IV Seminário de Iniciação Científica



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Transcrição:

AVALIAÇÃO DO EFEITO DA MONOCULTURA SOBRE O PADRÃO DE DISTRIBUIÇÃO ESPACIAL DE FORMIGAS CORTADEIRAS (ATTA e ACROMYRMEX) Filipe de Arruda Viegas 1,4, Marcos Antônio Pesquero 2,4, Danilo Jacinto Macedo 3,4, João Danillo dos Santos 3,4, André Grassi Corrêa 3,4, Carolina Viegas de Arruda 3,5 1 Bolsista PIBIC/CNPq 2 Pesquisador - Orientador 3 Alunos Colaboradores 4 Curso de Ciências Biológicas, Unidade Universitária de Morrinhos, UEG 5 Curso de Ciências Biológicas, Unidade Universitária de Ciências Exatas e Tecnológicas, UEG RESUMO O padrão de distribuição espacial de colônias de formigas cortadeiras Atta, Acromyrmex e Trachymyrmex é descrito para áreas de cultivo de soja, eucalipto, pastagem, campo sujo, cerrado aberto e mata ripária no Estado de Goiás. Acromyrmex subterraneus subterraneus, A. s. brunneus, A. hispidus fallax, A. disciger e A. abiguus constituem o primeiro registro para Goiás. O padrão de dispersão das colônias em ambientes de vegetação nativa foi regular ou hiper-disperso, evidenciando um processo de competição provavelmente devido à limitação de recursos alimentares. As colônias em plantio de soja e eucalipto ocorreram de forma agregada. Este padrão é aqui considerado como um reflexo da ação controladora de produtos químicos. Nas pastagens, as espécies e A. sexdens ocorreram somente nas bordas próximas de vegetação de mata. Palavras-chave: formigas cortadeiras, distribuição, cerrado. Introdução As formigas cortadeiras Atta, Acromyrmex, Sericomyrmex, Trachymyrmex e Micocepurus pertencem à tribo Attini, um grupo do Novo Mundo encontrado desde o sul dos EUA até o norte da Argentina, com várias espécies distribuídas no Brasil (Kempf, 1972). Essas formigas coletam substratos vegetais para abastecer as colônias de fungos simbiontes que crescem no interior dos ninhos e que são utilizados como alimento pelas formigas imaturas (Weber, 1972). Se pelo lado ecológico este grupo de formigas é considerado um agente importante na estrutura de comunidades e dinâmica de ecossistemas (Coutinho, 1984; 236

Farji-Brener & Silva, 1995; Nepstad et al., 1996), pelo lado econômico elas representam uma praga que deve ser controlada se não dizimada. As formigas saúva (Atta) e quenquém (Acromyrmex) representam as de maior dano causado aos produtores rurais (Della Lúcia, 1993). A ocupação agrícola mundial é de aproximadamente 1,5 bilhões de hectares, sendo no Brasil, responsável pela eliminação de 80% da vegetação de cerrado no centro-oeste (Altieri, et al., 2003). Esta transformação vem favorecendo um processo de expansão geográfica das formigas cortadeiras na América do Sul (Fowler, 1983). Os agrotóxicos apareceram no Brasil, na década de 1960-1970, como a solução para o controle das pragas que atingiam lavouras e rebanhos e, atualmente, a agricultura responde pelo comércio de bilhões de dólares em todo o mundo. Grande parte do agrotóxico aplicado é perdido no ambiente devido a fatores relacionados à técnica de aplicação e ao conhecimento da dinâmica populacional das espécies alvos. O padrão de ocupação espacial, mais do que uma simples medida de densidade, pode ser determinante em estratégias de manejo e controle de espécies. Nesse sentido, o presente trabalho propõe uma avaliação do padrão de distribuição espacial de formigas cortadeiras em áreas de cultivo e fragmentos de vegetação nativa como controle para critério de comparação. Material e Métodos Os dados foram coletados no período de 09/2005 a 07/2006 em diferentes áreas de vegetação nativa: mata ripária, campo sujo e cerrado aberto; e de cultivo: soja, eucalipto e pastagem nos municípios de Morrinhos, Silvânia e Pirenópolis no Estado de Goiás. Somente colônias adultas e em atividade foram consideradas nas análises. O reconhecimento das colônias no campo ocorreu através da visualização do monte de terra fofa sobre a superfície do solo; e a atividade foi confirmada pela presença de operárias após a perturbação dos olheiros com um fio de arame (1m). Exemplares de vários tamanhos foram coletados e conservados em álcool 70% para identificação taxonômica (Della Lúcia, 1993). A posição espacial das colônias ativas foi definida através de aparelho de leitura das coordenadas geográficas (GPS). As distâncias métricas entre as colônias foram calculadas pelo próprio aparelho leitor das coordenadas. A descrição do padrão de distribuição espacial das espécies foi obtida através do índice de dispersão R vizinho-mais-próximo, que compara as distâncias euclidianas médias observadas e aleatórias entre colônias vizinhas (Pielou, 1961). Quando R=1 o padrão de distribuição é considerado aleatório; para R < 1 o padrão é agregado e, para R > 1 o padrão é regular ou hiperdisperso. Resultados e Discussão 237

Nove espécies de formigas cortadeiras foram observadas nos ambientes de estudo: Atta sexdens sexdens (L.), A. sexdens rubropilosa Forel, A. laevigata (F. Smith), Acromyrmex subterraneus subterraneus Forel, A. subterraneus brunneus Forel, A. hispidus fallax Santschi, A. disciger Mayr, A. sp próxima ambiguus Emery e Trachymyrmex sp. As espécies de Acromyrmex observadas aqui são consideradas o primeiro registro para o Estado de Goiás (Della Lúcia, 1993). Em todas as áreas de vegetação nativa, os três gêneros de cortadeiras observados (Atta, Acromyrmex e Trachymyrmex) apresentaram padrão de dispersão regular ou hiperdisperso (R > 1, Tabela I). Padrões regulares de distribuição são típicos de organismos sésseis cujo comportamento antagônico evidencia um processo de competição por algum recurso (Southwood, 1978). Nas duas áreas de cultivo analisadas (soja e eucalipto), o padrão de dispersão observado entre as colônias das espécies de Atta foi agregado (R < 1, Tabela I). Este padrão normalmente representa um esforço conjunto entre indivíduos afins para obter alimento ou segurança contra predação (Southwood, 1978). A oferta localizada de recursos pode resultar em padrão agregado, mas requer tolerância entre os indivíduos da população, atitude comum apenas entre colônias poligínicas (Hölldobler & Wilson, 1990). Nestas áreas, é provável que a prática do controle químico com isca granulada possa ter reduzido localmente parte das colônias e levado ao resultado agregado observado. Nas áreas de pastagem não observamos uma espécie típica deste ambiente e que corta monocotiledônea (capim) Atta capiguara Gonçalves. Neste ambiente as colônias limitaram-se às bordas próximas de áreas de mata ripária ou cerrado denso, para onde partiam várias trilhas. Dessa forma a pastagem parece selecionar as espécies de formigas cortadeiras, embora Atta laevigatta, encontrada na pastagem 1 (Tabela I) corte tanto mono quanto dicotiledôneas (Della Lúcia, 1993). No cerrado aberto, 89.3% das colônias pertenciam à Trachymyrmex sp (Tabela I). No campo sujo Acromyrmex disciger ocorreu junto com Trachymyrmex sp, embora a dispersão desta última espécie não tenha sido descrita aqui (Tabela I). Tanto no cerrado aberto quanto no campo sujo, foi observado um ambiente de solo pouco profundo, sobre afloramentos de rochas, sustentando arbustos e árvores pequenas (5m) esparsas. Nestas condições as formigas de tamanho corporal reduzido e colônias pequenas apresentam vantagem sobre aquela de corpo e colônias maiores. Embora menor que as saúvas, A. disciger, no campo sujo, constrói suas colônias com folhiço sobre a superfície do solo, evidenciando uma adaptação comportamental ao ambiente. Mesmo as colônias de Atta observadas no cerrado aberto também chamam atenção pela localização sempre nos elevados de terra (barrancos) formados 238

ao lado das estradas. Em ambientes de cerrado censo lato, a presença de Atta parece depender das mudanças proporcionadas pela atividade humana (Schoereder & Coutinho, 1990). Tabela I. Análise da distribuição espacial das espécies de formigas cortadeiras segundo o ambiente (monocultura e vegetação natural). ambiente área (ha) nº colônias densidade índice R Espécie Soja 54.46 28 0,51 0,57 Atta sexdens sexdens pastagem 1 20,70 07 0,38 0,48 pastagem 2 24,27 09 0,37 1,20 Atta sexdens eucalipto 46,41 23 0,49 0,97 Atta sexdens sexdens campo sujo 9,55 09 0,94 1,14 Acromyrmex disciger cerrado 13,66 50 3,66 1,16 Trachymyrmex sp aberto cerrado aberto 13,66 6 0,44 2,12 Atta sexdens sexdens Mata ripária 43,56 25 0,57 1,19 Atta sexdens sexdens Mata ripária 43,56 9 0,21 1,46 Acromyrmex s. subterraneus Acromyrmex s. brunneus Referências Bibliográficas Altieri, M.A., Silva E.N.; Nicholls C.I. 2003. O Papel da Biodiversidade no Manejo de Pragas. Ribeirão Preto. Holos, Editora. Coutinho, L.M. 1984. Aspectos ecológicos da saúva no cerrado a saúva, as queimadas e sua possível relação na reciclagem de nutrientes minerais. Boletim de Zoologia (São Paulo) 8: 1-9. Della Lúcia, T.M.C. 1993. As formigas cortadeiras. Editora Folha de Viçosa. Viçosa. Farji-Brener, A.G.; Silva J.F. 1995. Leaf-cutting ant nests and soil fertility in a well-drained savanna in western Venezuela. Biotropica 27: 250-253. Fowler, H.G. 1983. Distribution patterns of paraguayan leaf-cutting ants (Atta and Acromyrmex) (Formicidae: Attini). Studies on Neotropical Fauna and Environment 18: 121-128. Hölldobler, B.; Wilson E.O. 1990. The ants. Belknap Press, Cambridge. Kempf, W. 1972. Catálogo abreviado das formigas da região Neotropical. Studia Entomologica, 15: 3-344. 239

Nepstad, D.C.; Uhl C.; Pereira C.A.; Silva J.M.C. 1996. A comparative study of tree establishment in abandonated pasture and mature forest of eastern Amazonia. Oikos 76: 25-39. Pielou, E.C. 1961. Segregation and symmetry in two-species populations as studied by nearest neighbor relations. Journal of Ecology. 49: 255-269. Schoereder, J.H.; Coutinho L.M. 1990. Fauna e estudo zoossociológico das espécies de saúvas (Formicidae, Attini) de duas regiões de cerrado do estado de São Paulo. Revista Brasileira de Entomologia., 34: 561-568. Southwood, T.R.E. 1978. Ecological methods. 2º ed., Chapman & Hall, Cambridge. Weber, N.A. 1972. Gardening ants: the attines. Members of American Philosophical Society. 92: 1-146. 240