MANDADO DE SEGURANÇA Nº / DF

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1 Procuradoria Geral da República Nº 8604 RJMB / asr MANDADO DE SEGURANÇA Nº / DF RELATOR : Ministro RICARDO LEWANDOWSKI IMPETRANTE : Hugo Canellas Rodrigues Filho IMPETRADO : Tribunal de Contas da União MANDADO DE SEGURANÇA. APLICAÇÃO IRREGULAR DE VERBAS FEDERAIS REPASSADAS AO MUNICÍPIO DE IGUABA GRANDE/RJ, NA MODALIDADE FUNDO A FUNDO. CARÁTER VINCULADO DA RECEITA REPASSADA. COMPETÊNCIA DO TCU PARA A FISCALIZAÇÃO DA CORRETA APLICAÇÃO DOS RECURSOS. CF, ART. 71, VI, LEI Nº 8.443/92, ART. 4º, VII, C/C ART. 41, IV. APLICAÇÃO DE MULTA. RAZOABILIDADE. GRAVIDADE DO DANO AO ERÁRIO. 1. O presente mandado de segurança refere-se à gestão de recursos do Sistema Único de Saúde SUS, na modalidade fundo a fundo, ou seja, repasses de valores de forma regular e automática, diretamente do Fundo Nacional de Saúde FNS para fundo de saúde do município, destinando-se ao financiamento de ações e serviços nessa área. A competência para fiscalização da correta aplicação de tais recursos compete ao Tribunal de Contas da União (CF, art. 71, VI, Lei nº 8.443/92, art. 5º, VII, c/c art. 41, IV). 2. In casu, a multa foi aplicada com base no art. 57 da Lei nº 8.443/92. Após a análise dos elementos de convicção reunidos nos autos da tomada de contas especial, o TCU concluiu pela aplicação de multa ao impetrante em valor adequado à gravidade dos atos ilegítimos de gestão do dinheiro público, os quais acarretaram dano ao erário no valor nominal de R$ ,00 (setecentos e quinze mil reais). 3. Parecer pela denegação da segurança. Procuradoria Geral da República SAF Sul Quadra 4 Lote 3 CEP Brasília/DF

2 Trata-se de mandado de segurança, com pedido de liminar, impetrado por Hugo Canellas Rodrigues Filho contra ato do Tribunal de Contas da União, exarado nos autos do processo administrativo /2006-9, que entendeu irregular a aplicação de verbas federais repassadas ao Fundo Municipal de Saúde do Município de Iguaba Grande-RJ, no período em que o impetrante era Prefeito. A impetração questiona, em síntese, a competência do Tribunal de Contas da União para analisar a aplicação, pelos municípios, de verbas oriundas do Fundo Nacional de Saúde FNS, gestor financeiro dos recursos do Sistema Único de Saúde na esfera federal. Afirma que as verbas, no caso, são repassadas de forma regular e automática, diretamente do FNS para os estados, municípios e Distrito Federal, independente de convênio ou contrato, daí ser competente o Tribunal de Contas do Estado para analisar a correta aplicação de tais valores. O impetrante insurge-se, ainda, contra a multa aplicada pela Corte de Contas, alegando ausência de fundamentação razoável e racional que demonstre sua proporcionalidade. As informações do TCU portam a seguinte ementa: EMENTA: Mandado de Segurança, com pedido de liminar, impetrado por Hugo Canellas Rodrigues Filho, contra os termos do Acórdão nº 1427/2001 1ª Câmara, mantido pelos Acórdãos nºs 3210/2012 1ª Câmara e 5290/2012 1ª Câmara, por intermédio do qual esta Corte de Contas julgou irregulares suas contas, condenou-o em débito solidariamente com a Associação Comunitária Vida Plena e lhe aplicou a multa prevista no art. 57 da Lei nº 8.443/1992, em razão da realização de despesas indevidas e da não comprovação do regular emprego de recursos federais repassados ao Município de Iguaba Grande/RJ, recursos esses que tinham por destinação o Programa Saúde da Família. 1. Preliminar: intempestividade da impetração ante a superação do prazo decadencial previsto no art. 23 da Lei nº /2009, o que enseja a extinção do processo, nos termos do art. 21, 1º, do RISTF, c/c o art. 267, VI, do CPC. 2

3 2. Por tratarem de recursos federais, originários do Fundo Nacional de Saúde FNS, o Tribunal de Contas da União é constitucionalmente competente para fiscalizar a aplicação dos recursos do Sistema Único de Saúde SUS transferidos pela União aos demais entes da federação, na modalidade fundo a fundo, destinados ao financiamento de ações e serviços na área de saúde. 3. O art. 57 da Lei nº 8.443/1992 estabelece como único requisito para aplicação da multa nele prevista a existência de débito, fixando seu valor máximo (100% do valor do débito) e nada dispondo sobre o seu valor mínimo. Assim, tendo sido configurada a ocorrência de débito decorrente de ato ilegítimo e antieconômico praticado pelo ora impetrante, e uma vez que a multa aplicada foi de R$ ,00 (trinta mil reais), valor equivalente a 4,2% do débito e muito abaixo do máximo fixado na lei, não há mácula na sanção aplicada pela Corte de Contas. 4. Não cabimento da liminar, ante a ausência do fumus boni juris e do periculum in mora. A liminar foi indeferida. Em síntese, os fatos de interesse. A transferência de recursos da União para os Municípios pode se resumir em três modalidades específicas: (i) constitucionais; (ii) legais e (iii) voluntárias. As constitucionais são as resultantes da repartição constitucional de receitas (FPM, FUNDEF, entre outros). As voluntárias são as transferidas a título de cooperação, auxílio ou assistência financeira, que não decorram de determinação constitucional ou legal (LC 101/2000, art. 25, caput) e são realizadas por meio de convênio ou contrato de repasse. As legais que importam à solução do presente conflito são as decorrentes de leis específicas e classificam-se em não-vinculadas (royalites de petróleo, ad exemplum) e vinculadas. As primeiras, de caráter discricionário quanto à definição da despesa correspondente e, as segundas, de destinação específica. A modalidade de transferência legal vinculada pode ocorrer de duas maneiras: (i) transferência automática ou (ii) transferência fundo a fundo. Tanto na modalidade de transferência legal vinculada automática, quanto na fundo a fundo, o repasse de verba da União para o Município assume 3

4 aspecto finalístico, ou seja, os recursos são repassados para despesa específica. Nessa modalidade, o Município se habilita para receber os recursos apenas uma vez e, a partir da habilitação, passa a ter o direito aos recursos federais sem a necessidade de documentos e tramitação de processos a cada pleito, como ocorre com os convênios. As receitas federais transferidas pelas modalidades legal vinculada (automáticas ou fundo a fundo) ou voluntárias estão seja por expressa disposição constitucional e legal (CF, art. 71, VI, Lei nº 8.443/92, art. 5º, VII, c/c art. 41, IV), seja pelo caráter vinculado à despesa específica da receita repassada sujeitas à fiscalização do Tribunal de Contas da União. O presente mandado de segurança refere-se à gestão de recursos do Sistema Único de Saúde SUS, na modalidade fundo a fundo, ou seja, repasses de valores de forma regular e automática, diretamente do Fundo Nacional de Saúde FNS para fundo de saúde do município, destinando-se ao financiamento de ações e serviços na área de saúde. Não há dúvidas, portanto, de que a competência para fiscalização da correta aplicação de tais recursos compete ao Tribunal de Contas da União. Por outro lado, o impetrante alega não ter havido motivação idônea para a aplicação da multa prevista no art. 57 da Lei nº 8.443/92, fixada em R$ ,00 (trinta mil reais). A multa foi aplicada com base no art. 57 da Lei nº 8.443/92 tendo por fundamento o dano causado ao Erário, na forma do art. 16, III, c, da Lei nº 8.443/92. O art. 57 da mesma lei estabelece, ainda: quando o responsável for julgado em débito, poderá ainda o Tribunal aplicar-lhe multa de até cem por cento do valor atualizado do dano causado ao Erário. Como visto, a lei exige como requisito para aplicação da multa apenas a configuração do débito, fixando valor máximo para a sanção e nada dispondo sobre seu valor mínimo. No caso, após a análise dos elementos de convicção reunidos nos autos da tomada de contas especial, concluiu o Tribunal de Contas da União 4

5 pela aplicação de multa ao impetrante em valor adequado à gravidade dos atos ilegítimos de gestão do dinheiro público, os quais acarretaram dano ao erário no valor nominal de R$ ,00 (setecentos e quinze mil reais). Conforme destacou o TCU, tendo sido configurada a ocorrência de débito decorrente de ato ilegítimo e antieconômico praticado pelo ora impetrante, e uma vez que a multa aplicada foi de R$ ,00 (trinta mil reais), valor equivalente a 4,2% do débito e muito abaixo do máximo fixado na lei, não há mácula na sanação aplicada pela Corte de Contas. Ante o exposto, opina o Ministério Público Federal pela denegação da segurança. Brasília, 25 de março de Rodrigo Janot Monteiro de Barros Subprocurador-Geral da República 5

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