OS REFLEXOS DE UM PRETÉRITO IMPERFEITO

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1 OS REFLEXOS DE UM PRETÉRITO IMPERFEITO Helem Juliane de Oliveira Dias Universidade Estadual de Montes Claros- UNIMONTES Grupo de trabalho: Desenvolvimento e Criminalidade (comunicação coordenada) 1. Introdução Um dos maiores desafios da sociedade moderna é auxiliar o sujeito que defronta com obstáculos advindos do encarceramento, seja ele durante o tempo de prisão, ou após esta, quando o egresso se encontra numa situação de liberdade, a do convívio em sociedade. É, a saber, que o sistema prisional brasileiro encontra-se falido, experiências mostram que os ex-presos não são recuperados no atual modelo praticado pelas instituições prisionais. Há falta de recursos, de infra-estrutura e inexistência de prioridade para com o desenvolvimento da cidadania do preso 1. Dentro desta perspectiva, lidar com o egresso é um grande desafio, porque envolve preconceitos. A lei de Execução Penal LEP no art. 26 define egresso estabelecendo duas categorias deste, a primeira compreendendo o condenado libertado definitivamente, que pelo prazo de um ano após sua saída do estabelecimento é assim considerado, compreendendo também aqui o desinternado de Medida de Segurança, pelo mesmo prazo. Outra categoria é o liberado condicional, mas somente durante o seu período de prova. Nesse contexto, o Estado e a sociedade terão de encarar este desafio e buscar soluções urgentes, deste modo a Secretaria de Defesa Social do Estado por meio da Superintendência de Prevenção a Criminalidade, e através do Núcleo de Prevenção a Criminalidade desenvolveu um programa voltado a ressocialização e reintegração social 1 BRASIL. Relatório da Situação do Sistema Prisional Brasileiro. Síntese realizada pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias Câmara dos Deputados em parceria com a Pastoral Carcerária CNBB. Brasília, 2006.

2 de egressos à sociedade: Programa de Reintegração Social de Egressos do Sistema Penitenciário - PRESP, localizado em Montes Claros - MG. 2. O egresso do cárcere resguardado pela lei de execução penal LEP. Em 1984, com a reforma da Parte Especial do Código Penal Brasileiro, promulgou-se a Lei de Execuções Penais - LEP 2. Nesta lei estipula-se que o apenado terá direito à assistência material, à saúde, jurídica, educacional, social e religiosa. Explicita o art. 10 que a assistência ao preso e ao internado é dever do Estado, objetivando prevenir o crime e orientar o retorno à convivência em sociedade. A lei, garantindo uma série de assistência aos presos, amplia o rol dos beneficiados incluindo nele os egressos do sistema penitenciário (BRASIL. Lei 7210, Art. 10, parágrafo único). Quanto ao trabalho, a LEP lhe atribui importância social, sendo caracterizado como dever social e condição de dignidade humana, tendo finalidade educativa e produtiva. Sabe-se que, a contribuição do trabalho prisional dá-se na esfera simbólica, pois consegue distinguir entre presos trabalhadores e presos comuns. Outra constatação que muitos estudiosos evidenciam é quanto ao trabalho prisional não garantir a ressocialização, por ser muito diferente do trabalho fora da prisão; assim, os ofícios aprendidos na prisão, na maioria dos casos, não terão mercado de trabalho fora dela. Deste modo, o trabalho prisional acaba por ser útil apenas para passar o tempo 3, mas não no sentido de reeducar completamente o individuo, com o propósito de torná-lo um trabalhador fora da prisão. Desta forma, se faz necessário observar se os egressos do sistema penitenciário encontram lugar no mercado de trabalho formal ou somente encontram trabalhos informais. E, o que estes percebem que lhes falta para a sua reintegração na sociedade. No art. 25 da Lei de Execução Penal LEP refere-se à assistência ao egresso, consistindo na orientação e apoio para reintegrá-lo à vida em liberdade. Em termos conceituais, entende-se por reintegração social o processo pelo qual a sociedade (re)inclui aqueles que ela excluiu, através de estratégias nas quais esses 'excluídos' tenham uma participação ativa, isto é, não como meros objetos de assistência, mas como sujeitos (SÁ, 2005, p.05). Segundo o Departamento 2 BRASIL, Lei nº 7210, de 13 de julho de Institui a lei de Execução Penal. Diário Oficial da Republica Federativa do Brasil, Brasília, DF, 13/07/ GOFFMAN, Eving. Manicômios, prisões e conventos.7.ed. São Paulo: Perspectiva, RAMALHO,J.R. O mundo do crime: a ordem pelo avesso. 3. ed. São Paulo: IBCCRIM,2002.

3 Penitenciário Nacional DEPEN, órgão do Ministério da Justiça responsável pela definição da política e das diretrizes penitenciárias a serem seguidas pelos Estados da Federação 4, [...] as ações de reintegração social podem ser definidas como um conjunto de intervenções técnicas, políticas e gerenciais levadas a efeito durante e após o cumprimento de penas ou medidas de segurança, no intuito de criar interfaces de aproximação entre Estado, comunidade e pessoas beneficiárias, como forma de lhes ampliar a resiliência e reduzir a vulnerabilidade frente ao sistema penal (DEPEN, site oficial, extraído em 24/09/2009). É importante ressaltar que, ressocializar significa tornar o ser humano capaz de viver em sociedade novamente, consoante à maioria dos homens fazem. A palavra ressocializar poderia, a princípio, referir-se apenas ao comportamento do ex-preso, aos elementos externos que nós podemos resumir da seguinte forma: ressocializar é modificar o comportamento do ex-detento, para que seja harmônica com o comportamento socialmente aceito e não nocivo à sociedade. Entretanto, como sabemos, antes do comportamento existem os valores, nós agimos atuamos em função desses valores. O comportamento é um elemento externo, dessa forma, é essencial influir nos valores diretamente, tornando-os o máximo possível sociáveis. Logo entendemos que, ressocializar não significa apenas dar um emprego ao preso na prisão ou quando ele for libertado, ou não ter preconceitos contra os expresidiários. Estas são atitudes positivas é evidente, todavia, o processo da ressocialização é muito mais complexo e inicia por uma reversão dos valores nocivos do condenado, para valores benéficos para a sociedade. Como conseguir essa transformação é um grande desafio. Tendo em vista os problemas advindos da falência do sistema prisional e o não cumprimento da LEP foi criado um programa voltado à ressocialização e reintegração social de ex-detentos do sistema penitenciário - PRESP. Deste modo, compreendermos a concepção de ressocialização para o programa - PRESP e para os egressos do sistema penitenciário inseridos neste programa, se torna fundamental. Uma vez que, podemos verificar se as idéias estão sendo compatíveis, e assim atingirmos os ex-presos no que estes esperam do programa - PRESP. Portanto, dentro do processo de ressocialização do preso condenado é fundamental uma práxis que resgate, enquanto ainda esteja encarcerado, os seus valores de pessoa, de ser humano, os valores em comum com a sociedade livre. Isto só pode ser 4

4 conseguido através de um ambiente de experiências favorável à assimilação destes. Este ambiente de experiências favorável deve ser o mais amplo possível. O efetivo cumprimento da Lei de Execuções Penais LEP, a qual tem o status de uma espécie de Constituição Federal do preso - é crucial neste processo. Na prática este objetivo de ressocialização é completamente frustrado. E devido às supracitadas razões que Alessandro BARATTA (2002) propõe que o conceito de reintegração social seja repensado de forma crítica. A estigmatização do ex-presidiário é um dos fatores que dificultam sua reintegração, o que acaba provando sua nova exclusão, e consequentemente, o retorno à vida do crime é possível, e provavelmente à vida no cárcere em algum momento futuro (HULSMANN,1993,p.69). A estigmatização tem um aspecto simbólico, que é o da sua representação como ex-presidiário, e assim como um sinal de perigosidade para a sociedade como um todo (família, mercado de trabalho, polícia ) e tem também um aspecto material, que é o da personalidade estigmatizada desenvolvida pelo preso na cadeia e agora reforçada, quando em liberdade. Num momento em que se busca resgatar valores humanos, a exclusão social dos egressos do sistema penitenciario manifesta de diversas formas e assume, muitas vezes, um refinamento que assusta a todos. Atos aparentemente simples desta exclusão, implica privações, falta de recursos ou de uma forma mais abrangente ausência de cidadania. Deste modo, é importante compreendermos o que os ex-detentos pensam sobre sua realidade social. 3. O Programa de Reintegração Social de Egressos do Sistema Penitenciário - PRESP A pesquisa busca perceber a atuação de um programa desenvolvido pela Secretaria de Defesa Social do Estado por meio da Superintendência de Prevenção a Criminalidade, e através do Núcleo de Prevenção a Criminalidade, voltado a ressocialização e reintegração social de egressos à sociedade: Programa de Reintegração Social de Egressos do Sistema Penitenciário - PRESP, localizado em Montes Claros - MG. Este programa atende aos egressos liberados definitivamente do sistema penitenciário, em livramento condicional, em prisão domiciliar e em prisão albergue, somente quando houver alguma condição imposta pelo juiz que viabilize a atuação do

5 programa. O programa também atende aos pré-egressos, e ainda amplia o rol de beneficiados atendendo também os familiares destes egressos. O objetivo do programa - PRESP é promover a construção da cidadania, fortalecendo o vínculo familiar, proporcionando a inclusão produtiva, viabilizando condições de auto-sustentabilidade e evitando a reincidência criminal. Portanto, o programa age preventivamente no combate à violência e criminalidade; acolhendo sujeitos do sistema prisional e seus familiares; desta forma o programa compõe rede de ação integrada; promove políticas públicas de inclusão social; rompe com ciclos de violência; minimiza a vulnerabilidade pessoal do sujeito do sistema prisional e seus familiares e dispõe de condições para formação de Agente de Promoção de Cidadania. Sabemos que, a saída do sistema penitenciário coloca para o preso uma situação dificil, de extrema complexidade, no que concerne ao modo de sobrevivência que virá desenvolver, pois retorna a sociedade despreparado e estigmatizado como criminoso, destarte o programa PRESP se manifesta positivamente na vida destes egressos. Além da dificuldade de enfrentar determinadas situações da vida livre devido ao desculturamento, proveniente do período de tempo levado em regime fechado, o expresidiario terá de conviver com o estigma e a rejeição. Diante disso, além de deixar o preso em uma posição inferior ao que ocupava, leva-o a sentir piedade de si próprio. O estigma é conceituado por GOFFMAN (1978,p.29) como um atributo que torna diferentes dos outros(...) deixamos de considerá-lo criatura comum e total, reduzindo-o a uma pessoa estranha e diminuida. Consequentemente, este se torna um instrumento de exclusão social, à medida que comprova que o individuo é um ex-presidiario. Assim, a pesquisa parte do pressuposto de que o fato a prisão não garantir a ressocialização dos egressos do sistema penitenciário é de extrema importância criar um mecanismo para amparar estas falhas, assim o Programa de Reintegração Social de Egressos do Sistema Penitenciário - PRESP obtém resultados significativos no que concerne a reintegração e ressocialização dos ex-presos, haja vista que tanto um como o outro percebem como ressocialização e reintegração social o acesso ao emprego e a capacitação profissional. Porém, mesmo diante destas supracitadas condições, o egresso percebe que a sociedade o rejeita, o estigmatiza e o repugna. 4. Cárcere, sistema punitivo, mercado de trabalho: interpretações sobre a sua realidade.

6 Durkheim (1983) nos expõe que o crime é produzido pela sociedade em termos abstratos e praticado em concreto por um determinado membro da sociedade, que não aderiu à ordem social. A teoria estrutural-funcionalista de Durkheim (1983) nos revela que o crime é normal em determinado limite. O que podemos perceber é que os indivíduos não partilham entre si os mesmos sentimentos com a mesma intensidade, uns interiorizam alguns sentimentos mais do que outros, o que implica que possa existir conduta que pelo seu grau de desvio venham a apresentar-se como criminosas. Destarte, mais do que normal o crime também é necessário para promover a mudança e desta forma a evolução da sociedade. Deste modo, tratar do crime como um fato social de caráter normal e necessário, permite-lhe-a reabilitar cientificamente o fenômeno criminal e demonstrar que na prática do crime poderá depender não tanto do individuo, que de acordo com esta concepção age e pensa sob a pressão dos múltiplos constrangimentos que se desenvolve na sociedade, mas, diversamente poderá apresentar em abstrato uma ampla raiz de imputação social. Segundo Durkheim (1983) a sociedade não é produto da ação e da consciência individual. A sociedade é para ele um depositório de valores que de uma forma mais ou menos regular se consensualiza. Desta forma, a sociedade funciona como um ambiente verdadeiramente condicionador da ação individual. A teoria das subculturas criminais de Cloward-Ohlin e Sutherland citado por Baratta (2002, p.10-11) nos mostra que a desigual distribuição estrutural do acesso a meios legítimos para realizar metas culturais compele minorias desfavorecidas para modelos de comportamentos desviantes, difundidos por aprendizagem através da comunicação e a associação subcultural: a existência estratificada dos grupos sociais, com valores e normas específicos interiorizados por aprendizagem, permitiria contextualizar o comportamento em sistemas valorativos e normativos concorrentes (...) e assim, explicar o crime como atitude conforme a valores e normas sociais e não, propriamente, como atitudes contrárias aos valores e normas sociais. (...). Se a escolha dos sistemas de valores e de normas não é livre, mas determinada por condições sociais e por mecanismo de aprendizagem e de comunicação subcultural, poderia parecer inconsistente uma concepção ética da culpabilidade, que reprova pela atitude interior como expressão de livre determinação contra valores institucionalizados.

7 Contudo, se a sociedade condiciona a ação individual o individuo não se torna somente o responsável pela a sua ação, deste modo, a sociedade tem que criar mecanismos para deter algumas falhas que poderão surgir, como por exemplo, alguns indivíduos causarem a desordem social, e um destes mecanismos é a pena. Para Beccaria (1998) o fim da pena é a defesa social. A pena não tem, ou não tem somente, a função de retribuir, mas de prevenir o crime. Do mesmo modo que, uma sanção abstratamente prevista pela lei, tem a função de criar uma justa e adequada contramotivação ao comportamento criminoso. Argumenta-se então que, a sanção concreta exerce a função de ressocializar o delinqüente; desta forma afirma Romagnosi citado por Baratta (2002,p.35) se depois do primeiro delito existisse uma certeza moral de que não ocorreria nenhum outro, a sociedade não teria direito algum de puni-lo (o delinqüente). Não obstante, a pena não é o único meio de defesa social, temos que ambicionar a prevenção do delito, através do melhoramento e desenvolvimento das condições de vida social. Na análise do capitalismo contemporâneo Baratta (2002) nos apresenta a relação entre cárcere/marginalização social, onde o cárcere seria o momento culminante de mecanismos de criminalização, inteiramente infrutuoso para reeducar os condenados, uma vez que a educação deve promover a liberdade e o auto-respeito; mas sabe-se que o cárcere produz degradação e repressão. Consequentemente, a pena não pode transformar homens violentos em indivíduos sociáveis, portanto, institutos penais não podem ser institutos de educação. Segundo Baratta (2002), a prisão se caracteriza por dois processos complementares: um processo de desculturação em face da sociedade, com redução da vontade, perda do senso de responsabilidade, formação de imagens ilusórias da realidade e distanciamento progressivo dos valores sociais; e um outro processo de aculturação em face da prisão, com absorção de valores e adoção de modelos de comportamento próprios da cultura carcerária: o condenado ou assume o papel de bom preso, com atitudes de conformismo e oportunismo, ou assume o papel de criminoso, compondo a minoria dominante na cárcere, com poder sobre recursos e culto à violência ilegal. Rusche e Kirchheimer (2004) complementam o que Baratta (2002) nos manifesta e estes nos exibem as relações existentes entre mercado de trabalho, sistema punitivo e cárcere.

8 É, a saber, que o mercado de trabalho no sistema capitalista assume uma dimensão não só econômica, mas política e econômica ao mesmo tempo, sobre a qual influi o sistema de status e o poder estatal. É claro que, o processo de exclusão implicado no mercado de trabalho representa um terreno de cultura para a marginalização criminal. Desta forma, a tentativa de executar uma ressocialização mediante o trabalho não pode, portanto, ter sucesso, sem incidir sobre a exigência própria da acumulação capitalista de alimentar periodicamente a exclusão. A marginalização criminal revela o caráter impuro da acumulação capitalista, que implica necessariamente os mecanismos econômicos e políticos do parasitismo e da renda. A esperança de socializar, através do trabalho setores da marginalização criminal, se choca com a lógica da acumulação capitalista, que tem necessidade de manter ativos setores marginais do sistema e mecanismos de renda e parasitismo. Ou seja, é impossível enfrentar o problema da marginalização criminal sem incidir na estrutura da sociedade capitalista, que tem necessidade de desempregados, que tem necessidade por motivos ideológicos e econômicos, de uma marginalização criminal. Diante disso, Young (2002) nos revela de maneira espetacular a questão da exclusão social e afirma que, o essencialismo dá uma base cultural de conflitos e é o pré-requisito necessário para a demonização de partes da sociedade. O autor expõe que a demonização é importante porque permite que os problemas da sociedade sejam colocados nos ombros dos outros, em geral percebidos como atuados na margem da sociedade. Ocorre então a inversão da realidade causal, em vez de reconhecer que temos problemas na sociedade por causa do núcleo básico de contradições na ordem social, afirma-se que todos os problemas da sociedade são devidos aos próprios problemas. Deste modo, o crime é moeda forte desta demonização, ou seja, a imputação de criminalidade ao outro desviante é uma parte necessária da exclusão (YOUNG,2002,p.165). Diante disso, Young (2002) afirma que a exclusão social ameaça o sentido de identidade de um individuo ou grupo, torna-o ontologicamente inseguro, abrindo-o assim à adoção de essências; ainda esta exclusão faz com que os atores podem adotar também essências para compensar uma falta de identidade; e finalmente por bloquear oportunidades a exclusão social tanto materialmente quanto em termos de possibilidade de adotar identidades alternativas, pode ser realizadora das aspirações do individuo.

9 De Giorgi (2006) reafirma o que Young (2002) nos expõe sobre a necessidade de projetar o problema no outro desviante ou em classes perigosas, e nos mostra que a metrópole pós-fordista isola, no seu interior, espaços de reclusão que desarticulam violentamente as multidões, reproduzindo uma separação artificial entre aquilo que o autor define como excesso negativo e excesso positivo 5, diferenciando seletivamente as possibilidades de movimento e interação. Assim, dentro do ambiente citadino existe uma série de controles, e estes controles se materializam numa arquitetura que não regula o encontro, mas o impede, não governa a interação, mas cria barreiras a ela, não disciplina as presenças, mas as torna invisíveis. (DE GIORGI,2006, p.104). Assim, cria-se no ambiente da cidade resistências simbólicas e fronteiras materiais que produzem a exclusão social. A contenção do excesso negativo alimenta a sua construção social como classe perigosa, como entidade imprevisível. Então se evidencia a decadência de um poder disciplinar que cultivava a ambição de produzir sujeitos úteis, e alvorecer de um poder de controle que se limita a vigiar populações cujas formas de vida não conseguem alcançar. Deste modo, tem por conseqüência, o desvio, o autor nos expõe que, visto no contexto da interação social, é essencialmente, mais projetado do que materializado, mais temido do que deplorado, mais evitado do que contrastado, mais prevenido do que suprimido. De Giorgi (2006) nos mostra que trata-se de uma esfera sociocognitiva completamente renovada que emerge do conflito bem delineado entre territórios governados e outros perigosos. Dentro desta perspectiva, de fazer incidir o problema no outro desviante ou em classes perigosas Poternoster e Iovanni (1996) nos favorece com as perspectivas da rotulagem e delinqüência e elaboram uma teoria e uma avaliação das evidencias; estes autores trabalham com duas teorias: A teoria do conflito onde o poder político/econômico determina o que e quem é rotulado, assim a definição do desvio é baseada na norma. 5 O excesso negativo se define como um conjunto de subjetividades que excedem a lógica governamental, haja vista a ênfase na contradição entre uma cidadania social ainda baseada no trabalho e uma esfera produtiva que cada vez menos tem necessidade do trabalho braçal. O excesso positivo representa assim, o conjunto de subjetividades que excedem a racionalidade capitalista pois agudizam a contradição entre uma potencialidade produtiva sem limites e cooperativa e um arranjo das relações de produção que cria obstáculos à autonomia do comando capitalista, impondo às relações de produção uma valorização baseada na competição ( YOUNG,2002,p. 90)

10 Poternoster e Iovanni (1996) nos mostram que a orientação do conflito na teoria da rotulagem se manifesta em diversos níveis de análise: Elaboração coletiva de regras, quando grupos econômicos e politicamente mais poderosos utilizam da suas influências para definir como fora da lei os comportamentos que consideram ofensivos e dirigem a elaboração das regras contra grupos identificados como envolvidos nessa atividade; processamento organizacional onde o processo de rotulagem e negociação dos rótulos nas agências de controle social de nível médio; e relações interpessoais onde acontece a negociação acerca do rótulo nos encontros do dia-a-dia. Poternoster e Iovanni (1996) também trabalham com a teoria do interacionismo simbólico onde estes nos revelam que as experiências de ser rotulados é instrumental para a criação tanto de um caráter quanto de um estilo de vida mais desviante. Deste modo é interessante identificarmos que o individuo após ser rotulado, pode se comportar aceitando este rotulo ou negando-o. Porém, o fato de ser rotulado traz algumas conseqüências; se o fato é mantido particular a atribuição do rotulo não leva ao desvio secundário; deste modo ser rotulado não o exclui das rotinas normais da vida. Agora, se o status de desviante dos atores é amplamente divulgado é mais provável que este autor sofra práticas de exclusão. Os teóricos caracterizam a reação societal e o processo da rotulagem como abrangendo: uma audiência social hostil que imputa atribuições negativas ao caráter, o que pode também restringir o acesso do ator as atividades e oportunidades normais; ao apoio por parte de uma audiência não desviante, o que pode fazer imputações não desviantes ao ator, permitindo-lhe rejeitar as prescrições negativas e manter rotinas normais abertas; e também apoio por parte de uma audiência desviante que pode tornar a aceitação por parte do ator menos solitária, apresentando-lhe ao mesmo tempo rotinas e oportunidades desviantes. 5. O método de investigação Com o propósito de investigar a realidade social dos egressos do sistema penitenciário define-se a abordagem qualitativa como a mais adequada para este estudo. Isso se justifica pelos conceitos dados à pesquisa qualitativa, como uma atividade que situa o pesquisador no mundo do sujeito, por meio de um conjunto de interpretações, materiais e práticas que tornam esse mundo visível e o transformam. As práticas que constituem a pesquisa qualitativa traduzem o mundo em uma série de representações, tornando-a um método interpretativo, que estuda os fenômenos

11 na sua área natural, buscando os significados que as pessoas dão a eles (DENZIN e LINCOLN, 2006). Galvão (2004) se refere à pesquisa qualitativa como muito rica em termos de reflexibilidade e de possibilidades de atuação, caracterizada por um aspecto multidirecional, porém fundamentada, principalmente, por leituras da área especifica em questão. Denzin e Lincon (2006) comentam a respeito da palavra qualitativa, cuja implicação está na ênfase às qualidades, processos e significados que não são experimentalmente examinados ou medidos em termos de quantidade, soma, intensidade ou freqüência, mas sim destacada a natureza da realidade construída socialmente, a relação entre pesquisador, pesquisado e aquilo que está sendo estudado, bem como as situações restritas que incorporam a investigação. Ao apontar o caráter natural do estudo, busca-se investigar o que diz respeito ao modo como uma experiência social é construída e o significado dado a ela. Para isso, a pesquisa qualitativa dispõe de uma variedade de práticas interpretativas, procedimentos e instrumentos, a fim de obter uma melhor compreensão do assunto estudado. Entretanto, cada uma delas torna o mundo visível de uma forma diferente. Dai a importância do comprometimento quanto ao uso dessas práticas e instrumentos de coletar de dados em qualquer que seja a pesquisa. A pesquisa será realizada com os egressos do sistema penitenciário inseridos num programa desenvolvido pela Secretaria de Defesa Social do Estado por meio da Superintendência de Prevenção a Criminalidade e através do Núcleo de Prevenção a Criminalidade, voltado a ressocialização e reintegração social de egressos à sociedade: Programa de Reintegração Social de Egressos do Sistema Penitenciário - PRESP, localizado em Montes Claros. Utilizaremos do método funcionalista,uma vez que este como afirma Lakatos (1991) é a rigor mais um método de interpretação do que de investigação, levando em consideração que a sociedade é formada por partes componentes, diferenciadas, inter-relacionadas e interdependentes, satisfazendo, cada uma, funções essenciais da vida social, e que as partes são bem mais entendidas compreendendo-se as funções que desempenham no todo. O método funcionalista considera, de um lado, a sociedade como uma estrutura complexa de indivíduos, reunidos numa trama de ações e reações sociais; de outro, como um sistema de instituições correlacionadas entre si, agindo e reagindo umas em relação às outras(lakatos,1991,p.110).

12 Como instrumentos de coleta de dados utilizaremos entrevistas não dirigida individual. Considera-se esse instrumento adequado aos objetivos propostos neste estudo, visto que apresenta grande possibilidade de obtenção de informações com maior profundidade a respeito das experiências e raciocínio dos participantes. Lakatos (1991) expõe os benefícios da entrevista não dirigida, uma vez que existe uma liberdade total do entrevistado em expressar suas opiniões e sentimentos. Assim a função do entrevistador é o de incentivo, levando o entrevistado a falar sobre determinado assunto. Chizzotti (2005) nos afirma ainda que o acesso as informações mais significativas requer alguns cuidados especiais. O entrevistador deve manter em escuta ativa e com a atenção receptiva a todas as informações prestadas, quaisquer que sejam elas, intervindo com discretas interrogações de conteúdos ou com sugestões que estimulem a expressão mais circunstanciada de questões que interessem a pesquisa.a atitude disponível à comunicação, a confiança manifesta nas formas e escolhas de um diálogo descontraído devem deixar o informante inteiramente livre para exprimir-se, sem receio, falar sem constrangimentos sobre seus atos e atitudes, interpretandoos no contexto em que ocorrem (CHIZZOTTI,2005,p.93) O critério de seleção para participar da pesquisa, se constituiu na caracterização dos egressos inseridos no programa, PRESP. Como forma de avaliação do papel que o programa desempenha e compreendermos a concepção da ressocialização do programa buscaremos saber a partir de entrevistas não dirigidas, quais as visões de sua diretoria, de seus voluntários, funcionários e parceiros, quanto a atuação do programa. 6. REFERÊNCIAS BECCARIA, Cesare Bonesana. Dos Delitos e das Penas. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998 BAUER, Martins W; GASKELL, George. Pesquisa Qualitativa com textos, imagem e som: um manual pratico. Tradução de Pedrinho A. Guareschi. Petrópolis: Vozes, BARATTA, Alessandro. Criminologia Critica do Direito Penal: introdução a sociologia do direito penal; tradução Juarez Cirino dos Santos. 3ª ed. Rio de janeiro: Revan: Instituto Carioca de criminologia, 2002.

13 BRASIL, Lei nº 7210, de 13 de julho de Institui a lei de Execução Penal. Diário Oficial da Republica Federativa do Brasil, Brasília, DF, 13/07/1984. BRASIL. Relatório da Situação do Sistema Prisional Brasileiro. Síntese realizada pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias Câmara dos Deputados em parceria com a Pastoral Carcerária CNBB. Brasília, CHIZZOTTI, Antonio. Pesquisa em ciências humanas e sociais.7.ed. São Paulo: Cortez, DENZIN, Norman; LINCOLN, Yvonna. O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. Porto Alegre, Bookman,2006. DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. 2ª ed. Trad. de Margarida Garrido Esteves. São Paulo, Abril Cultural, (Coleção Os Pensadores) GALVÃO, Afonso Celso T. Pesquisa Qualitativa. Texto de apoio à aula. Brasília:UCB,2004. GIORGI, Alessandro De. A miséria governada através do sistema penal. Rio de Janeiro: Revan:ICC, GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar,1978. GOFFMAN, Eving. Manicômios, prisões e conventos.7.ed. São Paulo: Perspectiva, HULSMAN, Louk, CELIS, Jacqueline Bernat de.penas perdidas; o sistema penal em questão. Rio de Janeiro : Lumen, LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos de Metodologia Cientifica. 3.ed. São Paulo: Atlas,1991. SÁ, A. A.Sugestão de um esboço de bases conceituais para um sistema penitenciário. In: Manual de Projetos de Reintegração Social. Governo do Estado de São Paulo / Secretaria da Administração Penitenciária, YOUNG,Jock. A sociedade excludente: exclusão social, criminalidade e diferença na modernidade recente. Rio de Janeiro: Revan, Site consultado :

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