PERFORMANCE DE ARTE RELACIONAL COMO CURA

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Transcrição:

PERFORMANCE DE ARTE RELACIONAL COMO CURA Claudia Regina Garcia Millás Claudia Regina Garcia Millás Doutorado Linha de Pesquisa PCI Orientadora Profª Drª Tania Alice Caplain Feix Doutoranda pelo Programa de Pós Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e mestra pelo programa de Pós Graduação em Artes da Cena da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) 2012-2014, com bolsa de mestrado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Possui graduação (Licenciatura e Bacharelado) em Dança pela mesma Universidade 2004-2009. É diretora do Coletivo Invertido e bailarina da Cia Domínio Público com direção de Holly Cavrell. Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Dança, atuando principalmente nos seguimentos: dança, circo, música e iluminação cênica. 22

PERFORMANCE DE ARTE RELACIONAL COMO CURA Claudia Regina Garcia Millás Profª Drª Tania Alice Caplain Feix Orientadora O interesse desta pesquisa está em encontrar nos rituais ancestrais da América Latina e em práticas corporais que visam a transformação do participante e a conexão deste consigo mesmo, com o outro e com o meio, ações e simbologias que podem ser pensadas enquanto dispositivos de cura dentro de uma performance. Reafirma-se a partir do pensamento de Schechner que a performance poderia ser compreendida entre a relação do teatro e do ritual, como movimento continuum e recíproco de um à outro, com poder de transporte e transformação(schechner, 1985). Propõem-se pensar a performance como ensaio de si e do mundo, enquanto uma manifestação que intervém, modifica e transforma o real. Está mais ligada na ação do que na representação. O sujeito põe-se enquanto subjetividade, enquanto ponto de vista de onde as coisas acontecem, agente da ação e passível a sua própria transformação. Se coloca em risco, necessário, sendo uma subjetividade que expressa o mundo, o seu mundo. É a partir de onde se fala, experiência viva. A linguagem performática, híbrida por natureza e que se define pela sua própria indefinição, tem poder de transformação por meio de suas ações que modificam o contexto em que atua. Caracteriza-se por sua indisciplina, que transgride, abre espaço, cria e se instaura, sem pedir licença, aos velhos e disciplinados moldes. Não se enquadra nas produções artísticas vinculadas e determinadas pelas leis de consumo, mas em criações artísticas que buscam transformar o mundo, principalmente como uma resposta urgente de cuidado de si, do outro e do meio em que se vive. O cuidar aqui é fundamental, como ação transformadora. Assim, busca-se antes de tudo ativar o corpo, como nos diria Eleonora Fabião: aumentar sua potência de vida, para que se efetive como agente transformador e potente, capaz de intervir, criar e modificar estruturas enrijecidas(fabião, 2009). 23

É nesse sentido, então, que pode-se pensar em um conjunto de ações, híbrido e indisciplinado, que requer uso de ferramentas diversas para construir seu discurso e a própria ação, convocando áreas como a filosofia, a psicologia, a antropologia e as teorias da dança, para criar partilhas sensíveis capazes de transformar e afetar. A partir dessa transformação podemos ver a potência principal da performance. A cura pode ser pensada como aumento de potência de vida, possibilidade de diferenciação e movimento, coragem ao risco e à verdade. Não a cura de uma patologia específica, mas como possibilidade de transformação. Pode também ser vista como uma forma de nos tornarmos melhores, belos em existência, seguindo o pensamento de Foucault (FOUCAULT, 1993). Foca-se então nos trabalhos sobre si ou técnicas do eu, como denomina este autor, que permitem aos indivíduos fazerem certas operações sobre os seus corpos, sobre as suas almas, sobre o seu próprio pensamento, que visam transformar a si próprios, a modificarem-se, buscando um certo estado de felicidade. Ainda neste sentido é como buscar na transformação de si uma qualidade que permita viver diversamente, melhor, de maneira mais feliz que as outras pessoas. E felicidade aqui é entendida como este aumento de potência de vida, em que o ser se efetua. Enquanto metodologia de pesquisa, esta é uma proposta de abordagem e de operação, de como fazer pesquisa-intervenção, em consonância com a cartografia, em acompanhar processos e se colocar como sujeito da ação, passível à transformação. A pesquisa se dá a partir da própria experiência, que acontece no singular, onde há paixão, enquanto forma de conhecimento, quando não pode serantecipada, pré- alguma coisa. Tem a ver com o limite do saber. Exige linguagem capaz de enunciar singularmente o singular, de incorporar a incerteza, que capte a vida, que faça ressoar e que ressoe, viva. Segundo Jorge Larrosa (2014), é lá onde vibramos, trememos, sentimos fraqueza, no silêncio das palavras, na pausa, na escuta, no espaço do tempo. Neste sentido, fala-se em primeira pessoa para se expor na insegurança das próprias palavras, na incerteza dos próprios pensamentos. E então a primeira pessoa não é colocada como tema, mas como ponto de vista, lugar de acontecimentos. A justificativa para esta pesquisa está em perceber na fala de diversos autores, como ZygmuntBauman com o aprofundamento do conceito de liquidez, Walter 24

Benjamin e Jorge Larrosa, que desenvolvem sobre o tema da modernidade, a noção de empobrecimento das experiências contemporâneas, no sentido amplo do termo. Walter Benjamin (1994) afirma que as ações da experiência estão em baixa e que a sociedade ficou pobre e desumanizada: pobre em experiência, no que há de humano na vida, aproximando-se da dimensão arbitrária e construtiva e distanciando-se da orgânica. A partir da análise desses autores, em que percebe-se que se vive num tempo de desconexão consigo próprio, com as outras pessoas e com o meio, distantes dos processos básicos da vida, desde a alimentação até a relação com o espaço, e, principalmente, num tempo em que resvala-se perder o processo ritual e simbólico para se conectar, fortalecer, trocar e afetar com o mundo, parece urgente, se não imprescindível, ações performáticas que visem a cura, como aumento de potência de vida, que permita efetivar uma eco-logia (GUATTARI, 2012). O termo PARC (performance de arte relacional como cura) utilizado por Tania Alice (FEIX, 2015), parece caber dentro deste contexto para se trabalhar a performance como forma de arte relacional, em que o performer se torna um agente propiciador de transformações. Como diz a autora, os dispositivos gerados pela prática relacional são em seguida ativados com um perspectiva terapêutica, no sentido de promover uma transformação da relação entre participante e performer em busca de uma cura. 25

REFERÊNCIAS: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política; ensaios sobre a literatura e história da cultura. São Paulo: brasiliense, 1994. FABIÃO, Eleonora. Performance e teatro: poéticas e políticas da cena contemporânea. In revista Sala Preta (USP), v. 8, p. 235-246, 2009. FEIX, Tania Alice. PARC (Performances de Arte Relacional como Cura): Performance e SomaticExperiencing. In Revista Brasileira de Estudos da Presença, v. 5, p. 396-412, 2015. FOUCAULT, Michel. Verdade e subjectividade (HowisonLectures). Revista de Comunicação e linguagem. nº 19. Lisboa: Edições Cosmos, 1993. p. 203-223. GUATTARI, Félix. As Três Ecologias. São Paulo: Papirus, 2012. LARROSA, Jorge. Tremores: escritos sobre experiência. Belo Horizonte: Autêntica, 2014. LARROSA, Jorge. A operação ensaio: sobre o ensaiar e o ensaiar-se no pensamento, na escrita e na vida. In: Revista Educação e Realidade. Faculdade de Educação da UFRGS. Vol. 41, N. 3, 2016. SCHECHNER, Richard. Restorationofbehavior: Betweentheaterandanthropology. Philadelphia, Pa.: UniversityofPennsylvania Press, 1985. 26