PASTORAL É O HOJE DA IGREJA As mudanças sociais são desafios à Evangelização. A atualização da mensagem cristã nas diversas realidades e em diferentes tempos fez surgir a Pastoral. Hoje em nossas paróquias e comunidades, estamos acostumados a falar de Pastoral, referindo-nos a inúmeras atividades e serviços oferecidos no âmbito eclesial. Afinal o que é pastoral? O que se pode entender quando se fala em "pastoral"? Sem grandes pretensões, tenciono retomar, em breves pinceladas, o sentido que a Igreja deu à missão de "pastor", à pastoral em diferentes momentos de sua caminhada. Para se falar em Pastoral, é preciso recorrer à palavra de origem deste adjetivo: o termo pastor tem a ver com cuidador, e implica em conhecer, conduzir, defender, guardar, zelar...dar a vida pelo rebanho. Aplicado em sentido espiritual temos a autoridade pastoral, o guardião, o pastor espiritual. O que tem isso a ver com a Igreja? Para início de conversa precisamos voltar às nossas origens. A experiência de ver Jesus Ressuscitado e ouvir suas palavras: Como o Pai me enviou, eu também os envio... Ide fazei com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os... ecoou na vida dos discípulos de todos os tempos, permitindo que a Boa Nova fosse anunciada em todos os continentes.
2 A Igreja, nascida do mandato de Jesus e do testemunho dos seus seguidores conheceu grandes e inúmeros pastores em sua caminhada. Pedro e Paulo são considerados os "Pastores máximos". Por sua fidelidade ao Pastor Divino, souberam, como Ele, dar a vida pelo rebanho. Pedro, recebeu de Cristo a missão de apascentar a Igreja nascente. Por sua vez, recomendou aos Presbíteros - pastores das comunidades: "cuidem do rebanho que lhes foi confiado...". Paulo com inigualável dinamismo, levou a Igreja nascente a abrir-se aos pagãos e despertar seguidores de Jesus Cristo além da Judéia, da Samaria e chegar até nós. Através da História, vemos que a Igreja, assistida pelo Espírito santo, sempre revelou preocupação pastoral, como forma de responder aos desafios que se apresentaram à vivência da proposta cristã. Assim, a Pastoral como expressão do ministério dos pastores, foi se fazendo em cada tempo e lugar. Houve tempos em que a hierarquia da Igreja até perdeu o sentido do "pastoreio", tornando-se merecedora da denúncia que Ezequiel fez aos pastores - autoridades - de Israel: "Ai de vocês maus pastores, que apascentam a si mesmos". No século XIII, por exemplo, a pastoral era feita de pregações. Com o Concílio de Trento, renasce a idéia de que o bispo e o pároco deveriam ser pastores para sua paróquia, isto é, viver próximo, conhecer seus paroquianos, explicar-lhes o catecismo. Já no final do séc. XVIII, o padre era o educador. Fazia parte da pastoral ensinar os leigos a ser cristãos; a fazer boa agricultura obedecer a Deus e também ao Imperador. No século XIX, a Igreja está voltada para sua vida interna. Os bispos e presbíteros devem assumir as três funções que tem raízes no Antigo Testamento, já presente na prática pastoral em algumas regiões. Têm função profética, sacerdotal e real (pastoral) com a tarefa de ensinar; administrar os sacramentos; "edificar" a comunidade com seu próprio comportamento digno. O leigo é sempre objeto da ação pastoral: deve receber das mãos do bispo/ padre os meios de salvação. Esta noção de pastoral esteve presente por longo tempo na Igreja. Há nítida separação entre a vida espiritual, confiada aos Pastores instituídos e o mundo profano, confiado aos leigos. O Concílio Vaticano II, convocado pelo Papa João XXIII, com explícita orientação pastoral, abriu novos horizontes quanto à compreensão desse ministério. No início assume, essa noção de pastoral feita de três funções e as interpreta a partir dos três títulos de Cristo: Profeta, Sacerdote e Rei (Pastor). Além disso atribui-lhe um novo sentido que inclui o ideal de "diálogo" com o mundo e com os leigos. O novo conceito de pastoral foi melhor explicitado através da palavra: "aggiornamento", que implica numa "atitude pastoral", mais que a atividades a serem realizadas. A Igreja não deve simplesmente
3 repetir a doutrina cristã. É preciso apresentá-la em linguagem nova para os homens de hoje. O Concílio recomenda atenção à situação, aos sinais dos tempos do mundo atual, lendo-os como sinal dos desígnios de Deus. Esta mudança significa uma tomada de consciência, por parte da Igreja, de sua condição histórica e da necessidade de tirar conseqüências disso em toda a vivência cristã. Pastoral, é, pois, referência à fé cristã e acolhida do mistério de Deus em Cristo dentro de determinada situação das pessoas na história. Outra expressão do Vaticano II, é que a pastoral, não é apenas a ação dos pastores, bispos e presbíteros, envolve nela também os leigos. Dá ênfase ao sacerdócio, e distingue o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial. É-lhes confiada a ação intra-eclesial, (edificação das comunidades), como também o diálogo e relacionamento com as condições concretas da humanidade, na situação histórica hoje. Após o Concílio, a partir do encontro com a Palavra de Deus, da intuição e da experiência pastoral, o acento se desloca do sacerdócio para o "Ministério". Descobre-se a dimensão ministerial de toda a Igreja e experimenta-se novas formas de ministérios, além do ministério ordenado ou hierárquico. Ministérios entendidos não como formas supletivas ( substitutivas), mas como realidades originais como um dom, a vocação apostólica. A função do Ministro ordenado agora está em animar e coordenar o ministério de todos os fiéis. Com a mudança do sujeito da ação pastoral, antes confiada apenas aos ministros ordenados, temos mudança do campo de ação pastoral: os leigos não atuam só no mundo externo, são também admitidos a colaborar no interior da comunidade eclesial, através dos Conselhos e Ministérios não ordenados. A Igreja é sacramento, o sinal de que o Reino de Deus está presente no mundo. Não há distância entre as tarefas religiosas e profanas. No dizer de Paulo VI: "Entre evangelização e promoção humana desenvolvimento e libertação existem laços profundos. A preocupação histórica e o discernimento dos "sinais dos tempos é levada a sério na América Latina a partir de Medellín e Puebla,. indicando o caminho que as Igrejas locais e comunidades cristãs devem percorrer na busca de atuação adequada a sua realidade sócio-política-econômica. Em Medellín, houve o incentivo para uma pastoral de conjunto e a grande estratégia pastoral foi expressa nas CEBs. Em Puebla, Comunhão e Participação foram palavras de ordem, convocando todos a serem co-responsáveis pela Igreja e pela ação transformadora em defesa da vida.
4 Estando em Família, é importante lembrar a colaboração do Bem-aventurado Tiago Alberione, nosso Fundador, à questão pastoral da Igreja. Inspirado na pessoa do Apóstolo Paulo, sentiu-se obrigado a empenhar toda sua vida e multiplicar forças para o anúncio do Evangelho. Sua meta era atingir a pessoa toda mente, vontade, coração - e todas as pessoas, libertando-as em Cristo Caminho, Verdade e Vida. Antecipando-se aos sinais dos tempos, valorizou a participação da mulher na Igreja e intuiu a força dos Meios de Comunicação. Fundou a Família Paulina para Viver Jesus Cristo e Servir a Igreja. Seu sonho era chegar aos homens e mulheres de todos os tempos e lugares, com os meios mais rápidos e eficazes de evangelização. A grande preocupação pastoral de Alberione o levou a fundar, dentro da Família Paulina, uma Congregação que, participando da missão pastoral de Cristo, condivide preocupação pastoral, colaborando junto aos pastores e leigos na edificação e crescimento das comunidades cristãs. São as Irmãs de Jesus Bom Pastor, que ele mesmo chamou de Pastorinhas. Devem ser, ao mesmo tempo, a memória da preocupação e finalidade pastoral de toda a Família Paulina. Retomando a caminhada pastoral em algumas de suas expressões, percebemos que a reflexão teológica pastoral se desenvolve sobre dois trilhos: um essencial, que permanece, que é Deus e sua Revelação; e outro relacionado com o tempo, que é a pessoa humana e sua situação concreta. Daí a resposta pastoral, está sempre se fazendo. A Igreja toma consciência da inadequação às novas situações históricas da pastoral do passado e profeticamente projeta o futuro. A ação do cristão e da Igreja sempre terá um aspecto de risco, que vem da escolha de uma entre outras tantas possibilidades. É com a força do mandato de Jesus que a Igreja luta para que haja vida em plenitude para todos. Daí nascem os Documentos, a Campanha da Fraternidade as Diretrizes para a Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, os Projetos de Evangelização, como Projeto Rumo ao Novo Milênio, Ser Igreja no Novo Milênio e o atual Queremos Ver Jesus, como também a convocação para o Plebiscito contra a ALCA, o Fórum Social, o alerta para a escolha consciente de candidatos... Pastoral é o presente da Igreja enquanto decide a própria atualização. A realidade histórica atual é o único horizonte no qual o ser humano pode colher livremente a auto-comunicação de Deus. Há quem prefira aquela Igreja que se preocupa só com a própria vida interna. Isso seria omitir-se ao mandato de Jesus apascenta minhas ovelhas.... Se a Igreja pastores ordenados e/ou não ordenados se omitir, Ele terá que suscitar outros pastores que conduzam e defendam o seu povo.
5 A cada um, segundo sua condição, é confiada a missão de ser bons pastores na família, na comunidade, na sociedade e participar na transformação da realidade onde vivemos. O Bemaventurado Tiago Alberione, o Papa João XXIII, D. Helder, e tantos outros fizeram o que puderam. Você está disposto(a)? Vamos juntar nossas forças e o Divino Mestre-Pastor estará no meio de nós. Ir. Elenir Agustini, sjbp. Informações adicionais: matéria publicada na revista O Cooperador Paulino, ano 2004 1ª parte: Nº 75, maio-agosto, pág. 12 2ª parte: Nº 76, dezembro, pág. 24