O PROCESSO DE ENSINO



Documentos relacionados

Maquiagem para pele negra. com Daniele Da Mata 1 MAQUIAGEM PARA PELE NEGRA

Mary Kay apresenta sua nova coleção de Pincéis

ATOS LEGAIS DO CURSO:

APRENDIZAGEM DE MAQUIAGEM ANOS 80 ATRAVÉS DE VÍDEO TUTORIAL NO YOUTUBE

UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE PLANO DE ENSINO

Macrodetalhes 1 RESUMO

II ENCONTRO NACIONAL DE ARTE ESPÍRITA

Guia de Imagem Pessoal Aeroportos Maquiagem e Cabelo. Revisão 02 Dezembro 15 Guia 2/2

Caixa de Natal Fábia de Carvalho Contato: (11) e

PORTFOLIO DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL PARA O SEGMENTO BELEZA

Maquiagem contém1g: desenvolvida através de várias etapas, desde a criação até o lançamento. Início: viagens para as grandes capitais do mundo:

A MAQUIAGEM E AS IDADES

Desenho Percepção Visual Anatomia Artística Pintura

LISTA DE RECUPERAÇÃO FINAL DE ARTE 1ª SÉRIE. Questão 01: Escreva o período ao qual pertence cada uma das afirmações abaixo.

ÓCULOS. Maquilhagem. Quem usa óculos no dia a dia tem por vezes dúvidas. com. step by step. antes. Fotos Francisco Sá da Bandeira


Design da Informação. Aula 08 Usando. Prof. Dalton Martins

A distribuição dos conteúdos a seguir poderá ser reformulada de acordo com as necessidades de adaptação a eventuais imprevistos.

TRATAMENTO DE IMAGEM (Pele) 1º- Passo...

ESTRUTURA DO ESPETÁCULO

ACADEMIA DE PRODUTOS. Sistema Timewise Repair Volu-Firm

Metodologia Científica. Construindo Saberes

QUAL É NOSSO FOCO? ROSTO OLHOS LÁBIOS PINCEIS

Fundamentos da maquiagem. com Henrique Mello 1 FUNDAMENTOS DA MAQUIAGEM

I MOSTRA ARTE E SUSTENTABILIDADE

EDITAL. Concurso Novos Talentos 2014

Prof. a Graciela Campos

Adequação do formato do rosto com Sombreamentos

Classificação da Pele Com Maria Luiza Vidigal Esteticista e Treinadora Oficial

Primeira atividade Trabalhando com as cores primárias. Pintar os espaços do gráfico que representam as cores primárias. Objetivos

Redação Publicitária reflexões sobre teoria e prática 1

ARTES - 1º AO 5º ANO

PERÍODO: 2016/02 ANEXO II - EDITAL PROACOM N.º 09/2016 CURSOS ICHLA

CURSO SUPERIOR DE TECNOLOGIA EM ESTÉTICA E COSMÉTICA

Treinamento Online. obrigada pela presença. Bemvindas! Elisandra Uesato Diretora Sênior de Vendas Ind

Prof. a Graciela Campos

I N S T I T U T O N A C I O N A L D E T E C N O L O G I A ( I N T ) Documento técnico e relatório Produto 6

ORIENTAÇÕES PROJETO MOLLA ANO

A necessidade da Base na pele

Maquiagem para a noite

por trás Cenografia, Iluminação e Seus Caminhos

MATERNAL EDUCAÇÃO INFANTIL

Avaliação Escrita 1ª Etapa

Atividades Pedagógicas. Outubro 2013

Para começar esse passo a passo, temos que falar primeiramente sobre os materiais usados na produção dessa tela:

Estratégias de VENDAS e CONSÓRCIO

Vitrine SEGREDO DE BELEZA

REUNIÃO DE UNIDADE. Como levar sua Consultoria de Beleza nas Empresas

Dermatite de Contato. Tipos de Dermatite de Contato: Causada por Irritantes

PLANO DE EXECUÇÃO/LISTA DE MATERIAIS 6º ANO ENSINO FUNDAMENTAL 2019

Materiais necessários:

Conheça Mary Kay. Diretora Executiva Elite Stelamara Canoa

LISTA DE RECUPERAÇÃO DE ARTE 4º BIMESTRE 1ª SÉRIE. Renascimento, Barroco, Neoclassicismo, Romantismo, Impressionismo. Questão 01:

Escolhendo a Base Para peles oleosas, o indicado é escolher uma base que seja oil free, ou seja livre de óleo. Para peles secas ou mistas, a base

IMPRESSIONISMO. As figuras não devem ter contornos nítidos, pois a linha é uma abstração do ser humano para representar imagens.

Fabiana Queiroz e a Equipe Arte, Alegria & Cia apresentam: Orçamento Festas Divertidas para Crianças e Adultos!

sinais de idade avançados linhas profundas lifting volume jovem

OBJETIVO São Roque. 100 folhas de sulfite colorido - tamanho A folhas de sulfite - tamanho A4. 2 folhas de papel vegetal

ARRASAR. Os que confiam no SENHOR serão como o monte de Sião, que não se abala, mas permanece para sempre.

Treinamento Online. obrigada pela presença. Bemvindas! Elisandra Uesato Diretora Sênior de Vendas Ind

BOTOX + PREENCHIMENTO. por DR. JULIO BERGMANN CRM 27356

CURSO BÁSICO DE TATUAGEM

PLANO DE EXECUÇÃO/LISTA DE MATERIAIS 7º ANO ENSINO FUNDAMENTAL 2019

Como levar sua Consultoria de Beleza nas Empresas

Toalha de Banho com Elefantes Rose Ferreira

COMO ELABORAR O BRIEFING DO CLIENTE

PRIMER PERFEITA PELE LISA E

TimeWise. Repair. Completa

É um sistema de cuidados com a pele cientificamente inovador, que combate as origens das causas dos sinais avançados da idade.

PROGRAMA DE CONTEÚDOS 2014

QUAIS OS ITENS INDISPENSÁVEIS PARA UMA BOA MAQUIAGEM?

Cirurgias de Rosto. Cirurgia de Nariz

LOGOTIPO OU LOGOMARCA?

Dicas e cuidados com a pintura em rosto infantil

Perfect Concealer Mary Kay. Alta tecnologia

especial DE natal CiClo Antonio C arlos Tremonte e seu neto Daniel

Catálogo de Produtos

Logotipos e Marcas Parte II

AGRUPAMENTO de ESCOLAS de PEDRÓGÃO GRANDE CONSELHO de DOCENTES 1.º CEB Planificação Anual Expressões 1.º Ano /2013

Treinamento Online 14/07, Quinta-feira, 20:30hs, horário de Brasília

Apresentam: Pacotes Divertidos com Teatro, Palhaços, Pintura, Oficinas, Brincadeiras, Personagens para Festas e Eventos!

PDE INTERATIVO MANUAL DE CADASTRO E GERENCIAMENTO DE USUÁRIOS

ABSTRACIONISMO. Wassily Kandinski, é indicado como o iniciador desse movimento, com a obra: Batalha, de 1910.

MÁSCARA FACIAL BIO-CELLULOSE

MAQUIAGEM PARA O TRABALHO

Projeto: Pintura de Lençol com Menino Dobra de lençol com Menino

Uma Pele Perfeita. ( Look para trabalhar )

MATRÍCULAS ABERTAS. CP FIOS E FORMAS MANHÃ / TARDE / NOITE PROMOTOR DE VENDAS

Levando em consideração o valor das cores nas obras de arte, explique:

ESTOU PASSANDO PARA DEIXAR VOCÊS LOUCAS COM AS MAQUIAGENS DA NYX!!

Transcrição:

CAR ARACTE CTERIZ IZAND ANDO O PAR ARA A AS ARTE TES S CÊNICAS AS E O PROCESSO DE ENSINO Madson Luis Gomes de Oliveira 1 RESUMO: No período de outubro de 2003 a dezembro de 2005, ministrei aulas para o Curso de Artes Cênicas da Escola de Belas Artes, EBA, na Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ na qual desenvolvi uma metodologia própria para o ensino de Caracterização Teatral, para alunos matriculados nas três habilitações: Direção Teatral, Cenografia e Indumentária. Apresento, portanto, os exercícios desenvolvidos em sala de aula, a partir das experimentações de alguns alunos. PALAVRAS-CHAVE: Artes Cênicas. Caracterização Teatral. Maquiagem. A disciplina Caracterização Teatral é obrigatória para todos os alunos matriculados no Curso de Artes Cênicas, da Escola de Belas Artes, EBA, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, nas três habilitações: Direção Teatral, Cenografia e Indumentária. Espera-se que o aluno consiga desenvolver uma percepção apurada para a criação e/ou execução de maquiagem artística para as Artes Cênicas de uma forma mais ampla: teatro, cinema, televisão, ou ainda ter um espaço menos formal com performances ou artes circenses. O aluno, por sua vez, pretende desenvolver sua capacidade de transformar um ser humano comum em alguém (ou algo) imagético, que simbolize um personagem dentro de uma encenação. A metodologia para o desenvolvimento desta disciplina foi desenvolvida ao longo dos cinco semestres em que estive à frente da disciplina. Por esta ser uma atividade prática, o referencial teórico é bastante reduzido, e este relato de experiência presta-se ao registro e reflexão para outros profissionais do ensino ou atuação profissional para as Artes Cênicas. Para tanto, dividi esta comunicação em duas principais partes: A disciplina Caracterização Teatral da UFRJ e Os encontros. Na primeira parte, contextualizo a necessidade e os objetivos constantes na ementa da disciplina. Em seguida, 1 Mestrando em Design, PUC - Rio; Professor de História da Moda Universidade Veiga de Almeida IZA/UVA; Professor-substituto do Curso de Artes Cênicas Indumentária e Caracterização Teatral Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ. E-mail: madsonluis@yahoo.com.br. 197

descrevo as atividades desenvolvidas por meio dos exercícios realizados em sala de aula. Na conclusão, faço uma breve análise acerca dos principais pontos observados durante os períodos de 2003/2, 2004/1, 2004/2, 2005/1 e 2005/2, na referida instituição de ensino. A bibliografia específica para o ensino de maquiagem artística ainda é bem escassa, por isso utilizei alguns livros que se relacionam a costumes, moda e a comportamentos, como os listados na bibliografia consultada, no final deste texto. A disciplina Caracterização Teatral da UFRJ Explicarei o processo desenvolvido durante os períodos em que ministrei aulas para a referida instituição: de outubro de 2003 a dezembro de 2005, quando fui contratado como professor-substituto. É importante salientar que os alunos de Cenografia e de Indumentária trazem, em seus currículos escolares, experiência anterior em desenho, pois nas disciplinas cursadas no primeiro semestre eles passam por estágios básicos, nos quais os conteúdos de desenho e ilustração são contemplados. Já os alunos de Direção Teatral não têm o mesmo tipo de pré-requisito, e isto pode acarretar uma dificuldade inicial. O objetivo principal desta disciplina é despertar no aluno uma percepção mais apurada no tangente às formas, cores e texturas empregadas na caracterização teatral, no sentido de possibilitar uma contribuição real para a encenação. O estudo de diferentes períodos históricos para o domínio das particularidades de cada época também são exploradas durante os exercícios práticos. As aulas da disciplina Caracterização Teatral desenvolveram-se em duas horas, durante reuniões semanais. Na próxima seção, apresento as fases descritivas referentes aos encontros. Os encontros Como referencial bibliográfico, utilizo o livro Beleza do Século (FAUX, 2000), no qual a autora faz uma retrospectiva da maneira e dos costumes referentes à higiene e beleza corporais dos mais importantes períodos históricos. Descreve, de forma analítica, as características físicas dos costumes nas seguintes civilizações: egípcia, ressaltando as figuras de faraós e da rainha Cleópatra; Antigüidade Clássica, com ênfase nos cabelos de gregos e romanos; o Renascimento, demonstrando o costume da nobreza em aumentar o tamanho da testa feminina depilando as sobrancelhas; o embranquecimento do rosto 198

(masculino e feminino) em pleno período do Rococó francês, fazendo lembrar as pequenas estatuetas de porcelana; o ar triste das damas românticas do século XIX; os cabelos femininos à la garçonne, da década de 20, e o delineador marcando os olhos das mulheres, nos anos 60, por exemplo. Sugiro que os alunos utilizem este livro como fonte de pesquisa histórica, bem como um estudo válido da iconografia de épocas mais distantes. Outro livro utilizado no processo de ensino/aprendizagem sugere um passo-a-passo para diversos tipos de caracterização, de acordo com Buchman (s/d), no qual as fotografias se prestam a esclarecer as dúvidas que a língua inglesa possa eventualmente apresentar. Os semestres eram divididos em 15 encontros para um melhor entendimento do processo de ensino/aprendizado, os quais especifico a seguir: 01 Apresentação da disciplina, especificando a ementa, os objetivos e a forma de avaliação; 02 Explicação e início do desenvolvimento do primeiro exercício: esquematização de caracterização através de desenho de três jogos em preto e branco e um jogo colorido. O aluno seleciona uma imagem (fotografia ou pintura) de época e uma foto (em cópia xerografada) de um artista em revistas para realizar uma transformação em papel. O esquema desenvolve-se no estilo antes e depois, com a imagem de referência sendo retirada de fotografias ou pinturas de arte de alguma personalidade do passado; a segunda imagem (a cópia xerografada) pode ser uma fotografia de revista, de preferência de um artista ou modelo fotográfico, e que esteja no mesmo ângulo de visão da imagem referencial; 03, 04, 05 e 06 Desenvolvimento da atividade descrita acima, atentando que os recursos utilizados para a pintura (ou cobertura) do papel pode ser guache, aquarela, pastel (seco ou óleo) ou, ainda, lápis de cor. São recomendáveis que os jogos de desenho em preto e branco sejam os primeiros a serem desenvolvidos, pois a manipulação das cores é mais complexa do que os três em preto e branco. Observa-se uma dificuldade significativa para a representação dos cabelos, cílios, sobrancelhas e barba/ bigode (no caso dos homens); 07 Avaliação da atividade desenvolvida, que leva em consideração a percepção do aluno ao selecionar quanto o modelo a ser copiado, bem como o artista selecionado para a transformação, sabendo que devem ser levados em consideração fatores como: posição e formato do rosto; textura e cor dos cabelos; indumentária e acessórios que compõem a figura a ser retratada; 199

As aulas de número 01 a 07 referem-se à primeira parte da disciplina, sendo desenvolvidas em dois meses, praticamente. 08 Neste encontro, inicia-se a segunda parte da disciplina, que se refere ao momento prático para a realização de vários tipos de maquiagem. A começar por um palhaço típico, usado nos espetáculos de circo ou ainda no teatro infantil. O aluno seleciona uma figura (fotografia ou pintura) de palhaço que mais lhe agrade e faz uma leitura, respeitando as características principais como: cor, sexo e sua função no espetáculo (animação, emoção, espírito lúdico...). Utiliza-se para este exercício, o pan cake 2 em pó, em várias cores, ou ainda um estojo de pinta-a-cara 3. Os alunos se revezam na hora de maquiar, para experimentar os dois lados da maquiagem: quem é o modelo e quem é o maquiador. É importante ressaltar que, neste primeiro momento de maquiagem em outra pessoa, deve-se atentar para alguns cuidados essenciais como: estar com as mãos limpas; evitar o uso exagerado de perfumes ou odores fortes; demonstrar uma boa relação com quem está maquiando (ou está sendo maquiado) e passar confiança para o seu parceiro; 09 No segundo exercício prático, o aluno tem a possibilidade de criar um novo palhaço ou realizar uma estilização de alguma figura mitológica (deuses, personagens não-reais ), animais ou imitando alguma obra de arte; 10 A boa utilização das cores começa a ser estudada a partir dos mesmos preceitos básicos da pintura e a exploração das partes que compõem o rosto. Por meio deste exercício que batizei como monocromático, por conta dos efeitos de luz e sombra, o aluno deve selecionar uma cor pura e misturá-la ao branco (para clareá-la) e ao preto (para escurecê-la/saturá-la). O princípio da pintura clássica desenvolvida nas Artes Plásticas é observado neste exercício, que se apropria de uma técnica antiga. O aluno deve exercitar sua criatividade explorando as várias regiões do rosto nas quais pode haver alguns efeitos perceptíveis para as encenações cênicas, como o aumento do nariz, criação de olheiras e marcas de expressão, bem como a modificação das formas dos rostos (através da ilusão de ótica), causada pelo efeito claro/escuro; 2 Espécie de base, aplicada em pó ou molhada em água para ter uma aparência mais diluída. 3 Estojo de base pastosa (antialérgica) usada por crianças para pintar a pele humana. Geralmente, os estojos básicos trazem, além do preto e do branco, as cores primárias (azul, amarelo e vermelho). 200

11 O próximo exercício desenvolvido dá continuidade ao processo de maquiagem, ao permitir que o aluno possa escolher, desta vez, duas cores que combinem entre si (ou não), mas que permita um maior domínio das características de cada pessoa (que fará o papel de ator) transformandoa em outra figura (que se aproxima das características do personagem que serviu como inspiração). Note-se que este exercício é mais abstrato que os primeiros (palhaços), mas de fundamental importância para o próximo passo: o envelhecimento; 12 O envelhecimento é um dos exercícios mais interessantes, pois os jovens (maioria nos cursos de Artes Cênicas) sentem-se envelhecer em questão de alguns minutos (o tempo em que se desenrola a aula 2 horas). O material utilizado para este exercício é o mais básico possível: base ou pan cake natural (na cor da pele da pessoa maquiada); pó compacto; lápis ou kajal marrom; iluminador ou sombra branca e de pintaa-cara ou pan cake branco (para clarear um pouco os pêlos das sobrancelhas e dos cabelos). O primeiro passo para se desenvolver um bom envelhecimento é passar a base ou pan cake natural em toda a região do rosto, pescoço e orelhas, para criar uma unidade tonal. É como uma tela de pintura em que o artista passa uma primeira mão de tinta, para depois começar o trabalho de tons (mais claros e mais escuros efeito de contraste). As rugas de expressão são feitas com lápis, kajal ou sombra marrom. Deve-se aproveitar as linhas já existentes no rosto, forçando a testa e as linhas ao redor da boca, conhecida como bigode chinês. A simulação de bolsas em baixo dos olhos, representando olheiras e causando uma fisionomia de cansaço, é conseguida através de lápis de olho ou sombra escura (no contorno), clareando-se no centro com sombra branca ou iluminador. Para se obter um efeito de flacidez facial, a região das bochechas deve ser bem ressaltada, escurecendo a linha do maxilar e clareando as bochechas, propriamente ditas. A linha que contorna a boca deve ser desfeita, criando-se uma nova linha (com lápis de contorno labial) fragmentada e descontínua, respeitando as rugas de expressão que circundam os lábios. Para um efeito mais real, deve-se ainda passar um pó compacto nos lábios para provocar um efeito ressecado na boca. Todos os exercícios anteriores servem para que o aluno possa desenvolver sua percepção dos formatos de rosto, cores e texturas próprias da face humana, bem como da maneira mais adequada para se obter o efeito desejado; 201

13 No antepenúltimo encontro, desenvolve-se a criação e a realização de uma caracterização com o título de maquiagem exótica ou étnica. Nela o aluno deve ter feito uma pesquisa pré-liminar de imagem que represente o tema desejado pelo aluno. Para o bom efeito deste exercício, o aluno deve se preocupar com a imagem, como um todo, com os acessórios, adereços e cor-local. O exercício proporciona ao aluno uma possibilidade de lidar com elementos reais ou surreais, pois dentro do tema exótico cabem inúmeras experimentações artísticas, como no caso de maquiagens artísticas, como seres de outra dimensão, misto de humano-animal, seres divinais, etc. 14 A avaliação de todos os exercícios práticos (seis ao todo) é feita neste momento, levando-se em consideração o nível de dificuldade apresentado pelo aluno e seu desenvolvimento desde o primeiro até o último exercício; 15 O último encontro serve como fechamento do semestre, onde o aluno, junto com o professor, faz uma análise geral da disciplina, ressaltando se os objetivos explicitados no início do semestre foram cumpridos. O aluno tem a oportunidade de avaliar o acompanhamento do professor, bem como fazer uma auto-avaliação. Esta avaliação serve ainda como termômetro que verifica se o aluno, enquanto diretor, cenógrafo ou figurinista de um espetáculo teatral (ou show), consegue criar e ou executar um visagismo que se adeqüe aos personagens. Ou, ainda, contratar um maquiador que consiga entender a melhor solução para a composição do personagem pelo artista. Os exercícios práticos foram desenvolvidos nas salas do sexto andar da EBA (604 e 606), com iluminação natural e tendo como estrutura básica: bancada com espelhos, pia com torneira de água corrente e material de limpeza para a pele (hidratante ou demaquilante). Considerações finais A prática profissional da Maquiagem Artística ou Caracterização Teatral faz parte das profissões técnicas que as Artes Cênicas abrangem. O relacionamento deste profissional deve ser diretamente ligado ao diretor teatral, diretor de arte ou, ainda, ao figurinista. Além, é claro, do artista que será caracterizado/maquiado. Segundo Leite (2002, p. 175) é na etapa de criação que o desenho do projeto se desenvolve, pois 202

[...] são definidos o estilo dos cabelos, do figurino e a maquiagem de cada personagem. O projeto de caracterização é feito pelo profissional especializado e supervisionado pelo figurinista; eventualmente contratam-se profissionais que podem ser chamados de visagistas, apenas para o desenvolvimento do projeto e implantação, cabendo a manutenção à equipe que prossegue a novela. (LEITE, 2002, p. 175) No âmbito acadêmico, a caracterização teatral deve ser desenvolvida para direcionar o trabalho de outras profissões afins e correlatas, como a interpretação (ator/atriz), figurinismo, direção teatral, iluminação, fotografia, etc. Este inter-relacionamento entre as profissões serve para ressaltar a importância da atividade de maquiador artístico para a composição do espetáculo teatral como um todo. Mesmo o aluno não tendo a intenção de se aprimorar nesta atividade específica, o contato direto com o fazer contribui para explorar suas potencialidades. O processo de ensino/aprendizagem de uma atividade como a descrita anteriormente é eminentemente prática e o tempo de experiência parece ser proporcional ao desenvolvimento da atividade pois, à medida que o profissional cuida do visual do artista, mergulha no universo das artes cênicas. Uma segunda conclusão chama a atenção para a percepção no tocante à referência (inspiração) e aos objetivos discutidos na decupagem dos personagens, respeitando as características do artista. O formato do rosto, volume do cabelo, tonalidade da pele (e possíveis distorções), espaçamento entre os olhos, distanciamento entre o nariz e a boca, maçãs do rosto, formato do queixo, etc., são apenas algumas características que serão observadas em primeira instância, tanto do lado da inspiração, quanto do lado do artista. Os exercícios desenvolvidos em sala de aula podem compor seu portfólio, no qual um banco de imagens passa a fazer parte do imaginário deste futuro profissional. A metodologia usada nesta disciplina parte, primeiro, de uma realidade bidimensional (o papel) para uma prática tridimensional (o rosto humano). No contexto do espetáculo teatral agregado ao cenário, figurino, interpretação e iluminação, o efeito lúdico da maquiagem artística proporciona, muitas vezes, a realidade que o público/platéia vai entender e aceitar como verdade. Uma terceira observação diz respeito à dificuldade de realização do primeiro jogo de transformação, pois prescinde de habilidade de desenho ou pintura. No entanto, logo após o segundo exercício, o aluno consegue descobrir seus próprios caminhos: o melhor tipo de material (guache, lápis, pastel, etc.). Mais interessante ainda é observar o aluno aplicando estes conhecimentos no rosto de seus parceiros, numa simulação próxima a de uma situação real dos palcos, coxias, rotundas e camarins. 203

Referências BUCHMAN, Herman. Stage makeup. New York: Watson-Gruptell Publications, s/d. FAUX, Dorothy (et. al.). Beleza do século. São Paulo: Cosac & Naif, 2000. LEITE, Adriana e GUERRA, Lisette. Figurino: uma experiência na televisão. São Paulo: Paz e Terra, 2002. TENER, Gabriela. Prontas para o baile de máscara? Quatro especialistas ensinam passo-a-passo de maquiagens para cair no samba sem complicação. Jornal O Globo, Rio de Janeiro, Caderno Zona Sul, p. 12, fev. 2005. 204