Mas afinal o que é um roteiro?
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- Catarina Lacerda César
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1 Roteiro
2 Mas afinal o que é um roteiro? O que é um roteiro? Um guia, um projeto para um filme? Uma planta baixa ou diagrama? Uma série de imagens, cenas e seqüências enfeixadas com diálogo e descrições, como uma penca de peras? O cenário de um sonho? Uma coleção de idéias? O que é um roteiro?
3 Bem, não é um romance e certamente não é uma peça de teatro.
4 Porque não é um romance. Se você olha um romance e tenta definir sua natureza essencial, nota que a ação dramática, o enredo, geralmente acontece na mente do personagem principal. Privamos, entre outras coisas, de pensamentos, sentimentos, palavras, ações, memórias, sonhos, esperanças, ambições e opiniões do personagem. Se outros personagens entram na história, o enredo incorpora também seu ponto de vista, mas a ação sempre retorna ao personagem principal. Num romance, a ação acontece na mente do personagem, dentro do universo mental da ação dramática.
5 Porque não é uma peça de teatro. Numa peça de teatro, a ação, ou enredo, ocorre no palco, sob o arco do proscênio, e a platéia torna-se a quarta parede, espreitando as vidas dos personagens. Eles falam sobre suas esperanças e sonhos, passado e planos futuros, discutem suas necessidades e desejos, medos e conflitos. Neste caso, a ação da peça ocorre na linguagem da ação dramática; que é falada, em palavras
6 Filmes Filmes são diferentes. O filme é um meio visual que dramatiza um enredo básico; lida com fotografias, imagens, fragmentos e pedaços de filme: um relógio fazendo tique-taque, a abertura de uma janela, alguém espiando, duas pessoas rindo, um carro arrancando, um telefone que toca.
7 Roteiro O roteiro é uma história contada em imagens, diálogos e descrições, localizada no contexto da estrutura dramática. O roteiro é como um substantivo é sobre uma pessoa, ou pessoas, num lugar, ou lugares, vivendo sua "coisa". Todos os roteiros cumprem essa premissa básica. A pessoa é o personagem, e viver sua coisa é a ação.
8 Estrutura Dramática
9 ATO I, ou APRESENTAÇÃO Aristóteles definiu as três unidades de ação dramática: tempo, espaço e ação. O filme hollywoodiano normal tem a duração aproximada de duas horas, ou 120 minutos, ao passo que os europeus, ou filmes estrangeiros, têm aproximadamente 90 minutos. Uma página de roteiro equivale a um minuto de projeção. Não importa se o roteiro é todo descrito em ação, todo em diálogos ou qualquer combinação de ambos; em geral, uma página de roteiro corresponde a um minuto de filme.
10 Ato I O Ato I, o início, é uma unidade de ação dramática com aproximadamente trinta páginas e é mantido coeso dentro do contexto dramático conhecido como apresentação. Contexto é o espaço que segura o conteúdo da história em seu lugar. (O espaço dentro de um copo, por exemplo, é um contexto; ele "segura" o conteúdo no lugar água, cerveja, leite, café, chá, suco; o espaço interior de um copopode até conter passas, miscelâneas, nozes, uvas, etc.) O roteirista tem aproximadamente trinta páginas para apresentar a história, os personagens, a premissa dramática, a situação (as circunstâncias em torno da ação) e para estabelecer os relacionamentos entre o personagem principal e as outras pessoas que habitam os cenários de seu mundo. Quando vamos ao cinema, podemos geralmente determinar consciente ou inconscientemente se "gostamos" ou "não gostamos" do filme nos primeiros dez minutos. Da próxima vez que for ao cinema, tente perceber quanto tempo você leva para tomar essa decisão.
11 Ato II, ou confrontação O Ato II é uma unidade de ação dramática de aproximadamente sessenta páginas, vai da página 30 à página 90, e é mantido coeso no contexto dramático conhecido como confrontação. Durante o segundo ato, o personagem principal enfrenta obstáculo após obstáculo, que o impedem de alcançar sua necessidade dramática.
12 Ato II, ou confrontação Veja The Fugitive (O Fugitivo). A história inteira é impulsionada pela necessidade dramática do personagem principal de levar o assassino de sua mulher à justiça. Necessidade dramática é definida como o que o seu personagem principal quer vencer, ganhar, ter ou alcançar durante o roteiro. O que o move através da ação? O que deseja o seu personagem principal? Qual a sua necessidade? Se você conhece a necessidade dramática do seu personagem, pode criar obstáculos a essa necessidade, e a história torna-se uma série de obstáculo após obstáculo após obstáculo, que seu personagem deve ultrapassar para alcançar (ou não) sua necessidade dramática.
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14 Ato 3 ou Resolução O Ato III é uma unidade de ação dramática que vai do fim do Ato II, aproximadamente na página 90, ate o fim do roteiro, e é mantido coeso dentro do contexto dramático conhecido como resolução. Resolução não significa fim; resolução significa solução. Qual a solução do roteiro? Seu personagem principal sobrevive ou morre? Tem sucesso ou fracassa? Casa-se com o homem ou a mulher ou não? Vence a corrida ou não? Ganha as eleições ou não? Abandona o marido ou não?
15 Ponto de virada Início, meio e fim; Ato I, Ato II e Ato III. Apresentação, confrontação, resolução as partes que compõem o todo. Mas isso levanta outra questão: Se essas são algumas das partes que compõem o roteiro, como passar do Ato I, da apresentação, para o Ato II, a confrontação? E como passar do Ato II para o Ato III, a resolução? A resposta é simples: Crie um ponto de virada (plot point) ao final dos Atos I e II.
16 Ponto de virada Um ponto de virada (plot point) é qualquer incidente, episódio ou evento que "engancha" na ação e a reverte noutra direção neste caso, os Atos II e III. Um ponto de virada ocorre no final da Ato I, cerca das páginas 25 a 27. Ele é uma função do personagem principal.
17 O ponto de virada ao fim do Ato II também é um incidente, episódio ou evento que "engancha" na ação e a reverte na direção do Ato III. Geralmente ocorre em torno da página 85 ou 90 do roteiro.
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19 Formatar um roteiro
20 Cabeçalho de Cena Serve para introduzir uma nova cena. Na grande maioria das vezes teremos uma nova cena quando ocorrer uma mudança no espaço e/ou tempo no roteiro. Escrito sempre em maiúsculas, o cabeçalho é composto por três elementos: Tipo de Localidade: INT. (Interior) ou EXT. (Exterior). Serve para a equipe de produção determinar a logística e os locais de filmagem. Se a câmera percorrer o ambiente, podemos ter algo como INT./EXT., mas esse tipo de escrita não é recomendado, deixando a escolha para o diretor. A localidade: O nome do local. Por exemplo: CASA DE VERANEIO. Em alguns casos devemos especificar um local dentro de outro: CASA DE VERANEIO - COZINHA. O tempo: Aqui o autor irá usar na grande maioria dos casos ou DIA ou NOITE, mesmo se o tipo de localidade for interior. Em raras ocasiões veremos termos como ENTARDECER ou AMANHECER. Só se for necessário para o andamento da história. Se a cena precisar do uso do relógio, poderemos usar o tempo exato: 1:15, MEIA-NOITE, Muitos escritores numeram as suas cenas. A numeração aparece antes e depois do cabeçalho: 1 EXT. ESTÁDIO - DIA 1
21 Ação É o que basicamente ocorre na cena. O autor pode introduzir a ação com uma pequena descrição, caso seja a primeira vez que o local apareça no roteiro. Seja sutil na escrita, e não exagere nas descrições. Um roteiro de cinema não é escrito da mesma forma que um romance literário! Devemos descrever apenas o necessário para o andamento e entendimento da história. Deve-se evitar ao máximo dar ordens diretas para o diretor sobre posicionamento de câmera e ângulos de filmagem. Devemos notar que muitos autores não respeitam muito essa recomendação e acabam às vezes querendo agir como diretores. Ao invés de escrever um largo bloco de texto, divida a ação em pequenas partes com uma linha de espaço. Dessa forma, até ângulos de filmagem podem ser sutilmente sugeridos ao diretor, sempre com cuidado.
22 Ação: Exemplo INT. QUARTO DE NEO - DIA Neo acorda de um sono profundo, se sentindo melhor. Ele começa a se auto-examinar. Há um cabo futurista conectado em seu antebraço. Ele o retira, observando a tomada enxertada em sua pele. Ele passa a mão sobre a cabeça, sentindo um curto cabelo que agora a cobre. Seus dedos acham e exploram uma larga tomada na base do seu crânio. Logo que ele começa a se descolar, Morpheus abre a porta.
23 Diálogos O bloco de diálogo é composto de dois componentes obrigatórios, Personagem e Diálogo, e um opcional, o Parenthetical. Os blocos de diálogos mais comuns usam apenas o nome do personagem e o que ele diz: ALVY Oh, você é uma atriz. ANNIE HALL Bem, eu faço comerciais, algo assim...
24 Diálogos O Parenthetical deve ser utilizado somente para indicar algo que não tem como escrevermos de outra forma no script. O Parenthetical deve indicar uma ação ou emoção de um personagem, ou a direção de sua fala: ANNIE (sorrindo) Bem, eu... (uma pausa) Você é o que vovó Hall chamaria de verdadeiro judeu. ALVY (Limpando sua garganta) Oh, obrigado.
25 Diálogos Quando o escritor precisa do diálogo de um narrador, ele deve usar o termo V.O., de Voice Over ao lado do nome do personagem: LESTER (V.O.) Meu nome é Lester Burnham. Este é meu bairro. Esta é minha rua. Esta é...minha vida. Tenho quarenta e dois anos. Em menos de um ano eu estarei morto.
26 Voz Off Personagem Quando um personagem está falando em uma cena mas não aparece na tela, usamos o termo O.S. de Off Screen ao lado do seu nome: CLOSE em um rádio de madeira, tocando uma música quieta. A visão é a de um quarto escuro, com cortinas impedindo a luz do sol. MICHAEL (O.S.) Teremos uma quieta cerimônia civil no salão da cidade, sem agitação, sem família, apenas alguns amigos como testemunhas.
27 Margens Margens superior e inferior - 2,5cm Margem da esquerda - 3,8cm Margem da direita - 2,5cm Cabeçalhos de Cena - 3,8cm Ação - esquerda 3,8cm Personagem - 9,4cm Parenthetical - esquerda 7,8cm, direita 7,4cm Diálogo - esquerda 6,5cm - direita 6,5cm (justificado para a esquerda)
28 Espaçamento Espaçamento Simples (Nenhuma linha de espaço, apertar uma vez a tecla Enter): * Entre o Personagem e o Parenthetical * Entre o Personagem e o Diálogo * Entre o Parenthetical e o Diálogo Espaçamento Duplo (Uma linha de espaço, apertar duas vezes a tecla Enter): * Cabeçalho de Cena para a Ação * Ação para Ação * Ação para nome do Personagem * Diálogo para Ação * Diálogo para nome de outro Personagem * Diálogo para Cabeçalho de Cena * Ação para Cabeçalho de Cena * Ação para Transição * Diálogo para Transição * Transição para Cabeçalho de Cena Podemos ver que temos espaçamento simples apenas no bloco de diálogos, sendo o restante do roteiro escrito na sua maioria com espaçamento de uma linha (duplo Enter).
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