Grandes empreendedores

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Transcrição:

aldeia Grandes empreendedores Ao analisar a trajetória de dois grandes empreendedores do século passado, o visconde de Mauá e o conde Matarazzo, este artigo mostra que empreendedorismo e redes sociais estão historicamente associados Por Ana Cristina Braga Martes e João Gabriel Daher 18 vol.8 nº1 jan/fev 2009

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>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>> Os sociólogos sempre se preocuparam em definir o empreendedor capitalista como um ator social portador de uma mentalidade moderna. Tal mentalidade se opõe ao modo tradicional de produzir e enriquecer, o qual valoriza o trabalho como fim e não como instrumento, e com uma extraordinária capacidade de ação, liderança e inovação. De acordo com Max Weber, as forças de expansão do capitalismo industrial moderno não seriam apenas as reservas monetárias, mas especialmente certo espírito capitalista. A oposição modernidade versus tradicionalismo também aparece na explicação de Joseph Schumpeter sobre o desenvolvimento econômico. Para Schumpeter, não há inovação sem que ocorram alterações na rotina econômica; assim, segundo ele, o empreendedor é o agente que exerce a função de realizar novas combinações dos meios produtivos. E faz isso quando introduz um novo bem ou novo método de produção; quando abre um novo mercado, uma nova fonte de matérias-primas ou bens semimanufaturados; e quando constitui ou fragmenta uma posição de monopólio. Se levarmos à risca essas definições, ao longo de toda a história do Brasil apenas dois empreendedores se destacam: Francisco Matarazzo e Irineu Evangelista de Sousa, o visconde de Mauá. Ambos marcaram a industrialização brasileira e ainda hoje são considerados símbolos de liderança empresarial. Trilharam uma trajetória própria e demonstraram ter uma extraordinária capacidade para compreender o mundo em que viviam. Enquanto Mauá é o grande nome da economia brasileira da segunda metade do século XIX, Matarazzo é sinônimo da primeira fase da industrialização no século XX. A maçonaria. Com o escocês Richard Carruthers, Mauá iniciou seus estudos de inglês, conheceu operações de câmbio e contabilidade. Mais do que isso, ele aprendeu uma forma de pensar. Mauá, assim como seu mestre, era a favor do livre comércio, do trabalho livre, e acreditava que a única forma de desenvolver o Brasil como uma nação forte e independente seria por meio da indústria, contrariando o discurso então vigente, no qual o Brasil deveria seguir sua verdadeira vocação agrícola. Para se opor à rede formada pelos fazendeiros e membros da corte que pensavam de forma antiga, havia outra rede que reunia os principais profissionais liberais da época, assim como intelectuais, juristas, políticos e profissionais que, apesar de terem dinheiro, estavam à margem da alta sociedade carioca e longe dos ouvidos do imperador. Esta rede era a maçonaria, organização da qual Carruthers era membro ativo. A organização secreta, com ideais republicanos e liberais, foi reestruturada no início do século XVIII na Inglaterra. A maçonaria britânica, chamada azul, defendia o rei e a constituição, a crença em Deus e em mudanças progressivas e liberais. Com o apoio dos reis, a organização ganhou muito poder e se espalhou pelo mundo. No Brasil, ainda no século XVIII, movimentos conspiratórios, como a Inconfidência Mineira, foram encabeçados por membros, como o próprio Tiradentes, da maçonaria vermelha a vertente francesa. Com a abertura dos portos, em 1808, e finalmente com a independência, em 1822, a maçonaria azul se estabeleceu no Brasil, tendo como prin- Dentre os pontos de semelhança entre Mauá e Matarazzo, destaca-se a capacidade de angariar recursos necessários ao financiamento de suas empresas 20 vol.8 nº1 jan/fev 2009

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>> aldeia: grandes empreendedores cipal líder ou grão-mestre José Bonifácio de Andrada e Silva, que acabou também se tornando grão-mestre da frente vermelha, conseguindo assim apoio fundamental para a independência e a formação do Império do Brasil. Entretanto, em 1823, o então imperador e grão-mestre maçom dom Pedro I, sentindo-se ameaçado por uma organização de ideais republicanos, prendeu e exilou os principais líderes maçons de seu tempo, assim como fez com José Bonifácio, em 1829. Dessa forma, durante o Primeiro e o Segundo Reinado, a maçonaria azul e a vermelha se aproximaram e foram, aos poucos, se infiltrando no poder e na burocracia, montando uma poderosa rede política e de informação. Foi por meio da maçonaria que Carruthers, um cidadão britânico e, portanto, às margens da rede social criada por brasileiros em torno do Império e dos partidos Liberal e Conservador, conseguiu fazer com que seus interesses dentro do governo fossem escutados. E foi também dessa forma que, ao ser iniciado, Mauá passou a agir. Dessa rede participavam os mais importantes profissionais liberais da época, juristas e comerciantes. Podemos dizer que, se por um lado existia o Império disposto a defender a qualquer custo os interesses coloniais e agrícolas, por outro, essa rede infiltrada dentro do próprio Império era a única alternativa para aqueles que desejavam ser atendidos politicamente sem serem aliados diretos das famílias tradicionais ou do imperador. Nomes de peso. A maçonaria contava com nomes importantes como Paulino Soares de Sousa (deputado, ministro e conselheiro de Estado na Guerra do Prata), José Tomás Nabuco de Araújo (deputado e ministro da Justiça), Eusébio de Queirós (ministro da Justiça, autor da lei que acabou com o tráfico de escravos) e outras personalidades que passaram a apoiar dentro do governo os empreendimentos do empresário. A rede social acima possuía alta densidade, ou seja, os atores possuíam amplas conexões entre si (Figura 1). Dessa forma, a maioria dos contatos eram redundantes Para Schumpeter, não há inovação sem que ocorram alterações na rotina econômica; assim, o empreendedor é o agente que exerce a função de realizar novas combinações dos meios produtivos quer dizer, as informações circulavam de forma rápida e intensa. Nota-se que o único ator conectado a todos os componentes da rede é Carruthers, fato que indica o papel conhecido como de broker, que liga novos membros ao grupo, inclusive Mauá. Tomás Nabuco de Araújo e Eusébio de Queirós escutaram Mauá durante a elaboração do Código Comercial, que adaptou as práticas comerciais ao fim do tráfico de escravos, à medida que acabava com problemas típicos de uma sociedade mercantilista, que impediam a criação de qualquer outra forma de negócio diferente dos coloniais. O novo código permitiu que uma série de operações financeiras, fundamentais para a alavancagem de crédito, passassem a ser realizadas no Brasil, criando um ambiente institucional mais amistoso a atividades empreendedoras. Em 1844, o ministro da Fazenda, Manuel Alves Branco, decretou a lei homônima, que estipulava tarifas de importação de 30% para produtos industrializados sem similar nacional e de 60% para produtos com similar nacional. Com o surgimento dessa lei, Mauá percebeu haver se viabilizado a produção de bens simples industrializados e criou a Ponta de Areia, empresa que acabou se tornando a primeira siderúrgica nacional e a única fundição. Colônia italiana. Matarazzo desembarcou com 22 anos no Brasil e foi para Sorocaba (SP), em 1881. Como a maioria dos imigrantes, encontrou-se diante de dois caminhos: tra- gvexecutivo 21

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>> balhar nas fazendas de café ou no comércio. Optou pelo segundo, abrindo uma venda em Sorocaba, que possuía um mercado consumidor por ser um centro tropeiro. Sempre tido como um benfeitor para os seus compatriotas imigrantes, pouco se fala sobre os benefícios desfrutados por ele por ocupar uma posição de destaque entre os italianos. O sucesso de Francisco Matarazzo como industrial já tinha sido consolidado com a criação do seu moinho em Figura 1 - Mauá e a maçonaria: a rede social por trás do Império Paulino Soares de Sousa Visconde do Rio Branco Duque de Caxias Eusébio de Queirós Richard Carruthers Nabuco de Araújo Fonte: CALDEIRA, J. Mauá, empresário do Império. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. Irineu Evangelista de Sousa 1900; da tecelagem, que surgiu primeiramente apenas como uma fornecedora de sacaria para a farinha de trigo em 1901; e, em 1902, com o surgimento da oficina da transformação, mais tarde chamada de Metalúrgica Matarazzo. Desde o início, porém, havia uma peça fundamental, mas ausente, necessária à consolidação do grupo: uma instituição financeira. Matarazzo havia participado de sociedades bancárias com outros membros da comunidade italiana em São Paulo, logo que chegara. Mas a grande maioria dessas sociedades era de capital aberto. Os sócios eram pequenos empresários italianos que passavam procurações para que Matarazzo os representasse. Isso ocorria porque em grande parte dos negócios o maior acionista era o próprio Matarazzo. Em 1906, quando o Banco de Nápoles organizou uma concorrência para selecionar os acionistas que obteriam o direito de representá-lo no Brasil e conseguir a licença exclusiva do governo italiano para intermediar as remessas dos ítalo-brasileiros para o exterior Matarazzo conquistou a posição. Controlando a rede assim formada, o empresário passava a ter em suas mãos uma fonte de crédito praticamente inesgotável. Uma rede desse tamanho e com baixa densidade (poucas conexões entre os atores) indica a existência de um broker, nesse caso Matarazzo, por ser o único ator Nome Influência Nascimento/ morte Paulino Soares de Sousa Deputado, ministro da Justiça e conselheiro de Estado na Guerra do Prata 1807-1866 Visconde do Rio Branco Senador, diplomata, presidente da província do Rio de Janeiro 1819-1880 Duque de Caxias Patrono do exército brasileiro. Importante figura na Guerra do Prata 1803-1880 Eusébio de Queirós Ministro da Justiça, autor da lei que proibiu o tráfico negreiro 1812-1868 José Tomás Nabuco de Araújo Ministro da Justiça, autor de um código civil e comercial no Segundo Reinado 1813-1878 22 vol.8 nº1 jan/fev 2009

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>> aldeia: grandes empreendedores Figura 2 - Francisco Matarazzo: o intermediário da colônia italiana Moinho Matarazzo Metalúrgica Matarazzo Fábrica de Tecidos Matarazzo Famílias italianas residentes no Brasil Francisco Matarazzo (Banco de Nápoles) Famílias italianas residentes na Itália Fonte: MARTINS, J. S. Conde Matarazzo, o empresário e a empresa. São Paulo: Hucitec, 1976 conectado a toda rede (Figura 2). Qualquer fluxo, informação ou processo teria que passar por suas mãos ou por seus negócios. Matarazzo foi capaz de se posicionar como um elemento estratégico, fato que lhe permitiu colocar seus projetos em prática e superar uma série de obstáculos típicos da atividade empreendedora. Similaridades. Mauá desafia a tradição econômica de sua época e introduz novas combinações nos meios produtivos. O empresário apostou no desenvolvimento do Brasil como país independente do Império. Assim como parte dos maçons, colocou-se favoravelmente à causa republicana, a favor da mão-de-obra fabril, livre e assalariada, ou seja, de uma nova forma de produzir e de alocar os fatores de produção. Dentre os pontos de semelhança dos dois empresários, destaca-se a capacidade de angariar recursos necessários ao financiamento de suas empresas. Assim como Mauá, Matarazzo assumiu uma posição estratégica na rede do sistema financeiro nacional na medida em que os recursos da colônia italiana no Brasil ficaram sob seu domínio. No caso de Mauá, a posição estratégica que o empresário veio a ocupar junto ao sistema financeiro foi mais abrangente se considerarmos o tamanho das economias de modo proporcional às respectivas épocas. Contudo, o que mais interessa nessa comparação é entender que assumir um papel estratégico no sistema financeiro do país foi, em ambos os casos, fundamental para a construção de um império. Diferentemente de Mauá, Matarazzo empreende e inova em uma época em que falar em indústria brasileira não parecia mais uma extravagância. O que diferencia Matarazzo dos seus contemporâneos é que ele foi capaz de reconhecer lacunas nos mercados, ao fabricar banha e adaptar a produção aos insumos e à infra-estrutura brasileira. Dessa forma, Matarazzo constituiu um enorme conglomerado de empresas capazes de fornecer produtos, matérias-primas e mão-de-obra que se retro-alimentavam, dificultando a entrada de novos concorrentes. Por fim, resta destacar a função que ambos exerceram como ponte nos buracos da estrutura social para além das fronteiras nacionais (Itália e Inglaterra). Assim como Mauá, Matarazzo nunca exerceu ativamente nenhum cargo público. A política foi para ambos a causa de muitos problemas e, em alguns momentos, a solução. Para conseguir que seus interesses fossem ouvidos na esfera política, os dois contaram com redes sociais poderosas: colônia italiana e maçonaria. Sem elas, a história de sucesso e inovação empresarial de ambos não poderia ser compreendida. 6 Ana Cristina Braga Martes, Professora da FGV-EAESP, ana.martes@fgv.br João Gabriel Daher, Graduando pela FGV-EESP, gcdaher@gmail.com gvexecutivo 23