3ª fase do Modernismo Brasileiro

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1 3ª fase do Modernismo Brasileiro Geração de 45 Profª Neusa

2 Contexto histórico Fim da II Guerra Mundial Início da Era Atômica Crença na paz duradoura (ONU / Declaração dos Direitos do Homem) Fim da ditadura Vargas Partidos Legalizados

3 1) Clarice Lispector Prosa Intimista / Sondagem psicológica / Introspectiva EXISTENCIALISMO SITUAÇÕES COTIDIANAS CONFRONTO / IDENTIFICAÇÃO COM O OUTRO REVELAÇÃO SÚBITA = EPIFANIA RETORNO AO COTIDIANO

4 A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais Começa: Bem, então saiu do salão de beleza pelo elevador do Copacabana Palace Hotel. O chofer não estava lá. Olhou o relógio: eram quatro horas da tarde. E de repente lembrou-se: tinha dito a seu José para vir buscá-la às cinco, não calculando que não faria as unhas dos pés e das mãos, só massagem. Que devia fazer? Tomar um táxi? Mas tinha consigo uma nota de quinhentos cruzeiros e o homem do táxi não teria troco. Trouxera dinheiro porque o marido lhe dissera que nunca se deve andar sem nenhum dinheiro. Ela tinha um nome a preservar: era Carla de Sousa e Santos. Eram importantes o de e o e : marcavam classe e quatrocentos anos de carioca. Vivia nas manadas de mulheres e homens que, sim, que simplesmente podiam. Podiam o quê? Ora, simplesmente podiam. Enquanto isso a cabeça dele pensava: comida, comida, comida boa, dinheiro, dinheiro. A cabeça dela era cheia de festas, festas, festas. Festejando o quê? Festejando a ferida alheia? Uma coisa os unia:

5 ambos tinham uma vocação por dinheiro. O mendigo gastava tudo o que tinha, enquanto o marido de Carla, banqueiro, colecionava dinheiro. O ganha-pão era a Bolsa de Valores, e inflação, e lucro. O ganha-pão do mendigo era a redonda ferida aberta. Viu que não sabia gerir o mundo. Era uma incapaz, com cabelos negros e unhas compridas e vermelhas. Ela era isso: como uma fotografia colorida fora de foco. Fazia todos os dias a lista do que precisava ou queria fazer no dia seguinte era desse modo que se ligara ao tempo vazio. Simplesmente ela não tinha o que fazer. Faziam tudo por ela. Até mesmo os dois filhos pois bem, fora o marido que determinara que teriam dois... (No carro andando) De repente pensou: nem lembrei de perguntar o nome dele.

6 3) Guimarães Rosa Regionalismo = sertão de MG : realidade geográfica, social e política Universalismo = cosmovisão alógica, mítica, mágica + Invenção da linguagem = jogo de palavras, musicalidade, neologismos, sintaxe inusitada Prosa poética

7 A terceira margem do rio (Guimarães Rosa) Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação.. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa. Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a ideia. Nosso pai nada não dizia. Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação.

8 Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte.. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..."

9 Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado.. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão. Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento?. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro o rio. Texto extraído do livro Primeiras Estórias

10 2) João Cabral de Melo e Neto Duas águas - Água construtiva Poesia = Negação da liberdade formal, das ironias e das sátiras de 22 / Poesia mais equilibrada e séria / Geometria das formas - Água participativa Morte e vida severina = preocupação social Auto de natal pernambucano

11 2 Água participante Morte e vida severina

12 O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI O meu nome é Severino, não tenho outro de pia. Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar Severino de Maria como há muitos Severinos com mães chamadas Maria, fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias. Mais isso ainda diz pouco: há muitos na freguesia, por causa de um coronel que se chamou Zacarias e que foi o mais antigo senhor desta sesmaria. Como então dizer quem falo ora a Vossas Senhorias? Vejamos: é o Severino da Maria do Zacarias, lá da serra da Costela, limites da Paraíba. Mas isso ainda diz pouco: se ao menos mais cinco havia com nome de Severino filhos de tantas Marias mulheres de outros tantos,

13 já finados, Zacarias, vivendo na mesma serra magra e ossuda em que eu vivia. Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida: na mesma cabeça grande que a custo é que se equilibra, no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas e iguais também porque o sangue, que usamos tem pouca tinta. E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte de fome um pouco por dia (de fraqueza e de doença é que a morte severina ataca em qualquer idade, e até gente não nascida).

14 ENCONTRA DOIS HOMENS CARREGANDO UM DEFUNTO NUMA REDE, AOS GRITOS DE "Ó IRMÃOS DAS ALMAS! IRMÃOS DAS ALMAS! NÃO FUI EU QUEM MATEI NÃO!" A quem estais carregando, irmãos das almas, embrulhado nessa rede? dizei que eu saiba. A um defunto de nada, irmão das almas, que há muitas horas viaja à sua morada. E sabeis quem era ele, irmãos das almas, sabeis como ele se chama ou se chamava? Severino Lavrador, irmão das almas, Severino Lavrador, mas já não lavra. E foi morrida essa morte, irmãos das almas, essa foi morte morrida ou foi matada? Até que não foi morrida, irmão das almas, esta foi morte matada, numa emboscada.

15 DIRIGE-SE À MULHER NA JANELA QUE DEPOIS, DESCOBRE TRATAR- SE DE QUEM SE SABERÁ Essa vida por aqui Muito bom dia senhora, é coisa familiar que nessa janela está mas diga-me retirante, sabe dizer se é possível sabe benditos rezar? algum trabalho encontrar? sabe cantar excelências, Trabalho aqui nunca falta defuntos encomendar? a quem sabe trabalhar sabe tirar ladainhas, o que fazia o compadre sabe mortos enterrar? na sua terra de lá? Pois fui sempre lavrador, minha vez de perguntar: lavrador de terra má como senhora, comadre, não há espécie de terra pode manter o seu lar? que eu não possa cultivar. Vou explicar rapidamente, logo compreenderá: como aqui a morte é tanta, vivo de a morte ajudar.

16 APROXIMA-SE DO RETIRANTE O MORADOR DE UM DOS MOCAMBOS QUE EXISTEM ENTRE O CAIS E A ÁGUA DO RIO Seu José, mestre carpina, que habita este lamaçal, sabes me dizer se o rio a esta altura dá vau? sabe me dizer se é funda esta água grossa e carnal? Severino, retirante, jamais o cruzei a nado quando a maré está cheia vejo passar muitos barcos, barcaças, alvarengas, muitas de grande calado. Seu José, mestre carpina, para cobrir corpo de homem não é preciso muito água: basta que chega ao abdome, basta que tenha fundura igual à de sua fome. Severino, retirante pois não sei o que lhe conte sempre que cruzo este rio costumo tomar a ponte quanto ao vazio do estômago, se cruza quando se come.

17 Severino, retirante, o meu amigo é bem moço sei que a miséria é mar largo, não é como qualquer poço: mas sei que para cruzá-la vale bem qualquer esforço. Seu José, mestre carpina, que diferença faria se em vez de continuar tomasse a melhor saída: a de saltar, numa noite, fora da ponte e da vida? UMA MULHER, DA PORTA DE ONDE SAIU O HOMEM, ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ Compadre José, compadre, que na relva estais deitado: conversais e não sabeis que vosso filho é chegado? Estais aí conversando em vossa prosa entretida: não sabeis que vosso filho saltou para dentro da vida? Saltou para dento da vida ao dar o primeiro grito e estais aí conversando pois sabeis que ele é nascido.

18 O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE ESTEVE DE FORA, SEM TOMAR PARTE DE NADA Severino, retirante, deixe agora que lhe diga: eu não sei bem a resposta da pergunta que fazia, se não vale mais saltar fora da ponte e da vida nem conheço essa resposta, se quer mesmo que lhe diga é difícil defender, só com palavras, a vida, ainda mais quando ela é esta que vê, severina E não há melhor resposta que o espetáculo da vida: vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, vê-la brotar como há pouco em nova vida explodida mesmo quando é assim pequena a explosão, como a ocorrida como a de há pouco, franzina mesmo quando é a explosão de uma vida severina.

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