5 Equipamentos e Técnicas Experimentais



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2. CARACTERÍSTICAS 1. INTRODUÇÃO

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5 Equipamentos e Técnicas Experimentais De acordo com Castro (2007), quando as propriedades reológicas são determinadas em laboratório, diz-se que se está realizando ensaios de reometria. Para isso, existem diversas técnicas experimentais disponíveis que variam de acordo com o material ensaiado, podendo fornecer um ou dois parâmetros reológicos, a saber: viscosidade e/ou tensão de escoamento, determinados de forma direta ou indireta. Conforme ressaltado anteriormente, o presente estudo almeja o desenvolvimento de uma metodologia alternativa para a determinação da viscosidade de solos. Desta forma, análises envolvendo a definição da tensão de escoamento dos materiais estão fora do escopo deste trabalho. De um modo geral, o presente capítulo fornece maiores detalhes acerca de cada uma das técnicas experimentais empregadas, apresentando não somente seus procedimentos, como também as limitações dos equipamentos utilizados. 5.1. Medida direta da viscosidade De acordo com Pinheiro (2007), a medição direta é aquela cujo resultado é obtido diretamente dos dados experimentais. Nesta definição enquadram-se o reômetro e o viscosímetro de Brookfield, apresentados a seguir. 5.1.1. Viscosímetro de Brookfield De acordo com Vidal-Bezerra (2000), equipamentos para medições reológicas que seguem o método Brookfield são frequentemente encontrados nos laboratórios industriais. Estes equipamentos permitem medidas sob várias velocidades de rotação e fornecem uma primeira ideia sobre o comportamento reológico.

66 Os ensaios foram realizados no viscosímetro de Brookfield, modelo DVI Primer, fabricado pela BrasEq, ilustrado na Figura 26. Figura 26 - Viscosímetro Brookfield modelo DV I Primer O procedimento experimental adotado seguiu algumas operações preliminares: inicialmente o solo foi colocado em estufa a 60 C, destorroado e passado na peneira #40. Ao todo foram separados aproximadamente 100g do material passante. Após pesado, o solo seco foi misturado, com o auxílio de uma espátula, a uma quantidade de água, sendo colocado no recipiente apresentado na Figura 27 a). Em seguida, o mesmo foi encaixado no equipamento e uma determinada rotação por minuto foi imposta à haste utilizada, Figura 27 b). Através do visor acompanhavam-se as oscilações no valor da viscosidade até que a mesma atingisse um valor constante. A partir deste momento, uma nova rotação poderia ser imposta. a) b) Figura 27 - a) Recipiente utilizado para colocar o material a ser ensaiado; b) Haste utilizada nos ensaios (splinder 31)

67 De acordo com Kiryu (2006), a principal limitação deste viscosímetro está relacionada à falta de garantia da precisão dos dados coletados abaixo de 10 s -1 de taxa de cisalhamento. 5.1.2. Reômetro Os ensaios foram realizados no reômetro rotacional Haake Mars, Figura 28, fabricado pela Thermo Scientifc. Este equipamento permite análises de tensão controlada, quando se impõe uma tensão pré-definida e determina-se a taxa de cisalhamento resultante, ou de deformação controlada, quando uma taxa de cisalhamento é imposta e a tensão resultante é determinada. Figura 28 - Reômetro Haake Mars utilizado neste trabalho De acordo com Naccache (2012), a escolha do tipo de geometria a ser utilizada em reômetros rotacionais, a saber: couette, cone-placa e placa-placa, depende basicamente de três fatores: o tipo de fluido, a faixa de viscosidade e a taxa de deformação. A geometria de Couette, ou cilindros concêntricos, ilustrada na Figura 29 a), é utilizada para fluidos pouco viscosos e altas taxas de deformação. A geometria cone-placa, Figura 29 b), não é indicada para suspensões, uma vez que a inclinação da placa reduz a quase zero a folga no centro da geometria, podendo

68 ocasionar a retenção de material neste ponto. Desta forma, optou-se por utilizar a geometria de discos paralelos, ou placa-placa, pois, além de ser a mais apropriada para suspensões, esta configuração permite a variação da folga e a execução de ensaios em materiais com uma ampla faixa de viscosidade. Dentre as os tipos de placas disponíveis, optou-se por utilizar a placa-placa do tipo cross hatch. Conforme ilustrado na Figura 29 c), a referida geometria apresenta ranhuras em suas faces internas, evitando assim o deslizamento do material, observado quando uma geometria lisa foi utilizada (Figura 29 d). a) b) c) d) Figura 29 - Tipos de geometrias disponíveis: a) couette; b) cone-placa; c) placaplaca do tipo cross hatch; d) placa-placa do tipo lisa De acordo com O Brien & Julien (1988), a folga existente entre as placas deve ser de dez vezes o diâmetro da maior partícula existente no material ensaiado. Como o reômetro utilizado apresenta uma folga máxima de 4,0mm, optou-se por utilizar materiais passantes na peneira #40, cuja abertura é de 0,42mm. Tal fato justifica a escolha da referida peneira para as análises no abatimento do tronco de cone. Entretanto, durante a realização dos ensaios, observou-se que, nos solos mais viscosos, a utilização da folga máxima forçava o motor do reômetro, e nos

69 menos viscosos, propiciava o extravasamento do material além dos limites da geometria, Figura 30. Assim, optou-se por utilizar uma folga de 2,0mm. Figura 30- Extravasamento de material no ensaio utilizando uma folga de 4,0mm Os testes realizados foram tipo CD (deformação controlada), ou seja, uma taxa de cisalhamento (γ ) era imposta, a tensão resultante (τ), decorrente do torque aplicado para rotacionar a haste, era determinada e a razão τ/γ fornecia a viscosidade em função do tempo. O tempo de execução do ensaio foi determinado com base no ressecamento ou sedimentação do material. De acordo com a Figura 31, o teste realizado com o ponto mais seco do material BQP (w= 81,50%) indicou uma grande dispersão da viscosidade a partir de 200s, provavelmente associada ao início do ressecamento do material, ratificada pela Figura 32. Viscosidade (Pa.s) 2000 1800 1600 1400 1200 1000 800 600 400 200 0 0 100 200 300 400 500 Tempo (s) Figura 31 - Grande dispersão encontrada a partir de 200s no ensaio realizado para o ponto mais seco da BQP (w= 81,50%)

70 Figura 32 - Indicativo do ressecamento do material durante o ensaio: espaço vazio entre as placas A análise dos dados obtidos a partir de um dos pontos mais úmidos do CAT (w= 103,46%), Figura 33, também indica uma mudança de comportamento do material a partir dos 200s, neste caso, observa-se a diminuição da viscosidade do material, associada, conforme observado na Figura 34, a sedimentação do mesmo. Desta forma, a duração dos ensaios foi limitada a 200s. 500 Viscosidade (Pa.s) 400 300 200 100 0 0 100 200 300 400 500 600 700 800 900 1000 1100 1200 Tempo (s) Figura 33 - Diminuição da viscosidade do material a partir de 200s no ensaio realizado para um dos pontos mais úmidos do CAT (w= 103,46%) Figura 34 - Lâminas de água formadas pela sedimentação do material

71 No intuito de minimizar a aceleração do processo de ressecamento, provocada pela exposição da amostra ao ar condicionado, utilizou-se uma capa protetora de acrílico, apresentada na Figura 35. Figura 35 - Capa protetora de acrílico utilizada para minimizar a exposição da amostra ao ar condicionado As observações e os testes iniciais supracitados definiram o procedimento experimental adotado (Figura 36): 1) regular a temperatura do banho (25 C) e iniciar a programação do ensaio, fornecendo como dados de entrada: a folga (2,0mm) e a taxa de cisalhamento a serem utilizadas; 2) com o auxílio de uma batedeira, homogeneizar, por aproximadamente 10 minutos, 1kg de solo seco (passante na peneira #40) com a quantidade de água calculada para o primeiro ponto do ensaio; 3) coletar uma quantidade do material para verificar sua umidade; 4) utilizar uma seringa para conduzir o material até o reômetro; 5) diminuir o tamanho da folga (2,1mm) para promover o espalhamento do material; 6) retirar o excesso de material, promovendo a limpeza da lateral da geometria; 7) ajustar a folga (2,0mm), colocar a capa protetora de acrílico e iniciar o ensaio; 8) repetir os procedimentos anteriores (3 a 7) mais duas vezes para garantir a repetitividade do ensaio; 9) para a análise de uma nova umidade deve-se recolocar o material na batedeira, acrescentar a quantidade de água correspondente, bater por 10 minutos e repetir os passos anteriormente apresentados.

72 a) b) c) d) e) f) Figura 36 - Etapas do procedimento experimental estabelecido para os ensaios no reômetro: a) regularização da temperatura; b) homogeneização do material; c) colocação da amostra na placa inferior; d) espalhamento do material; e) limpeza da lateral da geometria; f) colocação da capa protetora e início do ensaio

73 5.2. Medida indireta da viscosidade De acordo com Pinheiro (2007), a medição indireta é aquela cujo resultado é obtido através de medições diretas de outras grandezas, ligadas por uma dependência conhecida com a grandeza procurada. Nesta definição enquadram-se os equipamentos de abatimento de tronco de cone tradicional e modificado. 5.2.1. Abatimento do tronco de cone tradicional O slump test, conhecido no Brasil como ensaio de abatimento de tronco de cone, é um dos mais famosos e mais antigos ensaios de trabalhabilidade para concreto. Devido à sua simplicidade, este método é amplamente utilizado em todo o mundo. Desenvolvido nos Estados Unidos por volta de 1910, acredita-se que o slump foi utilizado pela primeira vez por Chapman, embora em muitos países o aparelho seja associado à Abrams (Bartos et al., 2002). Apresentado por Castro (2007) como uma excelente ferramenta para o controle da qualidade do concreto, o ensaio permite detectar pequenas mudanças na composição da mistura, tais como variações no teor de água a partir da especificação da dosagem original. Sua desvantagem está no fato deste método de ensaio poder fornecer respostas diferentes para uma mesma amostra de concreto quando realizado por diferentes operadores e mesmo quando repetido por um mesmo operador, verificando-se uma grande dispersão entre suas medidas (Reis, 2008). O equipamento utilizado consiste, basicamente, de um tronco de cone metálico aberto em ambas as extremidades (altura de 300 mm, diâmetro inferior de 200 mm e diâmetro superior de 100 mm), que é mantido firmemente apoiado sobre uma placa metálica não-absorvente (de 500 mm x 500 mm) por meio do posicionamento do operador sobre os apoios laterais fixados ao molde metálico. Ele é preenchido com concreto seguindo um procedimento padrão e, em seguida, levantado verticalmente. Com isso, o concreto sofre um abatimento, o qual é medido.

74 No Brasil, este ensaio é regulamentado pela NBR NM 67/98 Concreto - Determinação da consistência pelo abatimento do tronco de cone, que prescreve os seguintes passos: 1) após a limpeza e umedecimento interno do molde, este deve ser colocado sobre a placa de base que deve estar igualmente limpa e umedecida, disposta sobre uma superfície rígida, plana, horizontal e livre de vibrações; 2) o molde é fixado através de suas aletas pelos pés do operador e preenchido em três camadas aproximadamente iguais. Cada camada é adensada com 25 golpes uniformemente distribuídos, aplicados com uma haste de socamento; 3) terminado o adensamento, o excesso de concreto é removido e uma limpeza da placa metálica de base é promovida; 4) o operador deve retirar o molde do concreto cuidadosamente, levantando-o na direção vertical com um movimento constante para cima, sem submeter o concreto a movimentos de torção lateral. Esta operação deve ser feita no tempo de 10 2 s; 5) imediatamente após a retirada do molde, deve-se medir o abatimento do concreto, determinando a diferença entre a altura do molde e a altura do eixo do corpo-de-prova, como ilustrado na Figura 37. Figura 37 - Ensaio de abatimento do tronco de cone (Reis, 2008) Neste ensaio, a tensão que promove a mobilização do material, consiste no peso próprio do concreto por área. O concreto apenas se move caso a sua tensão de escoamento seja excedida e, assim que a tensão aplicada for menor que a tensão de escoamento do mesmo, ele estabiliza.

75 5.2.2. Abatimento do tronco de cone modificado Uma vez que o ensaio de abatimento de tronco de cone tradicional era capaz de medir apenas a propriedade reológica relacionada com a tensão de escoamento do concreto fresco, Tanigawa et al. (1991) propuseram modificações que tornariam possíveis a obtenção de medidas relacionadas com a viscosidade plástica do material. O equipamento adaptado por estes autores, apresentado na Figura 38, era formado por um medidor de deslocamento associado a um aquisitor de dados que armazenava o abatimento com o tempo. Para validar o novo método experimental proposto, Tanigawa & Mori (1989) e Tanigawa et al. (1991) desenvolveram estudos analíticos através da aplicação de elementos finitos para simular o fluxo e a deformação do concreto fresco, que foi assumido como fluido Binghamiano. Figura 38 - Ensaio de abatimento de tronco de cone modificado proposto por Tanigawa et al. (1991) Com o objetivo de deixar o equipamento mais simples e robusto para ser usado em trabalhos de campo, Ferraris & De Larrard (1998) fizeram algumas alterações e tentaram caracterizar a viscosidade plástica através de uma taxa média de abatimento.

76 Dessa maneira, intervalos de tempo necessários para se alcançar uma altura intermediária entre os valores inicial e final de abatimento pareceram, à priori, uma boa maneira para descrever a viscosidade dos concretos. Segundo Ferraris & De Larrard (1998), durante a escolha da altura intermediária de abatimento, dois problemas potenciais foram levados em consideração: primeiro, abatimentos muito baixos poderiam levar a tempos de abatimento muito pequenos e, assim, resultariam em baixa precisão nas medidas; e segundo, um abatimento parcial que fosse muito alto poderia excluir todos os concretos com abatimentos finais menores. Assim, como a variação de abatimento dos concretos capazes de serem avaliados com reômetros é maior que 100 mm, este valor foi adotado como o valor do abatimento parcial. A principal modificação feita no equipamento original consistiu na introdução de uma haste localizada centralmente na placa de base horizontal e no uso de um disco deslizante, conforme a Figura 39. Figura 39 - Aparelho do abatimento do tronco de cone modificado (Reis, 2008) O procedimento para a realização do ensaio de abatimento de tronco de cone modificado, Figura 40, é simples e semelhante ao ensaio padrão. As etapas de execução do ensaio são (Ferraris & De Larrard, 1998):

77 1) limpar cuidadosamente a haste central e aplicar algum desmoldante para facilitar o deslizamento do disco; 2) umedecer a base e a parede do molde usando uma esponja úmida; 3) colocar o molde na base, assegurando que o seu eixo está coincidindo com o da vara; 4) fixar o molde através de suas aletas pelos pés do operador e preenchê-lo com três camadas aproximadamente iguais, adensando cada camada com 25 golpes; 5) fazer o acabamento na superfície do concreto usando uma espátula e limpar a parte da haste localizada acima da amostra de concreto; 6) deslizar o disco pela haste até que este entre em contato com o concreto; 7) levantar o tronco do cone verticalmente e começar a cronometrar simultaneamente; 8) parar de cronometrar assim que o disco atingir a marca do abatimento de 100mm, travando nesta posição; 9) uma vez estabilizado o abatimento, ou no máximo um minuto após a realização do ensaio, remover o disco e medir o abatimento com a régua. Figura 40 - Procedimento experimental do ensaio de abatimento do tronco de cone modificado (Ferraris & De Larrard, 1998) Baseado em análises de elementos finitos dos ensaios de abatimento de tronco de cone e nas medidas da tensão de escoamento, usando um reômetro e o slump test, Hu (1995) propôs uma fórmula geral, expressa pela Equação 8, relacionando o abatimento com a tensão de escoamento.

78 (8) Onde ρ é a densidade do concreto (Kg/m³), τ o é a tensão de escoamento (Pa) e s é o abatimento (mm). Avaliando a tensão de escoamento prevista por este modelo, Ferraris & De Larrard (1998) encontraram um erro médio de 195Pa para tensões no intervalo entre 100 e 2000Pa. Na tentativa de reduzir este erro, tais autores fizeram ajustes na equação proposta por Hu (1995), mudando a declividade da reta e introduzindo um termo constante, obtendo assim a Equação 9. 347 300 212 (9) Ferraris & De Larrard (1998) também propuseram equações para determinar a viscosidade plástica de concretos com abatimentos menores que 260mm, conforme apresentado a seguir. 1,08. 10 175 para 200mm<s<260mm (10) 25. 10 para s<200mm (11) Onde é a viscosidade plástica em Pa.s e T é o tempo de abatimento em s.