TEMA: CONCURSO DE CRIMES 1. INTRODUÇÃO Ocorre quando um mesmo sujeito pratica dois ou mais crimes. Pode haver um ou mais comportamentos. É o chamado concursus delictorum. Pode ocorrer entre qualquer espécie de crime: doloso e culposo; omissivo e comissivo; consumado e tentado; crimes e contravenções etc. A importância está na aplicação da pena, que será diferenciada. 2. SISTEMAS DE APLICAÇÃO DA PENA O concurso de crimes dá origem ao concurso de penas. Para a aplicação delas, são vários os sistemas, senão vejamos: o Cúmulo material: ocorre a some das penas de cada um dos delitos (a crítica é que as penas ficam muito longas. A ressocialização seria alcançada com penas menores); o Cúmulo jurídico: a pena aplicada é maior que a dos delitos, mas não chega à soma deles; o Absorção: a pena do delito mais grave absorve a do delito menos grave (a crítica é que geraria impunidade com os crimes menores. Se o sujeito já praticou um crime mais grave, teria carta branca para praticar outros crimes). o Exasperação: aplica-se a pena mais grave, com o aumento de determinada quantidade pelos outros crimes. BRASIL: ADOTA APENAS OS SISTEMAS DO CÚMULO MATERIAL (CONCURSO MATERIAL E CONCURSO FORMAL IMPRÓPRIO) E DA
EXASPERAÇÃO (CONCURSO FORMAL PRÓPRIO E CRIME CONTINUADO). 3. ESPÉCIES DE CONCURSO DE CRIMES 3.1 CONCURSO MATERIAL: O agente, com mais de uma conduta (ação ou omissão) pratica 2 ou mais crimes, idênticos ou não. Há pluralidade de condutas e pluralidade de crimes. 3.1.1 CONCURSO MATERIAL HOMOGÊNEO: mesmo crime (ex: dois homicídios); 3.1.2 CONCURSO MATERIAL HETEROGÊNEO: crimes diferentes (ex: estupro e homicídio). Pode haver vários processos. Se houver conexão, verificar o artigo 76 do CPP. Extinção da punibilidade: isoladamente sobre a pena de cada crime (119, CP). 3.2 CONCURSO FORMAL: O agente, com só uma conduta (ação ou omissão que podem se desdobrar em vários atos) pratica 2 ou mais crimes, idênticos ou não. Há unidade de ação e pluralidade de crimes. 3.2.1 CONCURSO FORMAL PRÓPRIO (PERFEITO): Não há desígnio autônomo. A vontade do agente é de cometer um só crime. Unidade de ação e de vontade -> EXASPERAÇÃO (ART. 70, primeira parte, CP); 3.2.2 CONCURSO FORMAL IMPRÓPRIO (IMPERFEITO): Embora com uma só ação, o agente quer a realização de dois ou mais crimes (desígnios autônomos). Unidade de ação e pluralidade de vontades -> CÚMULO MATERIAL (ART. 70, segunda parte, CP). 3.3 CRIME CONTINUADO: É uma ficção jurídica concebida por razões político-criminais. Dá-se um tratamento unitário à uma pluralidade de delitos, com uma forma especial de punição.
DEFINIÇÃO: O agente, mediante 2 ou mais condutas, pratica 2 ou mais crimes da mesma espécie, sendo que os subseqüentes, pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes, devem ser tidos como continuação do primeiro. A lei considera como crime único. NATUREZA JURÍDICA: Em verdade, há 1 ou mais crimes? o Teoria da Unidade Real: as várias ações configuram um só crime, pois são o elo de uma mesma corrente (unidade de intenção e unidade de lesão). o Teoria da Ficção Jurídica: Na verdade, é uma criação da lei, pois realmente são vários delitos. Se não fosse assim, a pena deveria ser a de só um dos crimes, sem acréscimo. o Teoria da Unidade Jurídica ou Mista: Nem um nem outro. É uma figura própria, constituindo uma realidade jurídica. É um crime de concurso. O BRASIL ADOTA A TEORIA DA FICÇÃO JURÍDICA. TEORIAS DO CRIME CONTINUADO: o TEORIA SUBJETIVA: Não importam os dados objetivos da ação, mas sim o elemento subjetivo, a vontade do agente (unidade de propósito ou desígnio). Era aplicada na Itália, mas não é mais. A crítica é a dificuldade para aferir o elemento subjetivo. o TEORIA OBJETIVO-SUBJETIVA: Além dos requisitos objetivos, requer a unidade dos propósitos ou desígnios. Ex: Operário de fábrica que, desejando subtrair uma geladeira, leva uma peça de cada vez. Exige unidade de
resolução criminosa e homogeneidade de modus operandi. Crítica do Hungria: levar em consideração o aspecto subjetivo acaba recompensando aquele que tem um plus no dolo! Para ele, esse plus no dolo deveria ser levado em consideração na culpabilidade, dentro do art. 59 do CP. o TEORIA OBJETIVA: Não importa a vontade do agente (critério subjetivo), mas apenas os elementos constitutivos da unidade delitiva. É A TEORIA ADOTADA NO BRASIL. REQUISITOS DO CRIME CONTINUADO: 1. Pluralidade de condutas: O agente deve praticar 2 ou mais condutas. Uma só conduta pode caracterizar concurso formal; 2. Pluralidade de crimes da mesma espécie: A pergunta é se são os mesmos tipos penais ou crimes que lesam os mesmos bem jurídicos. A doutrina majoritária é no sentido dos crimes que lesam os mesmos bens jurídicos (tipos aparentados). 3. Nexo da continuidade delitiva: São as circunstâncias de tempo, lugar, modo de execução e outras semelhantes: a. Condições de tempo: Não se trata apenas de condições meteorológicas, mas sim de certa peridiocidade entre os crimes (aspecto cronológico, ou seja, uma certa uniformidade entre ações sucessivas. b. Condições de lugar: Deve haver uma conexão espacial. Isso não quer dizer que deva ser sempre o mesmo lugar, mas se forem em lugares diferentes, pode não restar comprovada a continuidade delitiva. c. Maneira de execução: Deve ser semelhante, não precisa ser idêntica. É o modo, a forma, o estilo de praticar o crime.
d. Outras condições semelhantes: Mesma oportunidade e mesma situação propícia para a prática do crime. Trata-se que qualquer outra situação que caracteriza a homogeneidade das ações. (Ex: doméstica que subtrai charutos do patrão; morador que frauda o contador de luz por sucessivas vezes etc.). SE AUSENTE UMA DAS CONDIÇÕES, NÃO NECESSARIAMENTE FICARÁ DESCARACTERIZADO O CRIME CONTINUADO. HÁ ABSURDOS, COMO P. EX.: CONTINUIDADE EM CRIMES COM INTERVALOS DE 12 MESES, P. EX. ASSIM, DEVE HAVER HOMOGENEIDADE DE BENS JURÍDICOS ATINGIDOS E HOMOGEINEDADE DE PROCESSO EXECUTÓRIO. CRIME CONTINUADO ESPECÍFICO: A pergunta sempre foi se haveria concurso de crimes em crimes que atingissem bens personalíssimos (ex: vida). O STF chegou a editar uma Súmula (605). Mas com a reforma de 84, o CP adotou a corrente minoritária (não distinguindo entre bens pessoais e patrimoniais) e permitiu o concurso, nos moldes do art. 71, p. único, desde que se tratem de vítimas diferentes. Segundo Bitencourt, vítimas diferentes são uma exceção apenas para aplicar a pena até o triplo. Assim, sem vítimas diferentes: 71, caput (aumenta de 1/6 a 2/3); com vítimas diferentes: 71, p. único (até o triplo). Assim, são três os requisitos do crime continuado específico: 1. Vítimas diferentes: se for a mesma, é o 71, caput; 2. Com violência ou grave ameaça à pessoa; 3. Somente em crimes dolosos.
4. DOSIMETRIA DA PENA NO CONCURSO DE CRIMES 1. Concurso material: cúmulo material; 2. Concurso formal próprio: exasperação; 3. Concurso formal impróprio: cúmulo material; 4. Crime continuado: exasperação (caput: até 2/3; p. único: triplo). IMPORTANTE: APLICANDO A EXASPERAÇÃO, A PENA PODE FICAR AINDA MAIS GRAVE DO QUE SOMANDO AS PENAS. OCORRE QUANDO UM CRIME É MUITO MAIS GRAVE QUE O OUTRO. EX: HOMICÍDIO E LESÃO CORPORAL LEVE. VER ARTIGO 70, P. ÚNICO E 75, CP. 5. ERRO NA EXECUÇÃO ABERRATIO ICTUS Não se confunde com o erro quanto á pessoa. Aqui, a vontade é atingir a pessoa certa. Logo, não é o elemento psicológico da ação que é viciado (como é no erro quanto à pessoa), mas somente a execução do crime. É, em verdade, erro no uso dos meios de execução. Pode se dar por acidente ou inabilidade na execução (ex: vai atirar e um pássaro pousa na arma na hora do tiro; não sabe atirar); Está previsto no art. 73 do CP. Ex: A atira em B, mas atinge C. Responde como se acertasse B. O DP tutela a vida humana, e não a vida de B ou C; Há duas modalidades: o Aberratio ictus com unidade simples: o agente erra o alvo e atinge somente a pessoa não visada. IMPORTANTE: A princípio, seria tentativa contra a pessoa não atingida e homicídio culposo com relação à vítima. Mas não é assim na prática, pelo art. 73. Responde justamente por homicídio doloso contra a vítima virtual. A tentativa é subsumida.
o Aberratio ictus com unidade complexa: o agente acerta a pessoa visada e também uma terceira pessoa. Trata-se de concurso formal próprio. IMPORTANTE: Se o agente agir com dolo eventual com relação ao terceiro, responde pelos dois crimes (concurso formal impróprio). o Com relação às qualidades da vítima, leva-se em consideração as qualidades da vítima que a pessoa visava atingir (ex: visa A e mata o pai: não incide a agravante do 61, II, e; se é o contrário, aplica). 6. RESULTADO DIVERSO DO PRETENDIDO ABERRATIO DELICTI o Ocorre quando também por acidente ou inabilidade, o agente atinge bem jurídico diverso do pretendido, fora das hipóteses do 73; o A punibilidade do resultado diverso do pretendido fica condicionada à existência da modalidade culposa do crime; o Se ocorrer também o resultado pretendido, aplica-se a regra do concurso formal; o Ex: A arremessa uma pedra para quebrar a vitrine e acaba ferindo a balconista: responde por dano e por lesão corporal culposa. Mas se ele arremessa a pedra para machucar uma pessoa e quebra a vitrine, responde apenas pela lesão corporal dolosa, já que o dano não prevê modalidade culposa. Resta a indenização na esfera cível. 7. LIMITE DE CUMPRIMENTO DA PENA DE PRISÃO O tempo de cumprimento da PPL não pode ser superior a 30 anos (art. 75, CP), em conformidade com a CF, art. 5.º, XLVII, b;
Isso não impede que a condenação seja superior (ex: chacina de Guaíra). Ver S. 715 do STF. Praticando novos crimes durante a execução da pena, deve-se fazer nova unificação delas, desprezando o período já cumprido.