A TERRITORIALIDADE COMO EIXO CENTRAL DOS DIREITOS INDÍGENAS



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Transcrição:

A TERRITORIALIDADE COMO EIXO CENTRAL DOS DIREITOS INDÍGENAS Djalma Magalhães Couto (djalma.couto@hotmail.com) Orientadora: Profª. Drª. Christina Miranda Ribas Universidade Estadual de Ponta Grossa Resumo: O trabalho estuda a atual realidade indígena brasileira sob uma perspectiva multiculturalista emancipatória. Seu objetivo é identificar a eficácia dos direitos conferidos a este povo, como o direito territorial, o cultural e o relativo à organização social própria, demonstrando as condições para seus respectivos exercícios. Aborda, ainda, o cenário criado pela colonização sempre eurocêntrica e uniformizadora, que posteriormente foi substituída por uma postura integracionista do estado brasileiro. Para tanto, foi desenvolvida pesquisa bibliográfica na obra de Carlos Frederico Marés de Souza Filho e Boaventura de Sousa Santos, utilizando de suas posturas sobre o multiculturalismo dentro de um Estado Nacional. Conclui-se que a insatisfação das comunidades silvícolas que lutam atualmente é fruto de um sistema estatal não preparado para este tipo de demanda e que a garantia da territorialidade é a estrutura que possibilita o exercício dos demais direitos conferidos ao povo indígena. Palavras-chave: Direitos coletivos, direito de autodeterminação, territorialidade, demarcação de terras indígenas. Introdução: O objetivo do presente trabalho é analisar as circunstâncias que fazem da territorialidade o eixo central de toda a discussão sobre o reconhecimento dos povos indígenas. Iniciando-se com uma colonização violenta, eurocêntrica e padronizadora, as comunidades indígenas sempre foram forçadas a se integrarem à comunidade nacional, abdicando de sua cultura, a fim de garantir sua sobrevivência. Até a Constituição de 1988, era essa a realidade imposta pelo ordenamento jurídico, que não enxergava os indígenas como um povo diferente, ou seja, uma coletividade sujeito de direitos. Dado os interesses econômicos da sociedade civil, atualmente se travam diversas batalhas nas demarcações das terras indígenas, vez que tal política entra em atrito com os referidos interesses. Também se demonstrará que a estrutura

constitucional implantada no Brasil não abarca a noção de direitos coletivos, mas somente direitos individuais, principalmente cristalizados na propriedade. Objetivos e Técnicas de Pesquisa Pesquisa de caráter histórico-dedutivo desenvolvida por meio de pesquisa bibliográfica. A pesquisa bibliográfica foi realizada em livros sobre os temas do multiculturalismo, do histórico e da situação indígena brasileira, bem como websites sobre os temas que envolvem os direitos indígenas. A abordagem se inicia com os elementos que constituem as garantias dos povos indígenas e a complexidade histórico antropológica deste processo. Depois o tema foi analisado na visão do Direito internacional, bem como a gama do direito positivo a respeito do tema, com enfoque na territorialidade. Resultados e Discussão: Cultura pode ser considerada como o repositório do que de melhor foi pensado e produzido pela humanidade (SANTOS, 2003, p.27). Em outras palavras, o conjunto dos valores materiais e espirituais cultivados por uma sociedade ao longo de sua história, que pode diferenciá-la das demais. Devido a colonização européia, a cultura foi colocada em uma escala evolutiva, elencando sempre as concepções eurocêntricas de universalidade e diversidade como desenvolvidas. Para povoar as colônias da América Latina, a Espanha instituiu um novo derecho indiano, que se assemelhava as normas vigente na Europa mas trazia algumas inovações casuísticas, enquanto os lusitanos adotaram o mesmo regime das Sesmarias que vigorava em sua terra natal. Em Portugal o regime sesmarial tinha o objetivo de proporcionar a produção de alimentos para a população, no Brasil foi mais um instrumento de conquista (SIQUEIRA; MACHADO, 2010). Neste sistema, se garantia a concessão de terras para quem quisesse vir ao Brasil, mesmo que para isso fosse necessário escravizar ou dizimar populações indígenas. Aos indígenas era garantido bom tratamento desde que se submetessem à catequese. Ou seja, percebe-se que quando os nativos não eram dizimados, eram assimilados a cultura oriental. Considerando que a identidade de um indivíduo transparece à medida em que ele age e fala (ARENDT, 2011, p.224), assim revelando-se, castrar a sua subjetividade e compelí-lo a um discurso padrão seria a recompensa pela submissão à cidadania nacional.

O quadro deste grupo não melhorou com o passar do tempo. Em 1680 foi expedido o Alvará Régio, primeiro instituto em defesa dos índios, o qual estabelecia que as terras indígenas deveriam ser respeitadas por serem estes os seus primeiros ocupantes. Entretanto, essa era uma norma ineficaz, vez que os indígenas continuaram a ser esbulhados de suas terras, muitas vezes com o aval do Estado, como quando foi declarado pela Carta Régia, de 1808, que as terras devolutas, aquelas conquistadas dos índios em guerras justas, poderiam ser destinadas de acordo com a vontade do Estado, o que gerou diversas invasões em terras de nativos. Não foi outra a realidade da Lei de Terras, Lei nº. 601/1850, que reconhecia território aos índios mas não criava instrumentos para a garantia e execução deste direito. Percebe-se que até hoje essa situação continua frustrante, já que o sistema constitucional da Europa, que foi reproduzido nas colônias, não conseguia abarcar a condição indígena. Numa linguagem tecnológica, seria como uma mídia que é incompatível com determinado sistema operacional. O motivo de tamanha incongruência é que a estrutura estatal não foi montada para considerar sujeitos com direitos próprios de coletividade. É a cultura do individualismo e do império da vontade individual. O Estado, ele mesmo passou a ser concebido como um indivíduo, uma pessoa de natureza especial... para facilitar as relações jurídicas (SOUZA FILHO, 2012, p.62). Quando foi implantada a ordem jurídica nos Estados latinoamericanos, esta foi concebida como universal e única, mas se bifurcava em dois grandes ramos, o Direito Público e o Direito Privado. Nesta bipartição, os interesses e as relações jurídicas entre os particulares ocorreriam dentro do direito privado, já as relações que envolvem os interesses da sociedade, como um todo, estariam inseridas no direito público (MELLO, 2005, p.25). Nesta separação, o direito territorial indígena fica numa espécie de limbo. Dotá-lo de caráter público seria aceitar a existência de um pequeno Estado dentro de outro. De outro lado, as soluções privadas também são insuficientes. Transferir a propriedade para cada nativo individualmente, como acontece na figura do Condomínio, seria impossível, pois o titular é a própria coletividade. Assim como, a transferência para a comunidade considerando-a uma pessoa jurídica também é irrealizável, já que não possuem um contrato social (GOMES, 2010, p.105).

No fim do século XIX, cada pedaço de terra foi dividido entre nações organizadas. Para ser reconhecido, o Estado precisava ter uma Constituição que operasse com direitos individuais, como a propriedade. Logo, os povos que não tinham interesse em uma Constituição, passarem a ser tutelados por outros (SOUZA FILHO, 2012, p.77). Para que um povo tenha seus direitos reconhecidos, a ordem internacional também exige essa estruturação em Estados. O conceito de povo indígena não existe para o Direito Internacional Clássico, pois deste ponto de vista, povo é o aglomerado humano sob um Estado Nacional, que possua, além da comunidade, um território e um governo não subordinado a qualquer autoridade exterior (REZEK, 2011, p.193). Acreditava-se que os índios seriam em algum momento integrados à comunidade nacional, por isso sempre foram vistos como provisórios, até os anos 80. Com a promulgação da Constituição de 88 esse cenário mudou, antes eram vistos como relativamente incapazes e subordinados a tutela de órgãos públicos, sendo, a partir de então, uma voz ativa e a defender por si mesmos seus interesses, retirando o manto de invisibilidade que lhes cobria (SANTOS, 2003, p.119). Houve um grande avanço na proteção aos indígenas com a adoção de um capítulo dedicado aos índios na Constituição brasileira, haja vista que toda legislação anterior era ineficaz ou incongruente. A Constituição estabelece um direito originário (anterior ao próprio direito) e coletivo aos povos silvícolas que tradicionalmente ocupam uma área, bem como lhes assegura sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradição. Qualquer destes direitos não possui uma titularidade individualizada, todos podem usufruir do bem, mas dele não podem dispor, já que significaria privar os demais. Burlando o direito ao território, a lei brasileira criou uma figura jurídica ilusória para as terras indígenas. Definiu-a como propriedade pública estatal, de posse privada, mas ao mesmo tempo coletiva, não identificável individualmente. Isto é, de propriedade da União mas de posse indígena, a quem cabe o seu usufruto exclusivo. Segundo o Código Civil de 2002, são bens públicos os dominicais, de uso especial e os de uso comum do povo. Mas a qual dessas categorias se refere essa figura? Nenhuma. A terra indígena é indisponível e não utilizável pelo poder público, vedada ao uso comum de toda a sociedade e usufruível somente pelo povo indígena segundo seus usos, costumes e tradições. Tampouco se trata de terra particular ou

privada. Sendo assim, não se enquadra no conceito dogmático de propriedade, propriedade não é,...estamos falando de território, embora sem soberania e com pouca autonomia (SOUZA FILHO, 2012, p.123). Além dessas terras definidas na Constituição, quando não houver ocupação originária, o Estatuto do Índio, Lei 6.001/73, já previa a possibilidade de criação de terras reservadas. Essas glebas, ao contrário das já ocupadas, são primeiramente propriedade da União e depois transformadas em indígenas. Servem para recompensar ou aldear índios. Seu resultado, segundo Souza Filho, oscila entre dar proteção, integrar como cidadão e aldear para reprimir (SOUZA FILHO, 2012, p.130). Ainda, o Estatuto do Índio fornece uma terceira categoria de terras dos índios, que são as terras de domínio indígena. Neste caso, tratam-se das terras adquiridas de forma particular pelo indígena e das adquiridas por Usucapião Indígena. Não bastasse a figura contraditória criada pelo legislador, a demarcação dessas terras indígenas encontra diversas barreiras para se concretizar, desde interesses relativos a madeira, minério e combustíveis fósseis, até vias de comunicação. Entretanto, as piores lutas são travadas em áreas com predominância de propriedade privada instituída. O motivo é que os proprietários individuais, na maioria das vezes proprietários agrícolas, receberam essas terras como devolutas do Estado, logo se consideram os legítimos proprietários delas e assim são reconhecidos pelo sistema (SANTOS, 2003, p.98). Não há motivos para o Estado não efetuar as devidas demarcações, vez que atualmente elas se revestem de positividade e, ainda, nunca foi de interesse dos povos constituir seu próprio Estado, mesmo tendo participado de guerras de independência sua luta sempre foi pelo território compartilhado e o respeito às formas de vida de cada um. Ironicamente, a deterioração das soberanias nacionais vem se dando pela globalização, que tenta integrar todos como consumidores ou fornecedores de conhecimento (SANTOS, 2003, p.108). Considerações Finais: Neste caso a noção de justiça é inseparável de conceitos identitários, da exigência do reconhecimento de uma diferença que tem como base a comunidade e o local mas que ao mesmo tempo se move numa teia de direitos diferenciados e conflituosos (SANTOS, 2003, p.48).

Por não compartilharem das concepções de território, soberania e propriedade da comunidade nacional, não há como submeter os povos indígenas ao Direito oficial e positivo. Na comunidade se desenvolve um sistema jurídico complexo, com normas e sanções que derivam da própria comunidade, que as estabelece no processo social, de acordo com as necessidades do grupo. (SOUZA FILHO, 2012, p.71) Diferente da propriedade privada, que representa mais uma ferramenta econômica ao seu senhorio, a territorialidade está intimamente conectada a própria sobrevivência de um povo. São as relações que se travam com o ambiente que criam suas tradições e costumes. Sem um território, há grandes chances de que as referências culturais desapareçam e uma vez perdidas, seu povo desaparece junto com elas. Aqui a existência física de um território, com um ecossistema determinado e o domínio, controle ou saber que tenha o povo sobre ele, é determinante para a própria existência do povo (SOUZA FILHO, 2012, p.120). Ou seja, para o exercício dos direitos ambientais, culturais e físicos indígenas, é imprescindível a existência de um espaço material que os viabilize. Referências ARENDT, Hannah. A condição humana. 11 ed. Forense Universitária: Rio de Janeiro. 2011. GOMES, Orlando. Direitos Reais. 20 ed. Forense: Rio de Janeiro. 2010. MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de direito administrativo. 18 ed. Malheiros: São Paulo. 2005. REZEK, Francisco. Direito Internacional Público: curso elementar. 13 ed. Saraiva: São Paulo. 2011. SANTOS, Boaventura de Sousa. Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo multicultural. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. 2003. SIQUEIRA, Roberta Cristina de Morais; MACHADO, Vilma de Fátima. Direito dos Povos Indígenas ou Direito para os Povos indígenas?. Disponível em <http://www.fdv.br/publicacoes/periodicos/revistadireitosegarantiasfundamentais/n6/1.pdf>, Acesso em: 10 Junho 2013. SOUZA FILHO, Carlos Frederico Marés de. O renascer dos Povos Indígenas para o Direito. 8 ed. Juruá: Curitiba. 2012.