REVISTA MALALA N. 5 - COMO O ISLÃ LIDA COM
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- Marcela Aires Diegues
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1 REVISTA MALALA N. 5 - COMO O ISLÃ LIDA COM SEUS CRÍTICOS (INTERNOS E EXTERNOS)? Peter R. Demant Ariel Finguerut Na Revista Malala n. 5 iniciamos um debate que não se restringe apenas a esse número nem à nossa revista: a crítica ao islã. Tanto em estudos científicos quanto em discussões políticas e expressões artísticas, esta geralmente foca três grandes temas: (1) a relação entre o islã e os não muçulmanos, (2) islã e mulheres,...e(3) violência. Outros lidam também com questões ainda mais fundamentais, tais como a origem e o status do alcorão (palavra divina imutável ou produto histórico e por esse motivo, religião reformável?) e a biografia do profeta (figura intangível ou criticável?). Hoje estes temas são tratados com um tabu por muitos dentro mundo muçulmano. A crítica à mais jovem das religiões monoteístas e segunda maior fé no mundo, de seus princípios, práticas, desde da história de Maomé até nossos dias, venha ela de não-muçulmanos ou dos próprios fiéis, é legitima ou ilegítima? E se legitima, até que ponto? Estamos aqui lidando com o confronto entre dois direitos: liberdade de expressão que sempre envolve o risco de ofender grupos religiosos e o direito de se sentir ofendido e zelar por sua honra, liberdade religiosa e a combater à discriminação e discursos que fomentam ódio e preconceito; ambos são direitos jurídicos consoldidos no ocidental e próprios a conceitos mais amplos como Democracia e Direitos Humanos. Embora possam soar um tanto abstratos, esses temas têm implicações gravíssimas e de grande atualidade, não só no mundo muçulmano mas também mundo afora. Terroristas jihadistas, ontem em Bagdá ou Beirute mas hoje também em Londres e Boston e Paris não são psicopatas ou niilistas procurando matar por matar. Com visão de mundo e militância e financiamento internacionais eles se baseiam na sua própria leitura de fontes islâmicas sagradas para produzir uma luta global em nome do islã. Seus opositores dentro do islã tentam se organizar e rejeitá-los principalmente em 5 Malala, São Paulo, v.3, n.5, nov. 2015
2 termos cívicos e no debate intelectual. Coloca-se aqui a pergunta crucial: a violência teologicamente justificada oriunda do mundo muçulmano deriva da própria essência da religião? Ou de fatores externos aleatórios que tomam como refém a religião da paz? O debate, incendiário de antemão, não é travado apenas com palavras pois o embate vai muito além de uma vitória ou derrota intelectual. O time editorial de Malala não poderia se isentar da polêmica. Os autores desse número muitas vezes discordam sobre o status da critica, seu papel e sua motivação apresentando perspectivas e respostas diferentes, mas todos são contundentes e apontam para a necessidade do debate, da troca de ideias e da possibilidade de, pelo diálogo e debate, superarmos preconceitos e produzirmos novas ideias, interpretações e conhecimento sobre o islã e o mundo muçulmano. Trata-se sem dúvida de um caminho difícil, mas ao mesmo tempo fundamental para todos nós que direta ou indiretamente estamos envolvidos com estudos, pesquisas e docência relacionados a esse campo. Abrimos esse número com um poema sobre a burqa de Amitabh Vikram Dwivedi, que nos ajuda a lembrar da responsabilidade de fazermos uma Revista multidisciplinar que homenageia em seu nome a jovem paquistanesa Malala Yousafzai uma muçulmana que não se sente constrangida em defender e debater questões que passam pela emancipação da mulher. Na entrevista desse número, o escritor, jornalista e professor universitário turco Mustafa Akyol faz um panorama dos temas que afetam o debate ocidente/islã discutindo temas como apostasia, blasfêmia e o impacto de ideias como orientalismo e ocidentalismo sobre pesquisadores. Akyol comenta também sobre uma possível abordagem mais liberal para a teologia islâmica. Peter Demant discute em seu ensaio representações e critica do islã. Com foco nos debates a partir do curta metragem anti islâmico, de 13 minutos, Innocence of Muslims de 2012, o autor discute as ideias e os pontos centrais que nos dão pistas para entender manifestações de repúdio a representações consideradas ofensivas ao Islã. Demant destaca em particular a complicada diferenciação entre crítica a religião e as manifestações ofensivas. Os desdobramentos desta questão motivaram ataques ao jornal satírico francês Charlie Hebdo no começo de 2015 e os recentes ataques terroristas em Paris. Já Magno Paganelli refaz o caminho dos críticos ao islã buscando entender quais são os pontos e argumentos que aparecem no debate. O autor trata das 6
3 críticas que muçulmanos recebem em diferentes campos, da teologia cristã à relação com o Ocidente. Na Sessão de artigos, Adrián Albala e Aline Burni discutem a ascensão do partido francês Front National, em ressonância com a extrema-direita é a luta contra a suposta islamização da França. Trabalhando com fontes, pesquisas de opinião os autores argumentam que a percepção de ameaças diante do islã é muitas vezes superestimada e manipulada. O ataque ao Charlie Hebdo apenas agravou tal situação. G.R Nuei e Shah fazem uma análise de fontes xiitas modernas sobre como condenar ou reforçar condenações de apostasia, um dos temas mais sensíveis nas críticas ao islã. Diego Balassiano Dominguez expõe a partir de conceitos de guerra assimétrica e de terrorismo sob a ótica da disciplina de Relações Internacionais um olhar crítico sobre o papel do Hamas na morte de civis palestinos durante o confronto com o Estado de Israel em Na sessão de resenhas, Natalia Nahas Calfat discute o terrorismo jihadista que assola o continente africano. Baseando-se no filme Timbuktu (2014) de Abderrahmane Sissako, traça um panorama histórico da situação no Mali e discute a representação do jihadismo neste filme. Discutindo o livro Submissão do romancista francês Michel Houellebecq (2015), dois autores apresentam resenhas com abordagens distintas. Um pouco ao estilo J'accuse de Zola, Danilo Guiral Bassi desvela as ideias orientalistas e islamofobicas que permeiam a obra de começo ao fim. O autor alega que antes mesmo de escrever o livro Houellebecq já apresentava ideias preconceituosas em relação aos muçulmanos que o livro em questão apenas corrobora. Já Eliceli Katia Bonan faz um debate mais amplo, discutindo como Houellebecq traduz certo espírito francês e o coloca como intérprete dos medos, anseios e das consequências da política contemporânea francesa entre ficção E realidade, dentro de uma tradição literária que remete a clássicos modernos como George Orwell e Salman Rushdie. Na sessão de debates, propomos três eixos: primeiramente um olhar para os temas internos, como apostasia, blasfêmia e o papel das mulheres. Nesse ponto, Maged Gebaly chama atenção para o fato que terroristas de inspiração fundamentalista islâmica atacaram não só o Charlie Hebdo, mas que com mais gravidade, houve ataques prévios e ainda em curso contra intelectuais muçulmanos democráticos e reformistas. Gebaly discute o ataque ao jornal satírico em diálogo com intelectuais principalmente marxistas, mostrando as causas econômicas e diretamente relacionadas à ordem 7
4 capitalista neoliberal e explica como esse contexto nos ajuda a entender também a ascensão e o discurso político ideológico do Estado Islâmico (ISIS). Já Youssef Cherem faz uma síntese do debate brasileiro que se sucedeu aos atentados ao Charlie Hebdo entre intelectuais especialistas em islã e Oriente Médio. O autor aponta para falhas argumentativas e leituras precipitadas entre estes especialistas que acabam caindo em respostas simplistas, ignorando temas complexos. Explicar as motivações dos ataques pela opressão capitalista (uma explicação sócio-econômica) leva esse debate a ignorar a motivação e o próprio discurso ideológico e implicitamente relacionado com o discurso e a fundamentação religiosa muçulmana. Para Cherem os ataques ao Charlie Hebdo levam a outro debate: como o islã se relaciona com o Estado laico e com o espaço público secular no qual, em suas palavras, Maomé não seria nem mais nem menos importante do que outros como Jesus, Buda ou Joseph Smith. Um segundo eixo do debate foca temas externos, como islamofobia, ascensão da extrema-direita, a intolerância religiosa, e os desafios das ideologias políticas tradicionais diante do islã. Nessa linha, Francirosy Campos Barbosa argumenta haver no ocidente uma incompreensão diante do islã. Para a autora quem critica o islã não o conhece. Acredita que o mundo muçulmano por meio de seus próprios intelectuais deveria criar um contradiscurso para combater a crítica infundada que, segundo a autora, fomenta a intolerância. Já Sahin Alpay considera o ocidente - que terroristas islâmicos querem destruir - como um bastião decisivo para os valores da civilização. Mas, o islamismo radical também estimula contrarreações essencialistas e assim, a autora vê semelhanças entre o antissemitismo de ontem e a islamofobia de hoje. Por fim, nosso terceiro eixo discute liberdade de expressão. Derek Beres discute os riscos emocionais e psicológicos de uma geração politicamente correta que pouco tolera ideias que lhe chocam ou que lhe soam incompatíveis. Uma geração de jovens ansiosos que está perdendo o humor e, muitas vezes, se isolando e perdendo amigos, manipulados por um discurso majoritariamente de esquerda que anseia por um ambiente universitário supostamente sem preconceitos ou discriminação. Segâh Tekin lembra que o islã carrega em seu bojo os ideais de autoconhecimento, justiça, compaixão e respeito ao outro. A autora alerta para um fenômeno contemporâneo que é a perda da empatia. A fragilidade que cerca a discussão sobre a liberdade de expressão poderia assim ser uma consequência desse fenômeno de falta de reflexão num mundo onde estamos mais próximos, mas, ao mesmo tempo, contraditoriamente também mais 8
5 isolados e mais narcisistas. Assim, basta um passo em falso para ofendermos alguém ou nos ofendermos com tudo e com todos. 9
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