NOTA TÉCNICA 05/2011



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Transcrição:

NOTA TÉCNICA 05/2011 DENGUE SITUAÇÃO ATUAL, DESAFIOS E ESTRATÉGIAS PARA ENFRENTAMENTO Brasília, 13 de março de 2011.

DENGUE SITUAÇÃO ATUAL, DESAFIOS E ESTRATÉGIAS PARA ENFRENTAMENTO 1. Situação atual Segundo dados preliminares da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde em 2011 foram notificados até a 8ª semana epidemiológica 134.566 casos de dengue no país (Tabela 1). Neste período, aproximadamente 63% (85.004) dos casos do país concentraram-se em 7 estados: Acre (16.015; 12%), São Paulo (13.640; 10%), Rio de Janeiro (13.091; 10%), Amazonas (11.892; 9%), Minas Gerais (10.538; 8%); Paraná (10.327; 8%) e Espírito Santo (9.501; 7%). Apesar do número total de casos notificados no país até a 8ª semana epidemiológica em 2011 tenha diminuído em 48% em relação a 2010, podemos observar na tabela 1 que em 16 estados houve um aumento deste número. (1) A situação epidemiológica da dengue no Brasil de 1986 a 2010 está demonstrada na figura 1, onde se observa que após significativo aumento do número de casos em 2002, ocorre uma diminuição do número de casos até 2004, que voltam a aumentar gradativamente, chegando a mais de 1.200.000 casos notificados em 2010. Na mesma figura se observa na última década um aumento progressivo no número de internações por dengue ou febre hemorrágica da dengue - FHD (chegando a mais de 80.000 internações em 2010), o que indica um aumento do número de casos mais graves que demandaram internação hospitalar. (2) Dados de 2011 referentes aos estados do AC, RR, PA, RN, PB, PE, AL, BA, MG, SP, SC e GO informados somente até a 7ª semana epidemiológica. 1

Tabela 1. Comparativo de casos notificados e incidência de dengue entre as SE 01 a 08* de 2010 e 2011, por Região e Unidade Federada. UF Semanas 1 a 8 INCIDÊNCIA** 2010 2011 % Variação 2011 Norte 32.602 39.834 22 259,3 RO 14.689 1.601-89 106,5 AC 11.647 16.015 38 2317,1 AM 846 11.892 1306 350,4 RR 505 447-11 106,1 PA 1.585 5.957 276 80,2 AP 520 1.029 98 164,2 TO 2.810 2.893 3 223,9 Nordeste 13.478 21.994 63 41,0 MA 276 1.832 564 28,8 PI 783 1.588 103 50,5 CE 2.171 5.887 171 68,9 RN 223 1.760 689 56,1 PB 332 1.422 328 37,7 PE 1.583 2.326 47 26,4 AL 2.085 767-63 24,3 SE 26 475 1727 23,5 BA 5.999 5.937-1 40,6 Sudeste 94.560 46.770-51 57,8 MG 41.932 10.538-75 52,6 ES 2.008 9.501 373 272,5 RJ 3.317 13.091 295 81,8 SP 47.303 13.640-71 33,0 Sul 5.086 10.712 111 38,6 PR 4.306 10.327 140 96,6 SC*** 83 156 88 2,5 RS 697 229-67 2,1 Centro Oeste 102.659 15.256-85 109,8 MS 27.949 4.321-85 183,1 MT 22.958 1.877-92 62,5 GO 48.404 8.339-83 140,7 DF 3.348 719-79 27,6 Total 248.385 134.566-46 70,3 *Dados preliminares; **Incidência por 100.000 habitantes; ***Casos importados; Fonte: Ministério da Saúde / Secretaria de Vigilância em Saúde - 2010 Sinan Net; casos confirmados (atualizado em 15/01/11); 2011 Sinan Online / Planilha semanal encaminhada pelas secretarias estaduais de saúde (atualizada 03/03/11). 2

Figura 1: Casos notificados e internações por dengue/fhd Brasil, 1986-2010 1400000 1200000 1000000 800000 Casos notificados Internações 90000 80000 70000 60000 50000 600000 400000 200000 40000 30000 20000 10000 0 86 87 88 89 90 91 92 93 94 95 96 97 98 99 00 0 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 0 Ondas epidêmicas em áreas localizadas Endêmico/Epidêmico Circulação do vírus em todas regiões Casos Graves em crianças Casos Graves em idosos Fonte: Ministério da Saúde / Secretaria de Vigilância em Saúde Em 2011, até a 8ª semana epidemiológica (dados preliminares) foram notificados à Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) do Ministério da Saúde e encontram-se em investigação, 1035 casos graves de dengue no Brasil. Neste mesmo período ocorreram 140 óbitos suspeitos de dengue. (1) Na tabela 2 podemos observar a distribuição dos casos graves notificados e óbitos suspeitos segundo região e unidades da federação. (1) 3

Tabela 2. Casos graves e óbitos suspeitos de dengue entre as SE 01 a 08 de 2011, por Região e Unidade Federada. País/Região/UF Casos Graves Óbitos % Casos Graves Região/País UF/Região Brasil 1035 140 100 Norte 390 43 37,68 Rondônia 0 0 0,00 Acre 16 3 4,10 Amazonas 180 22 46,15 Roraima 2 1 0,51 Pará 163 15 41,79 Amapá 0 0 0,00 Tocantins 29 2 7,44 Nordeste 272 53 26,28 Maranhão 6 1 2,21 Piauí 3 1 1,10 Ceará 62 29 22,79 Rio Grande do Norte 73 3 26,84 Paraíba 7 0 2,57 Pernambuco 77 11 28,31 Alagoas 11 5 4,04 Sergipe 1 0 0,37 Bahia 32 3 11,76 Sudeste 308 33 29,76 Minas Gerais 11 2 3,57 Espirito Santo 39 8 12,66 Rio de Janeiro 238 8 77,27 São Paulo 20 15 6,49 Sul 20 1 1,93 Paraná 20 1 100,00 Santa Catarina 0 0 0,00 Rio Grande do Sul 0 0 0,00 C. Oeste 45 10 4,35 Mato Grosso do Sul 1 1 2,22 Mato Grosso 34 3 75,56 Goiás 10 6 22,22 Distrito Federal 0 0 0,00 Fonte: 2011 Sinan Online/Planilha semanal Secretarias Estaduais de Saúde (atualizada 03/03/11). Cabe destacar a importância da investigação dos óbitos por dengue, que se constituem em eventos sentinela, que permitem avaliar a organização da assistência aos pacientes com dengue. Conforme podemos observar na tabela 3, referente à investigação de 92 óbitos por dengue ocorridos em diversos estados do país, somente 13% destes pacientes foram atendidos em unidades de atenção primária. 51% tiveram a suspeita clínica de dengue no primeiro atendimento, porém 4

somente 19% receberam classificação de risco, sendo que 54% apresentavam comorbidades e 87% sinais de alarme. Esta situação demonstra que a organização da assistência aos pacientes com dengue ainda é um desafio importante a cumprir, bem como a implementação urgente das Diretrizes Nacionais para Prevenção e Controle da Dengue (neste caso através do componente assistência) conforme trataremos mais adiante. (2) Tabela 3. Resultados de investigação de 92 óbitos por dengue em diversas unidades federadas. Brasil, 2010 Variável Número (intervalo ou %) Idade média (anos) 48 (0,4 89) Procuraram duas ou mais unidades diferentes para o atendimento 61 (65%) Atendidos em Unidade Primária 13 (14%) Suspeita clínica de dengue no 1º atendimento 48 (51%) Diagnóstico laboratorial específico 73 (78%) Classificação de risco nas Unidades de atendimento 18 (19%) Casos de FHD / SCD 54 (58%) Casos de DCC 40 (42%) Comorbidades 51 (54%) Hipertensão arterial 31 (33%) Diabetes melittus 19 (20%) Sinais de alarme 81 (87%) Vômitos persistentes 53 (56%) Dor abdominal 47 (50%) Fonte: Ministério da Saúde / Secretaria de Vigilância em Saúde 2. Os desafios para o controle da dengue no Brasil Segundo TAUIL (1992) (3), com base nos conhecimentos científicos e recursos tecnológicos atualmente disponíveis em relação à dengue, os objetivos do controle desta doença devem estar bem claros. O autor considera possível reduzir os atuais coeficientes de letalidade para valores próximos a 1% com a organização do sistema de assistência médica aos casos suspeitos, e diminuir as dimensões das epidemias com o aprimoramento do sistema de vigilância epidemiológica e conseqüente 5

detecção precoce dos surtos da doença com uma resposta mais efetiva no combate ao vetor infectado, quando este ainda está restrito a algumas áreas das cidades. Considera, porém difícil, mesmo com baixos níveis de infestação, evitar que casos de dengue ocorram, pois evitar a entrada do vírus, por meio de portadores, numa área infestada é praticamente impossível. Segundo o autor, realisticamente, a eliminação desse vetor das grandes e médias cidades parece inexeqüível nos dias de hoje, considerando toda a complexidade da vida urbana. (3) É preciso ter clareza, especialmente nas questões relativas ao controle da infestação pelo Aedes aegypti, que o setor saúde atuando de forma isolada nunca atingirá este objetivo. É necessário que esse problema seja enfrentado por todas as áreas de governo, como uma política de Estado e com o envolvimento consciente da população. (4) Nenhuma ação de controle terá êxito sem a efetiva participação de cada cidadão, uma vez que não é viável para o poder público estar presente com a freqüência necessária em todos os imóveis. Torna-se necessário, portanto, não só informar, mas buscar mudanças de atitude diante do problema. (4) O SUS tem como principais responsabilidades no enfrentamento da dengue a coordenação das ações de controle do vetor, a vigilância epidemiológica e a adequada assistência às pessoas afetadas pela doença. Conforme já foi destacado, o controle do vetor dependerá também de uma ampla participação das diversas políticas públicas envolvidas e da sociedade. Já a vigilância epidemiológica e a adequada assistência são obrigações inequívocas do sistema de saúde e os resultados dependerão principalmente de uma boa organização da rede de atenção à saúde. (4) Neste sentido foram publicadas em 2009 as Diretrizes Nacionais para Prevenção e Controle de Epidemias de Dengue, a partir de amplo e participativo processo de construção. 3. As Diretrizes Nacionais para a Prevenção e Controle de Epidemias de Dengue As Diretrizes Nacionais para a Prevenção e Controle de Epidemias de Dengue visam auxiliar estados e municípios na organização de suas atividades de prevenção e controle, em períodos de baixa transmissão ou em situações epidêmicas, 6

contribuindo, desta forma, para evitar a ocorrência de óbitos e para reduzir o impacto das epidemias de dengue. (5) Tem ainda como objetivos específicos: Organizar as ações de prevenção e controle da dengue. Classificar riscos nos serviços de saúde. Promover assistência adequada ao paciente, garantindo acesso, diagnóstico e manejo clínico adequado por profissionais de saúde habilitados. Aprimorar a vigilância epidemiológica, garantindo notificação, investigação dos casos e monitoramento dos sorotipos virais, sempre de forma oportuna. Padronizar os insumos estratégicos necessários. Definir estratégias para redução da força de transmissão, por meio do controle do vetor e de seus criadouros. Apoiar a capacitação dos profissionais de saúde e dos gestores. Sistematizar as atividades de mobilização e comunicação. Aprimorar a análise de situação epidemiológica e de organização da rede de atenção para orientar a tomada de decisão. Fortalecer a articulação das diferentes áreas e serviços, visando à integralidade das ações para enfrentamento da dengue. Reforçar ações de articulação intersetorial em todas as esferas de gestão. (5) Estas diretrizes devem orientar a organização e o desenvolvimento da rotina das atividades de prevenção e controle da dengue, com atenção especial às situações epidêmicas, sendo compostas por 6 componentes: assistência; vigilância epidemiológica; controle vetorial; comunicação e mobilização; gestão do plano e financiamento. (5) Têm como principal avanço a proposta de organização da assistência com base no estadiamento e classificação de risco, vindo ao encontro das propostas do CONASS referente à organização das redes de atenção à saúde, com base em modelo de atenção que já vem se mostrando exitoso em alguns estados brasileiros. (4) As diretrizes reforçam a necessidade do envolvimento intersetorial para o controle do vetor e enfatizam as diversas ações já preconizadas pelo Programa Nacional de Controle da Dengue, definindo de forma bastante clara as atribuições das 3 esferas de governo. Trazem assim, avanços importantes na organização dos serviços de atenção e na sistematização das ações de controle do vetor, educação e 7

mobilização social, fundamentais para o enfrentamento deste grave problema de saúde pública, cuja prioridade está claramente definida pelos gestores do SUS no Pacto pela Saúde. (4) 4. Controle da dengue e saneamento ambiental. Conforme destacado anteriormente, a implementação de outras políticas públicas além da área específica da saúde são fundamentais para o controle da infestação pelo Aedes aegypti. Dentro deste contexto cabe destacar a questão do saneamento ambiental e, em especial, as ações de saneamento básico, através do abastecimento regular de água. Segundo a Organização Mundial de Saúde, entende-se por saneamento o controle de todos os fatores do meio físico do homem, que exercem ou podem exercer efeitos deletérios sobre seu estado de bem estar físico, mental ou social. (6) Para HELLER (1998), segundo este conceito, fica clara a articulação do saneamento com o enfoque ambiental. O autor propõe para efeito de padronização, considerar como integrantes do saneamento as ações de: (6) abastecimento de água, caracterizado como o fornecimento às populações de água em quantidade suficiente e com qualidade que a enquadre nos padrões de potabilidade; esgotamento sanitário, compreendendo a coleta dos esgotos gerados pelas populações e sua disposição de forma compatível com a capacidade do meio ambiente em assimilá-los; limpeza pública, incluindo todas as fases de manejo dos resíduos sólidos domésticos, até sua disposição final, compatível com as potencialidades ambientais; drenagem pluvial, significando a condução das águas pluviais, de forma a minimizar seus efeitos deletérios sazonais sobre as populações e as propriedades; controle de vetores de doenças transmissíveis, especialmente artrópodes e roedores. (6) Fica claro, portanto que segundo este conceito o controle de vetores como o Aedes aegypti é parte integrante das ações de saneamento. Ao mesmo tempo, sabemos 8

que todas as demais ações de saneamento aqui descritas são essenciais para o combate ao vetor e conseqüentemente para o controle da transmissão da dengue. Esta situação fica evidente quando verificamos os criadouros predominantes nas capitais brasileiras, através do Levantamento Rápido de Índices de Infestação pelo Aedes aegypti - LIRAa de outubro de 2010 (tabela 4). 72% dos criadouros nas capitais da Região Nordeste e 48,8% na Região Norte estavam relacionados à questão da regularidade do abastecimento de água. Apesar de não ser a principal, esta deficiência também era responsável por percentual significativo dos criadouros nas capitais da Região Sudeste (22,3%) e Centro-Oeste (26,7%). Já a questão da destinação inadequada dos resíduos sólidos foi a principal responsável pelos criadouros da Região Centro-Oeste (38,7%), apresentando também papel importante nas regiões Norte (28,6%), Sudeste (25,9%) e Sul (25%). Tabela 4: Criadouros predominantes nas capitais (LIRAa 2010) Capitais/Região Abastecimento de Depósitos domiciliares água Lixo (vasos e pratos de (caixas d água, (resíduos plantas, ralos, lajes, tambores, tonéis, sólidos) piscinas, etc.) poços, etc.) Norte 48,8% 22,6% 28,6% Nordeste 72,0% 19,3% 8,7% Sudeste 22,3% 51,8% 25,9% Centro-Oeste 26,7% 34,6% 38,7% Sul 0,0% 75,0% 25,0% Fonte: Ministério da Saúde / Secretaria de Vigilância em Saúde Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico realizada pelo IBGE em 2008, 78,6% dos domicílios tinham acesso à rede de água, existindo ainda, portanto, um déficit que equivale a 40 milhões de pessoas no Brasil sem disponibilidade de água encanada em seu domicílio. (7) Cabe lembrar que a disponibilidade da rede de água é importante, mas não suficiente, sendo fundamental para o controle da transmissão da dengue a regularidade do abastecimento, para evitar a necessidade de uso de caixas, tambores, tonéis e 9

outros recipientes para armazenamento de água, que conforme já foi citado se transformam em criadouros do Aedes aegypti. Para OLIVEIRA, SCAZUFCA e MARCATO (2011) (7) seriam necessários 255 bilhões de reais para a universalização do saneamento básico (água e esgoto) no Brasil se mantidos os atuais padrões de produtividade e patamar de investimentos, o que significaria uma perspectiva de universalização do acesso à rede de água somente em 2039. No melhor cenário avaliado pelos autores (duplicação da média recente de investimentos referente aos últimos 8 anos e incremento de 30% da produtividade) poderíamos chegar a esta universalização em 2017, com um investimento de R$ (7) 150 bilhões. Este último cenário, acompanhado de maior regularidade no abastecimento, seria promissor para uma maior efetividade no controle da transmissão da dengue no país, especialmente nas regiões Nordeste e Norte. 5. Considerações finais Nas duas últimas décadas a dengue tem se mostrado um dos principais problemas de saúde pública no Brasil. Periodicamente observam-se epidemias em diversas regiões do país acompanhadas de aumento significativo do número de casos graves, hospitalizações e óbitos. Esta situação precisa ser enfrentada de forma eficiente e tempestiva, intervindo-se nas causas da dengue e organizando a assistência adequada aos doentes. É equivocado atribuir somente ao setor saúde a responsabilidade pelo enfrentamento do controle da transmissão da dengue, uma vez que a atuação isolada desta área é incapaz de superar esse desafio. A solução de problemas como a ocupação desordenada dos espaços urbanos, a deficiência de saneamento básico (notadamente do acesso regular à água), a inadequação do acondicionamento, coleta e destino do lixo, a mudança de atitude da população e a manutenção das ações de controle dos vetores precisam ser enfrentadas com a efetivação de políticas públicas integradas e contínuas. Obs. Para o acesso universal à rede de esgoto, dentro do 1º cenário (manutenção dos níveis médios atuais de produtividade e investimentos) o ano previsto para universalização seria 2060 e no cenário mais favorável, 2024. 10

Neste sentido é fundamental a implementação e efetivação das Diretrizes Nacionais de Controle da Dengue, bem como ampliar e regularizar o financiamento das ações de vigilância em saúde e ampliar o investimento e melhorar a produtividade nas ações de saneamento. O controle da dengue exige, portanto, uma ação responsável, forte e coordenada de todas as áreas governamentais que tenham correlações com os determinantes da mesma, numa ação conjunta das três esferas de governo. 6. Referências bibliográficas: (1) BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Dengue Análise resumida de situação e tendências. Março de 2011 (mimeo) (2) COELHO, G. Apresentação realizada na Reunião de Mobilização contra a Dengue. Maceió, 19 de fevereiro de 2011. (3) TAUIL, P. Aspectos críticos do controle do dengue no Brasil. Cadernos de Saúde Pública; 2002; 18(3):867-871. (4) CONSELHO NACIONAL DE SECRETÁRIOS DE SAÚDE - CONASS. Coleção Progestores. Para entender a gestão do SUS. Livro 5 Vigilância em Saúde, capítulo 4. Brasília: CONASS, 2011(no prelo). (5) BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Diretrizes Nacionais para a Prevenção e Controle de Epidemias de Dengue. Série A. Normas e Manuais Técnicos. Brasília : Ministério da Saúde, 2009. 160 p. (6) HELLER, L. Relação entre saúde e saneamento na perspectiva do desenvolvimento. Ciência & Saúde Coletiva; 1998; 3(2):73-84. (7) OLIVEIRA, G.; SCAZUFCA, P.S.; MARCATO. F.S. Cenários e condições para a universalização do saneamento no Brasil Parte 1. Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas FIPE. Temas de Economia Aplicada, janeiro de 2011. p 18-24. disponível em < http://www.fipe.org.br/publicacoes/downloads/bif/2011/1_18-24- gesn.pdf > acesso em 12/03/2011. 11