O SUJEITO EM FOUCAULT



Documentos relacionados
A constituição do sujeito em Michel Foucault: práticas de sujeição e práticas de subjetivação

Estética da Existência na Pedagogia Teatral Ms. Profª Tânia Cristina dos Santos B oy1

Organização em Enfermagem

Filosofia da natureza, Teoria social e Ambiente Ideia de criação na natureza, Percepção de crise do capitalismo e a Ideologia de sociedade de risco.

A LOUCURA DO TRABALHO

DUNKER, C.I.L. Desautorização da Mãe pelo Pai. Revista Pais e Filhos, A Desautorização da Mãe pelo Pai

Elaboração e aplicação de questionários

MÓDULO 5 O SENSO COMUM

Construção, desconstrução e reconstrução do ídolo: discurso, imaginário e mídia


A Alienação (Karl Marx)

Atividades lúdicas na educação o Caminho de tijolos amarelos do aprendizado.

Colégio Ser! Sorocaba Sociologia Ensino Médio Profª. Marilia Coltri

ADMINISTRAÇÃO GERAL MOTIVAÇÃO

BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS NOS ANOS INICIAIS: UMA PERSPECTIVA INTERGERACIONAL

Walter Benjamin e o papel do cinema na sociedade

DITADURA, EDUCAÇÃO E DISCIPLINA: REFLEXÕES SOBRE O LIVRO DIDÁTICO DE EDUCAÇÃO MORAL E CÍVICA

CÓDIGO CRÉDITOS PERÍODO PRÉ-REQUISITO TURMA ANO INTRODUÇÃO

CASTILHO, Grazielle (Acadêmica); Curso de graduação da Faculdade de Educação Física da Universidade Federal de Goiás (FEF/UFG).

INDISCIPLINA ESCOLAR E A RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO: UMA ANÁLISE SOB AS ÓTICAS MORAL E INSTITUCIONAL

E Entrevistador E18 Entrevistado 18 Sexo Masculino Idade 29anos Área de Formação Técnico Superior de Serviço Social

Motivação. Robert B. Dilts

Lógicas de Supervisão Pedagógica em Contexto de Avaliação de Desempenho Docente. ENTREVISTA - Professor Avaliado - E 5

Interpretação do art. 966 do novo Código Civil

POR QUE AS EMPRESAS NÃO DEVEM INVESTIR EM PROGRAMAS DE INCLUSÃO?

ELABORAÇÃO DO PROJETO DE PESQUISA: TEMA, PROBLEMATIZAÇÃO, OBJETIVOS, JUSTIFICATIVA E REFERENCIAL TEÓRICO

A LEITURA NA VOZ DO PROFESSOR: O MOVIMENTO DOS SENTIDOS

Concurso Público Psicologia Clínica Caderno de Questões Prova Discursiva 2015

A PSICANÁLISE E OS MODERNOS MOVIMENTOS DE AFIRMAÇÃO HOMOSSEXUAL 1

HEGEL: A NATUREZA DIALÉTICA DA HISTÓRIA E A CONSCIENTIZAÇÃO DA LIBERDADE

Estatística II Antonio Roque Aula 9. Testes de Hipóteses

c. Técnica de Estrutura de Controle Teste do Caminho Básico

1 Noções Gerais sobre o Poder em Michel Foucault

Esta é uma história sobre 4 (quatro) pessoas: TODO MUNDO, ALGUÉM, QUALQUER UM e NINGUÉM.

A EDUCAÇÃO PARA A EMANCIPAÇÃO NA CONTEMPORANEIDADE: UM DIÁLOGO NAS VOZES DE ADORNO, KANT E MÉSZÁROS

A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE MATEMÁTICA À DISTÂNCIA SILVA, Diva Souza UNIVALE GT-19: Educação Matemática

INVENÇÃO EM UMA EXPERIMENTOTECA DE MATEMÁTICA: PROBLEMATIZAÇÕES E PRODUÇÃO MATEMÁTICA

Elaboração de Projetos

Assine e coloque seu número de inscrição no quadro abaixo. Preencha, com traços firmes, o espaço reservado a cada opção na folha de resposta.

5 Considerações finais

O ESTÁGIO SUPERVISIONADO COMO ESPAÇO DE CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DOCENTE DE LICENCIANDOS EM MATEMÁTICA

TEXTO 7: DELINEAMENTOS PRÉ-EXPERIMENTAIS 1

O Determinismo na Educação hoje Lino de Macedo

Gustavo Noronha Silva Higina Madalena da Silva Izabel Cristina Ferreira Nunes. Fichamento: Karl Marx

O CONFRONTO DAS TEORIAS DE HANS KELSEN E ROBERT ALEXY: ENTRE O NORMATIVISMO E A DIMENSÃO PÓS-POSITIVISTA

CAESP Filosofia 2A e B 14/08/2015 FRIEDRICH WILHELM NIETZSCHE (1844 A 1900)

Presidência da República Casa Civil Secretaria de Administração Diretoria de Gestão de Pessoas Coordenação Geral de Documentação e Informação

Douglas Daniel de Amorim A PSICANÁLISE E O SOCIAL

Título: Jurídico-Financeiro: Rompendo barreiras, atingindo o sucesso Categoria: Modelo de Gestão Temática: Financeiro

Carta de Paulo aos romanos:

TIPOS DE RELACIONAMENTOS

Profª. Maria Ivone Grilo

BOLSA FAMÍLIA Relatório-SÍNTESE. 53

A Epistemologia de Humberto Maturana

5 Instrução e integração

Discussão Jurídica dos Direitos Humanos no âmbito da Saúde Pública.

Estratégia de escuta psicanalítica aos imigrantes e refugiados: uma oficina de português

Cadernos do CNLF, Vol. XVI, Nº 04, t. 3, pág. 2451

Educação Patrimonial Centro de Memória

Educação Ambiental: uma modesta opinião Luiz Eduardo Corrêa Lima

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo FACULDADE DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM EDUCAÇÃO: HISTÓRIA, POLÍTICA, SOCIEDADE

RELATÓRIO. Participantes

PROJETO DE REDES

Dicas que ajudam pais na escolha da escola dos seus filhos

ADMINISTRAÇÃO GERAL GESTÃO DO DESEMPENHO

ATUALIDADES. Prof. Fortunato Lopes.

Recomendada. A coleção apresenta eficiência e adequação. Ciências adequados a cada faixa etária, além de

ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA DE EDITH STEIN. Prof. Helder Salvador

O homem transforma o ambiente

Redação do Site Inovação Tecnológica - 28/08/2009. Humanos aprimorados versus humanos comuns

A origem dos filósofos e suas filosofias

COMPORTAMENTO ÉTICO NA PROFISSÃO CONTÁBIL

VI Seminário de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar 20 a 24 de setembro de 2010

O Princípio da Complementaridade e o papel do observador na Mecânica Quântica

O AMBIENTE MOTIVADOR E A UTILIZAÇÃO DE JOGOS COMO RECURSO PEDAGÓGICO PARA O ENSINO DE MATEMÁTICA

Mosaicos #7 Escolhendo o caminho a seguir Hb 13:8-9. I A primeira ideia do texto é o apelo à firmeza da fé.

OS CANAIS DE PARTICIPAÇÃO NA GESTÃO DEMOCRÁTICA DO ENSINO PÚBLICO PÓS LDB 9394/96: COLEGIADO ESCOLAR E PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO

CAPÍTULO 2 DEMOCRACIA E CIDADANIA

PALAVRAS-CHAVE Grupo SERmais. Autores de Violência. Lei Maria da Penha.

Eventos independentes

POC 13 - NORMAS DE CONSOLIDAÇÃO DE CONTAS

ipea políticas sociais acompanhamento e análise 7 ago GASTOS SOCIAIS: FOCALIZAR VERSUS UNIVERSALIZAR José Márcio Camargo*

NORMA BRASILEIRA DE CONTABILIDADE NBC TSC 4410, DE 30 DE AGOSTO DE 2013

Palavras-chave: Historiografia; Paraná; Regime de Historicidade; História Regional

SEXUALIDADE E EDUCAÇÃO

PRINCÍPIO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL COMO UM DIREITO FUNDAMENTAL

As crianças adotadas e os atos anti-sociais: uma possibilidade de voltar a confiar na vida em família 1

OS SABERES NECESSÁRIOS À PRÁTICA DO PROFESSOR 1. Entendemos que o professor é um profissional que detém saberes de variadas

A Ética no discurso da Comunicação Pública

PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO: ELABORAÇÃO E UTILIZAÇÃO DE PROJETOS PEDAGÓGICOS NO PROCESSO DE ENSINO APRENDIZAGEM

Resenha: SEMPRINI, Andrea. A Marca Pós-Moderna: Poder e Fragilidade da Marca na Sociedade Contemporânea. São Paulo : Estação das Letras, 2006.

Professor Doutor titular de Geometria do Curso de Licenciatura em Matemática da Universidade Santa Cecília Santos SP.

ISSN ÁREA TEMÁTICA: (marque uma das opções)

A ENERGIA MENTAL E O PROCESSO SAÚDE/DOENÇA.

O FUTURO SE FAZ COM A CONSCIENTIZAÇÃO DAS DIFERENÇAS

Transcrição:

O SUJEITO EM FOUCAULT Maria Fernanda Guita Murad Foucault é bastante contundente ao afirmar que é contrário à ideia de se fazer previamente uma teoria do sujeito, uma teoria a priori do sujeito, como se fosse possível supor a existência de uma essência humana que tivesse sido mascarada, alienada ou aprisionada em mecanismos de repressão a partir de processos históricos, econômicos e sociais. O autor postula que o sujeito é histórico, mas produzido na sua própria história e pela história que o permeia através do que denominou de uma história da verdade. O sujeito, para o autor, se constitui pelos jogos de verdade aos quais se encontra assujeitado e também, ao mesmo tempo, com certa margem de liberdade, podendo romper com tal assujeitamento. Os jogos de verdade referem-se a um conjunto de regras de produção da verdade e de mudanças das regras que produzem tal verdade. São chamados de jogos de verdade, por serem um conjunto de procedimentos pelos quais a verdade é instituída e desinstituída pelos sujeitos por meio de práticas. Conforme Foucault, o sujeito não é uma substância, mas mais aproximadamente, uma forma. Porém, essa forma também não é idêntica a si mesma. O sujeito não tem consigo próprio o mesmo tipo de relação enquanto sujeito político e enquanto sujeito de uma sexualidade. Em cada relação que estabelece, se posicionará de uma forma diferente. Há, então, várias formas de sujeito conforme as relações que este estabelece com os diversos jogos de verdade. A constituição histórica dessas diferentes formas de sujeito é o que interessa a Foucault. O objetivo de Foucault é criar uma história dos diferentes modos pelos quais os seres humanos tornaram-se sujeitos. 1

Esses modos de subjetivação são as práticas de constituição do sujeito. Essas práticas referem-se às formas de atividade sobre si mesmo. O autor se utiliza dos conceitos de práticas de si, técnicas de si e cuidado de si, extraídos da antiguidade grega, para analisar a forma pela qual o sujeito se constitui. Foucault define as práticas como a racionalidade ou a regularidade que organiza o que os homens fazem, tendo um caráter sistemático e recorrente girando em torno da ética, do poder e do saber. Constituem, portanto, uma experiência. As técnicas se referem ao caráter reflexivo e de análise que acompanha as práticas, são as táticas e as estratégias, ou seja, são os meios e os fins com que as práticas são utilizadas. Trata-se, conforme o autor, de um jogo estratégico onde a liberdade do sujeito é evidenciada. As práticas de si e as técnicas de si implicam, portanto, uma reflexão sobre o modo de vida, sobre a maneira de regular a conduta, de fixar para si mesmo os fins e os meios. Conforme Foucault, essa concepção evoluiu por toda a antiguidade como uma história do cuidado de si mesmo. Para o autor, esta se constitui numa maneira de se fazer a história da subjetividade, mas não através de categorias distintas entre loucos e não loucos, doentes e não doentes, criminosos e não criminosos, mas através das formações e transformações das relações consigo mesmo que ocorreram na cultura. Ou seja, através das práticas e das técnicas de si. Como práticas e técnicas do cuidado de si mesmo podemos ver na antiguidade os ritos de purificação, as técnicas de concentração da alma, as técnicas de retiro entre outros. O cuidado de si constituiu, na antiguidade, o modo pelo qual a liberdade individual foi pensada como ética. A ética se referia a maneira de ser e de se conduzir. Conforme o autor: Para se conduzir bem, para praticar adequadamente a liberdade, era preciso ocupar-se de si mesmo, cuidar de si, ao mesmo tempo para se conhecer eis o aspecto familiar do gnôthi seauton e para se formar, superar-se a si mesmo, para dominar em si os apetites que poderiam arrebatá-lo. (FOUCAULT, A Ética 2

do Cuidado de Si como Prática da Liberdade, 1983, p.268) grifo nosso. O conduzir-se é a maneira como se deve constituir a si mesmo como sujeito moral, mesmo agindo em referência aos elementos prescritivos que constituem o código moral. Foucault diferencia código moral da moral referente ao sujeito moral, ou seja, diferencia códigos de comportamento das formas de subjetivação. O código moral seria o resultado do conjunto de aparelhos prescritivos e também um jogo complexo de elementos que se compensam e se anulam, permitindo compromissos e escapatórias. A moral, referente ao sujeito moral, seria o comportamento real dos indivíduos em relação às regras e valores que lhe são propostos pelo código moral:...designa-se, assim, a maneira pela qual eles se submetem mais ou menos completamente a um princípio de conduta, pela qual obedecem ou resistem a uma interdição ou a uma prescrição, pela qual respeitam ou negligenciam um conjunto de valores; o estudo desse aspecto da moral deve determinar de que modo, e com que margem de variação ou de transgressão, os indivíduos ou grupos se conduzem em referência a um sistema prescritivo, que é explícita ou implicitamente dado em sua cultura, e do qual eles tem consciência mais ou menos clara. (FOUCAULT, O Uso dos Prazeres e as Técnicas de Si, 1983, p.211) grifo nosso. O autor enfatiza que em referência ao código moral há diferentes maneiras de o indivíduo se conduzir moralmente, diferentes maneiras para o indivíduo não operar apenas como agente, mas como sujeito moral da ação. Por mais rigorosa que seja a prescrição o sujeito terá várias maneiras de praticar a ação. Estas se referem à substância ética, ou seja, a maneira pela qual o sujeito deve constituir um aspecto dele próprio em sua conduta moral. Essas diferenças incidem sobre o modo de sujeição, sobre a maneira pela qual o indivíduo se relaciona com a regra e se reconhece na obrigação de sua prática. O conduzir-se trata dos movimentos contraditórios da alma. O autor ressalta a condição de sujeito moral : 3

Há também diferentes possibilidades nas formas de elaboração do trabalho ético realizado sobre si mesmo, não apenas para tornar seu comportamento conforme uma regra dada, mas sim para tentar transformar a si mesmo em sujeito moral de sua conduta (id.,p.213)grifo nosso. Na verdade toda ação moral implica uma relação com o real que ela se realiza, e uma relação com o código ao qual ela se refere; mas também implica uma certa relação consigo mesmo; esta não é simplesmente consciência de si, mas constituição de si como sujeito moral, na qual o indivíduo circunscreve a parte dele próprio que constitui esse objeto de prática moral, define a sua posição em relação ao preceito que ele acata... (ib.,p.213-214) grifo nosso.... não há constituição do sujeito moral sem modos de subjetivação e sem uma ascética ou práticas de si que os fundamentem. (ib.,p.213) grifo nosso. Em seu artigo de 1984, A Ética do Cuidado de Si como Prática de Liberdade, o autor irá ressaltar que procurou mostrar como o sujeito se constituía de uma forma determinada, através das práticas de si que se constituiriam a partir dos jogos de verdade. Ou seja, como o sujeito se constituía na sua relação com a loucura, com a delinquência, com a sexualidade, com o trabalho, na sua própria diferença consigo mesmo e diante daquele que o declarara louco, delinquente ou imoral. Conforme o autor, no texto supracitado, o sujeito irá se constituir de uma maneira ativa através das práticas de si, as quais não são inventadas pelo próprio indivíduo, mas são esquemas que ele encontra em sua cultura, que lhe são propostos e impostos por esta. As práticas de si são um exercício de si sobre si mesmo através do qual o sujeito procura se elaborar, se transformar e atingir um certo modo de ser. No texto O Uso dos Prazeres e as Técnicas de Si (1983), Foucault trata das práticas de si com referência à história da sexualidade. Define a sexualidade como experiência, concebendo a experiência nas suas ambivalências e contradições, entre 4

diferentes culturas, e também na correlação em uma mesma cultura, entre campos de saber e formas de subjetividade. O autor começa por analisar o processo de instauração de regras e normas pelo qual o indivíduo foi levado a dar sentido e valor à sua conduta, aos seus deveres, aos seus prazeres e aos seus sentimentos. Ou seja, quais os jogos de verdade em que o sujeito se constituiu como sujeito da sexualidade, sujeito do desejo, assujeitado ao que seria a verdade do seu ser. A proposta do autor é saber que elementos compõem essa história da verdade. Esta deve ser analisada a partir das problematizações por meio das quais o ser se apresenta como podendo e devendo ser pensado, e das práticas a partir das quais elas se formam. Esta seria uma análise dos jogos de verdade, através dos quais o ser se constitui historicamente como experiência. O autor afirma que na Grécia antiga, os prazeres sexuais foram problematizados através das práticas de si. Foucault propõe uma genealogia do homem de desejo da antiguidade clássica ao cristianismo. Ao analisar as formas de problematização, veremos no que diz respeito ao ato sexual, que o cristianismo o teria associado ao mal e ao pecado, enquanto a antiguidade o teria dotado de significações positivas. O cristianismo desqualificava a relação entre indivíduos do mesmo sexo, a Grécia a exaltava. Contudo, havia também referências à filosofia pagã no cristianismo e apelos a modelos de austeridade na Grécia antiga. Há textos na antiguidade valorizando a fidelidade conjugal e alertando para os males da experiência sexual sem fecundidade nem parceiro. O desvio do prazer como tentação é valorizado tanto no cristianismo quanto na Grécia antiga. Nestes últimos era a marca do domínio que exerciam sobre si mesmos que os tornava capazes de, portanto, exercer um poder sobre os outros. Portanto, eram as práticas de si que determinavam a moral vigente. O autor ressalta que na antiguidade o elemento forte dos conceitos morais era baseado nas formas de subjetivação e nas práticas de si. A ênfase é posta na relação 5

consigo mesmo, como objeto a se conhecer e nas práticas que permitem transformar seu próprio modo de ser. São morais orientadas para uma ética. Foucault irá lembrar que as práticas de si orientaram muito mais as reflexões morais na Grécia do que os códigos morais. Portanto, há uma diferença fundamental: no cristianismo havia um sistema coercitivo organizado por uma moral unificadora, já entre os gregos eram propostas e não imposições acerca de uma moral, uma espécie de virtude alcançada através de práticas de si em relação à moral admitida. Em O Sujeito e o Poder (1984), Foucault reafirma que seu objetivo em todos os seus anos de trabalho não foi analisar o poder, a sexualidade ou a loucura, mas sim a partir das diferentes formas como o sujeito se configura nessas relações, saber como os seres humanos se tornam sujeitos. Foucault analisará o poder observando como as resistências atuam contra as diferentes formas de poder. As resistências do sujeito são uma recusa a qualquer forma de poder que faz dos indivíduos sujeitos à. Elas incidem contra a submissão da subjetividade. O autor enfatiza que o poder só se exerce sobre sujeitos livres. Não há confronto entre poder e liberdade, ao contrário, a liberdade é condição de existência do poder. A relação de poder e a insubmissão da liberdade não podem ser separadas. Não há um antagonismo entre poder e liberdade, mas um agonismo (combate), uma relação de incitação recíproca e de luta de forças. Viver em sociedade é viver em relações de poder. Foucault postula a intransitividade da liberdade presente nas relações de poder, ou seja, não há relação de poder sem resistência. Para o autor, são as relações de poder que legitimam o poder. São ações de uns sobre outros. 6

O autor afirma que o exercício do poder se refere à ordem do governo. Trata-se do governo dos homens uns pelos outros. Governo é utilizado para designar a maneira de dirigir a conduta dos indivíduos. Defende a arte de governar. A arte de governar implica dobrar as forças sobre si, numa relação consigo mesmo, para então exercer o poder sobre o outro. Foucault em A Ética do Cuidado de Si como Prática da Liberdade (1984), defende a ideia de que nos jogos de verdade existem sempre relações de poder e que estas são inerentes ao próprio processo. Contudo, ressalta que nesse percurso possa haver o uso da verdade como instrumento de dominação, o que seria um desvio da ética que acompanharia esse processo. Distingue, então, relações de poder e estados de dominação. Nas relações de poder ocorreria a prática de jogos estratégicos entre liberdades e nos estados de dominação o sujeito ficaria restrito como sujeito de direito pelo poder político onde os jogos de verdade não dariam margem a uma inversão da situação. Contudo, afirma que será nessa obrigação de verdade que a cultura impõe, justamente sobre o poder das instituições encarregadas de produzir a verdade, que é possível também que se exerça um outro poder, exercer-se a resistência e buscar-se outra possibilidade racional. É certamente nesse campo da obrigação de verdade que é possível se deslocar, de uma maneira ou de outra, algumas vezes contra os efeitos de dominação que podem estar ligados às estruturas de verdade ou às instituições encarregadas de verdade. (FOUCAULT, Ditos e Escritos, A Ética do Cuidado de Si como Prática de Liberdade, 1983, p. 280) grifo nosso. E acaba por concluir de forma categórica que quase sempre haveria a possibilidade de resistência :... um poder só pode se exercer sobre o outro na medida em que ainda reste a este último a possibilidade de se matar, de pular pela janela ou de matar o outro. Isso significa que nas relações de poder há necessariamente a possibilidade de 7

resistência, pois se não houvesse possibilidade de resistência - de resistência violenta, de fuga, de subterfúgios, de estratégias que invertam a situação -, não haveria de forma alguma relações de poder. (FOUCAULT, Ditos e Escritos, A Ética do Cuidado de Si como Prática de Liberdade, p.277) grifo nosso. Vemos, portanto, que Foucault não define o sujeito, mas sim, realiza uma história da verdade, onde busca saber quais jogos de verdade estavam presentes nos indivíduos na sua relação consigo mesmo e em relação à cultura e que os tornaram sujeitos. Através das práticas de si e do cuidado de si os homens tornam-se sujeitos de uma maneira ativa. Estas estão relacionadas aos jogos de verdade, isto é, como o indivíduo se posiciona, num exercício de si sobre si mesmo, se transformando, elaborando um modo de ser diante de valores instituídos como a loucura, a doença, o trabalho, o crime e a sexualidade. A resistência resulta em práticas de si, onde o sujeito exerce uma relação consigo mesmo e também com a cultura, possibilitando uma transformação e nova produção de jogos de verdade. A partir do pensamento de Foucault sobre a constituição do sujeito de maneira ativa, através da resistência, dos jogos de verdade, das práticas e técnicas de si, do cuidado de si e do conduzir-se, propomos pensar-se na situação clínica, nas possibilidades do sujeito de subverter os assujeitamentos, inventando novas posições subjetivas. 8

Referências bibliográficas: CASTRO, Edgardo. (2009). Vocabulário de Foucault: um percurso pelos seus temas, conceitos e autores. Belo Horizonte: Autêntica. FOUCAULT, M (1983). O sujeito e o Poder. In Rabinow, P e Dreyfus. Foucault, Uma Trajetória Filosófica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.. (1983). O Uso dos Prazeres e as Técnicas de Si. In op. cit vol V..(1983). Michel Foucault entrevistado por Hubert Dreyfus e P. Rabinow Sobre a genealogia da ética: uma revisão do trabalho. In Rabinow, P e Dreyfus, op. cit..(1984). A Ética do Cuidado de Si como Prática da Liberdade. In op. cit. Vol V. Rio, 10 de agosto de 2010. A responsabilidade dos artigos assinados é dos seus autores. 9