NETTE. Limpei a mão suja aos calções e atendi.

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1 PRIMEIRA PARTE

2 1 Fiz balançar a marreta, num ritmo preguiçoso. Era quinta-feira, dia 25 de Dezembro, pouco depois do meio-dia. A parede era espessa e obstinadamente dura. Cada baque surdo era seguido por uma explosão de lascas de tijolo e cimento, que voavam sobre o soalho de tábua como estilhaços de granada. Sentia o suor a escorrer entre a poeira que me cobria o rosto e o tronco. Estava um forno ali dentro, apesar das janelas abertas. Entre marretadas, ouvi a campainha do telefone. Não me apetecia quebrar o ritmo. Com aquele calor, ia ser difícil retomá-lo. Pousei lentamente o longo cabo da marreta e dirigi-me para a sala de estar, pisando as lascas sob os pés nus. O visor do telefone indicava JEA- NETTE. Limpei a mão suja aos calções e atendi. Jis. Feliz Natal. A voz grossa de Jeanette Louw transbordava de uma ironia inexplicável. Como sempre. Obrigado. Igualmente. Deve estar um calorzinho agradável por aí Trinta e oito graus lá fora. No Inverno, ela dizia «Deve estar um friozinho agradável por aí», exprimindo um pesar indisfarçado pela minha escolha de local de residência. Loxton prosseguiu ela, em tom de quem alude a uma gafe. Pois bem, parece que vais ter de suar e aguentar. Que se faz no Natal, por esses lados? Demole-se a parede entre a cozinha e a casa de banho. Disseste a cozinha e a casa de banho? Era assim que construíam as casas nos velhos tempos. E é assim que festejas o Natal. São antigas tradições rurais, heim? Depois emitiu um único «Ha!» sonoro. 9

3 Eu sabia que ela não me tinha telefonado para me desejar Feliz Natal: Tens um trabalho para mim. Hum-hum. Turista? Não. Uma mulher da Cidade do Cabo. Diz que foi atacada ontem. Quer-te por uma semana, mais ou menos. Já depositou a entrada. Pensei no dinheiro. Estava precisado. Sim? Está em Hermanus. Vou enviar-te a morada e o número do telemóvel por SMS. Vou dizer-lhe que estás a caminho. Telefona-me se tiveres algum problema. Vi Emma le Roux pela primeira vez numa casa de praia, com vista para o Porto Velho de Hermanus. A casa era imponente, três pisos de recreio neo-toscano para ricos, com uma porta de madeira trabalhada à mão e uma aldraba em forma de cabeça de leão. Às sete menos um quarto da noite de Natal, a porta foi aberta por um jovem de cabelo comprido encaracolado e óculos com aros de aço. Apresentou-se como sendo Henk e declarou que estavam à minha espera. Reparei na curiosidade que ele sentia, embora a disfarçasse bem. Convidou-me a entrar e pediu-me que esperasse na sala, enquanto ia chamar a «Menina le Roux». Um homem formal. Ouviam- -se ruídos vindos do fundo da casa. Música clássica, conversa. No ar pairava um odor a cozinhados. O jovem desapareceu. Não me sentei. Após seis horas ao volante do meu Isuzu, atravessando o Karoo, preferia estar de pé. Na sala havia uma grande árvore de Natal artificial, com agulhas de plástico e neve fingida, envolta em luzes multicoloridas que piscavam e rematada por um anjo de cabelo louro comprido, com as asas abertas como uma ave de rapina. Atrás da árvore, as grandes janelas estavam abertas. A baía estava lindíssima ao fim da tarde, com o mar calmo e tranquilo. Pus- -me a contemplar a vista. Sr. Lemmer? Voltei-me. Ela era pequena e esguia. Usava o cabelo preto cortado muito curto, quase como o de um homem. Tinha os olhos grandes e escuros, as orelhas ligeiramente pontiagudas. Parecia uma ninfa saída de um conto infantil. Parou por um momento, a olhar para mim, aquele olhar invo- 10

4 luntário, de cima a baixo, medindo-me em comparação com as suas expectativas. Disfarçou bem o desapontamento. Geralmente, os clientes esperam uma figura maior, mais imponente, e não a mediania do meu porte e da minha aparência. Aproximou-se de mim e estendeu-me a mão: Sou Emma le Roux apresentou-se. A sua mão era quente. Olá. Sente-se, por favor. Gesticulou na direcção dos sofás. Posso oferecer-lhe uma bebida? A sua voz tinha um timbre inesperado, como se pertencesse a uma mulher maior. Não, obrigado. Sentei-me. Os movimentos do seu corpo pequeno eram fluidos, como se ela se sentisse completamente à vontade na sua pele. Sentou- -se à minha frente e encolheu as pernas, com o à vontade de quem está em sua casa. Perguntei-me se a casa seria dela e de onde teria vindo o dinheiro. Eu, hã Acenou com a mão. Isto é uma estreia para mim, ter um guarda-costas Não sabia ao certo como devia responder. As luzes coloridas da árvore de Natal reflectiam-se na sua pele, piscando com uma regularidade monótona. Talvez possa explicar-me como funciona pediu Emma, sem qualquer embaraço. Na prática, quero eu dizer. Apeteceu-me responder que quem contrata este tipo de serviços devia saber como funcionam. Não existe um manual de referência. É bastante simples. Para a proteger, preciso de conhecer os seus movimentos diários Claro. E a natureza da ameaça. Ela anuiu. Bem Não tenho a certeza do que é a ameaça. Aconteceram umas coisas esquisitas Carel convenceu-me Vai conhecê-lo daqui a nada; ele já utilizou os vossos serviços. Eu houve um ataque, ontem de manhã. Contra si? Sim. Bem, mais ou menos Eles arrombaram a porta da minha casa e entraram lá dentro. Eles? Três homens. 11

5 Estavam armados? Não. Sim. Eles, hum Aconteceu tudo tão depressa... Eu... eu mal os vi. Suprimi o impulso de arquear as sobrancelhas. Sei que parece peculiar disse ela. Fiquei calado. Foi estranho, Sr. Lemmer. Como que irreal. Fiz um sinal de assentimento, encorajando-a a continuar. Ela fitou-me atentamente por um instante, depois inclinou-se para ligar um candeeiro ao seu lado. Tenho uma casa em Oranjezicht começou ela. Então esta casa não é a sua residência permanente? Não esta casa é do Carel. Estou cá de visita. Vim passar o Natal. Compreendo. Ontem de manhã Queria acabar o meu trabalho antes de fazer as malas para o fim-de-semana O meu escritório Trabalho a partir de casa, compreende. Por volta das nove e meia fui tomar um duche No princípio, a história não fluiu com naturalidade. Emma parecia relutante em reviver os acontecimentos. As suas frases eram incompletas, as mãos permaneciam quietas, o tom da voz polida mantinha-se monocórdico e indiferente. Deu mais detalhes do que a situação exigia. Talvez sentisse que esses pormenores lhe conferiam credibilidade. Depois do duche, estava no quarto a vestir-se, com uma perna metida nas calças de ganga, o corpo num equilíbrio precário. Ouvira a cancela da frente abrir-se e, através da cortina de renda, vira três homens avançarem com rapidez e determinação pelo jardim. Antes que eles desaparecessem do seu campo de visão, aproximando-se da porta da frente, notara que tinham as feições ocultas por gorros de esqui. Todos traziam objectos contundentes nas mãos. Emma era uma mulher solteira moderna. Consciente. Ponderara várias vezes a possibilidade de ser vítima de um crime e qual seria a reacção de emergência a tomar, no caso de acontecer o pior. Assim, enfiara a outra perna nas calças de ganga e puxara estas apressadamente para cima. Estava apenas semi-vestida, com roupa interior e as calças de ganga, mas a sua prioridade consistia em chegar ao botão de pânico e estar preparada para premir o alarme. Contudo, não o premiria logo; ainda havia a porta de segurança e as barras contra ladrões. Não queria sujeitar-se ao embaraço de dar um falso alarme. 12

6 Os seus pés nus deslocaram-se rapidamente sobre a alcatifa até ao botão de pânico, instalado na parede do seu quarto. Levantara o dedo e esperara. O seu coração batia violentamente, mas ainda não perdera o controlo. Então ouvira o guincho de metal a vergar e a quebrar. A porta de segurança já não era segura. Premira o alarme, que começara a uivar no tecto, provocando-lhe uma súbita vaga de pânico. Nesse ponto, deu a impressão de se deixar finalmente levar pela narrativa. As suas mãos começaram a comunicar, a sua voz adquiriu um tom musical, mais agudo. Emma le Roux correra para a cozinha. Tinha uma vaga consciência de que gatunos comuns não utilizavam aquele método. Isso alimentava o seu terror. Na sua precipitação, esbarrara na porta de madeira, com um baque surdo. Com as mãos a tremer, puxara os dois ferrolhos e rodara a chave na fechadura. No instante em que abrira a porta das traseiras, de repelão, ouvira o som de vidro a estilhaçar-se no átrio. A porta da frente fora arrombada. Os intrusos estavam dentro de casa. Dera um passo para o exterior, detivera-se, voltara à cozinha e pegara num pano de limpar a loiça. Pretendia cobrir-se com ele. Mais tarde, censurar-se-ia por ter cometido um acto tão irracional, mas fora instintivo. Hesitara mais uma fracção de segundo. Deveria agarrar numa arma, numa faca de cozinha? Suprimira esse impulso. Correra para a luz do sol, com o pano da loiça comprimido contra os seios. O pátio lajeado das traseiras era muito pequeno. Olhara para o muro alto de betão que se destinava a protegê-la, a barrar a entrada ao mundo exterior. Agora estava a barrar-lhe a fuga a ela. Pela primeira vez, gritara «Socorro!». Um grito de aflição dirigido a vizinhos que não conhecia: aquilo era a Cidade do Cabo, onde as pessoas guardavam as distâncias, recolhiam as pontes todas as noites, se mantinham reservadas. Ouvia o ruído dos intrusos dentro de casa. Um deles bradava qualquer coisa. Dera com os olhos no caixote do lixo preto, encostado ao muro de betão: um degrau para a segurança. Socorro! gritara, por entre os uivos ululantes do alarme. Não se lembrava de como conseguira escalar o muro. Mas o certo é que o fizera, com um ou dois movimentos alimentados pela adrenalina. O pano da loiça perdera-se algures no caminho, pelo que aterrara sem ele no pátio do vizinho. Raspara o joelho esquerdo nalguma coisa, mas não sentira qualquer dor. Só mais tarde reparara no pequeno rasgão aberto na ganga. 13

7 Ajudem-me. A sua voz era estridente e desesperada. Cruzara os braços sobre o peito, para preservar a decência, e correra para a porta das traseiras da casa vizinha. Ajudem-me! Ouvira o estrondo do caixote do lixo do outro lado do muro e soubera que os assaltantes a perseguiam de perto. A porta abrira-se, à sua frente, dando passagem a um homem grisalho, metido num roupão vermelho com pintas brancas. Trazia uma espingarda na mão. As sobrancelhas cor de prata eram longas e espessas, destacando-se como asas na sua testa. Ajude-me repetira ela, com o alívio na voz. O vizinho pousara os olhos nela por um segundo, vendo uma mulher adulta com uma figura de rapazinho. Depois arqueara as sobrancelhas e erguera o olhar para o muro. Apoiara a espingarda ao ombro e apontara. Emma já quase o alcançara e resolvera arriscar um olhar para trás. Um gorro de esqui surgira por um momento acima do muro de betão. O vizinho disparara. O tiro reverberara contra os vários muros que os rodeavam e a bala fora cravar-se na parede da casa dela, com um som de palmas. Durante três ou quatro minutos, Emma não conseguira ouvir nada. Ficara junto do vizinho, a tremer. Ele não olhara para ela, ocupando-se a remexer na lingueta da espingarda. Um cartucho vazio caíra ao chão, sem que ela ouvisse qualquer ruído, devido ao seu estado de surdez momentânea. O vizinho esquadrinhara o muro. Filhos da mãe resmungara, apontando de novo e fazendo oscilar a espingarda horizontalmente, de maneira a cobrir toda a área. Emma não sabia quanto tempo lá tinham ficado. Os atacantes haviam partido. De súbito, recuperara a audição e ouvira de novo o alarme. Por fim, o vizinho baixara a arma e perguntara-lhe, numa voz carregada de preocupação e de sotaque da Europa de Leste: Está bem, minha querida? Ela desatara a chorar. 14

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