Alexandra Marques - Artur Azevedo - Paula Pereira Abril 2010 A DOENÇA QUE ATRAVESSA SÉCULOS Segundo especialistas, a falta de conhecimento é o fator mais agravante que a própria tuberculose É difícil imaginar que nos dias de hoje, em meio a tantos prédios, carros, túneis e o caos da vida moderna, um casarão do século passado exista, ou melhor, resista, na Rua da Consolação. Mas ele está lá: imponente, cercado de grandes árvores, com largas escadas, corredores sem fim e uma atmosfera de paz inigualável. O lado triste dessa paisagem tranquila é que doentes que sofrem de tuberculose passam por ali, todos os dias. O Instituto Clemente Ferreira é uma organização não-governamental que desenvolve, desde 1956, pesquisas e tratamentos contra a então chamada peste branca. A enfermeira Augusta Antelmo que trabalha há 20 anos no Instituto Clemente Ferreira ressaltou que cerca de 40 anos atrás, os pacientes tinham que ser internados nos hospitais e sanatórios sem os cuidados que a tuberculose exige. 11
POLÍTICAS PÚBLICAS Denise Rodrigues, médica e professora da UNIFESP na área de Infectologia, defende que a única arma contra a tuberculose é o tratamento Paula Pereira Um terço da população do mundo, e isso significa dois bilhões de pessoas, está infectado pelo bacilo da tuberculose, mas não desenvolve a doença de fato A médica e professora da UNIFESP na área de Infectologia, Denise Rodrigues, diz que a tuberculose está entre nós, não é uma doença antiga e tratase de um problema mundial. Pra você ter uma idéia, um terço da população do mundo, e isso significa dois bilhões de pessoas, está infectado pelo bacilo da tuberculose, mas não desenvolve a doença de fato. A vacina que tomamos quando criança (BCG) é obrigatória e muito importante porque nos protege de ter a forma meninge da tuberculose e de desenvolver a doença em sua forma mais grave, mas ela não nos protege na fase adulta, pois vai perdendo sua eficácia com o passar do tempo. Desnutrição, genética, associação com drogas e doenças imunodepressoras, como a AIDS, são fatores que colaboram para a contração da doença. Mas existe uma parcela muito grande 2 de pessoas que não tem esses fatores e, mesmo assim, desenvolve a tuberculose. Isso tem a ver com a resposta imunológica de cada um. Aqui no Clemente Ferreira, nós desenvolvemos trabalhos na área de imunologia da tuberculose. Então, basicamente o que a gente tenta é ver se existe algum fator que faz com que as pessoas sejam mais suscetíveis ou resistentes à infecção pela tuberculose, disse a médica. Em São Paulo, capital, a Secretaria da Saúde trabalha as informações e desenvolve os projetos relacionados à tuberculose através do Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE) Prof. Alexandre Vranjac, no Hospital Emílio Ribas. No dia 24 de março, Dia Nacional de Combate á Tuberculose, o CVE reuniu médicos, enfermeiros e profissionais de outras áreas para apresentar os resultados da Campanha de Busca Ativa- uma tentativa do governo do estado em incentivar as pessoas que estão com tosse há mais de duas semanas, a procurarem um serviço de saúde para realizarem o exame de escarro (que identifica a presença do bacilo de Koch). Foram realizadas palestras, dando ênfase aos resultados obtidos entre as populações carcerárias e portadoras do vírus HIV. Foi também no Hospital Emílio Ribas onde se começou o tratamento com a quarta droga de combate à TB, hoje utilizada em todo o estado. A grande maioria dos pacientes que têm o HIV fatalmente vão ter a tuberculose, comentou Valdir de Souza Pinto, pesquisador científico do CVE Prof. Alexandre Vranjac. Souza coordena uma pesquisa que relaciona a TB aos portadores de HIV e é também o responsável pela divulgação online das informações educativas e publicitárias sobre a TB no estado de São Paulo. Os portadores do vírus HIV são marcados pela baixa resistência imunológica, portanto a tuberculose é uma das doenças que exige maior cuidado do paciente. Quando você descobre a co-infecção com HIV, às vezes o paciente acaba morrendo em decorrência da TB, por mais que no laudo o HIV saia como predominante, descreveu o pesquisador. Quando uma pessoa é diagnosticada com tuberculose, o paciente é recomendado a fazer o teste de Aids para que caso a doença seja confir-
Alê Marques mada, ele tenha acompanhamento mais próximo do quadro evolutivo da doença. O tratamento é igual para pacientes com HIV, só que a gente ainda não consegue é dialogar com os dois programas: o Programa de Aids e o Programa de TB, então o paciente tem que fazer o acompanhamento nessas duas unidades, comentou o pesquisador. Atualmente, Valdir Souza vem desenvolvendo uma pesquisa que vai avaliar o método de tratamento supervisionado dos pacientes TB/ HIV. Através de um questionário respondido pelos pacientes que receberam alta durante o ano de 2009, no hospital Emílio Ribas, ele espera encontrar novas idéias para melhorar este tipo de serviço. A tuberculose é uma doença de evolução crônica e lenta, contraída pelo ar, falando de perto com um portador do bacilo. A tosse contínua, por mais de três semanas, é o principal sintoma e a pessoa com esse quadro tem que ser imediatamente examinada. Mas, em geral, poucas pessoas buscam ajuda médica quando estão somente com tosse, deixando para fazer isso quando já estão numa fase da doença que começa a apresentar outros sintomas, como febre, dor torácica, comprometimento Artistas brasileiros que morreram de tuberculose: Noel Rosa (em 1937) e Manuel Bandeira (em 1968). do pulmão, fraqueza e perda de peso. A doença, que apareceu no século XIX, já tirou a vida de se compra na farmácia. Na verdade, a medicação atualmente é condensada num comprimido só, mas consiste muitos talentos, em quatro drogas diferentes, declarou como Noel Rosa, a médica. que este ano Mitos rondam a doença quando se completaria 100 anos, e Manuel fala dos efeitos colaterais do tratamento da tuberculose. Médicos dizem que Bandeira, teve os remédios não causam mais do que grandes avanços náusea e um leve enjôo e enfermeiras no tratamento. acreditam existir inúmeros motivos que O tratamento é feito durante seis meses, com medicação doada pelo Ministério da Saúde, que não levam ao abandono do tratamento. Isso acontece. E é ainda pior no paciente que já está tomando remédio para outra doença que tenha associação de outras medicações, eles apresentam mais reações adversas do que A grande maioria dos pacientes que têm o HIV fatalmente vão ter a tuberculose NO HOSPITAL EMÍLIO RIBAS- Valdir de Souza Pinto, pesquisador científico, classifica a tuberculose como uma doença oportunista 3
aquele que tem só tuberculose. Mas a maioria dos efeitos são os gastrointestinais, defendeu a médica Denise Rodrigues. Não é o que diz Léia Teles, de 49 anos, que está livre da tuberculose há dois anos, e afirma que a parte mais difícil do tratamento são os efeitos dos medicamentos. O pesadelo que mudou a sua vida começou apenas com uma tosse insistente, sem febre, mais nada. Ainda assim, ela só procurou ajuda médica após apresentar esse sintoma por mais de 2 meses, quando já não conseguia mais parar de tossir. Acho que mudei toda a minha vida, ela se dividiu em antes e depois da TB, eu sofri muito com as reações adversas dos medicamentos, comentou Léia sobre a forma como leva a vida após a doença. Já o pesquisador Valdir de Souza declarou pode ser às vezes uma dor de estômago, náusea, mas isso é tudo facilmente contornado. Além dos efeitos colaterais provocados pela medicação, o doente de tuberculose também enfrenta o preconceito e sofre com a depressão. A psicanalista e coordenadora do Curso de Psicossomática do Instituto Sedes Sapientiae, Sonia Neves, acredita que o acompanhamento psicológico a pessoas que sofrem de doenças graves, como a tuberculose, é essencial. Num primeiro momento, frente ao diagnóstico, o mais comum é um movimento de negação da doença. Depois dos primeiros meses de tratamento, vem o desânimo e a depressão. O maior medo que os doentes têm é o da rejeição. Angela Soares Diniz, assistente social, defende que uma das principais causas do abandono pela doença está no psicológico do próprio paciente que apresenta comportamento conflitante com sua realidade Observamos em muitos pacientes sinais de depressão, desânimo, tristeza, vergonha da doen- 4 O tratamento é feito durante seis meses, com medicação doada pelo Ministério da Saúde, que não se compra na farmácia ça devido ao preconceito, dificuldade de relacionamento familiar, conjugal e entre vizinhos. A principal causa da dificuldade do tratamento são oriundas desse tipo de comportamento da sociedade que resulta no abandono e desprezo do paciente pela doença Nos sentimos ainda piores, quando há ignorância e preconceito complementou ela. Muitas vezes os profissionais da saúde atêm-se apenas a duas verdades: a necessidade de tomar os remédios na obtenção da cura e a importância de seguir o tratamento até o fim para evitar o agravamento da doença. Principais sintomas da tuberculose pulmonar Central - perda de apetite - fadiga Pulmão - dor no peito - tosse intensa com ou sem escarro Pele - suor vespertino - palidez Alê Marques POLÍTICAS PÚBLICAS
Paula Pereira Augusta comenta que uma das grandes idéias desenvolvidas pela Organização Mundial de Saúde é o tratamento supervisionado que consiste na sigla DOTS (tratamento diretamente observado de curta duração), na qual o profissional observa o paciente tomando os medicamentos e verifica se ele está seguindo as recomendações. Mas para isso, o paciente deve ir diariamente à unidade de saúde tomar o medicamento. Além dos serviços de prevenção e tratamento da doença, o governo também fornece Instituto Clemente Ferreira: atende cerca de 600 pessoas no combate à tuberculose um incentivo para o transporte, uma vantagem oferecida Tuberculose Multiresistente (TBMR) pelos órgãos públicos, comenta tamte o teste eliminaram ou não a baca TBMR (tuberculose multiresistente) bém Ângela. Em muitos municípios, o téria. A TBMR acontece quando ela consiste no caso mais grave da doenprograma já está implantado e ofereé resistente a duas ou mais drogas, ça e exige um tempo de tratamento ce incentivos para o fornecimento de complementou Augusta. mais extenso, devido à resistência às transporte e cestas básicas para os paela ressalta também que este tratamedicações no organismo do paciencientes que fazem o tratamento supermento hoje, leva em média 18 meses te. Segundo a enfermeira Augusta Anvisionado da medicação. para ser finalizado, e as grandes cautelmo, o uso do medicamento nesses O conhecimento da doença só se sas desta forma da doença estão na casos são os injetáveis. Exames como a torna efetivo após a notificação de irregularidade e muitas vezes no abancultura do escarro são realizados para que a pessoa está contaminada. Existe dono do tratamento por parte do paobservar se as drogas injetadas durantodo um processo de conscientização ciente, o que resulta na denominada deste paciente através de profissionais resistência adquirida, na qual a bacdas unidades de referências onde são téria já se fortaleceu. Nesse caso espetratados os casos de tuberculose. No cífico, a chance de sobrevivência é de entanto, como afirma a própria ex70%, concluiu Augusta. paciente Léia Acho que deveria ter tive. Se bem informada, a sociedade não veria a tosse como um simples mal estar ou resfriado mal acabado. Nela pode se esconder o único sinal de uma das doenças infecciosas curáveis que mais mata no Brasil. Alê Marques palestras nas escolas e redes de comunicação porque esta foi sem dúvida uma das piores experiências que já MEDICAMENTO: Ainda não é o bastante para a bactéria reistente Augusta Antelmo, enfermeira 5