Oficina de Poetry Slam
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- Zilda Caldeira Cunha
- 8 Há anos
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1 UFRGS INSTITUTO DE LETRAS TEORIA E PRÁTICA DA LEITURA TURMA A 2017 Jéssica Pozzi, Júlia Lucena, Renata Klipel e Renata Staudt Oficina de Poetry Slam
2 Alunos do ensino médio de todos os níveis. Público-alvo: Objetivos e justificativas: Apresentar aos alunos uma das manifestações poéticas mais contemporâneas de arte urbana, o Poetry Slam, e/ou aprofundar o conhecimento daqueles que já conhecem/produzem o gênero, investigando suas origens, ampliando o repertório de textos de literatura oral, tais como a poesia falada, narrativas orais, letras de canções, entre outros, e propor produções criativas de textos do gênero - de slams - a partir das leituras e das discussões propostas. Entre 15 e 20 alunos. Número de alunos:
3 Número de horas/aula: Oficina com dois encontros de três horas. Recursos necessários: Computador, projetor e caixa de som. Textos impressos.
4 Resultados esperados: Espera-se que ao fim dos encontros os alunos sintam-se mais próximos da literatura a partir do contato consciente com uma de suas manifestações mais populares e de caráter urbano e marginal, o poetry slam, e, também, que sintam-se motivados a produzir e consumir textos deste e de outros gêneros literários, ampliando seu contato com manifestações poéticas que geram questionamento, reflexão e crítica social. Forma de avaliação: Será avaliada a participação ativa nas leituras, discussões e produções de texto.
5 Unidade temática: Vozes poéticas periféricas
6 1 Encontro Apresentação de vídeos e debate buscando chegar a uma definição do que é o Poetry Slam. Pesquisando as relações com as origens da literatura oral e suas manifestações na cultura brasileira: literatura indígena, literatura periférica e influências da literatura africana; Estética do gênero, relações com a canção, temas recorrentes, aspectos da oralidade/dramatização, ritmo, rima, etc.
7 MEL DUARTE Não desiste! Não desiste negra, não desiste! Ainda que tentem lhe calar, Por mais que queiram esconder Corre em tuas veias força yorubá, Axé! Para que possa prosseguir! Eles precisam saber, que a mulher negra quer Casa pra morar Água pra beber, Terra pra se alimentar. Que a mulher negra é Ancestralidade, Djembês e atabaques Que ressoam dos pés. Que a mulher negra, tem suas convicções, Suas imperfeições Como qualquer outra mulher. Vejo que nós, negras meninas Temos olhos de estrelas, Que por vezes se permitem constelar O problema é que desde sempre nos tiraram a nobreza Duvidaram das nossas ciências, E quem antes atendia pelo pronome alteza Hoje, pra sobreviver, lhe sobra o cargo de empregada da casa É preciso lembrar da nossa raiz semente negra de força matriz que brota em riste! Mãos calejadas, corpos marcados sim Mas de quem ainda resiste. E não desiste negra, não desiste! Mantenha sua fé onde lhe couber Seja Espírita, Budista, do Candomblé. É teu desejo de mudança, A magia que trás na tua dança, Que vai lhe manter de pé. É você, mulher negra! Cujo tratamento majestade é digna! Livre, que arma seus crespos contra o sistema, Preta-Rara - Não desiste (Poesia Mel Duarte) "Audácia" Livre para andar na rua sem sofrer violência E que se preciso for, levanta arma, mas antes, luta com poema. E não desiste negra, não desiste! Ainda que tentem lhe oprimir E acredite, eles não vão parar tão cedo. Quanto mais você se omitir, Eles vão continuar a nossa história escrevendo! Quando olhar para as suas irmãs, veja que todas somos o início: Mulheres Negras! Desde os primórdios, desde os princípios África, mãe de todos! Repare nos teus traços, indícios É no teu colo onde tudo principia, Somos as herdeiras da mudança de um novo ciclo! E é por isso que eu digo: Que não desisto! Que não desisto! Que não desisto!"
8 Preta Mulher bonita é que vai à luta! Quem tem opinião própria e não se assusta Quando a milésima pessoa aponta para o seu cabelo e ri dizendo que Ele está em pé E a ignorância dessa coitada não a permite ver... Em pé, armado, Pra mim é imponência Porque cabelo de negro não é só resistente É resistência. (2016, p.11). Se cair a gente levanta Mulher sim, Negra sou, Punhos serrados até o fim Meu tempo é agora. (2016, p. 23).
9 Atividade de reflexão linguística: 1) Em Não desiste!, qual a origem das palavras Djembês e atabaques? Qual a relevância delas para o poema? 2) No poema Preta, Mel Duarte escreve: Porque cabelo de negro não é só resistente. É resistência. Qual a diferença de significado entre as palavras destacadas? 3) O que você entendeu da frase mulher bonita é que vai à luta. Qual a diferença da mulher da Mel Duarte para a mulher considerada como padrão?
10 CAROLINA MARIA DE JESUS Atividade: leitura de trechos de Quarto de Despejo Os trechos foram selecionados de acordo com diferentes assuntos tratados que seriam pertinentes para o andamento da oficina. Entre os diferentes assuntos tratados aqui, sugerimos os seguintes temas vistos sob a ótica da escritora: Cidade e favela; Fome: angústia, dor, agonia; Sociedade e Política; Atitude de escrever; Sonhos em meio à realidade dura. Cada grupo receberá trechos diferentes. Em seguida, lerão os textos e debaterão entre si para que enfim cada grupo apresente suas conclusões aos demais colegas.
11 CIDADE E FAVELA Os trechos que seguem foram escolhidos para mostrar a segregação socioespacial de São Paulo. Carolina faz analogias que revelam a periferia como parte inexistente da cidade e o pobre como excluído. Nos trechos podemos ver que a exclusão da favela era (e é) tão grande que a palavra cidade é o oposto da palavra favela, sendo ela um grande quarto de despejo. 13 de Maio de 1958: O Palácio é a sala de visita. A Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. E a favela é o quintal onde jogam os lixos (DE JESUS, 1995, p.28) 19 de Maio de 1958: Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo. (Ibidem, p.33)
12 FOME: ANGÚSTIA, DOR, AGONIA A pobreza vivida na favela assombra os moradores. Esse assunto foi selecionado para reforçar a ideia de que a pobreza pode destruir um ser humano. A fome causa sérias complicações não só físicas, mas também emocionais levando ao crime ou ao suicídio. 20 de Maio de 1958: Como é horrível ver um filho comer e perguntar: Tem mais? Esta palavra tem mais fica oscilando dentro do cérebro de uma mãe que olha as panela e não tem mais. (Ibidem, p. 34) 15 de Junho de 1958: Pobre mulher! Quem sabe se de há muito ela vem pensando em eliminar-se, porque as mães têm muito dó dos filhos. Mas é uma vergonha para uma nação. Uma pessoa matar-se porque passa fome. (Ibidem, p. 56)
13 SOCIEDADE POLÍTICA Carolina retrata a política da época, mostrando o quão precários eram (e ainda são) os investimentos na favela. 20 de Maio de 1958 Quando um político diz nos seus discursos que está ao lado do povo, que visa incluir-se na política para melhorar as nossas condições de vida pedindo o nosso voto prometendo congelar os preços, já está ciente que abordando este grave problema ele vence nas urnas. Depois divorcia-se do povo. Olho o povo com os olhos semicerrados. Com um orgulho que fere a nossa sensibilidade (Ibidem, p. 34) 22 de Maio de 1958 Foi lá que [no Serviço Social] que eu vi as lágrimas deslizar sobre os rostos dos pobres. (...) Como é pungente ver os dramas que ali se desenrola. A ironia com que são tratados os pobres. (...) A única coisa que querem saber são os nomes e os endereços dos pobres. (Ibidem, p. 37)
14 SONHOS EM MEIO À REALIDADE Em meio a pobreza, Carolina ainda canaliza as esperanças e se apega em alguns sonhos. 21 de Maio de 1958: Passei uma noite horrível. Sonhei que eu residia numa casa resilível, tinha banheiro, cozinha, copa e até quarto de criada. Eu ia festejar o aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu ia comprar-lhe umas panelinhas que há muito ela vive pedindo. Porque eu estava em condições de comprar. Sentei na mesa para comer. A toalha era alva ao lírio. Eu comia bife, pão com manteiga, batata frita e salada. Quando fui pegar outro bife despertei. Que realidade amarga! Eu não residia na cidade. Estava na favela. Na lama, as margens do Tietê. E com 9 cruzeiros apenas. Não tenho açúcar porque ontem eu saí e os meninos comeram o pouco que eu tinha. (Ibidem, p.35) 23 de Maio de 1958: Fiz a comida. Achei bonito a gordura fringindo na panela. Que espetáculo deslumbrante! As crianças sorrindo vendo a comida ferver nas panelas. Ainda mais quando é arroz e feijão, é um dia de festa para eles. (Ibidem, p.38)
15 Atividade de reflexão linguística: 1) Qual o contexto histórico em que ocorrem os fatos descritos por Carolina Maria de Jesus? Quais as semelhanças e diferenças com os dias de hoje? 2) Os trechos 13 de maio e 18 de maio comparam e diferem a cidade e a favela. Como isso é feito no texto? Quais palavras mostram a exclusão da favela? 3) A fome percorre o diário todo, como se esta fosse uma personagem. Nos trechos lidos, como ela aparece? 4) O título da obra parece ser mais do que uma síntese da favela. Que sentido(s) você consegue perceber? 5) Nos trechos lidos, quais palavras e/ou expressões contrariam a ortografia oficial e quais trechos apresentam marcas de oralidade? Como seriam escritos na norma culta?
16 Totonha - Marcelino Freire Capim sabe ler? Escrever? Já viu cachorro letrado, científico? Já viu juízo de valor? Em quê? Não quero aprender, dispenso. Deixa pra gente que é moço. Gente que tem ainda vontade de doutorar. De falar bonito. De salvar vida de pobre. O pobre só precisa ser pobre. E mais nada precisa. Deixa eu, aqui no meu canto. Na boca do fogão é que fico. Tô bem. Já viu fogo ir atrás de sílaba? O governo me dê o dinheiro da feira. O dente o presidente. E o vale-doce e o vale-lingüiça. Quero ser bem ignorante. Aprender com o vento, ta me entendendo? Demente como um mosquito. Na bosta ali, da cabrita. Que ninguém respeita mais a bosta do que eu. A química. Tem coisa mais bonita? A geografia do rio mesmo seco, mesmo esculhambado? O risco da poeira? O pó da água? Hein? O que eu vou fazer com essa cartilha? Número? Só para o prefeito dizer que valeu a pena o esforço? Tem esforço mais esforço que o meu esforço? Todo dia, há tanto tempo, nesse esquecimento. Acordando com o sol. Tem melhor bê-á-bá? Assoletrar se a chuva vem? Se não vem? Morrer, já sei. Comer, também. De vez em quando, ir atrás de preá, caruá. Roer osso de tatu. Adivinhar quando a coceira é só uma coceira, não uma doença. Tenha santa paciência! Será que eu preciso mesmo garranchear meu nome? Desenhar só pra mocinha aí ficar contente? Dona professora, que valia tem o meu nome numa folha de papel, me diga honestamente. Coisa mais sem vida é um nome assim, sem gente. Quem está atrás do nome não conta? No papel, sou menos ninguém do que aqui, no Vale do Jequitinhonha. Pelo menos aqui todo mundo me conhece. Grita, apelida. Vem me chamar de Totonha. Quase não mudo de roupa, quase não mudo de lugar. Sou sempre a mesma pessoa. Que voa. Para mim, a melhor sabedoria é olhar na cara da pessoa. No focinho de quem for. Não tenho medo de linguagem superior. Deus que me ensinou. Só quero que me deixem sozinha. Eu e minha língua, sim, que só passarinho entende, entende? Não preciso ler, moça. A mocinha que aprenda. O doutor. O presidente é que precisa saber o que assinou. Eu é que não vou baixar minha cabeça para escrever. Ah, não vou. Marcelino Freire lê Totonha do livro "Contos Negreiros
17 Da Paz, Marcelino Freire Eu não sou da paz. Não sou mesmo não. Não sou. Paz é coisa de rico. Não visto camiseta nenhuma, não, senhor. Não solto pomba nenhuma, não, senhor. Não venha me pedir para eu chorar mais. Secou. A paz é uma desgraça. Uma desgraça. Carregar essa rosa. Boba na mão. Nada a ver. Vou não. Não vou fazer essa cara. Chapada. Não vou rezar. Eu é que não vou tomar a praça. Nessa multidão. A paz não resolve nada. A paz marcha. Para onde marcha? A paz fica bonita na televisão. Viu aquele ator? Se quiser, vá você, diacho. Eu é que não vou. Atirar uma lágrima. A paz é muito organizada. Muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. Vem governador participar. E prefeito. E senador. E até jogador. Vou não. Não vou. A paz é perda de tempo. E o tanto que eu tenho para fazer hoje. Arroz e feijão. Arroz e feijão. Sem contar a costura. Meu juízo não está bom. A paz me deixa doente. Sabe como é? Sem disposição. Sinto muito. Sinto. A paz não vai estragar o meu domingo. A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? Um bando de gente. Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Tá uma coisa que eu não gosto: esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue. Já disse. Não quero. Não vou a nenhum passeio. A nenhuma passeata. Não saio. Não movo uma palha. Nem morta. Nem que a paz venha aqui bater na minha porta. Eu não abro. Eu não deixo entrar. A paz está proibida. A paz só aparece nessas horas. Em que a guerra é transferida. Viu? Agora é que a cidade se organiza. Para salvar a pele de quem? A minha é que não é. Rezar nesse inferno eu já rezo. Amém. Eu é que não vou acompanhar andor de ninguém. Não vou. Não vou. Sabe de uma coisa: eles que se lasquem. É. Eles que caminhem. A tarde inteira. Porque eu já cansei. Eu não tenho mais paciência. Não tenho. A paz parece que está rindo de mim. Reparou? Com todos os terços. Com todos os nervos. Dentes estridentes. Reparou? Vou fazer mais o quê, hein? Hein? Quem vai ressuscitar meu filho, o Joaquim? Eu é que não vou levar a foto do menino para ficar exibindo lá embaixo. Carregando na avenida a minha ferida. Marchar não vou, ao lado de polícia. Toda vez que vejo a foto do Joaquim, dá um nó. Uma saudade. Sabe? Uma dor na vista. Um cisco no peito. Sem fim. Ai que dor! Dor. Dor. Dor. A minha vontade é sair gritando. Urrando. Soltando tiro. Juro. Meu Jesus! Matando todo mundo. É. Todo mundo. Eu matava, pode ter certeza. A paz é que é culpada. Sabe, não sabe? A paz é que não deixa. Naruna Costa recitando DA PAZ de Marcelino Freire
18 Questões interpretativas 1) De que elementos o autor faz uso para dar ritmo à leitura dos dois contos? 2) Os dois contos trazem narradores que se colocam numa posição de negação: no 1 conto, Totonha se nega a ler e a escrever, no 2 conto, o narrador se nega a ser da paz. Que reflexões podemos fazer sobre esses posicionamentos?
19 2º Encontro Atividade de produção individual de textos e sarau. Após a análise dos textos, dos debates, e inspirando-se nos materiais apresentados, na primeira parte do segundo encontro os alunos irão produzir um texto autoral do gênero slam com a ajuda das professoras ministrantes da oficina, ou trabalhar algum dos seus textos (para quem já produz), ou, ainda, para aqueles que tiverem mais dificuldade com a produção criativa, escolher um dos textos apresentados (ou outro pesquisado em casa) para dramatizar e oralizar no sarau.
20 Mulamba - P.U.T.A (haistudio) Tarja-Preta - Falsa Abolição
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