História do Brasil Colônia Aula VII Objetivo: a expansão e a consolidação da colonização portuguesa na América. A) A economia política da colônia portuguesa. Em O tempo Saquarema, o historiador Ilmar R. de Mattos estabelece a existência de três agentes nas relações internas da colônia portuguesa. O colonizador, o colono e o colonizado. Os colonizadores eram os agentes administrativos, os comerciantes e os eclesiásticos, aqueles que representavam os interesses da Coroa, implantavam as suas políticas, organizavam a administração e a cobrança dos impostos. Os colonos eram os proprietários de terra, de mão-de-obra e dos meios de trabalho. Aqueles que se dedicavam diretamente a produção dos bens coloniais. Podiam ser classificados em três grupos. Os lavradores de partido, proprietários apenas de mão-deobra; os fazendeiros, proprietários de mão-de-obra e terras; os senhores de engenho, proprietários de mão-de-obra, terras e dos meios de trabalho, como a casa-do-engenho. A relação entre colonizadores e colonos era estabelecida através de um pacto colonial, uma forma de garantir o monopólio de ambos os lados; os colonos garantiriam o monopólio do colonizador, o comércio, e o colonizador garantiria o monopólio do colono, a produção. Se o colonizador e o colono possuíam monopólios, havia, também, aqueles que não possuíam nenhum tipo de privilégios, os colonizados. Nesta categoria encontramos os escravos, negros e nativos; os agregados, que se dedicavam à produção de bens de subsistência, quando a produção principal de exportação não ocupava todas as terras do engenho, não eram proprietários, recebiam as terras como favor pessoal do colono; os trabalhadores, homens que servem a outros por soldada e os índios bravos, os índios não catequizados e não escravizados. O senhor de engenho era figura mais poderosa da colônia, sendo a casa grande, o centro de poder das regiões produtoras. A cidade, centro administrativo e fiscal, servia como ponto de interseção entre os monopólios do colonizador e do colono. Era na cidade, que os dois lados dominantes da empresa colonial se encontravam, em uma relação nem
sempre harmoniosa. B) Portugal e a colônia brasileira no século XVII. Apesar do fim da união ibérica ter acontecido em 1640, o processo da independência portuguesa durou até 1668. Aproveitando-se de um momento de crise financeira da Espanha, e também da rebelião na Catalunha, o Duque de Bragança foi aclamado rei como Dom João IV. Os custos econômicos e políticos da restauração levaram a uma dependência em relação à Holanda e, principalmente, Inglaterra que teve como consequência a perda do poderio português no oriente, focalizando os interesses do Império para o Brasil. Dom João IV de forma sintomática chamaria o Brasil de a vaca de leite de Portugal. Um dado interessante é que desde 1640, devido às incertezas em Portugal, se cogitava a transferência do reino para o Brasil, em caso de ameaça a coroa. Concomitantemente, o príncipe herdeiro de Portugal passa a ter o título de príncipe do Brasil. Estas medidas corroboravam a importância definitiva da colônia brasileira para o governo português. C) A Expansão Territorial. A expansão territorial foi o principal acontecimento do século XVII. Os colonos alcançaram todo o litoral nordestino, a foz do amazonas, os sertões nordestinos e a região do rio Paraná. Uma das características da expansão no século XVII foi o povoamento através da fundação de vilas que possuíam a função estratégica de marcar a presença do colonizador. Três processos foram marcantes na expansão territorial do século XVII. A conquista do litoral norte, as entradas e a criação de gado. Logo no início do século XVII os portugueses precisaram enfrentar a ameaça estrangeira na região norte de sua colônia. A área estava sendo cobiçada por países europeus que por ali acreditavam poder chegar às minas do Peru. Em 1612 os franceses fundaram a cidade de São Luís, na iniciativa que ficou conhecida como França Equinocial. Entre 1612 e 1615 os portugueses liderados pelo mameluco Jerônimo Albuquerque, pelos oficiais portugueses Diogo de Campos Moreno e Alexandre de Moura, aliados aos índios, tal como os franceses, conseguem expulsar os invasores, consolidando o domínio
português sobre o litoral norte. As entradas e/ou bandeiras foram uma importante forma de expansão da colônia portuguesa. Na fase amadora da historiografia brasileira se atribuía às entradas um caráter estatal e às bandeiras o particular. Arno Wehling, em Formação do Brasil Colonial, não concorda com esta diferenciação, pois existiram bandeiras tanto particulares como promovidas pelo estado. Não havendo, claramente, uma distinção entre as duas formas. Ao longo do século XVII as entradas apresentaram três tipos de motivação. Havia aquelas que se dedicavam à caça aos índios para a escravização, que em um primeiro momento procuravam os bravos, e depois os catequizados das missões, mais fáceis de aprisionar. Existiam aquelas dedicadas ao combate a tribos indígenas resistentes e quilombos, contratadas pelos colonizadores e colonos para esse fim. A mais conhecida destas foi a comandada por Domingos Jorge Velho na destruição de Palmares. Por fim, a partir de 1660, várias entradas receberam a incumbência de achar metais preciosos. Muitas dessas encomendas eram solicitadas pelo próprio Rei. Somente em 1695, contudo, é que se descobre o ouro das minas gerais, região composta pelos atuais estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul e a região sul da Bahia. As entradas e/ou bandeiras devem ser entendidas como um dos fatores de expansão territorial, pois as terras conquistadas eram distribuídas na forma de sesmarias aos participantes. Contudo, nem o único, nem o mais importante, apenas como um importante fator, assim como a expansão litorânea, principalmente para o norte, e a expansão proporcionada pela produção da pecuária. Por fim a criação de gado que, principalmente, na Bahia e em Pernambuco, foi o principal fator de ocupação de novos territórios na colônia. A produção de couro para a exportação e a comercialização de carne e leite, no mercado interno, fez a lucratividade deste empreendimento. Outro fator de lucratividade era o menor custo de implantação, em relação aos engenhos, principalmente devido a menor exigência de mão de obra, que abria uma oportunidade para o colono mais pobre. A importância da pecuária para a ocupação desta região pode ser verificada pela área ocupada, que no século XVI era de 4.700 km², e no século XVII vai chegar a 18.000 km². D) A consolidação da colônia portuguesa. Em relação à economia, o sistema colonial português pode ser caracterizado como possuindo três fases distintas. Duas de expansão e uma de depressão.
a) 1550-1620 - período de expansão caracterizado pela predominância da agromanufatura açucareira. b) 1620-1690 - período de depressão marcado pela perda da maioria das feitorias africanas e do oriente, pela queda no preço do açúcar (42%), e pelo surgimento da concorrência do açúcar antilhano. c) 1690-1750 - período de entrada dos lucros da comercialização do tabaco, a recuperação do comércio de açúcar e a entrada dos metais preciosos descobertos no Brasil. Aprofundando um pouco mais esta última fase, podemos perceber que a recuperação econômica da colônia se dá em princípio através da plantação de tabaco. Apesar do início do plantio ter se dado em 1640, somente na última década do século XVII, e na primeira do posterior, o comércio do tabaco iria adquirir grande importância, se tornando o segundo produto na produção agrícola voltada para o mercado externo. O tabaco era exportado para a metrópole e para a África, onde servia como moeda no tráfico negreiro. Esta utilização do tabaco provocou um aumento na sua produção, no momento da recuperação da produção açucareira e do início da produção das regiões das minas, pois ambas as atividades demandavam escravos, proporcionando ainda maiores lucros para os produtores de tabaco. As regiões mais importantes neste cultivo foram a Bahia e o Rio de Janeiro. O baixo custo da implantação fez com que pequenos lavradores, que se dedicavam à plantação de subsistência passassem a se dedicar a esta cultura. O plantio do tabaco tornaria patente o choque de interesses entre os colonos, e entre os produtores de tabaco e a metrópole. A destruição das matas, provocadas pela plantação de tabaco, colocava em risco o fornecimento de madeira para a construção naval e para a sua utilização como combustível dos engenhos de açúcar, onde a produção voltava a crescer com a implantação de mudas melhores, novas técnicas de produção (uso do bagaço como lenha, escravos especializados no lugar do trabalhador livre) e surgimento de novas áreas (Campos dos Goitacazes, São Paulo, e algumas áreas do Estado do Maranhão). Além disso, entrava em choque com a nova política do Conselho Ultramarino, criado em 1642 para regular a administração da colônia, de fomentar o cultivo de subsistência na colônia, devido ao encarecimento deste comercio via atlântico. O auge deste conflito se dá entre 1704 e 1712, quando se ordena a destruição de plantações de tabaco em várias regiões. No processo de recuperação econômica da América portuguesa, D. Pedro II (1683-
1706) tentou implantar o comércio de especiarias com o incentivo da produção na região norte. O objetivo era não só comercializar as especiarias nativas, como o cacau e o guaraná, mas implantar na região o cultivo das especiarias típicas do oriente, na clara intenção de recuperar o espaço perdido com o fim das possessões na Ásia. Apesar do pequeno êxito inicial, a empreitada redundou em fracasso, devido principalmente a dificuldade da adaptação das culturas, a dificuldade de convencimento dos colonos de ocuparem a região e, o mais importante, a recuperação econômica propiciada pelo tabaco e pelo açúcar, desviava o interesse comercial para os portos de Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, mais bem estruturados. Por fim, a mineração desempenhou um papel decisivo na consolidação da colônia. A busca incessante dos portugueses pelo ouro deu resultado e, entre os anos de 1695 e 1725 são descobertas várias jazidas de ouro, e depois de pedras preciosas. Esta atividade alavancou a recuperação econômica da metrópole portuguesa e sua colônia. Quatro grandes modificações foram proporcionadas pelo início da mineração na colônia. Houve o alargamento de forma considerável da faixa de ocupação territorial da colônia; a região mineradora passou a atrair para si a produção das demais regiões, como a da pecuária nordestina, integrando as regiões coloniais; alterou as relações de força na colônia, realçando o papel do Rio de Janeiro, porto mais próximo, que cresceu em importância com o escoamento da produção mineira, e no abastecimento da região, vindo a se tornar capital da colônia em 1763; por fim, gerou uma concentração de escravos na região, promovendo o aumento dos lucros do tráfico negreiro.