LITERATURA PROF. LUCIANO
VANGUARDAS EUROPÉIAS Ruptura com o padrão de arte e sociedade do século XIX
Entende-se, com este termo vanguarda -, um movimento que investe um interesse ideológico na arte, preparando e anunciando deliberadamente uma subversão radical da cultura e até dos costumes sociais, negando em bloco todo o passado e substituindo a pesquisa metódica por uma ousada experimentação na ordem estilística e técnica. Giulio Carlo Argan
A palavra vanguarda deriva do termo francês avantgarde, termo militar que designa aqueles que, durante uma campanha, vão à frente da unidade. A partir do início do século XX, passou a ser empregada para designar aqueles que, no campo das artes e das ideias, estavam à frente do seu tempo. Ou seja, passou a definir artistas e intelectuais que, não satisfeitos com o que então se produzia, buscaram novas formas de expressão artística, tanto na linguagem como na composição.
INÍCIO DE SÉCULO NA EUROPA As transformações tecnológicas por que o mundo passou na virada do século modificaram as maneiras de o homem perceber a realidade. A eletricidade, o automóvel, o avião, o cinema deslocaram e aceleraram o olhar do homem moderno. Em meio a essas transformações surgem várias manifestações artísticas Futurismo, Expressionismo, Cubismo, Dadaísmo e o Surrealismo -, que ficariam conhecidas como correntes de vanguarda, que, conjugadas, dariam origem ao Modernismo.
FUTURISMO Lançado por Marinetti no manifesto Le Futurisme, 1909. Surge entre o Simbolismo e a 1ª Guerra Mundial. Exalta a vida moderna. Culto da máquina e da velocidade. Destruição do passado e do academicismo Liberdade de expressão.
Alguns trechos do Manifesto Futurista lançado em 20 de fevereiro de 1909. 1. Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito à energia e à temeridade. 2. Os elementos essenciais de nossa poesia serão a coragem, a audácia e a revolta. 3. Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono, nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo ginástico, o salto mortal, a bofetada e o soco.
4. Nós queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo - o militarismo, o patriotismo, o gesto destrutor dos anarquistas, as belas idéias que matam, e o menosprezo à mulher. 5. Nós queremos demolir os museus, as bibliotecas, combater o moralismo, o feminismo e todas as covardias oportunistas e utilitárias. 6. Olhem-nos! Nós não estamos esfalfados... Nosso coração não tem a menor fadiga. Porque ele está nutrido pelo fogo, pelo ódio e pela velocidade!... Isso o espanta? É que você não se lembra mesmo de ter vivido.
Umberto Boccione. Formas Únicas na Continuidade do Espaço,homem a Caminhar,1913. Escultura em bronze. Museu de Arte Contemporânea, São Paulo.
Giácomo Balla. Lâmpada, 1909. Óleo sobre tela. 174.7 x 114.7 cm. Museu de Arte Moderna, Nova Iorque.
Umberto Boccioni. Ruídos da rua invadem a casa, 1911. Óleo sobre tela.100x107.
Manifesto Técnico da Literatura Futurista. Lançado em 1912 por Marinetti. A destruição da sintaxe e disposição das palavras em liberdade ; O emprego de verbos no infinitivo, com vistas à substantivação da linguagem; Abolição dos adjetivos e dos advérbios; O emprego do substantivo duplo (praça-funil, mulhergolfo, por exemplo; Abolição da pontuação, que seria substituída por sinais da matemática (+, -, :, =, >, <) e pelos musicais;
Poema futurista Ode ao burguês Eu insulto o burguês! O burguês-níquel, o burguês-burguês! A digestão bem-feita de São Paulo! O homem-curva! o homem-nádegas! O homem que sendo francês, brasileiro, italiano, é sempre um cauteloso poucoa-pouco! Eu insulto o burguês-funesto! O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições! Fora os que algarismam os amanhãs! Olha a vida dos nossos setembros! Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio! Morte ao burguês de giolhos, cheirando religião e que não crê em Deus! Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico! Ódio fundamento, sem perdão! Fora! Fu! Fora o bom burgês!...
Poema Futurista Ode Triunfal Álvaro de Campos À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica Tenho febre e escrevo. Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos. Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! Em fúria fora e dentro de mim, Por todos os meus nervos dissecados fora, Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, De vos ouvir demasiadamente de perto, E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso De expressão de todas as minhas sensações, Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
EXPRESSIONISMO É a arte do instinto, trata-se de uma pintura dramática, subjetiva, expressando sentimentos humanos. Utilizando cores irreais, dá forma plástica ao amor, ao ciúme, ao medo, à solidão, à miséria humana, à prostituição. Deforma-se a figura, para ressaltar o sentimento. Predominância dos valores emocionais sobre os intelectuais. Corrente artística concentrada especialmente na Alemanha entre 1905 e 1930.
EXPRESSIONISMO Paralelo ao Futurismo e Cubismo. Surge em 1910 pela revista Der Sturn. A arte brota da vida interior; do íntimo do ser. A obscuridade do ser é transportada para a expressão. As telas retratam o patético, os vícios, os horrores, a guerra. Protesta contra a violência e usa cores explosivas. Reflete a crise de consciência gerada pela guerra.
Entre os principais fundamentos do Expressionismo destacam-se: A arte não é imitação, mas criação subjetiva, livre. A arte é expressão dos sentimentos. A realidade que circunda o artista é horrível e, por isso, ele a deforma ou a elimina, criando a arte abstrata. A razão é objeto de descrédito. A arte é criada sem obstáculos convencionais, o que representa um repúdio à repressão social. A intimidade e a vivência da dor derivam do sentido trágico da vida e causam uma deformação significativa, torturada. A arte se desvincula do conceito de belo e feio e torna-se uma forma de contestação.
O Grito, pintura do norueguês,edvard Munch.
Três prostitutas na rua, 1925, de Otto Dix
CUBISMO - 1907 A proposta cubista centrava-se na liberdade que o artista deveria ter para decompor e recompor a realidade a partir de seus elementos geométricos. Decomposição da imagem em diferentes planos. Os pintores cubistas opõem-se à objetividade e à linearidade da arte renascentista e da realista.
Les demoiselles de Avignon
A obra As Senhoritas de Avignon foi pintada por Pablo Picasso em 1907. Representa um bordel na cidade de Avignon, onde cinco prostitutas se exibem ao observador. A perspectiva: Em As Senhoritas de Avignon, Picasso anula a ordem dos planos não há diferença entre perto e longe, dentro e fora, tudo está na superfície pictórica. Além disso, o artista representa simultaneamente múltiplos pontos de vista a cerca da imagem. A figura abaixada, por exemplo, pode ser vista de costas e de frente. Em três das cinco faces, o nariz é visto de perfil, mas os olhos são vistos de frente.
As cabeças ibéricas: As duas mulheres do centro da pintura As Senhoritas de Avignon, com os braços erguidos, são inspiradas nas esculturas ibéricas do século IV a.c. encontradas durante escavações na cidade de Osuna e expostas no Museu do Louvre em 1903. Possuem orelhas de abano e olhos esbugalhados, assimétricos e sem pálpebras. A cabeça egípcia: Na extrema esquerda da obra, uma mulher é enquadrada de perfil, mas tendo o olho direito de frente. Este artifício, onde partes do corpo são rearranjadas, era especialmente notório na arte egípcia. As cabeças africanas: As duas mulheres da direita no quadro As Senhoritas de Avignon são inspiradas em máscaras africanas, estudadas durante as exposições etnográficas do Trocadero, em Paris, ou adquiridas pelos artistas em lojas e contrabandos. Era moda, na época de Picasso, colecionar itens africanos, geralmente objetos cerimoniais.
Essa pintura expressa os principais postulados do Cubismo, não apenas na geometrização das formas, mas pluralidade de perspectivas propostas. A figura feminina olha para o braço do bandolim, mas sua face esquerda estaria oculta. Os vários planos do cenário ficam atrás da figura da moça, sugerindo um plano sobre o qual vários outros cena representada se sobrepõem.
Casas de L Estaque Georges Braque - 1908 Em Casas de L Estaque, Georges Braque, deixa de lado a perspectiva, geometriza a paisagem e constrói formas por meio de cores, iluminando cada imagem separadamente, em vez de capturar a luz de um único ponto como na pintura tradicional.
Principais características: Geometrização das formas e volumes; Renúncia à perspectiva; O claro-escuro perde sua função; Representação do volume colorido sobre superfícies planas; Sensação de pintura escultórica Cores austeras, do branco ao negro passando pelo cinza, por um ocre apagado ou um castanho suave.
LITERATURA CUBISTA O primeiro manifesto da literatura cubista, de autoria do poeta francês Guillaume Apollinaire, só surge em 1913, bem depois da primeiras exposições das obras de Picasso e Braque. No texto, Apollinaire procura aliar a visão destruidora dos futuristas à ideia de construção de algo novo. É na poesia que a literatura cubista ganha forma. Explorando a associação entre o ilogismo (fragmentação da realidade). A superposição e simultaneidade de planos. Humor.
LITERATURA CUBISTA O antiintelectualismo. O instantâneo Simultaneidade e uma linguagem predominantemente nominal e mais ou menos caótica. Os poetas cubistas buscam criar novas perspectivas a afirmar a necessidade de manter as coisas em permanente relação.
A pomba apunhalada e o jato d água Tradução de Patrícia Galvão Doces figuras apunhaladas Caros lábios em flor Mia Mareye Yette Lorie Annie e você Marie onde estão - vocês ó meninas Mas junto a um jacto de água que chora e que suplica esta pomba se extasia Todas as recordações de outrora? Onde estão Raynal Billy Dalize Os meus amigos foram para a guerra Os seus nomes se melancolizam Esguicham para o firmamento Como os passos numa igreja E os seus olhares na água parada Onde está Crémnitz que se alistou Morrem melancolicamente Pode ser que já estejam mortos Onde estão Braque e Max Jacob Minha alma está cheia de lembranças Derain de olhos cinzentos como a aurora O jacto de água chora sobre a minha pena OS QUE PARTIRAM PARA A GUERRA AO NORTE SE BATEM AGORA A noite cai o sangrento mar Jardins onde sangra abundantemente o louro rosa flor guerreira.
Poema Cubista Hípica Saltos records Cavalos da Penha Correm jóqueis de Higienópolis Os magnatas As meninas E a orquestra toca Chá Na sala de cocktails O Capoeira - Qué apanhá sordado? - O quê? - Qué apanhá? Pernas e cabeças na calçada. Oswald de Andrade Oswald de Andrade
DADAÍSMO Foi um movimento artístico que surgiu na Europa (cidade Suíça de Zurique) no ano de 1916. Possuía como característica principal a ruptura com as formas de arte tradicionais. Portanto, foi um movimento com forte conteúdo anárquico. O próprio nome do movimento deriva de um termo inglês infantil: dadá (brinquedo, cavalo de pau). Daí, observa-se a falta de sentido e a quebra com o tradicional deste movimento.
DADAÍSMO O Dadaísmo é a total falta de perspectiva diante da guerra; daí ser contra as teorias, as ordenações lógicas, pouco se importando com o leitor. Aliás, também é contra os manifestos, como afirma, Tristan Tzara, em seu Manifesto Dadá de 1918: Eu escrevo um manifesto e não quero nada, eu digo portanto certas coisas e sou por princípio contra os manifestos, como também sou contra os princípios O principal problema de todas as manifestações artísticas está, em almejar algo impossível: explicar o ser humano.
Objetos comuns do cotidiano são apresentados de uma nova forma e dentro de um contexto artístico; Irreverência artística; Combate às formas de arte institucionalizadas; Crítica ao capitalismo e ao consumismo; Ênfase no absurdo e nos temas e conteúdos sem lógica; Uso de vários formatos de expressão (objetos do cotidiano, sons, fotografias, poesias, músicas, jornais, etc) na composição das obras de artes plásticas; Forte caráter pessimista e irônico, principalmente com relação aos acontecimentos políticos do mundo.
Nesta obra dadá, Marcel Duchamp atribui ao mictório objeto até então definitivamente distante do universo artístico, uma nova significação ao nomeá-lo de fonte. Um mictório é um receptáculo de dejetos, já a fonte se constitui em um artefato do qual, em um movimento inverso, a água jorra.
O original dessa obra se perdeu, e muitas réplicas foram feitas. Esse objeto, aparentemente feito em tom de galhofa, adquire tons de arte: o banco é o estático, a imobilidade, o repouso, e a roda é a dinâmica, o movimento, o deslocamento. Entretanto, do modo como ambas as peças estão elaboradas, uma anula a função da outra, pois não se pode sentar no banco (já que a roda está parafusada nele), e a roda perde sua mobilidade (porque está parafusada no banco). Com isso, o artista parece representar o impasse a que chegou o fazer artístico, o esgotamento de suas possibilidades.
Na literatura, a arte é caracterizada pela agressividade, improvisação, desordem e rejeição de qualquer tipo de racionalização. Valorizou-se também a livre associação de palavra e a construção de palavras explorando apenas o significante. Poema dadaísta Pegue um jornal. Pegue a tesoura. Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema. Recorte o artigo. Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco. Agite suavemente. Tire em seguida cada pedaço um após o outro. Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco. O poema se parecerá com você. E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público. Tristan Tzara
Veja um exemplo de poema dessa proposta Die Schlacht (A batalha), de Ludwig Kassak: Berr... bum, bumbum, bum... Ssi... Bum, papapa bum, bumm Zazzau... Dum, bum, bumbumbum Prä, prä, prä... Ra, hä-hä, aa... Harol...
SURREALISMO Lançado por André Breton que rompe com o Dadaísmo- em Paris no ano de 1924. Surge no período entre guerras. Suas origens estão ligadas mais ao Expressionismo e à sondagem do mundo interior. Movimento que busca unir Arte e Psicanálise. Proposta: São duas as linhas de em seu início: experiências criadoras automáticas e o imaginário onírico (do sonho). Posteriormente, o surrealismo vai agregar-se a teorias sociais como o Marxismo causando rompimentos interiores e perdendo a sua força.
SURREALISMO Propõe que o homem se liberte da razão, da crítica, da lógica. Adere a filosofia de Sigmund Freud. Expressa o interior humano investigando o inconsciente. Valorização do sonho. Artistas: André Breton (Literatura); Salvador Dalí, Max Ernst e Joan Miró (artes plásticas); e no Luis Bruñel (cinema)
LITERATURA SURREALISTA Na literatura, a libertação do inconsciente deve ser alcançada com o auxílio da escrita automática. O automatismo artístico consiste em extravasar os impulsos criadores do subconsciente, sem nenhum controle da razão ou do pensamento, ou seja, pôr no papel os desejos interiores profundos, sem se importar com coerência, significados, adequação, etc.
Poema Surrealista Pré-história Mamãe vestida de rendas Tocava piano no caos. Uma noite abriu as asas Cansada de tanto som, Equilibrou-se no azul, De tonta não mais olhou Para mim, para ninguém! Cai no álbum de retratos. Murilo Mendes
Salvador Dali Em Salvador Dali, é o mais extravagante dos surrealistas, a influência de Freud é marcante. São temas recorrentes nas suas obras: o sexo ( e todas as suas atribulações: angústias, medos, frustrações, traumas), a memórias (sua permanência ou dissipação, representada por relógios que se diluem, o sono e sonho.
A Persistência da Memória
Na tela, estão representados três relógios moles que marcam diferentes horários. Ao fundo, está representada a paisagem de Porto Lligat, localizada no norte da Espanha e é uma referência à memória de infância do pintor. Segundo a interpretação de Dalí, o formato derretido dos relógios deriva da imagem de um queijo Camembert, que ele observava enquanto pintava a tela. O tempo de Dalí era flexível e, por isso, o artista representou os relógios de forma surreal, derretidos, flexíveis, maleáveis, parecendo fluir pela superfície onde estão apoiados. Influenciado por Einstein e por Freud, Dalí relativizava o tempo e o entendia não mais marcado pela rigidez do relógio, mas dilatado.
Galarina e Sonho Causado Pelo Voo de uma Abelha ao Redor de Uma Romã um Segundo Antes de Acordar.
O espelho, 1936, de Paul Delvaux