A Vida do Cagarro. durante 1 ano



Documentos relacionados
Plano de Acção Brigadas Salvamento [SALVE UM CAGARRO]

A sua respiração é feita através da pele, daí a necessidade do seu espaço se encontrar sempre húmido.

1- Foca-da-Gronelândia (Pagophilus groenlandicus) 2 - Cavalo-marinho Pigmeu (Hippocampus bargibanti) 3 - Lontra-marinha (Enhydra lutris)

CLASSIFICAÇÃO DOS AMBIENTES MARINHOS

AS AVES DA MINHA ESCOLA

19 de Março Dia do Pai Dedoches uma família à maneira e jogos História de encantar e Sessão de magia Teatro ser mãe e pai não é fácil!

ANDAM GOLFINHOS NA COSTA

O que esperar do SVE KIT INFORMATIVO PARTE 1 O QUE ESPERAR DO SVE. Programa Juventude em Acção

Posição da SPEA sobre a Energia Eólica em Portugal. Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves

os testículostí onde são produzidos os espermatozóides (gâmetas masculinos), femininos).

13 perguntas sobre o sol e a protecção solar

Lubrificantes TECNOLOGIAS DE LUBRIFICAÇÃO PRODUTOS E PROGRAMAS. Correntes de Galle

Reprodução Sexuada Meiose e Fecundação

O Sr. DANIEL ALMEIDA (PCdoB-BA) pronuncia o. seguinte discurso: Senhor Presidente, Senhoras e Senhores

saídas de campo Outras saídas serão divulgadas em breve...

Trabalho realizado por: João Rabaça. 11º Ano do Curso Técnico de gestão de Equipamentos Informáticos

CAPA DO RELATÓRIO DE VIAGEM

Classificação dos processos sucessionais

4 π. Analisemos com atenção o sistema solar: Dado que todos os planetas já ocuparam posições diferentes em relação ao Sol, valerá a pena fazer uma

Construção e Energias Renováveis. Volume IV Energia das Ondas. um Guia de O Portal da Construção.

41 Por que não bebemos água do mar?

NOME: Nº. ASSUNTO: Recuperação Final - 1a.lista de exercícios VALOR: 13,0 NOTA:

Lista de Exercícios CINEMÁTICA I Unidade PROF.: MIRANDA

COMPRAR GATO POR LEBRE

Plano e Relatório de Aula; Normas de Segurança e Plano de Emergência. Plano e Relatório de Aula

Processionária-do-pinheiro

CIÊNCIAS PROVA 1º BIMESTRE 5º ANO

CIÊNCIAS PROVA 3º BIMESTRE 6º ANO PROJETO CIENTISTAS DO AMANHÃ

DOSSIER SOBRE A PROCESSIONÁRIA. O que é a Processionária? Lagarta do Pinheiro (Lagartas Processionárias)

DESCRITORES DAS PROVAS DO 1º BIMESTRE

Inicialmente tem-se de reunir e preparar todo o material para a realização deste projeto.

Objetivos das Famílias e os Fundos de Investimento

PIRACEMA. Contra a corrente

EPS ABS AIRBAG CINTO DE SEGURANÇA CAPACETE CADEIRA DE BEBES

Figura 1. Habitats e nichos ecológicos diversos. Fonte: UAN, 2014.

O QUE SÃO DESASTRES?

Programa de Educação Ambiental

Profa. Maria Fernanda - Química nandacampos.mendonc@gmail.com

Escolher um programa de cuidados infantis

PAVIRO Sistema de chamada e evacuação por voz com qualidade de som profissional Flexibilidade desde o início PAVIRO 1

Propriedades Planetas Sol Mercúrio Vênus Terra. O Sistema Solar. Introdução à Astronomia Fundamental. O Sistema Solar

Bicicletas Elétricas MANUAL KIT ELÉTRICO

4 o ano Ensino Fundamental Data: / / Atividades de Ciências Nome:

muito gás carbônico, gás de enxofre e monóxido de carbono. extremamente perigoso, pois ocupa o lugar do oxigênio no corpo. Conforme a concentração

O céu. Aquela semana tinha sido uma trabalheira!

Movimento Aparente dos Astros e Descrição do Céu

GERÊNCIA EDUCACIONAL DE FORMAÇÃO GERAL E SERVIÇOS CURSO TÉCNICO DE METEOROLOGIA ESTUDO ESTATISTICO DA BRISA ILHA DE SANTA CATARINA

FICHAS DE PROCEDIMENTO PREVENÇÃO DE RISCOS

Ponte rolante: como escolher

Elementos e fatores climáticos

02- Agrupamento de estrelas que juntas formam figuras imaginárias. R.: 03- Ciência que estudo os corpos celestes. R.:

ECOLOGIA GERAL ECOLOGIA DE POPULAÇÕES (DINÂMICA POPULACIONAL E DISPERSÃO)

ATIVIDADE INTERAÇÕES DA VIDA. CAPÍTULOS 1, 2, 3 e 4

INVENTÁRIO DE SINTOMATOLOGIA DEPRESSIVA (AVALIADO POR CLÍNICOS) (IDS-C)

CENTRO VELA EMBARCAÇÃO POGO 6.50M LOTAÇÃO MAX 4 ALUNOS 1 INSTRUTOR. Iniciação e Aperfeiçoamento / Pax (Max. 4 Pax)

COBERTURAS AUTOMÁTICAS PARA PISCINAS

INFLUÊNCIA DOS FATORES DO MEIO NO COMPORTAMENTO DOS ANIMAIS

RUMO AO FUTURO QUE QUEREMOS. Acabar com a fome e fazer a transição para sistemas agrícolas e alimentares sustentáveis

Informação à Imprensa

número 3 maio de 2005 A Valorização do Real e as Negociações Coletivas

PROJETO DE LEI N.º 1018/XII/4.ª PROTEGE OS DESEMPREGADOS DE LONGA DURAÇÃO, FACILITA O ACESSO AO SUBSÍDIO DE DESEMPREGO

Especialistas em Protecio

[CICLO ESTRAL (CIO) NAS CADELAS]

CIÊNCIAS PROVA 3º BIMESTRE 7º ANO PROJETO CIENTISTAS DO AMANHÃ

Fernando de Noronha foi descoberta em 1503, pelo navegador Américo Vespúcio.

Energia e suas fontes

RELATÓRIO DE VISITA MISSIONÁRIA

SEGURANÇA DE MÁQUINAS

PROJETO. Saúde, um direito Cívico

Tipos de Poços. escavação..

À boleia: o dispositivo para peixes transporta também enguias, que crescem e se alimentam em água doce e migram para o mar para se reproduzirem.

Energia Eólica. Atividade de Aprendizagem 3. Eixo(s) temático(s) Ciência e tecnologia / vida e ambiente

Construindo Relacionamentos

1.1. Viagens com GPS. Princípios básicos de funcionamento de um GPS de modo a obter a posição de um ponto na Terra.

Diferimento de pastagens para animais desmamados

ENERGIA DA BATERIA & GERENCIAMENTO DA ENERGIA

Aterro Sanitário. Gersina N. da R. Carmo Junior

Organização. Trabalho realizado por: André Palma nº Daniel Jesus nº Fábio Bota nº Stephane Fernandes nº 28591

Controlo de iluminação local multifuncional

b) Ao longo da sucessão ecológica de uma floresta pluvial tropical, restaurada rumo ao clímax, discuta o que ocorre com os seguintes fatores

Cuidados a Ter com o seu Gato

circundante de 20 metros de diâmetro. De um modo geral, os gases devem ser evacuados pelas chaminés ou saídas de gases verticalmente e para cima.

Linha de transmissão. O caminho da energia elétrica

A Telemática como Instrumento de Promoção de Eficiência e de Sustentabilidade no Transporte de Passageiros

C5. Formação e evolução estelar

Isaac Newton ( )

ÍNDICE. davantisolar.com.br O QUE É ARQUITETURA VERDE FUNDAMENTOS POR QUE FAZER MÃOS A OBRA VANTAGENS PARA O PROJETO VANTAGENS PARA O IMÓVEL

FUENTE DE VIDA PROJETO AGUA VIDA NATURALEZA [ PROJETO ÁGUA VIDA NATUREZA ] RELATÓRIO CHOCOLATERA INTRODUÇÃO.

TIPO-A FÍSICA. x v média. t t. x x

Transporte nos animais

DESENVOLVIMENTO DE UM DINAMÔMETRO PARA MOTORES ELÉTRICOS EMPREGADOS EM VEÍCULOS EM ESCALA, COM MEDIDA DE DIRETA DE TORQUE E CARGA VARIÁVEL

Winter Challenge 2ª Edição Amparo 2006 Procedimentos

O Ser Humano como potencial destruidor do ecossistema marinho. Carlos Bastos

Associação de Pais do Agrupamento de Escolas de São Pedro do Sul ESTATUTOS

Transcrição:

A Vida do Cagarro durante 1 ano

Outubro-Novembro A grande viagem para Sul Em Outubro, os cagarros juvenis, já com o tamanho e a plumagem de cagarros adultos, são abandonados no ninho pelos seus progenitores, que migram para o Hemisfério Sul, onde permanecem durante o Inverno. Sozinhos, os cagarros juvenis saem do ninho pela primeira vez, a partir de meados de Outubro, em direcção ao mar. No mar, procuram alimento e iniciam o seu primeiro grande voo de muitas centenas de quilómetros, para Sul. Em alto mar, passarão o Inverno com outros cagarros da colónia. No percurso do ninho até ao mar, os cagarros juvenis, enfrentam muitos perigos. Um dos principais perigos são as estradas. Os cagarros são atraídos pelas luzes artificiais dos automóveis, das habitações e das estradas, sobretudo em noites escuras. Ao atravessarem as estradas, os cagarros ficam encandeados pelas luzes e podem ser atropelados pelos carros.

Dezembro-Janeiro A vida em alto mar Os cagarros passam o Inverno em alto mar, no oceano Atlântico. Tal como os albatrozes, ou outras aves marinhas, possuem diversas características morfológicas adaptadas a este modo de vida: o corpo leve, as asas longas, estreitas e flexíveis, as patas com membranas interdigitais e as glândulas tubulares, associadas às narinas, que expelem o sal da água do mar. Os cagarros podem deslizar sobre o mar durante horas, praticamente sem bater as asas. As asas mantidas tensas, estiradas e mais ou menos arqueadas permitem efectuar um voo planado em ziguezague por entre as ondas do mar, ou imediatamente acima destas, consoante a velocidade do vento, reduzindo assim o efeito do atrito e poupando energia. O alimento (peixes, lulas e crustáceos) é procurado com o auxílio da visão e do olfacto, de dia ou de noite, em vastas áreas do oceano, por vezes em associação com golfinhos e atuns. Os cardumes de peixe perseguidos pelos golfinhos e pelos atuns que fogem em direcção à superfície são mais facilmente capturados pelos cagarros, uma vez que estes mergulham geralmente a baixa profundidade. O seu bico, direito e com a ponta em forma de gancho, facilita a captura das presas.

Fevereiro-Março O regresso aos Açores O cagarro, de nome científico Calonectris diomedea, pertence à Ordem dos Procellariiformes, grupo formado por espécies de aves marinhas pelágicas, que passam grande parte do seu ciclo de vida no mar, vindo a terra apenas durante a época de reprodução, para nidificar. Março é o mês do regresso dos cagaros aos Açores, depois de uma longa ausência nos mares do Hemisfério Sul. Os cagarros começam desde logo por visitar as colónias de anos anteriores, situadas em ilhéus, falésias e arribas costeiras, sempre durante a noite, possivelmente para protecção contra eventuais predadores. Ao final da tarde, agregam-se em grandes grupos, a que os ornitólogos chamam jangadas, e ficam pousados silenciosamente no mar junto à costa, perto da sua colónia. Quando o grupo se encontra todo reunido regressam finalmente à colónia emitindo os interessantes cantos e vocalizações que lhes são tão característicos, fazendo lembrar o coaxar de uma rã ou por vezes o miar de um gato. A vocalização do macho é mais aguda e prolongada do que a vocalização da fêmea.

Abril-Maio O namoro Em Abril e Maio, durante a noite, os cagarros já com o seu parceiro reencontrado, com o qual permanecem toda a vida, aumentam a frequência das suas visitas a terra, onde namoram, acasalam e preparam o ninho onde o ovo será colocado. O namoro inclui comportamentos complexos de reconhecimento e de consolidação do casal, e geralmente envolvem muita actividade vocal. O ninho dos cagarros pode ser escavado no solo pela própria ave ou instalado em cavidades naturais de rocha vulcânica. Tem normalmente mais de um metro de profundidade, por forma a proteger o ovo e a cria de possíveis predadores. Em finais de Maio, a actividade das colónias mantém-se e as fêmeas voltam ao seu ninho para pôr um único ovo. O ovo é branco e será incubado durante 55 dias, alternadamente pelo macho e pela fêmea, em turnos de 2 a 8 dias. Se o ovo se perder, as fêmeas não têm capacidade de pôr outro nesse ano.

Junho-Julho O nascimento das crias No final de Julho a cria eclode, cinzenta e felpuda, crescendo muito depressa. O seu peso inicial multiplica-se por 10 em apenas cerca de 1 mês. Ao longo dos dias, o casal desloca-se alternadamente entre a colónia e o mar para alimentar a cria em crescimento. Por vezes, o alimento das crias é entregue já parcialmente digerido, sob a forma de óleo, regurgitado no seu bico aberto. Apesar do seu aspecto frágil e atractivo, estas crias têm uma importante missão a cumprir: assegurar a perpetuação da população, que se encontra num estado de conservação desfavorável, tendo mesmo vindo a decrescer nas últimas décadas. As crias não devem ser perturbadas nos ninhos, por muito bem intencionadas que as pessoas possam ser. Os ninhos de cagarros devem ser evitados e as crias não podem de forma alguma ser manipuladas.

Agosto-Setembro As crias continuam a crescer Durante o mês de Agosto cada cria recebe dos pais refeições de cerca de 60 gramas, 2 vezes em cada 3 dias, criando importantes reservas de gordura. A cria irá permanecer com o casal de progenitores durante cerca de 3 meses. Virá a ter uma vida longa, que poderá ir até aos 40 anos de idade, atingindo a maturidade sexual por volta dos 7 ou 8 anos, altura em que regressará aos Açores para se reproduzir pela primeira vez. O cagarro tem uma maturidade sexual tardia e baixa fecundidade (cada casal tem apenas uma cria por ano), por isso é mais sensível à perturbação e exploração humanas. É assim urgente impedir a destruição do seu habitat de nidificação, bem como a captura e a morte de adultos e crias. Esta prática continua a ser comum em algumas ilhas, seja para obtenção de isco, para alimentação ou por puro vandalismo. Os Açores têm um papel muito importante na conservação mundial desta espécie emblemática, pois o arquipélago recebe todos os anos a maior população de cagarros do planeta.

Texto Maria Pitta Groz e Paula Abreu Revisão científica José Pedro Granadeiro