TECNOLOGIA BVO NO TRATAMENTO FITOSSANITÁRIO DO ALGODOEIRO. Marcos Vilela de Magalhães Monteiro 1 Palestra proferida no V Congresso Brasileiro de Algodão - Salvador BA, 29/Ago/2005. Para abordar este tema é necessário explorar conhecimentos, sobre o Conceito atual de Tratamento Fitossanitário do Algodoeiro e sobre o Sistema de Tecnologia de Aplicação BVO e procurar identificar os tratamentos onde o Sistema BVO pode ou não pode atender as necessidades dessa cultura com menor poluição ambiental, maior eficiência biológica e maior economia. O conceito atual de tratamento fitossanitário. O fato da Tecnologia de Aplicação de Defensivos fazer parte de um Congresso Brasileiro de Algodão indica claramente que a cotonicultura está evoluindo de um estágio onde se estudavam apenas as Pragas e os Produtos usados para seu controle (PP), para um estágio que classifico de PPN onde são estudados as Pragas, os Produtos e as Neblinas usadas para distribuir os princípios ativos nos alvos. Somente com os estudos e práticas dos conhecimentos adquiridos nessas três áreas, será possível resolver os desafios que a cotonicultura enfrenta para o controle eficiente e econômico das pragas e doenças dessa lavoura. Os sistemas convencionais de produção de neblinas para aplicações com Altos e Baixos Volumes de calda tendo a água como veículo dos defensivos, utilizam o sistema de pressão hidráulica e bicos pulverizadores que produzem neblinas com gotas de tamanhos muito variados entre si. Os sistemas que aplicam baixos volumes de caldas como o Ultra Baixo Volume desenvolvido nos Estados Unidos em 1962 e mais recentemente o Sistema BVO desenvolvido pelo CBB em 1998, usam obrigatoriamente como veículo, os óleos vegetais, ou coadjuvantes que reduzem a evaporação das neblinas afim de minimizar a evaporação dos produtos aplicados e utilizam os sistemas de atomização rotativa de tela ou de discos para produzir uma neblina com gotas de tamanhos muito próximos entre elas. Os atomizadores têm também a possibilidade de variar o tamanho das gotas das neblinas com facilidade. A Atomização Rotativa é o melhor método para se produzir neblinas com gotas homogêneas e diâmetros controlados e esses são os fatores mais importantes para distribuição de líquidos de uma maneira uniforme nas áreas pulverizadas em qualquer tipo de alvo ou cultura. 1 Diretor Técnico do Centro Brasileiro de Bioaeronáutica. E-mail: bioaeronautica@terra.com.br Página 1
O Conceito BVO O sistema de aplicação aérea em Baixo Volume Oleoso BVO foi desenvolvido pelo CBB, a partir de 1998 nos estados de Mato Grosso e Goiás para enfrentar os desafios das aplicações aéreas no Brasil Central, região com altas temperaturas e extensas áreas a serem tratadas em curtos intervalos de tempo, nos meses de chuvas intensas e continuas. O primeiro grande desafio foi o desenvolvimento de um equipamento eficiente, confiável e barato para atender essas necessidades e a escolha recaiu nos Atomizadores Rotativos de Disco, que produzem uma quantidade muito grande de gotas finas e homogêneas, com quantidades pequenas de líquido pulverizado por hectare. O volume de líquido aplicado por hectare é controlado pela quantidade de mistura injetada no atomizador através de discos com orifícios controlados e o tamanho das gotas varia de acordo com a rotação dos discos. Tecnologias incorporadas pelo BVO : 1. UBV (Ultra Baixo Volume) - Que utiliza inseticidas altamente concentrados formulados em óleos e pulverizados em neblinas de gotas finas (DMV de 70 a 150 um) e em volumes de 0,5 a 5 litros por hectare. Essa tecnologia que já era praticada pelos Ingleses desde 1946 na África foi desenvolvida e difundida mundialmente pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) em parceria com a empresa América Cyanamid a partir de 1962 e denominada LVC, (Low Volume Concentrate). Nos Estados Unidos ela foi desenvolvida para enfrentar o problema de controle do bicudo do algodoeiro que na época devastava os algodoais norte americanos apesar da frota de 1.400 aviões dedicados ao controle desta praga e do excelente programa de monitoramento já praticado naquele país. Com o advento do sistema UBV e dos aviões turbina de alta capacidade de carga e maior velocidade os americanos não controlam apenas, mas já conseguem erradicar o bicudo em grandes extensões cultivadas com algodão no seu país. (1). Essa tecnologia foi introduzida no Brasil pelo autor em 12 de Janeiro de 1965, na Fazenda Água Fria em Guará, SP. 2. CDA (Controlled Droplet Application) ou Aplicação com Gota Controlada - Produzindo gotas homogêneas e controlando o tamanho das gotas da neblina pulverizada, é possível produzir as gotas de maior eficiência biológica para um alvo especifico, praga, doença vegetal ou erva daninha. Na década de 70 os cientistas ingleses desenvolveram o conceito de Gota de Ótima Eficiência Biológica (2) ou Biological Optimum Spray Droplet Size (BOSS) e criaram a técnica de Ultra Baixo Volume - Ultra Baixa Dosagem (UBV-UBD), produzindo neblinas com espectro muito homogêneo e tamanho de gotas controlado com o uso dos Atomizadores Rotativos de Disco (ARD), estudando profundamente as relações entre tamanho de gota, morfologia dos insetos, micrometeorologia em torno das culturas, capacidade de penetração em uma determinada massa, pilosidade das folhas etc. No Página 2
sistema UBV-UBD as quantidades de principio ativo foram reduzidas em alguns casos em até 10 vezes com a mesma eficiência biológica. A partir desta época as aplicações em UBV passaram a ser realizadas com atomizadores rotativos de tela ou de disco devido a maior eficiência desses equipamentos quando comparados com os bicos hidráulicos para esse tipo de aplicação. O Sistema BVO aplica os princípios da tecnologia CDA. 3. EBO - Emulsões com Base Oleosa - A partir da década de 80, uma nova forma de aplicação de inseticidas em UBV se desenvolveu no mundo inteiro e se baseia na utilização de óleos vegetais (ativados ou não com solventes e emulsificantes) como veículo dos inseticidas, fungicidas e herbicidas (3). As misturas de campo são feitas com base em óleos vegetais, emulsificantes, produtos ativos e água. O óleo participa em 10 a 20% do volume total da mistura. Ativados pela adição desses adjuvantes especiais, os óleos vegetais se misturam facilmente com os inseticidas no campo, formando emulsões invertidas quando misturados com água, permitindo as aplicações em Baixos Volumes com gotas finas (abaixo de 150 µm) e homogêneas, com menor evaporação das partículas. Outro veículo usado é o melaço da cana que transmite à calda características não evaporantes aumentando em muito a eficiência das aplicações e o seu efeito residual. O Sistema BVO aplica apenas caldas com formulações oleosas ou com baixo nível de evaporação. A aplicação de defensivos com base nessas três tecnologias foi desenvolvida no Brasil pelo Centro Brasileiro de Bioaeronáutica - CBB desde 1998 e foi denominada Baixo Volume Oleoso - BVO (4). BVO é marca registrada do CBB protegida pelo registro no DEINPI N o 022566. Equipamentos para aplicações em BVO. Aplicações Aéreas Entre os anos de 1998 e 2002 as aplicações em BVO foram feitas exclusivamente por via aérea e se expandiram de maneira explosiva nas culturas de Algodão, Soja e Milho, em particular no controle da ferrugem asiática da soja na safra 2003/2004. O total de aviões agrícolas em operação no Sistema BVO passou de cinco na safra 2001/2002 para quatrocentos na safra 2004/2005 representando 33% da frota nacional considerando-se apenas os aviões equipados com o atomizador produzido pelo CBB. Corroborando a afirmação Vox Populi Vox Dei, o sucesso generalizado das aplicações aéreas em BVO na grande prática, foi confirmado pelas pesquisas realizadas por organizações de peso como a Fundação MT e outras, com trabalhos publicados em congressos nacionais e internacionais (5). Página 3
Aplicações Terrestres Com o sucesso das aplicações aéreas, os agricultores solicitaram ao CBB o desenvolvimento de um equipamento com características semelhantes ao turboaero, para aplicações terrestres. Foi desenvolvido o turbotrator cujo protótipo foi testado em 2003/2004 e sofreu o seu primeiro teste de campo na safra 2004/2005. Os resultados de eficiência biológica dos tratamentos em BVO terrestre, obtidos na prática também foram confirmados por trabalhos técnicos (6) e não podiam ser melhores. Os problemas mecânicos e operacionais identificados na primeira safra foram corrigidos nessa entressafra, dando lugar ao modelo TT-88B, que será comercializado na safra 2005/2006. Resultados práticos do Sistema BVO Em mais de 10 milhões de hectares aplicados os técnicos, operadores e agricultores reconhecem no Sistema BVO os atributos seguintes: Maior penetração: Neblinas com DMV adequado á lavoura e tipo de tratamento. Maior eficiência Biológica: Neblinas homogêneas com DMV controlado. (BOSS). Menor evaporação: Pela formulação oleosa. Menor lavagem: Pela formulação oleosa. Maior efeito residual: Pela maior eficiência biológica e formulação oleosa. Página 4
Menos aplicações por safra: Economia de defensivos e aplicações. Maior rendimento operacional: Aéreo 60 a 100% de aumento da produtividade. Terrestre 40 a 60% de aumento da produtividade. Menor custo por hectare: Redução nos custos de aplicação e dos defensivos. Menor poluição ambiental: Pela redução do número de aplicações por safra. Os poucos casos de insucesso nas aplicações em BVO foram cuidadosamente analisados e em todos eles houve falha operacional, com aplicações realizadas em condições meteorológicas adversas principalmente com ventos fortes e vôos excessivamente baixos, temperaturas superiores a 34 o Centígrados ou condições atmosféricas de estabilidade absoluta com inversão térmica. Também são causa de problemas as misturas mal formuladas com óleos de má qualidade como também as misturas com ph muito fora do requerido para os tipos de produtos químicos que estão sendo aplicados. O tratamento fitossanitário do algodoeiro A cultura do algodoeiro é a que mais utiliza defensivos e aplicações em todo o mundo e por isso é alvo das atenções dos pesquisadores de todas as áreas do saber relacionadas com essa cultura. Os pesquisadores ingleses no apoio á sua indústria química de defensivos e de máquinas de aplicação geraram nos últimos 50 anos, através de milhares de trabalhos científicos, conhecimentos técnicos de alto nível, relacionados com a cultura do algodão nos paises assistidos pela tecnologia e produtos ingleses principalmente Egito, Sudão, Índia e Paquistão. O CBB se apóia nesses trabalhos para o desenvolvimento do Sistema BVO na cultura do algodoeiro já que o estágio PPN (Planta Produto e Neblina) já era praticado pelos pesquisadores ingleses e franceses desde a década de 1950 de forma que o tratamento fitossanitário do algodoeiro e das outras culturas comerciais já consideravam desde aquela época a influência das neblinas para bom resultado dos tratamentos. Os cientistas Canadenses, Norte Americanos e Australianos, também deram valiosas contribuições para a consolidação desse conceito entre as décadas de 1970 e 1990. Na cultura do algodoeiro, após a germinação, vários tipos de tratamento são necessários: Controle de plantas daninhas em pós-emergência, Controle de pragas, Controle de doenças e Desfolhamento. As aplicações de controladores de crescimento são feitas via de regra juntamente com as aplicações para o controle de pragas. Considerando-se que a eficiência biológica depende do diâmetro das gotas aplicadas, deve-se produzir as neblinas adequadas para os diferentes tipos de tratamentos. A seguinte orientação pode ser aceita como regra geral para se escolher o tamanho das gotas (DMV = Diâmetro Mediano Volumétrico) para um determinado tipo de tratamento. Para aplicação de Inseticidas de contato o DMV varia de 80 a 100 µm, para Herbicidas em pós e Fungicidas o DMV varia de 100 a 150 µm e para herbicidas ou desfolhantes o DMV varia de 150 a 200 µm. Página 5
Volumes de aplicação A experiência adquirida em vários anos de operação e atualmente com mais de 400 aeronaves aplicando no Sistema BVO, indicou os seguintes volumes de aplicação para as culturas de algodão e soja: Um a Dois litros por hectare (BVO-1 e BVO-2) - Para aplicação de inseticidas puros formulados em UBV ou concentrados emulsionáveis formulados em BVO sendo a veiculação feita com óleo de soja, puro ou aditivado. Esse sistema é ideal para o controle de lagartas e de percevejos no início do ciclo das lavouras e para o controle do bicudo e do curuquerê do algodoeiro. Três a Quatro litros por hectare (BVO -3 e BVO-4) - Para aplicação de inseticidas formulados como concentrados emulsionáveis, misturados ou não, sendo a veiculação feita com óleo de soja aditivado. A escolha do sistema BVO-3 ou BVO-4 vai depender do tipo de praga, da área foliar da cultura e da necessidade de penetração da neblina. Muito eficiente nas aplicações para o controle dos percevejos da soja e nos estágios iniciais do algodão. O BVO-4 se mostrou altamente eficiente na aplicação de herbicidas em pós-emergência nas culturas da soja e do algodão. Cinco a Seis litros por hectare (BVO -5 e BVO -6) - Para aplicações onde há necessidade de grande quantidade de neblina devido à alta densidade foliar com necessidade de penetração, e onde for recomendada a mistura de vários inseticidas sem incluir pós molháveis. A veiculação nesse caso será feita com óleo de soja aditivado ou melaço, até um litro por hectare (1 litro/ha). Fungicidas sistêmicos e herbicidas em pós-emergência são aplicados com eficiência neste sistema. Oito a Dez litros por hectare (BVO-8 e BVO-10) - Para pulverizações onde há necessidade de aplicar inseticidas formulados como pós molháveis, nas quais a mistura tem pouca fluidez necessitando a complementação com água até 8 a 10 litros por hectare de volume total. As aplicações de fungicidas de contato e as ultimas aplicações na lavoura de algodão e soja são feitas nesses volumes. A maior garantia da eficiência do Sistema BVO no controle das pragas e doenças do algodoeiro é o contínuo e minucioso monitoramento das lavouras feito pelas empresas de consultoria do Brasil Central. Não fosse o BVO mais eficiente e econômico que o sistema convencional, já estaria comprometido pela enorme pressão a que foi submetido nos primeiros anos de sua introdução. Página 6
Referências bibliográficas. 1. 2002, Oklahoma Boll Weevil Erradication Organization http://www.obweo.org/ 2. 1975, Himel.C.M e Solang UK. The Biological Optimum Spray Droplet Size. Anais do V Congresso Internacional de Aviação Agrícola Warwickshire, England. 234-241. 3. 1984, Proceedings Ag-Chem uses of soybean oil American Soybean Association Jan. 1984, 63 pp. 4. 2005, BVO Baixo Volume Oleoso, Manual de Operações, Centro Brasileiro de Bioaeronáutica, 29 pp. 5. 2004, Camargo T.V. e outros. Aplicações Aéreas Visando o Controle da Ferrugem da Soja. Anais do III Simpósio Internacional de Tecnologia de Aplicação de Agrotóxicos, Botucatu Outubro de 2004. 6. 2004, Camargo T.V. e outros. Controle da Ferrugem da Soja Utilizando Aplicações Tratorizadas em Volume Usual e em Baixo Volume Oleoso. Anais do III Simpósio Internacional de Tecnologia de Aplicação de Agrotóxicos, Botucatu Outubro de 2004. Página 7