Apresentação do dossiê Hans Blumenberg [A]

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Transcrição:

DOI: 10.7213/aurora.27.041.AP01 ISSN 0104-4443 Licenciado sob uma Licença Creative Commons [T] Apresentação do dossiê Hans Blumenberg [A] Olivier Feron* Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Curitiba, PR, Brasil Numa célebre análise de seu tratado de antropologia filosófica, Hans Blumenberg identifica aquilo que constitui a antinomia elementar de toda a antropogénese. O tornar-se carne (Leib) que caracteriza o homem e o fato de sair idealmente de um estado mítico de natureza apoiam-se claramente sobre a aquisição da postura ereta primária pelos primeiros antropoides, o saber pôr-se de pé. Melhor ainda, o tornar-se homem é algo que se manifesta pelo alargamento do seu horizonte perceptivo que simultaneamente lhe abre o campo de visão e o torna visível. A saída da floresta tropical desemboca no vazio da savana infinita que representa o teatro de um novo modo de percepção, a apreensão do horizonte no qual o observador teórico, muito mais tarde, visará por antecipação o mundo na sua totalidade. Este crescimento exponencial da visão antecipação da teoria e da sua universalidade anónima modifica, contudo, o biótipo deste proto-humano. Como compreender esta descrição fenomenológica do surgimento do homem e do seu olhar universalizante senão como uma * OF: doutor em Filosofia, e-mail: feron.olivier@gmail.com

424 FERON, O. precaução? Blumenberg, o pensador, elabora sua obra no abrigo da caverna que é a sua biblioteca, recusando conscienciosamente qualquer mediatização, qualquer exposição face àquilo que Franz Josef Wetz, um dos seus primeiros comentadores, apelida de turismo académico. De nobis ipsis silemus : De nós mesmos silenciamos. À publicidade a que recorreram grandes figuras do pensamento do século XX, Blumenberg sempre preferiu a integridade do acesso único através das suas obras, reputadas por serem tão difíceis quanto apaixonantes. É assim raro vê-lo vestir a pele do flâneur aquele que vê e que, por sua vez, é visto, tal como ele se revela para nós na foto da capa deste número da Aurora, comendo uvas nas ruas de Paris, nas pegadas de Walter Benjamin. Esta imagem da pessoa do pensador não deixa, contudo, de suscitar umainquietação no espectador: qual será o grau de violência exercido pelo olhar do observador cuja figura se reflete em espelho no olhar escrutinador do transeunte situado por detrás do filósofo quando se sabe que o pensador de Lübeck se preservou sistemática e voluntariamente de qualquer exposição? Sem dúvida que a tormenta do século XX lhe deu boas razões para se lembrar da advertência de Espinosa: Caute!. Nascido em Lübeck, em 1920, numa família de tradição católica, Hans Blumenberg faz parte desses filósofos que, à semelhança de Theodor Adorno ou Ludwig Wittgenstein, se viram subitamente classificados pelas leis de Nuremberg como semi-judeus (Halbjude). Melhor aluno do seu colégio, o Katharineum, onde estudou antes dele um tal de Thomas Mann, vê-se rapidamente discriminado e impedido de entrar na universidade pública. Prossegue assim os seus estudos em diferentes universidades católicas: estuda filosofia escolástica e neotomismo em Paderborn e Frankfurt am Main antes do regime o impedir definitivamente de continuar com os seus estudos, em 1941. Enviado para um campo do Serviço de Trabalho do Reich (Reichsarbeitsdienst), é salvo por um industrial da sua cidade natal que o esconde até à queda do regime nazi. Depois da guerra, termina seus estudos em 1947, com a defesa de uma tese sobre a ontologia medieval na Universidade de Hamburg, a universidade onde Ernst Cassirer fora professor e o único reitor judeu

Apresentação do dossiê Hans Blumenberg 425 durante a República de Weimar. O trabalho de Blumenberg na área da fenomenologia leva-o a defender a sua tese de habilitação em 1950, intitulada A distância ontológica: uma pesquisa sobre a crise da fenomenologia de Husserl, sob a direção do antigo assistente de Husserl, Lugwig Landgrebe. De seguida, ensina nas universidades de Hamburg, Giessen, Bochum e finalmente Münster onde se aposenta em 1985. Membro fundador do grupo de pesquisa Poetik und Hermeneutik com Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser, a partir 1963 que desenvolve trabalhos inovadores nas áreas da estética, da linguística, da teoria literária ou da filosofia da história, ele representará o papel de teórico programático. Foi igualmente diretor da coleção Theorie das prestigiosas edições Surkamp com Jürgen Habermas e Dieter Henrich. Foi um dos raros galardoados com o Prémio Kuno Fischer pelo seu trabalho excepcional na história da filosofia (1974); recebe também o Prémio Sigmund Freud de prosa científica em 1980, logo depois de Habermas e Gadamer. Blumenberg nunca chega a superar os anos de estudos e de formação que lhe foram roubados. Depois de se ter aposentado, refugia-se na sua biblioteca onde continua a compor sua obra, dormindo apenas seis noites por semana, talvez para recuperar os anos que o sinistro regime lhe tinha usurpado. Deixará de 15 a 20 livros acabados sob a forma de manuscritos, preparados para a edição, mas que serão apenas editados a título póstumo. De um cuidado extremo com as suas publicações, chegou ao ponto de não querer perder mais tempo com a revisão das provas, tempo esse que lhe era caro e que consagrou à escrita. Reposou definitivamente a sua pluma em 1996. Fala-se mais da obra de Blumenberg do que realmente se lê. Corpus singular e gigantesco escrita torrencial, dirá Vattimo, suscita certamente tanto interesse quanto respeito. Não obstante, só há pouco tempo começou a ser alvo de uma série de estudos sistemáticos, principalmente na Europa e nos Estados Unidos. Possuidor de uma erudição intimidante, mas nunca gratuita, Blumenberg é provavelmente mais conhecido por causa das repercussões de uma das suas obras mais importantes, A legitimidade dos tempos modernos. Nela desconstrói, entre outros temas, o conceito de secularização, opondo-o ao tema da autoafirmação do homem. O livro suscitará várias reações, quer de

426 FERON, O. Gadamer, de Karl Löwith ou de Carl Schmitt: este último, com mais de 80 anos, ainda se sentiu obrigado a travar as flechas de Parta de Blumenberg na sua Teologia Política II, acontecimento que inaugurará aquilo que se chamará, na Alemanha, o Blumenberg-Debatte. Seu programa de metaforologia vai entusiasmar os teóricos da literatura antes mesmo de a filosofia assumir esse projeto como sendo uma peça única do trabalho de delimitação das capacidades de determinação do conceito, o que levou certos leitores alemães a aproximá-lo, sem hesitação, do gesto de desconstrução de Jacques Derrida. Leitor e intérprete de Husserl, ao qual elogia a qualidade do pensar, Blumenberg aprofunda o trabalho de descrição ao mesmo tempo que põe em causa a incapacidade da fenomenologia de fazer coincidir intencionalidade e evidência do ponto de partida cartesiano. Falta à fenomenologia um elemento que sempre foi recusado por Husserl: o factum antropológico que está na base da reflexão. Fazendoda carne (Leib) uma condição da intersubjetividade, ele volta a centrar a reflexão num homem que sente, que age e espera, que sofre e cria múltiplas obras pelas quais se comunica com os outros e se protege de um mundo silencioso. Céptico que duvida antes de mais da aplicabilidade universal do cepticismo, irá pôr toda a sua paciência e atenção na desconstrução de todos os absolutismos: o absolutismo teológico em A legitimidade dos tempos modernos; o absolutismo da teoria, aquele que ameaça asfixiar o mundo vivido, a Lebenswelt à qual Husserl dedicará os seus últimos anos de trabalho; e, por fim, o absolutismo da realidade, em Trabalho sobre o mito, que lhe permite compreender o homem como o ser que coloca à distância uma realidade, para cujo contato direto não está preparado. Neste aspecto, o homem parece inadaptado para o imperativo de verdade que guia a filosofia, e a procura de sentido é mais um sintoma do que um objetivo para o qual Blumenberg, tal como Freud, propõe a consolação como única resposta antropologicamente possível. Por conseguinte é impossível pretender resumir um pensamento de tal amplitude: o estilo, a estratégia de escrita e a extraordinária multiplicidade de temas abordados são a garantia de que Blumenberg desejava opor qualquer tentativa de reduzir o humilde exercício de reflexão a uma coleção de fórmulas e de conceitos chave. Os ensaios

Apresentação do dossiê Hans Blumenberg 427 reunidos não têm outra pretensão senão esclarecer fragmentos de um continente de pensamento, convidando a perseguir a leitura paciente da obra do filósofo alemão. Este número sobre Hans Blumenberg tem o privilégio de ser acompanhado por um precioso texto de Bettina Blumenberg que evoca, com elegância e afinidade, a figura e a obra do seu pai. Que ela possa encontrar nesta primeira recolha de estudos sobre o pensamento de Hans Blumenberg no Brasil 1 a expressão do reconhecimento pela generosidade com que acompanhou esta iniciativa, agraciando os leitores com a foto absolutamente inédita que figura na capa deste 41º número da Aurora. 1 Registro. O público filosófico brasileiro recebeu a primeira e pontual apresentação do pensamento de Hans Blumenberg, provavelmente, pelas páginas iniciais de Escritos de filosofia VII: raízes da modernidade, de H. C. de Lima Vaz, ao analisar a questão da interpretação da cultura. A propósito, conferir o capítulo I, Fenomenologia e axiologia da modernidade. Cf. VAZ, H. C. L. Escritos de filosofia VII: raízes da modernidade. São Paulo: Loyola, 2002. p. 26-30.