COMUNICAÇÃO, INFORMAÇÃO E CIDADANIA: REFLETINDO PRÁTICAS E CONTEXTOS



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Transcrição:

COMUNICAÇÃO, INFORMAÇÃO E CIDADANIA: REFLETINDO PRÁTICAS E CONTEXTOS

Conselho Editorial Alex Primo UFRGS Álvaro Nunes Larangeira UTP Carla Rodrigues PUC-RJ Cristiane Freitas Gutfreind PUCRS Erick Felinto UERJ Edgard de Assis Carvalho PUC-SP J. Roberto Whitaker Penteado ESPM João Freire Filho UFRJ Juremir Machado da Silva PUCRS Michel Maffesoli Paris V Muniz Sodré UFRJ Philippe Joron Montpellier III Pierre le Quéau Grenoble Renato Janine Ribeiro USP Sandra Mara Corazza UFRGS Tania Mara Galli Fonseca UFRGS

COMUNICAÇÃO, INFORMAÇÃO E CIDADANIA: REFLETINDO PRÁTICAS E CONTEXTOS Organizadores Valdir Jose Morigi, Ilza Maria Tourinho Girardi e Cristóvão Domingos de Almeida

Os organizadores Capa: Vinícius Xavier Projeto gráfico: Daniel Ferreira da Silva Revisão: Mariane Farias Revisão gráfica: Miriam Gress Editor: Luis Gomes Dados Internacionais de Catalogação na Publicação ( cip ) Bibliotecária Responsável: Denise Mari de Andrade Souza CRB 10/960 C741 Comunicação, informação e cidadania: refletindo práticas e contextos / org. por Valdir José Morigi, Ilza Maria Tourinho Girardi, Cristovão Domingos de Almeida. -- Porto Alegre: Sulina, 2011. 269 p. ISBN: 978-85-205-0614-1 1. Comunicação. 2. Jornalismo. 3. Mídia Cidadania. 4. Jornalismo Cidadania. I. Morigi, Valdir José. II. Girardi, Ilza Maria Tourinho. III. Almeida, Cristovão Domingos de CDU: 070 CDD: 070.1 A grafia desta obra está atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009. Todos os direitos desta edição reservados à Editora Meridional Ltda. Av. Osvaldo Aranha, 440 cj. 101 Cep: 90035-190 Porto Alegre-RS Tel: (051) 3311-4082 Fax: (051) 3264-4194 www.editorasulina.com.br e-mail: sulina@editorasulina.com.br {Junho /2011} Impresso no Brasil/Printed in Brazil

Sumário Apresentação, 7 Prefácio, 13 I Mídia, contextos organizacionais e cidadania Mídia comunitária x democracia representativa: a luta da cidadania incompleta, 19 Rodrigo Jacobus Bruno Lima Rocha Cidadania e telenovela: evidências e ocultações na midiatização do social, 35 Daniel Barsi Lopes Lourdes Ana Pereira Silva A questão agrária e a cidadania nas páginas do jornal Zero Hora, 51 Vilso Junior Santi A comunicação organizacional e a promoção da cidadania, 65 Rudimar Baldissera Magno Vieira da Silva A transformação das ações de comunicação em prática cidadã: uma experiência de extensão universitária na Associação dos Trabalhadores da Unidade de Triagem do Hospital Psiquiátrico São Pedro (ATUT), 81 Cristine Kaufmann Valdir Jose Morigi II Práticas comunicacionais e cidadania. A rádio comunitária como prática de cidadania comunicativa A rádio comunitária como prática de cidadania comunicativa, 95 Cristóvão Domingos de Almeida Joel Felipe Guindani Valdir Jose Morigi Jornalismo Ambiental na Construção da Cidadania, 107 Ilza Maria Tourinho Girardi Eloisa Beling Loose Mariana Silva Sirena Rosa Nívea Pedroso

Aproximações teóricas entre informação, consumo e cidadania ambiental, 119 Gisele Souza Neuls A comunicação estratégica entre a cidadania e a construção de barragens no Brasil, 133 Carlos Locatelli Maria Helena Weber Representações do Jornal Boca de Rua: propostas de cidadania para grupos em situação de vulnerabilidade social, 161 Márcia Anselmo Natália Ledur Alles Mediações quilombolas: os contextos da comunicação no quilombo de Itamatatiua, 175 Wesley Pereira Grijó Karla Maria Muller III Ciberespaço e cidadania O ciberespaço e a reconfiguração da esfera pública: os blogs cubanos como prática de cidadania, 193 Lia Luz Valdir Jose Morigi Redes de negritude: usos das tecnologias e cidadania comunicativa de afro-brasileiros, 211 Denise Cogo Sátira Machado Apropriações da web como meio para o exercício da cidadania: expressões de identidades culturais ligadas a território, 239 Mônica Pieniz Ada Cristina Machado da Silveira Informação e cidadania: apropriação das tecnologias digitais na inclusão social brasileira, 253 Patrícia Mallmann Souto Pereira Valdir Jose Morigi

Apresentação Os campos da comunicação e da informação são estratégicos na formação de sujeitos emancipados, conscientes de seus direitos e deveres e com instrumental para a realização de seus sonhos individuais e coletivos. Os autores que participam deste livro incorporam essa compreensão no seu fazer enquanto pesquisadores, professores, extensionistas e profissionais liberais. Os resultados de suas pesquisas e reflexões contribuem para que a universidade responda concretamente aos desafios que deve encarar para a construção de uma sociedade solidária e com justiça socioambiental. O livro está organizado em três partes: Mídia, contextos organizacionais e cidadania; Práticas comunicacionais e cidadania; Ciberespaço e cidadania. A primeira parte inicia com o texto Mídia comunitária x democracia representativa: a luta da cidadania incompleta de Rodrigo Jacobus (UFRGS) e Bruno Lima Rocha (Unisinos), que buscam uma reflexão atualizada e não dogmática sobre possíveis alternativas que tragam alguma contribuição às organizações midiáticas comunitárias. Para os autores, assim, será possível apontar caminhos distintos do assédio doutrinário que compromete o papel dos movimentos populares na formulação de um novo paradigma, potencialmente canalizado para um desenvolvimento social mais justo, igualitário e humano. Daniel Barsi Lopes (Unisinos) e Lourdes Ana Pereira Silva (UFRGS) no texto Cidadania e telenovela: evidências e ocultações na midiatização do social analisam as relações entre cidadania e telenovela, focando nas maneiras como esse gênero televisivo pode trazer visibilidade às questões sociais e às causas coletivas na sociedade midiatizada contemporânea, potencializando, assim, uma tentativa de construção de cidadania por parte dos telespectadores. Os autores observam experiências de agendamento e tematização de determinados assuntos de relevância social na pauta de conversação pública, a partir da exposição desses temas na teledramaturgia. Examinam, também, a maneira como certos assuntos podem ser abordados conjugando momentos de ocultação e parcialidade nesse mesmo movimento de visibilidade proporcionado pelas telenovelas. Por fim, analisam os processos pelos quais os 7

telespectadores podem transformar-se em cidadãos a partir do consumo do gênero teledramatúrgico. Em A Questão agrária e a Cidadania nas páginas do jornal Zero Hora, Vilso Junior Santi (PUCRS) busca aclarar a relação complexa entre a questão agrária, a cidadania e a lógica midiática. Para tanto, parte da caracterização dos Movimentos Sociais, em particular do Movimento dos Trabalhadores Rurais Semterra (MST), passando pelo funcionamento dessa lógica no Jornal Zero Hora (ZH), a fim de mapear nas páginas do referido periódico as representações efetivamente movimentadas pelo discurso jornalístico ao enunciar essa temática. Para dar conta desse empreendimento, utiliza prioritariamente os recursos da Análise de Discurso para analisar as matérias publicadas por ZH no período de 12/04 a 21/05/2008 todas elas relacionadas à ocupação/desocupação da Estância do Céu, fazenda localizada no município de São Gabriel, região central do Rio Grande do Sul. No texto A comunicação organizacional e a promoção da cidadania, Rudimar Baldissera (UFRGS) e Magno Vieira da Silva (UFRGS) analisam a responsabilidade social no âmbito da comunicação organizacional. Para eles, quer parecer que os estudos tenderam/tendem a estarem concentrados em análises de campanhas, ações e/ou projetos, realizados por organizações públicas, privadas e/ou público-privadas, qualificados como sendo de responsabilidade social. Cristine Kaufmann (UFRGS) e Valdir Jose Morigi (UFRGS) em A transformação das ações de comunicação em prática cidadã: uma experiência de extensão universitária na Associação dos Trabalhadores da Unidade de Triagem do Hospital Psiquiátrico São Pedro (ATUT) discutem a importância das ações de comunicação comunitária desenvolvidas pelo Projeto de Extensão ATUT: reciclando vidas com inclusão social na Associação dos Trabalhadores da Unidade de Triagem do Hospital Psiquiátrico São Pedro (ATUT), em Porto Alegre, RS. Para tanto, relatam a experiência desenvolvida durante 14 meses, quando a primeira autora participou das atividades da Associação, criando vínculo com os trabalhadores, aprendendo a separar o lixo nas mesas de triagem, indo aos passeios e festas dentro do Hospital São Pedro, assim como as atividades realizadas pelo Projeto de Extensão, que aconteciam dentro e fora da Associação. A segunda parte inicia com o texto A rádio comunitária como prática de cidadania comunicativa, de Cristóvão Domingos de Almeida (UNIPAMPA), Joel Felipe Guindani (UFRGS) e Valdir Jose Morigi (UFRGS). Os autores aprofundam a discussão sobre cidadania comunicativa e mostram como essa 8

noção pode se constituir em uma experiência de rádio comunitária. Para eles, a radiodifusão comunitária, mais especificamente a rádio Terra Livre FM desenvolvida pelos agricultores Sem Terra do oeste catarinense, é um dos lugares privilegiados de acompanhar as ações que emergem neste tempo de reformas estruturais e de revisões conceituais. Em sua reflexão, os autores procuram responder aos seguintes questionamentos: como se expressa no universo empírico a prática da cidadania comunicativa? Como o espaço radiofônico realiza a mediação e se constitui uma estratégia política para a construção da cidadania comunicativa? Já o texto Jornalismo Ambiental na construção da cidadania, de Ilza Maria Tourinho Girardi (UFRGS), Eloisa Loose (UFRGS), Mariana Silva Sirena (UFRGS) e Rosa Nívea Pedroso (UFRGS), nasce, conforme as autoras, de uma mistura de angústia e indagação que as rodeia constantemente: o jornalismo ambiental está cumprindo a função de disponibilizar às pessoas informações qualificadas, que as ajudem a avaliar as práticas sociais em curso há dezenas de anos e que estão levando a humanidade para um futuro nebuloso? Ele realmente auxilia na construção e exercício da cidadania? Tendo por base seus estudos e as avaliações dos resultados dos movimentos desencadeados pelas organizações não governamentais ambientalistas, as autoras defendem que o jornalismo ambiental tem o potencial de contribuir com a discussão sobre os rumos da nossa civilização, apresentado fatos, exemplos, análises e possibilidades que as animam a pensar que uma vida sustentável não é somente um sonho inatingível. Gisele Souza Neuls apresenta o texto Aproximações teóricas entre informação, consumo e cidadania ambiental que tem por objetivo fazer uma aproximação entre esses elementos, a fim de buscar uma compreensão mais aprofundada dos muitos liames e tramas que tecem esse cenário. Através de uma rápida olhada sobre a crise ambiental, tenta compreender aspectos de sua gênese e situação atual; em seguida, busca olhar quem é o novo cidadão que poderá atuar em uma esfera pública que começa a superar os limites territoriais dos Estados-nação. Além disso, problematiza a questão do consumo, buscando compreender quem é o sujeito consumidor e quais suas possibilidades de ação, quais seus limites e chega até a informação e comunicação. Em Limites da comunicação e do acesso a informações na construção de hidrelétricas, Carlos Locatelli (UFRGS) e Maria Helena Weber (UFRGS) analisam situações e relações singulares entre informação, comunicação e cidadania vinculadas ao processo de construção da Hidrelétrica Foz do Chapecó, a partir dos interesses do Estado, que quer a obra; do concessionário que precisa liberar a área para implantar a obra; da população atingida pela barragem, que ocupa a 9

área; das organizações da sociedade civil, que têm perspectivas e interesses distintos em relação ao projeto. Para tanto, são abordados os conflitos naturais a esse processo a partir dos dispositivos legais sobre comunicação e acesso à informação, especificamente, limites e constrangimentos do cidadão que pretenda acessar diretamente informações de documentos da obra e, com isso, poder discutir, formar suas opiniões, tomar decisões e produzir argumentos que possam atingir as esferas pública e midiática e a esfera de decisão política. No último texto da segunda parte, Representações do Jornal Boca de Rua: propostas de cidadania para grupos em situação de vulnerabilidade social, Márcia Anselmo (UFRGS) e Natália Ledur Alles (UFRGS) apresentam a experiência de ambas durante a pesquisa acadêmica. Elas observaram o processo de produção do jornal Boca de Rua, veículo de comunicação comunitária produzido por adultos em situação de rua e por crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social de Porto Alegre. Partindo da ideia de que essas pessoas não são contempladas pelo olhar dos meios de comunicação de massa, as autoras investigaram as imagens por eles elaboradas ao participarem do processo de produção do jornal Boca de Rua. Para as autoras, foi possível perceber que o jornal atua como espaço para uma tentativa da desconstrução dos estigmas que cercam esses sujeitos marginalizados, aproximando-os dos outros habitantes da cidade e elaborando a ideia de que eles possuem consciência crítica e, assim como as demais pessoas, são possuidores de direitos e merecedores de respeito. A terceira parte inicia com o texto O ciberespaço e a reconfiguração da esfera pública: os blogs cubanos como prática de cidadania, de Lia Luz (UFRN) e Valdir Jose Morigi (UFRGS), que fazem a análise das narrativas para verificar a recuperação do sentido de ser cidadão através da participação e da livre manifestação dos internautas cubanos. Constatam que, através do acesso, da interatividade e da conexão em rede, as mídias digitais permitem novas práticas culturais, ampliando e fortalecendo os laços de pertencimento entre cidadãos com interesses comuns, favorecendo a troca de informações entre os grupos locais e globais. Em Redes de negritude: usos das tecnologias e cidadania comunicativa de afro-brasileiros, Denise Cogo (Unisinos) e Sátira Machado (Unisinos) efetuam um mapeamento dos usos das tecnologias da informação e comunicação por setores e movimentos sociais negros, nos processos de disputa e luta por cidadania das populações afro-brasileiras que culminaram, recentemente, com a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial no Brasil. O mapeamento é baseado em pesquisa bibliográfica e documental e na observação sistemáti- 10

ca de espaços e materialidades que envolvem os usos de tecnologias da informação e comunicação por diferentes setores do movimento negro brasileiro, como jornais, rádio, televisão, vídeo, Internet, entre outros. Mônica Pieniz (UFRGS) e Ada Cristina Machado da Silveira (UFSM) fazem uma reflexão sobre as apropriações tecnológicas com fins de manifestações de identidades culturais com base nos regionalismos do Brasil. No texto Apropriações da web como meio para o exercício da cidadania: expressões de identidades culturais ligadas a território defendem que a web pode ser apropriada como mídia alternativa para a manifestação e exercício de cidadania de grupos minoritários desprovidos de acesso de difusão em mídias tradicionais, tornando-se meio de comunicação para expressão da diversidade cultural. Para as autoras, exemplos empíricos de comunidades virtuais e uma breve atenção ao contexto contemporâneo do acesso móvel permitem a visualização das constantes reconfigurações identitárias potencializadas pelas tecnologias de informação e comunicação. O último texto, Apropriação de tecnologias digitais em telecentros: relação entre informação e cidadania, de Patrícia Mallmann Souto Pereira (UFRGS) e Valdir Jose Morigi (UFRGS), discute a relação entre informação e cidadania, mais especificamente, no contexto do mundo digital. Os autores argumentam como a apropriação das tecnologias digitais, assim como da informação, a partir de telecentros, tem o potencial de favorecer o exercício da cidadania. Examinam resultados de estudos no contexto de telecentros brasileiros como base para pensar de que forma eles têm contribuído para esse fim. Os resultados apontam algumas tendências através das quais os telecentros podem contribuir para a ampliação do exercício da cidadania, mas mostram que ainda há um longo caminho para que isso se efetive. Uma boa leitura! Os organizadores Valdir Jose Morigi Ilza Maria Tourinho Girardi Cristóvão Domingos de Almeida 11

Prefácio Em todos os textos deste livro, a categoria cidadania é tema para reflexão. Essa recorrência não ocorre por acaso, mas está marcada pela natureza dos objetos/sujeitos das investigações e das reflexões problematizadas nos artigos desta coletânea. Os objetos/sujeitos que são analisados nos artigos são atores sociais, todos representantes de minorias, ora participantes de movimentos sociais populares, ora homens ordinários que são indagados pelos autores sobre as formas como se apropriam dos sentidos e conquistam espaços para ampliarem seus direitos e conhecimentos. Seja de forma mais profunda, trazendo discussões históricas sobre a trajetória da categoria cidadania ou de forma mais imediata, apresentando o termo como nomeação para o papel das práticas culturais e comunicativas, adjetivadas como práticas cidadãs temos nesta obra um encontro marcado com investigações compromissadas teórica e empiricamente com essa temática. O uso da mesma categoria em 15 artigos não significa em nenhum momento repetição, pois, como nos propôs Bourdieu no livro o Ofício do Sociólogo, cada pesquisador se apropriou e adequou à categoria as suas discussões. Não ocorre de forma nenhuma uma imitação de uso mecânico na utilização do termo cidadania, mas uma recorrência crítica pontual e criativa pelos pesquisadores. A coletânea Comunicação, informação e cidadania: refletindo práticas e contextos é um reflexo da demanda que presenciamos nos estudos de comunicação mais recentes, apoiados em metodologias qualitativas e num paradigma interpretativo, comprometido com a transformação de mentalidades e com a análise de práticas sociais vivenciadas no cotidiano ou no âmbito dos movimentos sociais populares. A obra nos traz 15 artigos todos de pesquisadores experientes e dedicados à pesquisa qualitativa. Teremos aqui, portanto, uma demonstração do uso de diversas estratégias metodológicas: observação, entrevistas, análise de discurso, de conteúdo, pesquisa documental, dentre outras variações. Entretanto, cada estratégia foi uma escolha realizada a partir das particularidades dos objetos e de seus contextos que ganharam um redesenho criativo. Na crítica à cidadania burguesa, parte dos artigos desta obra pontua como os atores hegemônicos (Estado e mercado), constroem numa zona de 13

tensão, dimensões da cidadania burguesa direcionadas para as minorias. A essa cidadania restrita, cada autor ou grupo de autores, do seu lugar de análise peculiar, faz jus a sua denúncia, adjetivando, em alguns casos, a categoria cidadania como: incompleta, atrofiada ou meia cidadania. Em todas as pesquisas que trazem esse enfoque, os autores comprovam essa atuação hegemônica que age em confronto com as mobilizações e apropriações dos atores sociais das classes subalternas. É essa leitura sempre dialógica e não mais fatalista que marca os artigos. Outra parte da coletânea, mas sempre em diálogo com os demais artigos, nos apresenta textos que fundamentam as discussões das mobilizações das práticas comunicativas alternativas e comunitárias e das apropriações cotidianas que as classes populares efetivam. São através dessas práticas que são dadas respostas aos processos hegemônicos. Os artigos analisam as práticas comunicativas, que são interpretadas pelos autores como práticas sociomunicativas ou libertárias. Porém, sempre apresentando alternativas na construção de igualdades e da cidadania efetiva ou cidadania possível. O livro não traz artigos referenciados por uma única pesquisa, mas a comunicação e a cidadania unem cada argumento desta obra. Essa interação comprova, ao final da leitura, que os tratamentos teóricos e históricos dos objetos da comunicação nem se completam por demarcarem apenas as práticas dominantes, presentes nas ações da comunicação comercial, nem tão pouco na documentação ou investigação apenas das práticas contra-hegemônicas. Esta obra conduz o leitor a ver o lugar do subalterno no complicado jogo das construções de sentidos pelos atores poderosos e também a percebêlos na armação de suas reações, conquistas e ambiguidades na articulação de práticas comunicativas que significam resistências e aprendizados, embora nem sempre representem ganhos efetivos. A publicação nos ressalta que a história e a teoria da comunicação já demonstram a maturidade de sair de abordagens bipolares, apocalípticas ou integradas. Os pesquisadores procuram usar lentes múltiplas, capazes de aproximações e distanciamentos para perceber o micro e o macro, colocando acima de tudo a complexidade dos fenômenos sociais como parte do exercício do fazer acadêmico. Ler um livro é como uma viagem, porém, aqui, de ordem simbólica. Essa incursão simbólica nos envolve por caminhos, personagens, paisagens, sentimentos e emoções. Mesmo que a leitura seja de ordem científica, como é o caso desta coletânea de textos, não deixamos de sair dela com novos propósitos e possibilidades para um novo encontro e 14

novas ações no mundo que nos cerca. Fazer referência a este livro me fez procurar formas para pensar cada ponto que interligasse os artigos e suas contribuições para nós, pesquisadores ou não. Por minha trajetória, há mais de duas décadas, em pesquisa com movimentos sociais e comunicação popular, saio dessa viagem uma pessoa mais rica, mais curiosa e disposta a ler mais, escrever mais e, principalmente, desafiada a pensar sobre realidades construídas, mas que me passam despercebidas e naturalizadas em minhas representações. Se perguntarem se há lacunas ou problemas nessa empreitada teórica, perguntaria como chegamos até aqui senão cometendo equívocos e procurando acertar. Catarina Farias de Oliveira Professora Adjunta de Sociologia da Universidade Estadual do Ceará e professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará 15