Superior Tribunal de Justiça

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1 RECURSO ESPECIAL Nº RS (2004/ ) RELATÓRIO EXMA. SRA. MINISTRA LAURITA VAZ: Trata-se de recurso especial interposto por SIRLEI TEREZINHA DE SOUZA FEIJÓ, fundamentado na alínea a do permissivo constitucional, em face de acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, que restou ementado nos seguintes termos, litteris : 155) "SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL. DEFENSORA PÚBLICA. LICENÇA PRÊMIO NÃO GOZADA. AÇÃO DE COBRANÇA. Defensora Pública aposentada que teve indeferidos, em diferentes oportunidades, requerimentos para o gozo de período de licença-prêmio. Improcedência do pedido de cobrança por falta de base legal e pela possibilidade de indeferimento do seu gozo por necessidade da administração (Ordem de Serviço 65/95). Interpretação do art. 151 da Lei Estadual /94 (Estatuto dos Servidores Públicos do Estado). Jurisprudência majoritária deste Tribunal de Justiça. APELAÇÃO DESPROVIDA. SENTENÇA MANTIDA." (fl. 143) A essa decisão foram opostos embargos de declaração, que foram rejeitados. (fl. Nas razões do especial, sustenta a Recorrente, em síntese, violação ao 535, inciso II, do Código de Processo Civil, e aos arts. 884 e 947, do Novo Código Civil, consubstanciada na tese de que o impedimento ao gozo da licença-prêmio implica dano ao servidor que "deve ser indenizado pela Administração (art. 37, 6º da CF/88 c/c art. 884 do CCB), sob pena de enriquecimento ilícito, uma vez que sempre que o ato da administração (lícito ou ilícito) resultar dano a alguém fica esta obrigada a indenizar. "(fl. 170) Apresentadas as contra-razões, inadmitido o recurso na origem, veio o Agravo de Instrumento n.º , que foi convertido no presente recurso especial, à fl É o relatório. Documento: RELATÓRIO, EMENTA E VOTO - Site certificado Página 1 de 5

2 RECURSO ESPECIAL Nº RS (2004/ ) EMENTA ADMINISTRATIVO. SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL. LICENÇAS-PRÊMIOS NÃO GOZADAS. CONVERSÃO EM PECÚNIA. PREVISÃO LEGAL EXPRESSA. DESNECESSIDADE. PRINCÍPIO QUE VEDA O ENRIQUECIMENTO ILÍCITO DA ADMINISTRAÇÃO. RESPONSABILIDADE CIVIL OBJETIVA DO ESTADO. 1. O acórdão recorrido implicitamente afastou a tese de enriquecimento ilícito em detrimento da tese de que não havendo previsão legal para a conversão das licenças-prêmios em pecúnia, tal procedimento não poderia ser aceito, sob pena de ofensa ao princípio da legalidade. Violação ao art. 535 não configurada. 2. A conversão em pecúnia das licenças-prêmios não gozadas em face do interesse público, tampouco contadas em dobro para fins de contagem de tempo de serviço para efeito de aposentadoria, avanços ou adicionais, independe de previsão legal expressa, sendo certo que tal entendimento está fundado na Responsabilidade Objetiva do Estado, nos termos do art. 37, 6º, da Constituição Federal, e no Princípio que veda o Precedentes desta Corte e do Supremo Tribunal Federal. 3. Recurso parcialmente conhecido e, nessa parte, provido. VOTO EXMA. SRA. MINISTRA LAURITA VAZ (RELATORA): De início, a alegada de negativa de prestação jurisdicional, consubstanciada na violação ao art. 535 do Código de Processo Civil, não subsiste. Com efeito, verifica-se que o acórdão recorrido implicitamente afastou a tese de enriquecimento ilícito em detrimento da tese de que não havendo previsão legal para a conversão das licenças-prêmios em pecúnia, tal procedimento não poderia ser aceito, sob pena de ofensa ao princípio da legalidade. Por oportuno, ressalto que o magistrado não está obrigado a responder todas as alegações das partes, tampouco a rebater um a um todos seus argumentos, desde que os fundamentos utilizados tenham sido suficientes para embasar a decisão, como ocorreu na espécie. No mais, acrescento que este Superior Tribunal de Justiça tem decidido ser cabível a conversão em pecúnia da licença-prêmio não gozada e não contada em dobro para fins de aposentadoria, em face do interesse do serviço público, sob pena de configuração do locupletamento indevido da Administração. A propósito: "ADMINISTRATIVO. MEMBRO DO MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO. LICENÇA-PRÊMIO. CONVERSÃO EM PECÚNIA. Documento: RELATÓRIO, EMENTA E VOTO - Site certificado Página 2 de 5

3 APOSENTADORIA. POSSIBILIDADE. I - A Lei Complementar nº 75/93 não disciplinou a hipótese de conversão em pecúnia das licenças-prêmio não-usufruídas e não-contadas em dobro, por ocasião da aposentadoria. Contudo, seu art. 287 determina a aplicação subsidiária das normas gerais referentes aos servidores públicos. II - Esta Corte, apreciando as disposições insertas no art. 87, 2º na Lei nº 8.112/90, em sua redação original, cujo teor é semelhante ao disposto no art. 222, inciso III, 3º, alínea a, tem proclamado que há direito à conversão em pecúnia das licenças-prêmio não gozadas e não contadas em dobro, quando da aposentadoria, sob pena de locupletamento ilícito da Administração. III - Foge à razoabilidade jurídica que o servidor seja tolhido de receber a compensação pelo não-exercício de um direito que incorporara ao seu patrimônio funcional e, de outra parte, permitir que tal retribuição seja paga aos herdeiros, no caso de morte do funcionário. Recurso não conhecido." (REsp /DF, 5ª Turma, Rel. Min. FELIX FISCHER, DJ de 02/08/2004.) "ADMINISTRATIVO. SERVENTIA EXTRAJUDICIAL. APOSENTADORIA. LICENÇA-PRÊMIO NÃO GOZADA. CONVERSÃO EM PECÚNIA. CABIMENTO. MANDADO DE SEGURANÇA. RECURSO. 1. Os Notários e Oficiais de Registro, considerados servidores públicos, têm direito à conversão, em pecúnia, de licença-prêmio não gozada e não utilizada para fins de aposentadoria, sob pena de 2. Recurso em Mandado de Segurança conhecido e provido." (RMS /PE, 5ª Turma, Rel. Min. EDSON VIDIGAL, DJ de 12/11/2001.) "PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. DECISÃO "ULTRA PETITA". AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. JULGAMENTO ANTECIPADO DA LIDE. CERCEAMENTO DE DEFESA. APOSENTADORIA. LICENÇA-PRÊMIO NÃO GOZADA. CONVERSÃO EM PECÚNIA. CABIMENTO. 1. Não se conhece do recurso especial se ausente o prequestionamento da matéria suscitada, ainda que tenha surgido no próprio Acórdão. 2. Não configura cerceamento de defesa o ato do juiz que, entendendo desnecessária a produção de provas, julga antecipadamente a lide. 3. É devida a conversão em pecúnia de licença-prêmio, não gozada por servidor aposentado por necessidade do serviço, sob pena de 4. Recurso conhecido e não provido." (REsp /SC, 5ª Turma, Rel. Min. EDSON VIDIGAL, DJ de 16/11/1998.) "ADMINISTRATIVO. SERVIDOR PUBLICO. FERIAS E LICENÇA-PREMIO NÃO GOZADAS. INDENIZAÇÃO. ART DO CC. INAPLICABILIDADE. 1. A CONVERSÃO EM PECÚNIA DE FERIAS E LICENÇA-PREMIO, NÃO GOZADAS POR SERVIDOR APOSENTADO EM Documento: RELATÓRIO, EMENTA E VOTO - Site certificado Página 3 de 5

4 BENEFICIO DO INTERESSE PUBLICO, TRATA-SE DE MERA INDENIZAÇÃO. INAPLICÁVEL, POIS, O DISPOSTO NO ART DO CÓDIGO CIVIL. 2. AGRAVO IMPROVIDO." (AgRg no AG /SC, 5ª Turma, Rel. Min. EDSON VIDIGAL, DJ de 05/05/1997.) Para corroborar esse entendimento, acrescento que o Supremo Tribunal Federal já decidiu no sentido de que o servidor público que não gozou licença-prêmio a que fazia jus, por necessidade do serviço, tem direito à indenização, em razão da responsabilidade objetiva da Administração. Confira-se o seguinte precedente, in verbis : "EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO EXTRAORDINÁRIO. ADMINISTRATIVO. INDENIZAÇÃO DE LICENÇA-PRÊMIO NÃO GOZADA POR NECESSIDADE DE SERVIÇO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA DO ESTADO. QUESTIONAMENTO ACERCA DO NEXO DE CAUSALIDADE. IMPOSSIBILIDADE. 1. O Pleno desta Corte, com base na teoria da responsabilidade objetiva do Estado, firmou exegese segundo a qual é devida a indenização ao servidor de benefício não gozado por interesse do serviço. Precedente. 2. Nexo de causalidade entre o ato praticado pela Administração e o dano sofrido pelo servidor. Matéria fática cujo reexame é vedado nesta instância extraordinária pelo óbice da Súmula 279-STF. 3. Contagem em dobro do tempo de licença-prêmio não gozada pelo servidor, para fins de aposentadoria. Alegação insubsistente, tendo em vista os termos da contestação apresentada. Agravo regimental não provido." (AgRg no RE /RJ, 2ª Turma, Rel. Min. MARCO AURÉLIO, DJ de 15/10/99.) Diante do exposto, conclui-se que a conversão em pecúnia das licenças-prêmios não gozadas em face do interesse público e não contadas em dobro, independe de previsão legal expressa, sendo certo que tal entendimento está fundado na Responsabilidade Objetiva do Estado, nos termos do art. 37, 6º, da Constituição Federal, e no Princípio que veda o No caso em tela, consta dos autos que a Servidora, ora Recorrente, adquiriu o direito ao gozo de licenças-prêmios, nos termos do art. 151, inciso I, da Lei Estadual n.º /94 (Estatuto dos Servidores Públicos do Estado do Rio Grande do Sul), as quais, entretanto, não foram gozadas, em razão do interesse público, tampouco contadas em dobro para fins de contagem de tempo de serviço para efeito de aposentadoria, avanços ou adicionais. Ante o exposto, CONHEÇO PARCIALMENTE do recurso especial para DAR-LHE PROVIMENTO, reconhecendo a possibilidade de conversão das licenças-prêmios não gozadas em pecúnia. Documento: RELATÓRIO, EMENTA E VOTO - Site certificado Página 4 de 5

5 É como voto. MINISTRA LAURITA VAZ Relatora Documento: RELATÓRIO, EMENTA E VOTO - Site certificado Página 5 de 5

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