FATIMA MERNISSI NASCI NUM HARÉM AS MIL NOITES DE XERAZADE

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1 FATIMA MERNISSI NASCI NUM HARÉM AS MIL NOITES DE XERAZADE

2 ÍNDICE sonhos proibidos...7 o harém e o ocidente...255

3 SONHOS PROIBIDOS MEMÓRIAS DE UM HARÉM DE FEZ

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5 1 AS MINHAS FRONTEIRAS NO HARÉM N asci em 1940 num harém em Fez, uma cidade marroquina do século ix, cinco mil quilómetros a oeste de Meca e mil quilómetros a sul de Madrid, uma das perigosas capitais dos cristãos. O meu pai costumava dizer que os problemas com os cristãos começavam quando as fronteiras sagradas, ou hudud, não eram respeitadas. Nasci em pleno caos, uma vez que nem os cristãos nem as mulheres aceitavam as fronteiras. Mesmo no nosso patamar havia mulheres do harém que discutiam e brigavam com Ahmed, o porteiro, enquanto os exércitos estrangeiros do Norte continuavam a chegar à cidade. De facto, os estrangeiros haviam chegado já à nossa rua, que ficava exatamente entre a cidade antiga e a Ville Nouvelle, uma cidade nova que estavam a construir para si próprios. Por alguma razão, dizia o meu pai, Alá criou o mundo e separou os homens das mulheres, colocando um mar entre muçulmanos e cristãos. A harmonia existe quando cada grupo respeita os limites dos outros; a transgressão só leva ao arrependimento e à infelicidade. Mas as mulheres sonhavam com o proibido a toda a hora. A sua obsessão era o mundo do lado de lá dos portões. Durante todo o dia fantasiavam passear por ruas desconhecidas, enquanto os cristãos continuavam a atravessar o mar, trazendo consigo a morte e o caos. 9

6 NASCI NUM HARÉM Os problemas e os ventos frios vêm do Norte e nós voltamo- -nos para oriente para rezar. Meca fica longe. Se uma pessoa souber concentrar-se, é possível que as suas orações cheguem lá. Fui ensinada a concentrar-me quando acharam que era o momento adequado. Os soldados de Madrid tinham acampado a norte de Fez e até o meu tio Ali e o meu pai, que eram muito poderosos na cidade e davam ordens a toda a gente em casa, tiveram de pedir licença a Madrid para assistir ao festival religioso de Moulay Abdesslam, a trezentos quilómetros, perto de Tânger. Mas os soldados que estavam do lado de fora do nosso portão eram franceses e pertenciam a outra tribo. Eram cristãos como os espanhóis mas falavam outra língua e viviam mais a norte. A sua capital era Paris. O meu primo Samir dizia que Paris devia ficar a uns dois mil quilómetros e que devia ser duas vezes mais longe do que Madrid, e duas vezes mais feroz. Os cristãos, tal como os muçulmanos, estavam em permanentes disputas entre si, e os espanhóis e os franceses quase se mataram uns aos outros quando atravessaram a nossa fronteira. Depois, quando chegaram à conclusão de que nenhum dos lados conseguia derrotar o outro, decidiram dividir Marrocos ao meio. Puseram soldados próximo de Arbaua e disseram que doravante era necessária uma autorização para ir para norte, porque se passava para o Marrocos espanhol. Para ir para sul era necessária outra autorização, porque se passava para o Marrocos francês. E quem não seguisse escrupulosamente estas determinações, ficava retido em Arbaua, um lugar arbitrário onde haviam construído um portão enorme que, segundo afirmavam, era uma fronteira. Mas o meu pai dizia que Marrocos tinha existido unido durante séculos, que já existia mesmo antes do aparecimento do Islão há catorze séculos. Até então ninguém ouvira falar de uma fronteira que dividisse o solo marroquino em dois. A fronteira era uma linha invisível que só existia na mente dos guerreiros. O meu primo Samir, que por vezes acompanhava o tio Ali e o meu pai nas suas viagens, dizia que para criar uma fronteira bastavam soldados que obrigassem os outros a acreditar nela. Na paisagem 10

7 SONHOS PROBIDOS - MEMÓRIAS DE UM HARÉM DE FEZ propriamente dita nada se altera. A fronteira está na mente dos poderosos. Eu não podia comprovar isto pessoalmente, porque o meu tio e o meu pai diziam que as raparigas não viajam. Viajar é perigoso e as mulheres não podem defender-se. A minha tia Habiba, que fora subitamente repudiada e expulsa de sua casa por um marido a quem amava ternamente, dizia que Alá enviara para Marrocos os exércitos do Norte com o intuito de castigar os homens por terem violado as hudud que protegiam as mulheres. Quando alguém magoa uma mulher, viola a fronteira sagrada de Alá. É ilícito magoar os fracos. A minha tia Habiba chorou durante anos. Educação é conhecer as hudud, as fronteiras sagradas, dizia Lalla Tam, a diretora da escola corânica para onde me mandaram quando eu tinha três anos e que já era frequentada pelos meus dez primos. A minha professora tinha um chicote comprido e ameaçador e eu estava inteiramente de acordo com ela em tudo: a fronteira, os cristãos, a educação. Ser muçulmano era respeitar as hudud. E para uma criança, respeitar as hudud era obedecer. Eu queria desesperadamente agradar a Lalla Tam e por isso, quando ela não me podia ouvir, perguntei à minha prima Malika, dois anos mais velha do que eu, se me mostrava onde ficavam situadas as hudud exatamente. Respondeu-me que a única coisa que sabia com certeza era que tudo correria bem se eu obedecesse à professora. Hudud era tudo o que a professora proibia. As palavras da minha prima tranquilizaram-me e comecei a desfrutar da escola. Mas desde então, procurar a fronteira tornou-se a ocupação da minha vida. A ansiedade consome-me quando não consigo situar a linha geométrica que organiza a minha impotência. A minha infância foi feliz porque as fronteiras eram claras como água. A primeira fronteira era o patamar que separava o salão familiar do pátio principal. De manhã não me deixavam sair para o pátio até a minha mãe acordar, o que significava que tinha de me entreter sozinha sem fazer barulho desde as seis até às oito da manhã. Podia sentar-me no frio patamar de mármore branco, mas não podia juntar-me aos meus primos mais velhos que já estavam a jogar. 11

8 NASCI NUM HARÉM Ainda não sabes defender-te dizia a minha mãe. Até a brincadeira é uma espécie de guerra. Eu tinha medo da guerra, por isso colocava a minha pequena almofada no patamar e jogava ao l-msaria b-lglass (literalmente, «O Passeio Sentado»), um jogo que inventei na altura e que ainda hoje me é extremamente útil. Para jogar são necessárias apenas três coisas: a primeira é permanecer quieto no mesmo sítio, a segunda é termos um lugar onde nos sentarmos, e a terceira é alcançar um estado de ânimo humilde e aceitar que o nosso tempo não vale nada. O jogo consiste em contemplar o território familiar como se fosse algo de estranho para nós. Sentava-me no patamar e contemplava a nossa casa como se nunca a houvesse visto antes. Primeiro havia o pátio, quadrado e severo, onde a simetria dominava tudo. Até a fonte de mármore branco, permanentemente a borbulhar no meio do pátio, parecia controlada e domesticada. A fonte tinha um fino friso de faiança azul e branco que reproduzia o desenho das incrustações que uniam os azulejos quadrados no chão. O pátio era rodeado por uma galeria de arcos, sustentada por quatro colunas a cada um dos cantos. As colunas eram de mármore na base e no capitel; no centro, os azulejos azuis e brancos reproduziam como um espelho os desenhos da fonte e do pavimento. Ao fundo do pátio havia quatro enormes salões dispostos em pares, em frente uns dos outros. Cada salão tinha uma entrada central gigantesca que dava para o pátio, ladeada por duas enormes janelas. De manhã cedo, e também no inverno, as entradas costumavam estar fechadas com as suas portas de cedro, talhadas com desenhos de flores. Mas no verão as portas costumavam estar abertas e as entradas eram cobertas com cortinados de espesso brocado, veludo e renda, que permitiam que a brisa circulasse, mas impediam a entrada da luz e dos ruídos. As janelas do salão tinham postigos de madeira trabalhada no interior, tal como as portas, mas do exterior só se viam as grades prateadas de ferro forjado, encimadas por uns arcos de cristal de cores maravilhosas. Eu gostava daqueles arcos de vidro colorido, pela forma 12

9 SONHOS PROBIDOS - MEMÓRIAS DE UM HARÉM DE FEZ como o sol da manhã ia transformando os seus encarnados e azuis em tonalidades diferentes, e suavizando os amarelos. No verão as janelas ficavam abertas de par em par, tal como as pesadas portas de madeira, e os cortinados só eram corridos à noite e durante a sesta, para proteger o sono. Quando se levantava o olhar para o céu via-se uma bela estrutura de dois andares cujos pisos superiores repetiam a colunata arqueada do pátio, protegida por um parapeito de ferro forjado. E por último havia o céu suspenso no alto mas também de uma forma rigorosamente quadrada, como tudo o resto, e bem marcado num friso de madeira com um desenho geométrico em desmaiados tons ocres e dourados. Contemplar o céu do pátio era uma experiência avassaladora. A princípio parecia domesticado por causa daquela estrutura quadrada feita pela mão do homem. Mas depois o movimento das primeiras estrelas da manhã desvanecia-se lentamente no profundo azul e branco e tornava-se tão intenso que nos entontecia. Na verdade, em alguns dias, especialmente durante o inverno, quando os raios do sol púrpura e rosa intenso expulsavam do céu as últimas estrelas que cintilavam teimosamente, ficavam facilmente hipnotizados. E assim, contemplando o céu quadrado, com a cabeça recostada, deixávamo-nos adormecer; mas precisamente nessa altura as pessoas começavam a invadir o pátio, vindas de todos os lados, das portas e das escadas Ah, quase me esquecia das escadas. Ficavam nos quatro cantos do pátio e eram importantes porque até os adultos se entregavam a uma espécie de gigantesco jogo das escondidas subindo e descendo pelos seus reluzentes degraus verdes. O salão do meu tio, da sua mulher e dos seus sete filhos ficava mesmo em frente do local onde eu estava sentada, e era uma reprodução exata do nosso próprio salão. A minha mãe não admitia diferenças publicamente visíveis entre o nosso salão e o do tio Ali, embora ele fosse o primogénito e a tradição estabelecesse o seu direito a aposentos mais amplos e luxuosos. O meu tio não só era mais velho e mais rico do que o meu pai, como também tinha uma 13

10 NASCI NUM HARÉM família mais numerosa. Nós éramos apenas cinco: a minha irmã, o meu irmão, os meus pais e eu. A família do meu tio era formada por nove pessoas (ou dez, se contássemos com a irmã da sua mulher, que vinha frequentemente de Rabat para visitá-los e que por vezes ficava seis meses seguidos, desde que o marido arranjara uma segunda mulher). Mas a minha mãe, que odiava a vida comunitária do harém e sonhava com um eterno tête-à-tête com o meu pai, só aceitara o que ela chamava o acordo da azma (situações de crise) com a condição de que não fossem feitas quaisquer distinções entre as esposas. Ela desfrutava exatamente dos mesmos privilégios da mulher do meu tio, apesar das suas diferenças de classe. O meu tio respeitava escrupulosamente este acordo porque num harém bem dirigido quanto mais poder se tinha, mais generoso se tinha de ser. Na verdade, os seus filhos dispunham de mais espaço, mas unicamente nos andares de cima, longe do pátio, que era um lugar demasiado público. O poder não devia ser ostentado descaradamente. A nossa avó paterna, Lalla Mani, ocupava o salão à minha esquerda. Só lá íamos duas vezes por dia, uma vez de manhã para lhe beijar a mão e outra vez à noite, para repetir o ritual. À semelhança de todos os outros salões, também o dela estava mobilado com divãs cobertos de brocado de seda e almofadas ao longo das quatro paredes; além de um grande espelho central, que refletia o lado interior da porta e os seus cortinados cuidadosamente dispostos, e um tapete floreado, em tons claros, que cobria completamente o chão. Não podíamos pisar o tapete da minha avó com as babuchas calçadas, e muito menos com os pés molhados, o que era praticamente impossível de evitar durante o verão, porque o chão do pátio era regado duas vezes por dia com água da fonte para o refrescar. Quando era preciso limpá-lo, as jovens da família, como a minha prima Chama e as suas irmãs, aproveitavam a ocasião para jogar a la piscine (a piscina), que consistia em deitar baldes de água para o chão e salpicar «acidentalmente» as pessoas que se encontrassem nas proximidades. Isto, claro, encorajava os mais novos 14

11 SONHOS PROBIDOS - MEMÓRIAS DE UM HARÉM DE FEZ (especificamente o meu primo Samir e eu) a correr para a cozinha e a voltar armados com a mangueira de regar. Nessa altura, sim, encharcávamos toda a gente, e todos gritavam e tentavam deter- -nos. Os nossos gritos incomodavam inevitavelmente Lalla Mani que, zangada, levantava as cortinas e nos avisava que nessa mesma noite faria queixa ao meu tio e ao meu pai. Vou dizer-lhes que já ninguém respeita a autoridade nesta casa dizia-nos. Lalla Mani detestava levar com água, tanto como detestava pés molhados. Na verdade, se íamos falar com ela depois de termos estado junto da fonte, dizia-nos para não nos mexermos um centímetro. Não falem comigo com os pés molhados dizia. Vão secar- -se primeiro. Na opinião de Lalla Mani, qualquer pessoa que violasse a regra dos pés limpos e secos ficava estigmatizada para sempre; e se nos atrevêssemos a cometer a ousadia de pisar ou manchar o seu tapete floreado, recordava-nos a desobediência durante muitos anos. Lalla Mani gostava de ser respeitada, isto é, que a deixassem contemplar o pátio em silêncio, tranquilamente sentada com o seu toucado de joias. Gostava de estar rodeada de um profundo silêncio. O silêncio era o privilégio luxuoso de que apenas desfrutavam os poucos afortunados que podiam permitir-se manter os filhos afastados. Por último, à direita do pátio ficava o salão mais elegante e maior de todos: a sala de jantar dos homens, onde eles comiam, ouviam as notícias, fechavam negócios e jogavam às cartas. Teoricamente, os homens eram os únicos membros da casa que tinham acesso à enorme telefonia guardada no canto direito à entrada do salão; quando a telefonia não estava ligada, as portas do móvel permaneciam fechadas à chave (mas havia altifalantes instalados fora para que todos pudessem ouvi-la). O meu pai estava convencido de que ele e o meu tio tinham as únicas chaves do móvel. No entanto, por estranho que pareça, quando os homens não estavam em casa, as mulheres arranjavam maneira de ouvir a Rádio Cairo regularmente. 15

12 NASCI NUM HARÉM Quando não havia homens à vista, Chama e a minha mãe costumavam dançar ao som das músicas que tocavam e cantavam «Ahwa» (estou apaixonada) com a princesa libanesa Asmahan. Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que os adultos utilizaram a palavra khain (traidores) para se referirem a Samir e a mim quando o meu pai nos perguntou o que havíamos feito enquanto ele estava fora e lhe contámos que tínhamos ouvido a Rádio Cairo. A nossa resposta indicava a existência de uma chave ilegal. Indicava, mais especificamente, que as mulheres haviam roubado a chave para fazerem uma cópia. Se fizeram uma cópia da chave da telefonia, em breve farão uma para abrir os portões da rua resmungou o meu pai. Seguiu- -se uma acesa discussão e as mulheres foram interrogadas uma a uma no salão dos homens; mas ao fim de dois dias de investigação concluiu-se que a chave do móvel devia ter caído do céu. Ninguém sabia de onde surgira. Apesar disso, depois da investigação as mulheres vingaram-se em nós, dizendo que éramos uns traidores e que por isso iriam excluir-nos dos seus jogos. Isto era uma perspectiva aterrorizadora e defendemo-nos alegando que apenas disséramos a verdade. A minha mãe replicou então que havia coisas que com efeito eram verdade, mas que uma pessoa não podia dizê-las: devia guardá-las em segredo. E acrescentou que o que uma pessoa diz e o que guarda em segredo não tem nada a ver com a verdade e com as mentiras. Pedimos-lhe que nos ensinasse a reconhecer a diferença, mas não nos deu nenhuma resposta satisfatória. Têm de julgar por vocês próprios as consequências das vossas palavras disse. Se o que vocês dizem pode prejudicar alguém, então é melhor ficarem calados. Este conselho não nos ajudou grande coisa. O pobre Samir odiava que lhe chamassem traidor. Revoltou-se e exclamou que era livre para dizer o que queria. Eu, como de costume, admirei a sua audácia, mas mantive-me silenciosa. Se, para além de ter de distinguir a verdade das mentiras (o que já me estava a dar bastante 16

13 SONHOS PROBIDOS - MEMÓRIAS DE UM HARÉM DE FEZ trabalho), também tinha de distinguir esta nova categoria de «secreto», acabaria completamente confusa e não teria outro remédio senão aceitar que de vez em quando me insultassem e me chamassem traidora. Um dos meus prazeres semanais era admirar Samir quando organizava os seus motins contra os adultos, e eu sentia que se permanecesse a seu lado nada de mal me aconteceria. Samir e eu tínhamos nascido no mesmo dia, numa longa tarde de Ramadão 1, com uma escassa hora de diferença. Ele nasceu primeiro, no segundo andar, e era o sétimo filho. Eu nasci uma hora depois no salão do andar de baixo; era a primogénita dos meus pais, e embora a minha mãe estivesse exausta, insistiu em que as minhas tias e familiares celebrassem por mim as mesmas cerimónias a que Samir tivera direito. Nunca admitiu a superioridade masculina, que considerava absurda e totalmente antimuçulmana «Alá fez-nos a todos iguais», costumava dizer. A casa, como ela recordaria mais tarde, vibrou pela segunda vez com o tradicional yu-yu-yu-yu 2 e os cânticos festivos, e os vizinhos ficaram confusos porque pensaram que tinham nascido dois rapazes. O meu pai estava excitadíssimo: eu era bastante rechonchuda e tinha a cara redonda «como uma lua», e ele decidiu imediatamente que eu seria muito bela. Para o provocar, Lalla Mani disse-lhe que eu era um pouco pálida de mais e tinha os olhos demasiado rasgados e as bochechas demasiado altas, enquanto Samir tinha «uma bela cor de um moreno dourado e uns olhos pretos aveludados como nunca se vira». A minha mãe contou-me depois que ficara calada, mas que assim que conseguiu pôr-se de pé foi a correr verificar se era verdade que Samir tinha os olhos aveludados, e que efetivamente assim era. Ainda os tem, embora 1 Ramadão, o nono mês sagrado do calendário muçulmano, é cumprido com um jejum que vai do nascer do dia até ao pôr do sol. 2 yu-yu-yu-yu é uma canção alegre que as mulheres cantam para celebrar os acontecimentos felizes, desde o nascimento e o casamento até aos mais simples, tais como o terminar de um bordado ou a organização de uma festa para uma tia velha. 17

14 NASCI NUM HARÉM toda essa doçura aveludada desapareça quando está zangado com alguma coisa, e sempre me perguntei se a sua tendência para se pôr aos saltos quando se revoltava contra os adultos não se deveria muito simplesmente à sua forte constituição. Eu, pelo contrário, era tão rechonchuda que nunca me passou pela cabeça saltar quando alguém me aborrecia; limitava-me a chorar e ia esconder-me entre as pregas do cafetã da minha mãe, que me dizia que eu não podia contar que Samir se revoltaria sempre para me proteger. Tens de aprender a gritar e a protestar, do mesmo modo como aprendeste a andar e a falar. Chorar quando és insultada é como pedir mais. A minha mãe preocupava-se tanto com a ideia de que eu me transformasse numa mulher submissa que durante as férias de verão consultou a avó Yasmina, que era exímia em confrontos. A avó aconselhou-a a deixar de me comparar com Samir e a incitar-me a desenvolver uma atitude protetora para com as crianças mais novas. Há muitas formas de criar uma personalidade forte disse. Uma delas é desenvolver a capacidade de se responsabilizar pelos outros. Ser simplesmente agressiva quando o vizinho do lado comete um erro é uma forma de o conseguir, mas não é certamente a mais elegante. Incitar uma criança a responsabilizar-se pelos mais pequenos no pátio permitir-lhe-á criar defesas. Agarrar-se à proteção de Samir poderia ser uma solução, mas se ela aprender a proteger os outros poderá usar a mesma técnica para se proteger a si própria. No entanto, foi o incidente da telefonia que me ensinou uma lição importante. Foi nessa altura que a minha mãe me explicou a necessidade de mastigar bem as palavras antes de as deixar sair cá para fora. Não abras a boca sem ter mastigado as palavras com os lábios bem fechados disse. Porque uma vez proferidas, podes ter muito a perder. 18

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