Aula 10 MIGRAÇÕES INTERNAS: O CASO DO BRASIL



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Transcrição:

MIGRAÇÕES INTERNAS: O CASO DO BRASIL META Explique que as migrações internas ainda são um fenômeno contemporâneo, e mesmo que tenham mudado não apenas em seu direcionamento, fluxo e perfil sócio-econômico, ainda são um processo fundamental no desenvolvimento econômico regional ou na criação também de problemas sociais. OBJETIVOS Ao final desta aula o aluno deverá: entender os fundamentos do processo migratório interno observado no território brasileiro, particularmente a partir da década de 30, quando se configura o processo de industrialização e urbanização brasileira; analisar essa dinâmica em período mais recente e que possui particularidades sociais e econômicas, decorrentes de uma composição demográfica diferente da fase anterior. (Fonte: http://gaia.org.pt).

Geografia da População INTRODUÇÃO Além da temática geral das migrações que observamos na aula anterior, da qual é um fenômeno que se observa desde os primórdios da humanidade e que se reproduz até os nossos dias; outra dinâmica populacional também se realiza, e com características distintas das chamadas grandes migrações ou migrações internacionais: são as migrações internas. Essa espécie de migração é mais intensa e de forte rebatimento na organização territorial e regional da população. Para o estudo das migrações internas, mais conveniente é estudar esse processo dentro da realidade brasileira. Por várias razões. Primeiro pelo Brasil apresentar aspectos bem interessantes dessa migração em seu território e que de certa forma contribuiu no processo de industrialização e urbanização. E segundo, por dividir esse processo em dois momentos históricos, o primeiro pela forte migração interna substitutiva das correntes migratórias internacionais, o segundo momento pela nova forma de migração interna, e que recentemente não mais se caracteriza pelo modelo padrão Nordeste-Centro-Sul, mas por apresentar uma diversidade maior em termos regionais, com migrações de retorno, êxodo urbano, migração urbano-urbano, migração pendular, etc. (Fonte: http://4.bp.blogspot.com). 88

Migrações internas: o caso do Brasil MIGRAÇÕES INTERNAS O estudo das migrações internas, e isso o aluno deve saber de antemão, e principalmente para a realidade brasileira, é um bom tema a se estudado nos dias atuais, principalmente por apresentar novos elementos a serem analisados. A simples lógica através da relação mecânica emigração-imigração esta mais do que superada e na temática das migrações internas (ou seja, deslocamento espacial da população dentro de um mesmo território político), a questão é muito complexa do que essa simples definição, por sinal bem simplória. Analisar esse processo dentro de uma perspectiva puramente econômica, também não ajuda, mesmo que tenha importância. Mas não devemos esquecer que outros elementos também contribuem nesse processo, tanto os de natureza social, cultural e em muitos casos de natureza política. Nessa linha, levantar o conhecido bordão da migração dos nordestinos para o centro-sul do país, muitas vezes mascara a própria realidade da verdadeira migração interna no Brasil. É o que MENEZES (2000) analisa em seu estudo sobre a dinâmica mais recente das migrações internas brasileiras, tomando como parâmetro os fluxos migratórios em direção à região da Amazônia a partir da década de 70 e que na verdade a realidade é bem mais complexa do que propriamente explicar esse processo somente ao fenômeno da expansão da fronteira agrícola. E ainda completa: Concomitantemente (ao fenômeno da expansão das fronteiras agrícolas) verifica-se a ocorrência de movimentos diferenciados como frentes pioneiras, emigração e despovoamento, tudo inserido dentro da mesma região. O que revela uma realidade muito mais complexa do que supunha o senso comum sobre a Amazônia, embora os estudos de população venham a se concentrar sobre as frentes pioneiras. Assim, mas do que simples deslocamento espacial da população, o que existe efetivamente é a mobilidade do trabalho, ou seja, do deslocamento da força de trabalho, indo em busca de emprego ou de melhores condições de vida (GAUDEMAR, 1977). Entretanto, podemos exemplificar dois fatos históricos que de certa forma tiveram importância e que fogem um pouco das duas formas migratórias no Brasil, da qual abordaremos mais adiante. A primeira relaciona-se com a migração em direção as regiões auríferas de Minas Gerais no século XVIII, ocasionada pela crise da cultura canavieira e do interesse da Coroa Portuguesa em explorá-la. E a segunda, correspondendo às grandes levas de migrantes nordestinos em direção á Amazônia em busca das chamadas drogas do sertão, e que na verdade operou como força de trabalho disponível na exploração da borracha. 89

Geografia da População Desse modo, excluindo os dois fenômenos históricos transcritos acima, dividiremos o estudo das migrações internas no Brasil em duas vertentes: a primeira que chamaremos das migrações clássicas brasileiras e a segunda das recentes tendências das migrações no Brasil. AS MIGRAÇÕES CLÁSSICAS O dinamismo das migrações internas no Brasil se processou a partir do desenvolvimento da industrialização e da urbanização. Porém, o fator determinante seria o fortalecimento da integração regional, onde o país estaria economicamente articulado, encurtando distâncias e facilitando a circulação de mercadorias e pessoas (na verdade força de trabalho). Essa fase migratória se processaria também em função do esgotamento dos fluxos migratórios internacionais. A diminuição das levas de migrantes europeus, e a carência de força de trabalho em áreas em processo de urbanização, como observado na região Centro-Sul, ajudaram para um maior fluxo nessa direção. O mais interessante seria o aparecimento do migrante nordestino como principal representante dessa nova dinâmica, formando um novo fluxo onde o desenvolvimento do capitalismo brasileiro (com base na chamada política de substituições de importações) contraditoriamente ajudou no processo de concentração do capital e centralização econômica na região Centro-Sul, condenando as chamadas regiões pobres a serem grandes reservas de força de trabalho, que, mesmo com baixa qualificação profissional desses trabalhadores que deixavam suas atividades agrícolas de baixa produtividade, seria de fundamental importância no processo de acumulação em realização na região centro-sul (SINGER, 1977). Em síntese geral, a mais importante migração interna brasileira (Nordeste-Centro-Sul) pode ser inserida como uma clássica migração campocidade ou êxodo rural. Todo esse processo observado durante décadas, o modelo migratório Nordeste-Centro-Sul esgotou-se no inicio da década de 80 do século passado, mas que serviu para consolidar uma das ideologias nacionais mais repugnantes, existindo ainda nos dias atuais: a do preconceito contra os nordestinos. Ao estilo da ideologia nazista de culpar os outros pelas mazelas sociais, a questão da violência urbana, a expansão das favelas, o desemprego generalizado e de certos hábitos não civilizatórios; construiuse no Brasil a perspectiva preconceituosa de que os nordestinos seriam os grandes culpados da crise social e da generalização de valores moralmente degradantes, inclusive com proposta de diminuição do fluxo migratório ou até mesmo, em uma postura mais radical, da criação da divisão do Brasil em dois países, evitando assim o fluxo dos cabeças chatas. Feliz- 90

Migrações internas: o caso do Brasil mente essas propostas não vingaram, até porque em si são propostas que merecem nossa contundente repugnância. Por outro lado, e isso o aluno deve perceber, não seria apenas os nordestinos como únicos representantes dessas levas de migrantes que deslocavam de sua região para o Centro-Sul. A realidade seria muito mais complexa na medida em que existia também pressão demográfica na região Sul do Brasil. Decorrente do esgotamento da ocupação do solo, sulistas, descendentes de migrantes europeus, em sua primeira e segunda geração, foram forçados a migrarem para outras regiões, particularmente para a Amazônia. Esse fenômeno se processou a partir dos anos 60, quando paranaenses e gaúchos levaram suas famílias e conhecimentos agrícolas para desbravarem a Amazônia brasileira, tendo como principal pólo atrativo o estado de Rondônia e o norte do estado do Mato Grosso. Um dos primeiros estudiosos desse modelo migratório foi o geógrafo Leo Waibel (1955), que ainda na década de 50 do século passado já abordava sobre às frentes pioneiras em direção a Amazônia. Bem verdade que esse fluxo foi bem menor em relação à migração nordestina, mas que serviu no processo de desenvolvimento da agricultura capitalista na região da Amazônia, com a introdução da cultura da soja e do milho, além da pecuária extensiva. Ainda na ótica das grandes migrações nacionais, acrescentamos também as seguintes espécies de fluxos migratórios e que ainda são observados nos dias atuais, como podemos destacar: 1. migração sazonal se caracteriza pela migração em que a questão da migração de retorno toma grande importância sendo determinado por fatores naturais, econômicos e sociais. Um exemplo, e que atualmente torna-se cada vez mais freqüente, é a migração de retorno de trabalhadores nordestinos da cana-de-açúcar, que, na entressafra na região Nordeste, se deslocam para as regiões canavieiras do oeste paulista, onde geralmente trabalham por seis a oito meses e após essas atividades retornam às suas residências situadas nas cidades de base canavieira no Nordeste. 2. êxodo rural é a mais clássica das migrações, se caracterizando pelo deslocamento da população rural para a urbana, com todas as suas repercussões e conseqüências conhecidas. Nos dias atuais é uma migração tipicamente secundária na medida em que o próprio campo (ou o rural), em algumas regiões brasileiras, praticamente reproduz o mesmo estilo de vida urbano (individualismo, consumismo, maior nível de escolaridade, etc.) 3. migração interregional pode ser vista ainda como migração tradicional aplicada á realidade brasileira, onde grandes fluxos populacionais se deslocam de uma região para outra em função das desigualdades regionais e da fantasia da boa vida oferecida pelos grandes centros urbanos. Ainda se reproduz esse fluxo, mas em menor dimensão, decorrente da existência de uma crise urbana sem precedentes e naturalmente com seus 91

Geografia da População problemas sociais. A dimensão continental brasileira, mesmo existindo diferenças econômico-regionais, contribui para que esses descolamentos migratórios a grandes distâncias não sejam mais dominantes. Ou seja, a simples ida para os grandes centros não serve como principal elo de explicação da atual dinâmica migratória brasileira. Pelo contrário, se existe migração interregional, ela é complexa e demograficamente complicada. Um exemplo são os fluxos migratórios permanentes em direção a região da Amazônia. Basta a existência de uma grande obra pública (como a construção de barragens), ou o desbravamento de novas direções das fronteiras agrícolas ou ainda a descoberta de novos veios mineralisticos (como o ouro); para que milhares de trabalhadores de outras regiões se desloquem em direção a Amazônia. Jamais poderíamos desprezar essa dinâmica, onde mistura interesses poderosos, miséria humana, destruição da natureza e desorganização territorial, criando conseqüências imprevisíveis e alguns momentos preocupantes. AS NOVAS TENDÊNCIAS DAS MIGRAÇÕES INTERNAS NO BRASIL Como estudante de Geografia, o aluno deve entender que o processo migratório brasileira foge aquelas regras que aprendemos no ensino médio. Efetivamente aquilo que explicamos no item anterior não pode servir como lastro principal dessa explicação. A questão é mais complexa do que imaginamos. Desse modo, o estudante deve estar atento a um processo que transforma vidas, famílias e realidades regionais, principalmente dentro da ótica econômica e a migração interna brasileira revela contradições radicais. Ou seja, podemos dizer que não existe um padrão migratório dominante no Brasil. Para entender essa nova dinâmica, o elemento central seria o econômico, mas dentro de uma maior complexidade. Ou seja, a velha ladainha do atrasado ser o rural e portanto tende a sair para as cidades, e o moderno ser o elemento atrativo e que gerou todos os problemas urbanos que tanto conhecemos; não mais explica todo esse processo. Como dissemos acima, é irrelevante classificar determinados fluxos migratórios, até porque fica difícil fazer esse procedimento de qual é fluxo mais importante. Por outro lado, qual a importância da migração interna a partir de uma perspectiva Sul-Amazônia, Nordeste-Sudeste ou Nordeste-Amazônia? Para explicar essas dinâmicas, uma simples justificação não aborda a complexidade da realidade, até porque a migração de retorno é um fenômeno generalizado. 92

Migrações internas: o caso do Brasil Talvez uma questão que o diferencia (e é real) relaciona-se com a distância, e nos parece que a tendência é a diminuição da distância entre o ponto de saída e o ponto de chegada do migrante, além da questão do volume demográfico da migração. Como bem coloca MENEZES (2000): No Brasil de hoje o modelo dos grandes fluxos e a grandes distâncias parece acabado como dominância. Especialistas apontam para a situação de migrações de curta distância, predominantemente intra-regionais; podendo ser sazonais em áreas de modernização agrícola ou inter-municipais em áreas de maior urbanização. A autora acima descreve um fenômeno que poderíamos sintetizar facilmente: a tendência é o trabalhador migrante se descolar a depender da circunstância e necessidade, principalmente a econômica, mas sempre para áreas e regiões mais próximas de sua residência de origem. Lembrar que não estamos levando em consideração o deslocamento em função de necessidades mais requintadas como estudar em Universidades, passar férias na praia ou em áreas montanhosas ou simplesmente fazer turismo de curta temporada. Esses fenômenos não são fenômenos migratórios, mas queira ou não o deslocamento populacional no espaço se efetiva e não podemos desprezar o volume de milhões de brasileiros, que, durante o verão curtem suas férias fora de suas residências. Finalmente podemos sintetizar que a questão da migração interna brasileira na atualidade estar mais relacionada ao problema da mobilidade do trabalho, inclusive como estratégia que o capital estabelece para atrair ou não força de trabalho para determinadas regiões. A flexibilidade do mercado de trabalho, o desemprego generalizado, além da questão das condições de vida; seria um dos problemas enfrentados pela população trabalhadora, e com todo esse processo, é evidente que o processo migratório se avoluma dentro de um quadro complexo e despadronizado. 93

Geografia da População CONCLUSÃO O processo da migração interna brasileira tem sua própria história. As disparidades regionais, o desenvolvimento contraditório entre urbanização desorganizada e industrialização parcial, principalmente a partir dos anos 30 do século passado, têm contribuído para o efetivo de grandes levas migratórias dentro do território brasileiro. O Brasil pode ser considerado como um dos países de maior movimento populacional em seu território em todo o mundo. Esse processo pode trazer benefícios do ponto de vista econômico, mas trazendo sérios problemas sociais. Entretanto o mais importante não estaria nessa tradição, mas da continuidade desse processo nos dias atuais, dentro de um quadro bem diferente, mas complexo e contraditório. Em síntese, o que importa é que a mobilidade da força de trabalho é a estratégia central do capital para que esse processo tenha continuidade, onde baixos salários e maiores lucros possam conviver contraditoriamente. O mais importante para o aluno, também, é que superamos aquela concepção fechada da migração Nordeste-Sudeste. E a migração de retorno é mais uma referência importante, precisando também ser estudado. RESUMO Migração Interna é um processo observado dentro de um mesmo território nacional, onde se articulam causas de atração e repulsão da população. O caso brasileiro é um dos mais dinâmicos no mundo e nela podemos fazer em dois momentos de sua história, isso decorrente do desenvolvimento capitalista territorialmente desigual. A primeira, chamamos de Migração Clássica, marcada pelo fenômeno dos milhões de brasileiros que migraram para os grandes centros urbanos, fruto da urbanização e industrialização desigual. Isso desenvolveu o capitalismo brasileiro, além de fortalecer a região Centro- Sul e colocar o Nordeste como região problema. Na segunda denominamos de Novas tendências da migração interna brasileira, da qual foge dos padrões convencionais, e é marcada pela relevância das migrações de menor distância e complexidade, com alto dinamismo migratório, onde o que importa é o deslocamento do trabalho, sempre com destino a locais onde existam emprego e potencial econômico. Nela a migração de retorno toma relevância. 94

Migrações internas: o caso do Brasil ATIVIDADES 1. Na sua opinião, tomando variáveis como sexo, idade, nível de escolaridade e renda familiar, qual seria o perfil do autêntico migrante brasileiro na atualidade ou será que não temos mais esse perfil? Só uma pista: tire o pressuposto que esse migrante é exclusivamente nordestino. 2. O Brasil ainda apresenta grandes desigualdades regionais. Isso todos nós sabemos. Sendo a migração de retorno um processo cada mais importante, podemos dizer que isso significa que esse fenômeno explica o empobrecimento da população trabalhadora migrante? REFERÊNCIAS FAISSOL, Speridião. Migrações Internas um sub-sistema no processo de desenvolvimento. Rio de Janeiro: Revista Brasileira de Geografia, n. 3, Ano 33, 1973. GAUDEMAR, J. Mobilidade do trabalho e acumulação de capital. Lisboa: Editorial Estampa, 1977. MENEZES, Maria Lucia Pires. Tendências atuais das migrações internas no Brasil, In: scripta nova, n. 69 (45), Barcelona: 2000. SINGER, Paul. Economia política da urbanização. São Paulo: Editora Brasiliense, 1977. WAIBEL, Leo. As zonas pioneiras do Brasil, In: Revista Brasileira de Geografia. n. 7, v. 17, Rio de Janeiro: 1955. 95