmente do direito do trabalho, e ainda, de acordo com os usos e costumes, o direito comparado, mas sempre de maneira que nenhum interesse de classe ou particular prevaleça sobre o interesse público. Entretanto, para alguns juristas esses elementos são considerados métodos de interpretação ou integração de lei ou do direito, e não como fontes. 3. HIERARQUIA Para Gomes a hierarquia das fontes formais é a seguinte: 1 convênios e recomendações internacionais (tratados e convenções); 2 Constituição; 3 leis; 4 regulamento (expedido pelo Executivo); 5 sentença normativa;
6 convenção coletiva e acordo coletivo; 7 regulamento de empresa 8 contrato de trabalho. Classificação diferente é defendida pela Cassar que é similar ao posicionamento de Maranhão e Sussekind: 1 Constituição (regras, valores e princípios); 2 leis; 3 decreto (expedido pelo Executivo); 4 sentença normativa; 5 convenção coletiva e acordo coletivo; 6 laudo ou sentença arbitral coletiva; 7 regulamento de empresa 8 súmula vinculante; 9 costume. Todavia, prevalece no direito do trabalho a aplicação da norma mais benéfica ao trabalhador. 4. OBSERVAÇÕES 4.1 Tratados e Convenções Internacionais Os tratados e convenções internacionais para Gomes são consideradas fontes internacionais. O conceito de Tratado encontra-se no art. 1 da Convenção da ONU sobre o Direito dos Tratados, de 1969 (Convenção de Viena): Art. 1 Significa um acordo internacional celebrado entre Estados em forma escrita e regido pelo direito internacional, que conste, ou de um instrumento único ou de dois ou mais instrumentos conexos, qualquer que seja a sua denominação específica.
As Convenções Internacionais e os Tratados, no direito do trabalho, têm como finalidade uniformizar os direitos sociais entre os diversos países e organismos internacionais para garantir um mínimo existencial. As Convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT) objetivam diminuir o nível de desigualdades no âmbito jurídico para preservar a dignidade da pessoa humana. A Convenção da OIT 132, ratificada pelo Brasil em 23.09.98, prevê férias de no mínimo 3 semanas e nesse aspecto não se aplica ao Brasil motivada na norma mais favorável que na CLT (art. 130,I) estabelece o prazo de 30 dias. 4.2 Sentenças normativas Fonte formal heterônoma a sentença normativa é uma decisão proferida pelo TRT ou TST em dissídios coletivos, cuja vigência máxima é de quatro anos (art. 868, parágrafo único, CLT). Não se aplicam em todo território nacional, mas apenas sobre a base territorial dos sindicatos dissidentes. 4.3 Súmulas vinculantes São fontes formais heterônomas. A Emenda Constitucional n. 45/04 introduziu na Constituição Federal a possibilidade da criação das súmulas vinculantes pelo STF (art. 103-A, CF/88). O que diferencia das outras súmulas é por não ter apenas um caráter orientador, mas que são obrigatórias para todos, após reiteradas decisões sobre matéria constitucional e mediante aprovação de 2/3. 4.4 Laudo ou Sentença Arbitral A arbitragem é uma solução de conflitos realizada por terceiro (árbitro) que formula o laudo que deverá ser cumprido pelas partes. Regida pela Lei 9307/96 a arbitragem vai dirimir litígios relativos a direitos patrimoniais disponíveis entre pessoas capazes, o que não ocorre com a maioria das lides individuais trabalhistas que tratam de matérias de ordem pública. Por isso, tem maior aplicabilidade no direito coletivo que trata dos direitos patrimoniais disponíveis. Para Cassar, se for um laudo arbitral proferido em lide individual não é fonte do direito laboral, diferentemente do laudo em matéria coletiva que será considerado fonte.
4.5 Acordo Coletivo de Trabalho e Convenção Coletiva de Trabalho São fontes autônomas do direito do trabalho. O ACT é um pacto coletivo extrajudicial celebrado entre entidade sindical laboral e uma ou mais empresas, que estabelecem regras trabalhistas para ambas as partes, portanto, é restrito apenas aquelas empresas que fizeram o acordo e seus empregados. Assim como a CCT tem vigência máxima de dois anos (art. 614, 3, CLT). A CCT é firmada entre sindicato dos empregadores de uma determinada categoria econômica e sindicato de uma categoria profissional. As regras estabelecidas pela convenção valem para toda a categoria abrangida pelos sindicatos. É comum durarem um ano. 4.6 Costumes São fontes formais autônomas do direito do trabalho. Costumes são práticas reiteradas ao longo do tempo que acabam tornando regra de conduta, desde que não seja contrária a lei. A lei que instituiu o 13 salário nasceu da prática costumeira que as empresas tinham de pagar uma gratificação natalina aos operários. Diferente do uso que não se torna obrigatório. 4.7 Regulamentos e decretos do Poder Executivo São fontes formais heterônomas. O Regulamento é ato administrativo geral e normativo, expedido privativamente pelo Chefe do Executivo (federal, estadual ou municipal), através de decreto, com o fim de explicar o modo e a forma de execução da lei (regulamento de execução) ou prover situações não disciplinadas em lei (regulamento autônomo ou independente). E o decreto é a forma desse ato (regulamento). 4.8 Regulamento de Empresa Fontes formais autônomas. Decorre do poder diretivo do empregador e são normas que vão estruturar e organizar internamente a empresa, por exemplo, métodos de produção, organização do trabalho. Também é chamado de
Regimento Interno é facultativo para as empresas. Para Sussekind não seria uma fonte do trabalho. 4.9 Contrato de Trabalho É o acordo bilateral que cria obrigações entre empregado e empregador. Para Cassar não seria uma fonte formal autônoma do direito do trabalho por faltar a impessoalidade, a generalidade e a abstração. Entretanto, Gomes, Sussekind, Barros defendem que o contrato é fonte de direito. 4.10 Jurisprudência, analogia, equidade, princípios, direito comparado e outras normas Como já explicado anteriormente Sussekind acrescentou as fontes formais de direito do trabalho as fontes subsidiárias, supletivas previstas no art. 8 da CLT: jurisprudência, analogia, princípios, equidade, direito comparado e outras normas. Todavia, para alguns juristas esses elementos são considerados métodos de interpretação ou integração de lei ou do direito, e não como fontes. Nas jurisprudências ganham importância as Orientações jurisprudenciais (OJ) pode se afirmar que é o embrião da súmula, é a súmula de amanhã (Sérgio Pinto Martins) e as súmulas expressam a síntese da jurisprudência uniforme do tribunal. O direito comparado é o estudo de um dispositivo da lei onde confronta-se, compara-se, o direito nacional e o direito estrangeiro. Os princípios para a maioria da doutrina são considerados fontes formais do direito e no momento que o jurista aplica as normas no caso concreto ele é constantemente influenciado pelos princípios do trabalho. Doutrina é o estudo que os juristas realizam sobre o direito, seja para conhecimento ou com a finalidade de interpretar as normas. Julgar com equidade é resolver um conflito com fundamento principalmente na convicção íntima da justiça, uma vez que só poderia ser utilizada como fonte secundária. Analogia é utilizar uma regra semelhante ao caso analisado.
5. CONCLUSÃO É notório que a doutrina ainda diverge quanto à classificação das fontes do direito do trabalho. Entretanto, a maioria dos juslaboralistas classificam as fontes em formais e materiais, sendo que as formais se subdividem ainda em autônomas e heterônomas. Como fontes materiais do direito laboral têm-se a escravidão, servidão, o trabalho assalariado, a Revolução Industrial entre outros fatos que estão situados em um momento pré-jurídico. Já as fontes formais autônomas ou diretas são elaboradas sem a intervenção do Estado, tais como, a convenção coletiva e o acordo coletivo. Por fim, as fontes formais heterônomas ou imperativas têm a participação do Estado. São elas: leis, súmulas vinculantes e as demais expostas no artigo. Destarte, a origem do direito do trabalho está nos acontecimentos políticos, sociais, econômicos e também no direito positivo que é aquele que age coercitivamente sobre a sociedade mesmo que não esteja escrito. 6. BIBLIOGRAFIA Barros, Alice Monteiro de. Curso de direito do trabalho. São Paulo: LTr, 2005. Bueno, Francisco da Silveira. Minidicionário da língua portuguesa. São Paulo: FTD, 1996. Cassar, Vólia Bomfim. Direito do Trabalho. 3ª edição, Niterói: Impetus, 2009. Consolidação das Leis Trabalhistas, CLT, Decreto-Lei n. 5.452 de 1 de maio de 1943. Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, 1969. Convenção 132 OIT, ratificada pelo Brasil em 23.09.98. Gomes, Orlando; Gottschalk, Élson. Curso de Direito do Trabalho. Rio de Janeiro: Forense, 1995.
Nunes, Pedro. Dicionário de Terminologia Jurídica. São Paulo: Renovar. Sussekind, Arnando; Maranhão, Délio; Vianna, Segadas; Teixeira Lima. Instituições de Direito do Trabalho. 19ª Ed. São Paulo: LTR, 2000.