As quatro estações do conflito Israel-Palestina



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Transcrição:

As quatro estações do conflito Israel-Palestina Analúcia Danilevicz Pereira * Marcelo Kanter ** Resumo O longo conflito entre israelenses e palestinos ganhou uma nova dimensão a partir da chamada Primavera Árabe e de seus violentos desdobramentos. As mudanças no equilíbrio de forças regional e internacional, bem como o descrédito do Ocidente como mediador neutro, transformaram o ambiente geopolítico e introduziram novos atores que passaram a influenciar os acontecimentos. O Estado de Israel e as lideranças palestinas, de alguma forma, sentem o efeito de todos esses eventos, que ameaçam configurar alterações profundas no Oriente Médio e no mundo. Palavras-chave: Primavera Árabe. Palestina. Israel. Conflito árabe-israelense. Acordos de paz. Introdução A chamada Primavera Árabe marcou o início do ano de 2011 e representou a abertura de mais uma fase de profundas transformações pelas quais o Oriente Médio vem passando. Enquanto as manifestações evoluíam nos países árabes, os líderes palestinos, preocupados com o impacto que esses movimentos poderiam produzir sobre o conflito com Israel, tomaram a iniciativa de apresentar à Assembleia Geral das Nações Unidas uma solicitação de reconhecimento do Estado independente da Palestina. A iniciativa palestina foi acompanhada da reaproximação entre Hamas e Fatah, que acabou por fortalecer as posições mais conservadoras e radicais do atual governo israelense. As mudanças na correlação de forças regional permitem indicar um impacto imediato sobre as precárias condições existentes para as negociações entre israelenses e palestinos. Até pouco tempo, os palestinos estavam divididos pelas forças do Hamas, na Faixa de Gaza, e do Fatah, na Cisjordânia. Ainda que as cisões internas na liderança palestina não estejam * ** Professora de Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais NERINT/UFRGS. (E-mail: ana.danilevicz@ufrgs.br). Graduando de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Bolsista de Iniciação Científica do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais NERINT/UFRGS. (E-mail: mellokanter@gmail.com). 81

completamente superadas, houve êxitos importantes, como os esforços diplomáticos para a filiação à UNESCO. Por outro lado, havia outras forças capazes de influenciar as relações com Israel de diferentes formas, como o Egito, a Síria, o Líbano e a Jordânia. No entanto, essa realidade foi transformada, diminuindo as possibilidades de moderação de ambos os lados. De qualquer forma, os palestinos têm buscado fortalecer sua economia e suas instituições, bem como garantir melhorias na esfera de segurança, paralelamente às iniciativas em torno do reconhecimento internacional de um Estado independente, baseado nas fronteiras anteriores a 1967. Em contrapartida, os israelenses intensificam sua política de expansão e fortalecimento dos assentamentos, bem como a de contenção do Hamas. Sem dúvida, o reconhecimento legal de um Estado palestino serviria para minar a legitimidade da construção de novos assentamentos na Cisjordânia, ao mesmo tempo em que transformaria as fronteiras israelenses em pontos altamente vulneráveis. A maioria dos israelenses não aceita uma solução que defina a existência de dois Estados sem o estabelecimento de fronteiras seguras. Entretanto, é importante considerar que a permanente expansão dessas fronteiras, desde 1948, constitui a base dos conflitos que se mantêm sem uma aparente solução. A proposta de reconhecimento do Estado palestino foi bastante embaraçosa para o tradicional aliado israelense os Estados Unidos. Diante dos problemas domésticos, os norte-americanos não desejavam apoiar Israel sozinhos contra o resto do mundo, mas acabaram por não negociar e vetaram a moção palestina no Conselho de Segurança. Certamente essa atitude representou um forte contraste com o discurso de Barack Obama no Egito, ocasião em que apresentou os EUA como mensageiro de uma nova era nas relações do Ocidente com a região. Para os palestinos e seus partidários, o veto norte-americano pôs um fim a qualquer expectativa a respeito desse governo. Além disso, o recente ingresso da Palestina na UNESCO fez com que os EUA interrompessem sua contribuição financeira à organização 22 milhões de dólares, que representam 70% do orçamento da UNESCO (RABI, 2011-2012). Nesse sentido, ficou claro que as lideranças dos EUA não são mediadoras neutras na disputa israelense-palestina, o que transforma substancialmente o jogo internacional, abrindo espaço para a ação diplomática de países mais sensíveis ao problema vivido pelos árabes e por israelenses. O conflito tende, assim, a tornar-se cada vez mais complexo em função das novas orientações e dos novos atores. A Questão Palestina deve ser entendida, portanto, não apenas como um problema local, mas também como um problema regional (contradições entre árabes-israelenses e contradições entre árabes-árabes), bem como internacional (problemas desencadeados com a Guerra Fria e as divergências dentro de cada bloco, além dos desdobramentos evidenciados ao término desse período). Com o desfecho da Primeira Guerra Mundial, à exceção do Egito, os Estados no Oriente Médio foram criados prematuramente, um a um, 82

após o desmantelamento do Império Otomano, não para corresponder ao desejo de suas populações, mas para satisfazer os interesses contraditórios dos aliados ocidentais. Esse período marcou a divergência entre árabes e judeus. 1 Imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, um único nome desapareceu do mapa: o da Palestina. Os palestinos, ou aqueles que eram reconhecidos como árabes da Palestina, haviam sido expulsos, anexados, administrados, ou reduzidos ao estado de refugiados. O nome da Palestina não foi apenas riscado do mapa, mas também da pauta das Organizações Internacionais em 1952, a Questão Palestina, que até então figurava como objeto de discussão da Assembleia Geral da ONU, foi substituída pelo Relatório Anual do Comissariado Geral do Serviço de Socorro e de Trabalhos das Nações Unidas (UNRWA). No Conselho de Segurança, a Questão Palestina teve vida um pouco mais longa em 1967 foi substituída pela Situação no Oriente Médio. Os desejos de Israel eram assim atendidos, e rapidamente seus dirigentes puderam declarar que os palestinos não existiam; que jamais haviam existido. Nesse contexto, a lógica sionista-israelense ganhou sentido, pois os palestinos, não existindo enquanto nação (no sentido político do termo), também não existiam como povo (conceito comum a todas as comunidades humanas), não existindo, portanto, um problema palestino ou um problema de refugiados. Quanto ao último, caberia aos Estados árabes assumir a responsabilidade pela reabilitação e pela reinserção desses indivíduos, e também controlar suas ações e infiltrações por qualquer razão que seja. No conjunto da região, e sob a égide do colonialismo, elites emergiram em cada um dos Estados árabes, e dotaram-se de estruturas políticas, administrativas, militares e policiais para garantir suas posições. Por outro lado, Israel não tardou a se apresentar como potência militar dominante e a considerar seus vizinhos árabes, individualmente ou coletivamente, responsáveis pela segurança de suas fronteiras eternamente provisórias. Nessas condições, os palestinos abriram seu caminho fora de qualquer projeto estratégico que lhes tivesse servido de matriz, em um contexto regional e internacional desfavorável, a partir de um território que não lhes pertencia mais e no qual reinavam regimes opostos ou que, direta ou indiretamente, acabaram se beneficiando do problema palestino. 2 Contudo, este artigo busca avaliar os fundamentos políticos e socioeconômicos do longo conflito israelense-palestino, bem como suas implicações para a região e para o mundo. 1 2 Três forças atuaram sobre a Questão Palestina o Mandato Britânico, os próprios judeus organizados e os interesses árabes. Nesse período, o Acordo Sykes Picot, entre ingleses e judeus, colocou a Palestina sob o controle internacional. A Declaração Balfour, de 1917, estabeleceu o comprometimento britânico em criar um lar para os judeus e, em 1920, a Conferência de San Remo decidiu pelo Mandato Britânico. É importante destacar que, depois da criação do Estado de Israel, em 1948, ocorreram várias guerras árabe-israelenses 1948-1949; 1956-1957 (Crise de Suez); 1967 (Guerra dos Seis Dias); 1973-1974 (Yom Kippur); 1982 (Invasão do Líbano). Na sequência, a Primeira e a Segunda Intifada. 83

Mapa 1: Oriente Médio. Fonte: Biblioteca da Universidade do Texas. Disponível em: <http://www.lib.utexas.edu/maps/ middle_east_and_asia/txu-oclc-192062619-middle_east_pol_2008.jpg>. Acesso em: 25 fev. 2012. 84

Mapa 2: Oriente Médio e Ásia-Israel. Fonte: Biblioteca da Universidade do Texas. Disponível em: <http://www.lib.utexas.edu/maps/ middle_east_and_asia/israel_pol01.jpg>. Acesso em: 25 fev. 2012. 85

Inverno: a formação do movimento de libertação palestino Como parte importante para a compreensão do conflito israelense- -palestino, é necessário resgatar a mentalidade daqueles que levaram o povo palestino ao combate em nome de sua identidade nacional. Os pais fundadores do Movimento de Libertação da Palestina (cujas iniciais, em árabe, formam o nome Fath, conhecido no Ocidente como Al Fatah), ao tomar a decisão de passar da propaganda política à ação militar, tinham clara a recusa dos Estados árabes em aceitar Israel. Todavia, também havia a preocupação em torno da relação que esses Estados estabeleceriam com os próprios palestinos. A decisão de passar à ação política fora precedida por um longo debate dentro do comitê central do Fatah, no qual os ativistas haviam vencido os razoáveis (SOLIMAN, 1990). No debate que durou mais de um mês, os razoáveis acabaram alinhando-se ao ponto de vista dos ativistas quando, com base na preposição de Nasser, as duas conferências de cúpula árabes de 1964 decidiram pela criação de uma Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Os fundadores do Fatah viram nessa decisão uma manobra destinada a controlar as atividades palestinas e, mais particularmente, as do próprio Fatah. Por unanimidade, resolveram passar imediatamente à ação armada, momento em que a OLP criou seu braço militar, o Exército de Libertação da Palestina (ELP), que atraiu militantes anteriormente filiados ao Fatah. Os dirigentes do Fatah calcularam de imediato que a intenção dos regimes árabes era a de controlar o movimento nacional palestino, e que o ELP não se destinava a combater Israel, pois os árabes queriam evitar o confronto a qualquer preço. No entanto, ainda que houvesse a percepção de que os regimes vizinhos pretendiam impedir que os palestinos desenvolvessem uma luta armada autônoma, havia a crença de uma possível unidade árabe. Após a vitória israelense de 1967, que para muitos palestinos representou uma catástrofe pior que a de 1948, decidiu-se por empreender uma guerra de libertação nacional a partir dos territórios ocupados. A decisão de dar início à resistência armada imediatamente após a derrota trazia como argumento a necessidade dos palestinos de prevenirem-se em relação a uma possível iniciativa israelense. Essa iniciativa consistiria em abandonar a margem ocidental do Jordão em troca de uma paz com a Jordânia, provavelmente com a cumplicidade de outros países fronteiriços, o que teria como consequência o abafamento do nacionalismo palestino. O Fatah não acreditava em uma retirada voluntária de Israel da região, pois parecia difícil afirmar que o país estivesse disposto a um comportamento conciliador com alguns Estados árabes, a exemplo do Egito de Nasser. Faz-se importante lembrar que os israelenses levaram mais de cinco meses para aceitar a resolução 242 do Conselho de Segurança, de 22 de novembro de 1967, que previa a saída de parte dos territórios ocupados. Dessa forma, a explicação mais apropriada para a proposta palestina de 86

travar uma guerra de libertação após uma derrota tão expressiva foi aquela dada por Yasser Arafat, segundo a qual era preciso muito simplesmente mostrar que a resistência palestina e árabe não havia cessado, o que, de fato, ficou comprovado na batalha de Karameh, vitória que consagrou Arafat e seus companheiros como verdadeiros representantes da resistência palestina. Em 1969, Arafat foi eleito presidente do comitê executivo da OLP, em um momento no qual o dinamismo das organizações de resistência foi percebido na região. No entanto, a mudança de rumo na política da OLP se deu de maneira irregular. A reivindicação da Organização passou da recusa da partilha e da libertação de toda a Palestina o que significaria a destruição do Estado de Israel à constituição de uma Palestina democrática, onde todas as confissões religiosas teriam espaço, mas que significaria igualmente a desaparição do Estado de Israel enquanto tal. Em seguida, a OLP passou à aceitação oficiosa de todas as resoluções da ONU, bem como à aceitação da criação de um Estado palestino em toda a porção do território que fosse libertada. Finalmente, a Organização decidiu-se pela proclamação de um Estado palestino conforme a Resolução 101 de 1947, o que implicaria um reconhecimento explícito da partilha da Palestina e do Estado de Israel, bem como a conclusão de um tratado de paz a partir de negociações sob a égide de uma conferência internacional, da qual participariam os membros permanentes do Conselho de Segurança e todos os Estados da região implicados no conflito árabe-israelense. Enquanto presidente do conselho executivo da OLP, Arafat não poderia iniciar uma política para em seguida deixá-la ser sabotada por organizações menores, pois uma falta de clareza seria conveniente para Israel e seus objetivos de colonização nos territórios palestinos ocupados. Por outro lado, a Intifada (revolta das pedras) tornou o problema mais complexo. Durante meses, tanto na Cisjordânia quanto em Gaza, homens e mulheres, adolescentes e crianças não pararam de fazer manifestações e de enfrentar o poderoso exército israelense. Esses resistentes conseguiram dotar-se de um programa mínimo a recusa da ocupação e de uma coordenação quase nacional. A situação dos palestinos tornava-se cada vez mais grave. Diante do avanço israelense, não havia dúvida, mesmo no sentido da mais extrema moderação, de que o problema palestino estaria longe de ser resolvido. A sociedade israelense, alimentada por uma série de mitos devastadores em relação aos vizinhos, conduziu a direita e a extrema-direita à vitória nas eleições de 1º de novembro de 1988, no mesmo período em que Arafat proclamou o Estado da Palestina, em reunião do Conselho Nacional Palestino, na Argélia, reconhecendo a existência do Estado de Israel e condenando o terrorismo. O reconhecimento mútuo tardou um pouco mais em 13 de setembro de 1993, os representantes legítimos dos povos palestino e israelense assinaram, em Washington, um documento que procurou chegar a uma reconciliação histórica. Sob os auspícios do presidente norte-ame- 87

ricano Bill Clinton, Itzaac Rabin, o primeiro-ministro de Israel, e Yasser Arafat trocaram um memorável aperto de mãos. Menos de dois anos antes, quando da conferência de paz árabe-israelense em Madri (30/10/1991), Estados Unidos e Israel não tinham, então, admitido a presença da OLP nas conversações. Porém, o novo governo trabalhista de Israel, formado após as eleições de 1992, foi obrigado a render-se às evidências ou negociava com a OLP ou com o movimento islâmico Hamas. Primavera: as tentativas frustradas de paz As negociações que conduziram ao Acordo de Paz entre Israel e OLP Oslo I revelam alguns elementos importantes, analisados mais adiante. Entre os principais pontos do Acordo, estabelecido com base nas Resoluções da ONU 242 e 338, ficaram definidos os seguintes itens: a) retirada imediata do exército israelense de toda a Faixa de Gaza e da cidade de Jericó na Cisjordânia; b) seriam transferidos às autoridades palestinas (OLP) os seguintes encargos sociais: saúde, educação, bem-estar social, turismo, previdência social, cultura, transportes, habitação e cobrança de impostos, bem como a criação de uma força especial palestina (apenas com poder de polícia); c) em quatro meses, após a assinatura do Acordo, o exército israelense deixaria toda a Cisjordânia (ocupada em 1967), cuidando apenas dos assentamentos de 100 mil colonos israelenses nessa área; d) os palestinos não poderiam cuidar das fronteiras, nem assinar acordos diplomáticos externos; e) em dez meses após a assinatura do Acordo, seriam eleitos os Conselhos Palestinos dos territórios ocupados, para formarem um governo provisório, que antes seria exercido pela Autoridade Nacional Palestina (ANP); f) os moradores de Jerusalém Oriental poderiam votar, mas o status dessa cidade estaria fora dos acordos de paz; g) seria reconhecida pelas partes a unidade territorial total. Israel teria livre trânsito para cruzar as terras palestinas, mas não seria criado um corredor ligando a região de Gaza à de Jericó; h) em três anos após a assinatura dos Acordos, começaria a discussão final sobre o status do governo da Palestina; i) a duração dos prazos no Acordo para que fossem resolvidas todas as pendências seria de cinco anos, ou seja, até 1998. Ao analisarmos o contexto das negociações e os principais pontos desse Acordo, percebemos que alguns fatores foram decisivos para a alteração de rumo, tanto do governo israelense quanto de seus aliados. O colapso do campo socialista e o fim do equilíbrio de forças, apoiado na 88

bipolaridade do sistema mundial, permitiu ao governo do democrata norte-americano Bill Clinton esposar teses menos conservadoras que seus antecessores Reagan e Bush, além de os Estados Unidos não conseguirem mais financiar pesadamente o armamento israelense. Nesse mesmo contexto, a vitória dos trabalhistas em Israel levou o governo à possibilidade de defender abertamente uma solução negociada (troca de terras por paz). As dificuldades econômicas de Israel e a pressão dos grupos econômicos da região, ou de fora, que desejavam o florescimento e a estabilidade dos mercados no Oriente Médio, também contribuíram para o arrefecimento das tensões. Por outro lado, as dificuldades da ANP e as críticas à linha pragmática de Arafat por organizações como Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), Frente Democrática para a Libertação da Palestina (FDPLP), Frente Popular para a Libertação da Palestina Comando Geral (FPLP-CG), Hamas e Jihad; a Guerra do Golfo de 1991 e o apoio dos palestinos a uma resolução do conflito somente entre os árabes; e o crescimento do fundamentalismo islâmico nos diferentes Estados árabes foram fatores que conduziram ao entendimento de que seria fundamental promover a estabilidade na região diante de uma alteração profunda no cenário internacional e no papel que Israel e os próprios palestinos deveriam desempenhar. Após os Acordos de Oslo, houve crescente polarização no cenário político israelense entre seus partidários e seus oponentes. Ao mesmo tempo, alguns grupos palestinos, particularmente os islâmicos, em oposição aos seculares, recusaram-se a integrar a recém-criada Autoridade Nacional Palestina e a abrir mão da luta armada, atuando de forma independente. Boa parte do público israelense não diferenciava a atuação dos grupos islâmicos da atuação da ANP, intensificando a polarização em torno dos Acordos. Por outro lado, a atuação de Arafat para aumentar seu controle sobre os grupos autônomos, minimizando a importância dos Acordos e de suas concessões, somente aumentou a animosidade de setores da população israelense contra ele, levando-os a duvidar de sua sinceridade nas negociações. Neste contexto, Netanyahu foi eleito o novo líder do Likud, visto como qualificado para fortalecer os laços do Partido com os EUA diante de sua fluência em inglês e seus contatos em Washington. Netanyahu, contudo, manteve-se relativamente frágil, pois a direita israelense estava vulnerável ao risco de fragmentar-se em torno de diversos líderes em potencial, ao mesmo tempo em que a esquerda se unia na coalizão entre o Partido Trabalhista e o Meretz. Para evitar esse risco, Netanyahu buscou apoio na extrema-direita, instrumentalizando a oposição aos Acordos de Oslo para forjar uma unidade entre os movimentos ultranacionalistas e religiosos, criando uma base sólida para projetar-se e evitar que outras figuras influentes do Partido (principalmente Ariel Sharon) desafiassem sua liderança. 89

Conforme as críticas a Oslo se intensificavam, figuras públicas passaram a utilizar uma linguagem inflamada contra Rabin, divulgando imagens que o apresentavam trajando uniforme nazista ou tendo uma mira desenhada sobre si. Essa campanha foi crescentemente utilizada em comícios contra os acordos de paz. Aproveitando a oportunidade, Netanyahu se apresentou simpático à proposta dos assentamentos (e a seus habitantes), evitando revelar a vinculação a elementos extremistas, mas também jamais censurando o violento discurso anti-rabin. Diversos rabinos da extrema- -direita passaram a discutir a aplicabilidade de princípios religiosos (frequentemente retirados de seu contexto original), que supostamente permitiriam o assassinato de um judeu traidor, ou de membros do governo que estariam traindo Israel ao negociar a retirada dos assentamentos. As atitudes inflamadas atingiram seu ápice quando, em 4 de novembro de 1995, um estudante da direita radical abriu fogo contra Yitzhak Rabin, quando este saía de um grande comício de apoio aos acordos de paz, matando-o. Deve-se notar, finalmente, que Leah Rabin, viúva de Yitzhak Rabin, no funeral de seu marido, recusou-se terminantemente a receber as condolências de Netanyahu. Shimon Peres assumiu como sucessor de Rabin, mas não logrou projetar-se publicamente como seu sucessor ideológico, pois suas diferenças eram muito evidentes. Em 1996, devido a uma mudança legislativa, ocorreu a votação direta para primeiro-ministro. Para surpresa geral, Netanyahu foi eleito e apelidado de mágico por sua vitória inesperada. Netanyahu tentou centralizar o poder durante sua liderança, impondo decisões que pouca consideração tinha pelos desejos do Partido, o que acabou isolando-o. E ainda impôs reformas econômicas baseadas nos princípios de Reagan e Thatcher, sem consultar seus correligionários. Netanyahu assumiu também as rédeas das negociações internacionais mais importantes, excluindo os diplomatas e o ministro de Relações Exteriores. Quando ocorreu uma disputa com o seu Partido, pois este passou a exigir a inclusão de Sharon no gabinete, Netanyahu simplesmente criou a posição de ministro de Infraestrutura para ele. Entretanto, Sharon utilizou sua posição para realizar uma expansão rodoviária nos territórios ocupados, e buscou aumentar os assentamentos, ganhando maior apoio interno no Likud. Quando, em 1998, David Levy, ministro de Relações Exteriores, renunciou, seguiram-se difíceis negociações que resultaram na realocação de Sharon, que recebeu o Ministério, apesar das jurisdições definidas por Netanyahu. Contudo, na posição de ministro das Relações Exteriores, Sharon se mostrou mais aberto ao diálogo do que Netanyahu, garantindo a preferência dos diplomatas norte-americanos, além de minar progressivamente a base de Netanyahu no Parlamento. Em 1999, Netanyahu foi derrotado. O governo de Ehud Barak (1999-2001) foi caracterizado pela tentativa de manter o difícil equilíbrio entre a esquerda e a direita. O principal mecanismo utilizado para manter o apoio da direita foi a política de 90

não impor restrições à expansão de assentamentos nos territórios ocupados. No entanto, essa política agravou as frustrações dos palestinos, que se tornaram cada vez mais céticos quanto ao processo de paz. Enquanto Arafat fazia referência à capacidade do Fatah de lançar um ataque militar caso necessário, Sharon adotava um discurso crescentemente belicoso, buscando minar as negociações que o governo de Barak tentava conduzir. Neste contexto, a cúpula de Camp David (2000) fracassou, e as posições de Barak, especialmente a possibilidade de concessões em Jerusalém, despertaram forte oposição de Sharon e seus aliados. Em setembro de 2000, Sharon, acompanhado de uma delegação do Likud e de centenas de policiais de controle de multidões, fez uma visita ao Monte do Templo, local sagrado para judeus e muçulmanos, com uma mensagem clara de que pretendia manter o controle sobre toda Jerusalém. Tal atitude foi considerada altamente provocativa pela população palestina, e ataques a judeus foram desencadeados nos arredores do Monte. Em resposta, a polícia israelense passou a usar munição real na região. As mortes de árabes decorrentes dessa medida levaram as forças palestinas a também usar munição real em seus territórios, selando o ciclo de violência que constitui a Segunda Intifada. Assim, um novo período de instabilidade foi iniciado em 2000. Se o clima entre árabes e israelenses era de desconfiança mútua ao longo das negociações dos acordos de paz, e quanto ao desfecho da devolução das terras palestinas, a situação foi agravada com a visita do ultradireitista Ariel Sharon à Esplanada das Mesquitas em Jerusalém Ocidental. Com a proximidade das eleições parlamentares em Israel (fevereiro de 2001), a situação ficou cada vez mais polarizada. A vitória de Sharon, do Partido Likud, sobre seu adversário e primeiro-ministro do Partido Trabalhista, Ehud Barak, como se discutirá a seguir, fortaleceu o sionismo israelense. Filho de imigrantes judeus sionistas da Rússia, Sharon nasceu na Palestina em 1928, ainda sob o Mandato Britânico. Ele é um dos últimos remanescentes da proclamação do Estado de Israel e, antes disso, prestou grandes serviços às forças direitistas, quando ingressou na Haganah, milícia terrorista sionista, que seria o futuro embrião do exército de Israel. Participou ativamente do massacre de Qybia, uma comunidade palestina em 1953, já então comandante de uma unidade militar. Sharon teve papel de destaque nas campanhas militares nos conflitos de Suez (1956), na Guerra dos Seis Dias (1967) e na Guerra do Yom Kippur (1973), mas sua atuação mais marcante ocorreu em 1982, quando, então Ministro da Defesa de Israel, decidiu invadir o Líbano, ocupando todo o sul do país. Com seu apoio integral, os israelenses penetraram nos acampamentos palestinos de Sabra e Shatila, massacraram mais de 3 mil palestinos, especialmente mulheres, crianças e velhos. Após esse massacre, Sharon chegou a declarar para a imprensa: é melhor ser um judeu-nazi vivo do que um judeu morto (SOLIMAN, 1990). 91

A saída dos partidos de direita da coalizão de Ehud Barak forçou-o a propor novas eleições em 2001. Ao mesmo tempo, os grupos islâmicos, principalmente o Hamas, que até então se mantinham à parte da luta armada, focando-se em ações sociais, acabaram por se envolver cada vez mais na Intifada. A posição desse grupo, que se tornou mais intransigente, lhe rendeu considerável apoio, forçando a Autoridade Nacional Palestina a evitar concessões em certas áreas delicadas. No final do governo Clinton, em 2000, ainda houve a tentativa de estabelecer um novo mecanismo de negociação, definido como Parâmetros Clinton. Não obstante, a pressão de grupos radicais fez com que Arafat somente aceitasse os Parâmetros com sérias reservas, inviabilizando sua adoção naquele momento. Assim, dias antes da eleição para primeiro-ministro (a terceira e última ocasião na qual houve eleição direta para primeiro- ministro em Israel), aconteceu a Cúpula de Taba, com o propósito de formular um acordo que permitisse uma trégua. O fracasso das negociações definiu o resultado das eleições, que garantiu a fácil vitória de Ariel Sharon em um pleito caracterizado pela menor participação popular da história de Israel. Entre outros motivos, o reduzido envolvimento popular foi resultado do boicote da população árabe-israelense ao processo, pois esta vinha sofrendo severa discriminação durante a Intifada. Verão: o acirramento do conflito Sharon adotou um discurso linha dura, recusando-se categoricamente a negociar com a Autoridade Nacional Palestina até que todos os grupos palestinos abandonassem os ataques violentos a civis israelenses. O governo Bush, que inicialmente manteve distância da questão israelense- -palestina, após os atentados de 11 de Setembro e com a crescente influência dos neoconservadores, se posicionou a favor de Israel. Ao mesmo tempo, intensificava-se a prática de atentados suicidas, o que manteve o antagonismo em permanente tensionamento. O governo de Sharon manteve o foco em assuntos securitários. Através da Operação Escudo Defensivo, Israel reocupou as cidades palestinas desocupadas desde os Acordos de Oslo, capturou militantes e confiscou equipamento bélico. E ainda, aproveitando o crescente isolamento de Arafat, cercou seu quartel general em Ramallah. A partir da ascensão de Sharon, os conflitos na região acirraram-se ainda mais. Não se via, desde 1967, tamanha violência na ocupação das terras palestinas pelo exército israelense. Rompendo todos os acordos de paz estabelecidos até o momento, especialmente os que decorreram do Acordo de Oslo I (em 1995 foi assinado o Acordo de Oslo II), o primeiro- -ministro de Israel implementou, com total apoio dos Estados Unidos na gestão Bush, a reocupação dos territórios da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. Em meio a essa que talvez seja a maior crise do conflito árabe- -israelense, surgiu, por parte do governo de Israel, a proposta de que o líder 92

máximo da Autoridade Nacional Palestina, Arafat, saísse de seu quartel- -general para o exílio. Essa proposta foi recusada de imediato por ele, como por todos os dirigentes palestinos que compunham o parlamento da ANP. As organizações revolucionárias como a Fatah, de Arafat; a FPLP, de Georde Habashe; e a FDPLP, de Nayef Hawatme, unificaram-se em torno da sua liderança nacional. Vários analistas destacaram a radicalidade dos dois lados (ataques pessoais, pedras, estilingues, fundas e algum material bélico versus tanques, helicópteros, mísseis sofisticados, homens bem-armados e bem-treinados). Seja por pressão externa ou mesmo por necessidade política, a ANP anunciou, no dia 26 de junho de 2002, que ocorreriam eleições, entre os dias 10 e 20 de janeiro de 2003, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. As enquetes e pesquisas eleitorais apontavam Arafat com ampla margem de preferência sobre os outros candidatos, indicando que este ainda era o maior líder dos palestinos. Dificilmente um adversário o venceria, mas a sua debilidade física (decorrente do mal de Parkinson, ainda que perfeitamente lúcido) e a ação militar de Israel o retiraram da vitória nas urnas em 2003. O sucessor de Arafat, Mahmoud Abbas, mais conhecido como Abu Mazen, foi um dos fundadores, junto com Arafat, do grupo Fatah. Ainda em 2003, em Israel, foram realizadas novas eleições legislativas (que ocorriam a cada quatro anos se não houvesse a queda de um governo), que elegeram também o primeiro-ministro, pois o sistema de eleição direta havia sido abandonado em 2001. O Likud manteve sua liderança com Sharon à sua frente. Ao mesmo tempo, do lado palestino, as pressões ocidentais favoráveis a Mahmoud Abbas, por suas posições contrárias à manutenção da Intifada, fez com que ele fosse apontado como primeiro- -ministro da Autoridade Nacional Palestina, enquanto o Hamas conquistava crescente apoio da população favorável à luta armada. Arafat, cada vez mais isolado, tentou controlar sem sucesso o braço armado do Fatah, a Brigada de Al-Aqsa. Entretanto, a Brigada recebia apoio financeiro do Hezbollah, o que lhe garantia relativa autonomia e permitia que as negociações fossem realizadas diretamente com Abbas. No mesmo ano, ainda, o Quarteto para o Oriente Médio (ONU, EUA, União Europeia e Federação Russa) publicou o Mapa da Estrada da Paz, com uma proposta que previa etapas a serem seguidas na tentativa de solucionar o conflito entre Israel e os palestinos. Em seguida, foi lançada a Iniciativa de Genebra, que apresentou um modelo para o acordo de paz, incorporando diversos elementos das propostas anteriores. Nesse momento, Sharon propôs um plano de retirada unilateral de parte dos territórios ocupados em 1967, como forma de manter as fronteiras que fossem estratégicas para Israel, ao mesmo tempo em que se mostrava disposto a viabilizar a negociação de paz. Como parte das propostas apresentadas por Israel estava a construção de uma barreira composta por muros, cercas com sensores e valas, que supostamente, separaria os territórios palestinos dos israelenses. Contudo, a barreira dividiu comunidades pales- 93

tinas, e incluiu blocos de assentamentos israelenses, deixando outros de fora. Essas medidas geraram forte oposição tanto da esquerda quanto da direita. A esquerda criticou fortemente a atuação unilateral do governo israelense, enquanto a direita argumentava que tais medidas poderiam possibilitar a criação de um Estado palestino. Por outro lado, setores de centro foram solidamente favoráveis às ações do governo israelense, fato que acabou por alterar significativamente a base de apoio de Sharon, que observava seu próprio partido dividido. Como resultado dessa dissensão, uma nova correlação de forças se estabeleceu formou-se uma coalizão entre o Partido Trabalhista, sob a liderança de Shimon Peres, e o Likud, a fim de aprovar as políticas de Sharon, dado que este não contava com pleno apoio interno em seu partido. Confinado no seu quartel-general em condições precárias, Arafat morreu no final de 2004. Em 2005, Mahmoud Abbas foi eleito presidente da Autoridade Nacional Palestina e passou a controlar, diplomaticamente, a ação dos outros grupos palestinos com o objetivo de conter e terminar o movimento da Intifada. No mesmo ano, o governo de Sharon iniciou a evacuação unilateral dos assentamentos em Gaza e quatro outros assentamentos no norte da Cisjordânia. Apesar de uma aparente mudança nos rumos do conflito, as antigas contradições permaneceram mesmo diante de uma nova conjuntura. Existe um problema central que gira em torno da criação e do reconhecimento do Estado Nacional Palestino e, paralelamente, do obstáculo que as colônias de ocupação israelenses representam. Em visita à Faixa de Gaza, o vice-ministro de Defesa de Israel na gestão Rabin, Mordechai Gour, anunciou que, no mesmo momento em que a assinatura do acordo de paz entre Israel e os palestinos fazia subir a cotação da Bolsa de Valores de Tel-Aviv, os preços dos aluguéis e dos terrenos nos territórios ocupados, caíam de 20 a 40%. É importante ressaltar que, a partir desse anúncio, diversas famílias pediram para serem evacuadas, pois seria preferível partir e receber indenização, em vez de perder os incentivos do governo israelense. As colônias de ocupação dependiam totalmente do auxílio concedido pelo governo de Israel, que, por um longo período, garantiu o controle dos territórios ocupados. Nos anos 1980, o governo israelense buscou instituir planos que ampliassem a autonomia nas colônias e encorajassem o trabalho local. Tornava-se importante aumentar seu atrativo e justificar sua razão de ser. Entretanto, dos 35 mil colonos ativos, 25 mil trabalhavam no território de Israel. Os demais estavam empregados na Cisjordânia e na Faixa de Gaza em três setores: indústria, agricultura e serviços. Os esforços empreendidos para criar empregos locais deram poucos resultados, sendo, então, necessário aumentar os recursos para as colônias. Os incentivos fiscais concedidos aos israelenses que viviam nos territórios ocupados sobrecarregavam todos os anos o orçamento do Estado de Israel. As enormes vantagens para os colonos provocaram reações de industriais israelenses, pois elas não se limitavam ao domínio das isenções fiscais, a exemplo da educação gratuita. 94

O Estado israelense gastou muito para manter essas colônias, além de defrontar-se com novos problemas. Por exemplo, como justificar a demissão de 100 mil palestinos que trabalhavam em Israel (1/3 da força de trabalho palestina)? Neste contexto, Cisjordânia e Gaza, atingidas por um pesado índice de desemprego, eram incapazes de absorver trabalhadores, pois as restrições relativas às diversas atividades econômicas enfraqueceram as regiões. Deve-se considerar, também, as inúmeras restrições à atividade agrícola, dificultada ainda mais pela limitação da irrigação e pela recusa das autoridades israelenses em conceder vistos para a exploração de novos poços (de um total anual disponível de cerca de 700 milhões de metros cúbicos de água na Cisjordânia e de 60 milhões de metros cúbicos na Faixa de Gaza, 515 milhões de metros cúbicos mais de 2/3 são utilizados em Israel e nas colônias de ocupação). A decisão pela retirada dos 8.500 colonos israelenses da Faixa de Gaza, em 14 de agosto de 2005, por exemplo, mais uma vez remonta à visão de que o caminho da estabilidade na região estava assentado na capacidade israelense de manter-se como força econômica e, assim, garantir a sua superioridade policial e militar. Em outras palavras, a retirada dos colonos israelenses dos territórios ocupados, mesmo enfrentando oposição interna, aliviaria o Estado israelense em um contexto de crise econômica. A Autoridade Nacional Palestina, sob a direção moderada e mantendo os grupos extremistas sob controle, fez sua parte criou condições para que o governo israelense concedesse aos 1,4 milhão de palestinos a posse sobre uma terra arrasada. Embora a ocupação israelense esteja na raiz do problema (é importante lembrar que, diante dessa ocupação, os colonos israelenses passaram a viver em comunidades, e os árabes palestinos em áreas ), a retirada dos colonos evidenciou a urgência da resolução do conflito. Mapa 3: Territórios controlados por Israel na Cisjordânia. Fonte: The Economist, 2010. 95

Outono: mudança de cenário e banalização do conflito No final de 2005, a eleição interna do Partido Trabalhista israelense resultou na derrota de Peres e na vitória de Amir Peretz, que liderou a saída do partido da coalizão com o Likud. Novas eleições foram programadas para 2006, quando Sharon formou, então, um novo partido com seus aliados, que, assim como ele, haviam abandonado o Likud o Partido Kadima. Shimon Peres, por sua vez, abandonou o Partido Trabalhista e passou a apoiar o novo partido de Sharon. No início de 2006, Sharon sofreu um derrame e ficou incapacitado, sendo substituído, interinamente, por Ehud Olmert. Apesar das expectativas de que o Kadima teria um desempenho eleitoral melhor sob a liderança de Shimon Peres, a maioria de seus membros era composta por ex-integrantes do Likud. Inesperadamente, Ehud Olmert foi eleito para a liderança do partido. O Kadima venceu as eleições, e o Likud, então liderado por Netanyahu, declarou ser o principal partido prejudicado diante dessa divisão. Cabe ressaltar que Netanyahu enfrentava certa resistência, pois sua política econômica, enquanto ministro das Finanças, foi vista como causadora do agravamento dos problemas sociais. No mesmo ano, ocorreram eleições legislativas da Autoridade Nacional Palestina, resultando na vitória do Hamas. Esse talvez tenha sido o momento de maior dissensão entre os palestinos. As tensões entre o primeiro-ministro Ismail Haniyeh, do Hamas, e o presidente Mahmoud Abbas, do Fatah, dificultaram incrivelmente a governança, levando os palestinos a uma perigosa fragmentação. Aproveitando e agravando a situação, Israel assumiu uma posição altamente intransigente em relação a um governo liderado pelo Hamas. Em julho de 2006, uma escaramuça, com o Hezbollah, na fronteira norte de Israel, bem como o sequestro de dois soldados israelenses levaram a um escalonamento do conflito regional, resultando em uma campanha aérea seguida de invasão terrestre do sul do Líbano. Após intenso (e desigual) confronto, o exército israelense se retirou quando conseguiu negociar o retorno dos corpos dos dois soldados sequestrados. Apesar da superioridade militar israelense, seu desempenho durante o conflito foi considerado desapontador, chegando-se até a cogitar a ideia de uma derrota israelense. Resulta disso uma crise política, com a confiança popular no governo Olmert caindo progressivamente. Nesse contexto, foi organizada uma comissão de investigação sobre o desempenho israelense no conflito a Comissão Winograd, que conferiu a responsabilidade do mau desempenho israelense ao exército, levando o governo a assumir o compromisso de revitalizar as Forças Armadas. Nos anos subsequentes, novas tecnologias e táticas foram desenvolvidas como resultado desse investimento. Diante disso, houve certa recuperação do governo, que conseguiu amenizar a crise política. 96

Em 2007, as tensões internas do governo da Autoridade Nacional Palestina resultaram na ruptura entre Hamas e Fatah. O Hamas consolidou seu controle sobre a Faixa de Gaza, e o Fatah, sobre a Cisjordânia. Nos meses seguintes, além da adoção de medidas rigorosas de bloqueio contra os territórios controlados pelo Hamas, houve diversos incidentes transfronteiriços nos arredores da Faixa de Gaza, principalmente tiroteios na fronteira, disparos de foguetes Qassam pelo Hamas e a utilização de artilharia israelense, causando crescente tensão entre o governo israelense e o Hamas. Em 2008, houve um acordo de cessar-fogo mediado pelo Egito, com duração de dois meses. O acordo previa o fim dos lançamentos de foguetes em território israelense por todos os grupos que atuavam em Gaza, o fim de ataques israelenses, o relaxamento das restrições do bloqueio israelense e a adoção de mecanismos que viabilizassem o processo de libertação do soldado israelense capturado em 2006, Gilad Shalit (liberto em 2011). Contudo, houve violações dos termos do acordo por ambas as partes, com agressões mútuas e a retomada de restrições do bloqueio israelense. Deve- -se ressaltar, entretanto, que houve uma redução relativa do número de incidentes violentos durante o cessar-fogo. Apesar disso, conforme a trégua se aproximava do fim, as agressões eram retomadas, inibindo qualquer possibilidade de distensão. Nesse momento, teve início, então, a Operação Chumbo Fundido, que tinha como objetivo, de acordo com o Ministério de Relações Exteriores de Israel, dar um duro golpe contra a organização terrorista Hamas, fortalecer a capacidade de dissuasão de Israel, e criar uma situação securitária mais favorável para aqueles que viviam próximos da Faixa de Gaza, que pudesse ser sustentada no longo prazo (ISRAEL, 2009). A Operação foi constituída, em um primeiro momento, de uma ofensiva aérea, seguida por uma segunda fase com envolvimento de tropas terrestres. Essa estratégia buscava reduzir, significativamente, a capacidade de grupos islâmicos atuantes dentro da Faixa de Gaza de lançar foguetes contra território israelense. Concomitantemente, patrulhas costeiras passaram a monitorar a região a fim de evitar a entrada de armas na Faixa de Gaza, bem como a promover bombardeios aos túneis que ligavam a região ao Egito, pois os israelenses acreditavam que, supostamente, serviam ao contrabando de armas. A Operação foi caracterizada pelo uso de diversas novas tecnologias e táticas, certamente desenvolvidas em resposta ao desempenho insatisfatório das forças israelenses em 2006 no Líbano. No dia 17 de janeiro, as forças israelenses anunciaram um cessar-fogo unilateral, afirmando já ter atingido seus objetivos militares. No dia seguinte, o Hamas anunciou um cessar-fogo de uma semana, exigindo a retirada das tropas israelenses, que foi concluída no dia 21 do mesmo mês. Sob o ponto de vista tático, o resultado do conflito pode ser considerado favorável a Israel, que conseguiu reduzir a capacidade militar do Hamas consideravelmente, tanto em termos humanos quanto no volume de equipamento bélico, forçando uma revisão da política de defesa da organização. 97

Apesar de o desempenho israelense ter sido considerado satisfatório pela sua população, escândalos de corrupção envolvendo Ehud Olmert levaram a uma eleição interna do Kadima, que resultou na derrota deste e na vitória de Tzipi Livni, também ex-integrante do Likud. Livni não logrou manter a coalizão governante, tendo que convocar novas eleições. O Kadima saiu das eleições como o partido com maior número de ministros eleitos, mas sem conseguir formar uma coalizão. Essa circunstância permitiu ao Likud retomar a liderança do governo, com Netanyahu retornando à posição de primeiro-ministro, tendo como ministro de Relações Exteriores Avigdor Lieberman, do Yisrael Beitenu, partido de extrema-direita que se tornou o terceiro maior partido do Parlamento em 2009. Alguns partidos religiosos e o Partido Trabalhista, sob a liderança de Ehud Barak, que ocupou a posição de ministro da Defesa, compuseram a coalizão. Ao longo de 2009 e 2010, processos importantes se desenvolveram e incidiram sobre o conflito israelense-palestino. Destaca-se o crescente distanciamento entre o governo dos EUA, de Barack Obama, e o governo de Netanyahu, que é percebido como um político extremamente intransigente. Em 2010, em particular os EUA, com apoio do Egito e da Jordânia, lograram que os governos de Abbas e Netanyahu voltassem a negociações diretas. Contudo, como Netanyahu não prolongou o congelamento da expansão dos assentamentos israelenses, as negociações foram interrompidas. Essa posição intransigente causou, ainda, uma divisão do Partido Trabalhista, cuja base era favorável a retirar-se da coalizão governante, enquanto Ehud Barak defendia a permanência do Partido. Em janeiro de 2011, Barak formou, com alguns de seus colegas de partido, um novo agrupamento de centro, o Partido Independência, embora tenha permanecido no governo, enquanto alguns membros do Partido Trabalhista se retiraram. Apesar das mudanças evidentes no cenário mundial e regional, o governo israelense mantém sua política de agressão e negação dos palestinos. Até quando essa política será sustentável? Considerações finais A chamada Primavera Árabe causa tensão em Israel por diversas razões. Primeiro, a Turquia, parceiro desprezado pelos europeus, volta-se para o Oriente Médio com um discurso cada vez mais islâmico, e com a clara intenção de disputar um espaço de liderança no mundo muçulmano. Segundo, no Golfo Pérsico, o Irã avança com seu projeto nuclear. É importante lembrar que a eventual oposição interna a Mahmoud Ahmadinejad não se traduz em oposição ao programa nuclear iraniano. Ao contrário, esse programa é visto com orgulho pela população que o vincula a um projeto de Estado. Terceiro, a situação do Iraque se mantém estagnada, à espera da retirada total das tropas norte-americanas e de uma possível influência iraniana sob os setores xiitas do país. Quarto, ainda que 98

o governo hostil da Síria possa ser substituído, supostamente em decorrência dos desdobramentos do violento conflito (ou de intervenção estrangeira), fica a incógnita sobre o futuro. No entanto, há mudanças na região que impactam diretamente sobre Israel. Com o fim do governo de Mubarak, no Egito, principal aliado regional de Israel, o futuro do acordo de paz vigente desde 1979 está sendo colocado em dúvida por alguns políticos, especialmente dado o desempenho da Irmandade Muçulmana nas eleições egípcias no final de 2011. O governo pós- -Mubarak também facilita um acordo entre Fatah e Hamas, buscando compor um governo palestino tecnocrático de coalizão, até a realização de eleições. Entretanto, ainda não houve consenso em relação à nomeação dos membros desse governo, principalmente pela exigência de Abbas quanto à participação de seu primeiro-ministro, Salam Fayyad, no governo de coalizão. Ainda em 2011, Abbas, apesar da oposição de Fayyad à manobra, levou às Nações Unidas um pedido de reconhecimento da Palestina como Estado-membro. Os EUA anunciaram seu veto, rejeitando um reconhecimento palestino que não seja negociado com Israel. Consequentemente, quando a Palestina foi aceita como membro da UNESCO, os EUA cortaram o financiamento da organização. O fortalecimento da posição do Fatah na política palestina como resultado desses eventos foi balanceado, pouco depois, por uma negociação entre o Hamas e Israel pela libertação do soldado israelense Gilad Shalit, em troca de 1.027 palestinos condenados, oriundos de diversos setores da sociedade palestina, mesmo integrantes do Fatah ou árabe-israelenses. Em 2011, houve ainda uma onda de protestos e greves contra o governo em Israel, cuja principal queixa refere-se ao alto custo de vida, principalmente dos aluguéis, no país. A esquerda tem buscado utilizar esses movimentos para revitalizar sua posição no espectro político nacional. No final de 2011, houve o teste de mísseis balísticos israelenses, que intensificou os temores de um ataque militar ao Irã, somado à permissão saudita (não confirmada) de uso de seu espaço aéreo pela força israelense para bombardear as instalações nucleares iranianas. Quanto a isso, vale ainda mencionar o provável envolvimento israelense com o vírus de computador Stuxnet, que atacou e danificou 1/3 das centrífugas do programa nuclear iraniano em 2010, forçando a reposição do equipamento. Evidentemente, é objeto de profunda preocupação israelense a existência de outra força militar (e nuclear) na região. Contudo, cabe registrar que o intenso movimento de transformação das forças políticas e sociais no Oriente Médio, diferentemente do ocorrido no período da Guerra Fria, não permite definir com precisão os possíveis alinhamentos, ou enquadramento dos atores. A razão de tamanha indefinição está ligada justamente às incertezas acerca dos resultados desse movimento. Mas, ao mesmo tempo, há indícios que nos levam a crer na vontade (e necessidade) de construção de um novo modelo socioeconômico, original, autônomo, mas apoiado na experiência histórica desses povos e influenciado pela realidade internacional, igualmente em mutação. 99

Todavia, esse caminho não está imune às contradições intrínsecas a todo o processo histórico. Recebido em fevereiro de 2012. Aprovado em março de 2012. The Four Seasons of the Israel Palestine Conflict Abstract The long-lasting conflict between Israelis and Palestinians has gained a new dimension since the so-called Arab Spring and its violent outcome. The change in the balance of regional and international forces, as well as the discredit of the West as a neutral mediator, have transformed the geopolitical environment and introduced new actors that have come to influence these events. The State of Israel and the Palestinian leaderships somehow feel the effect of all this events that threaten to cause great changes in the Middle East and in the world. Keywords: Arab Spring. Palestine. Israel. Arab-Israeli conflict. Peace agreements. Referências AUMANN, Moshe. O labirinto palestino: uma saída. Rio de Janeiro: Comitê Acadêmico de Israel, 1986. FELDBERG, Samuel. Israel e um novo Oriente Médio. Política Externa, v. 20, n. 3, dez./jan./fev. 2011-2012. ISRAEL. Ministério de Negócios Exteriores. Operation Cast Lead Expanded. Disponível em: <http://www.mfa.gov.il/mfa/government/communiques/ 2009/Second_stage_Operation_CastLead_begins_3-Jan-2009.htm>. Acesso em: 25 fev. 2012. MILTON-EDWARDS, Beverley. The Israeli Palestinian Conflict. Londres: Routledge, 2009. RABI, Uzi. Desdobramentos recentes nas relações entre Israel e Palestina na política palestina. Política Externa, v. 20, n. 3, dez./jan./fev. 2011-2012. SCHANZER, Jonathan. Hamas vs Fatah. New York: Palgrave Macmillan, 2008. SHINDLER, Colin. A History of Modern Israel. Cambridge: Cambridge University Press, 2008. SOLIMAN, Lotfallah. Por uma história profana da Palestina. São Paulo: Brasiliense, 1990. 100