Parecer CREMAL nº 06/2011. Da Consulta

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Transcrição:

Parecer CREMAL nº 06/2011 Processo-consulta nº 001306/20110 e nº 001473/2011 Interessados: Edilma de Albuquerque Lins Barbosa, CRM-AL 1577 e Luiz Cláudio Couto Marinho, CRM-AL 4874, diretor técnico-médico do Hospital Geral Santo Antônio. Assunto: Uso de Câmeras de Vigilância em Ambiente Hospitalar. Relator: Conselheiro Irapuan Medeiros Barros Junior. Da Consulta Foram protocoladas, neste Conselho, duas manifestações versando sobre a mesma demanda, ambas solicitando pronunciamento sobre a ética no uso de câmeras de segurança/vigilância instaladas em ambientes de atuação do médico e ambiente hospitalar, tais como centros cirúrgicos, corredores de entrada e saída dos pacientes, berçários de Unidade de Cuidados Intensivos - UCI e outros locais onde ocorrem procedimentos médicos. Sinonímia: Câmeras de segurança câmeras de vídeo videomonitoramento vigilância eletrônica visão eletrônica. 1

Do Parecer Nos dias atuais, verifica-se o crescente aumento dos números da criminalidade em nossa sociedade, em todas as áreas, inclusive nos espaços públicos. Constata-se ainda que as instituições de atendimento médico à população não estão alheias a essa realidade violenta. Muito se discute sobre novas formas e eficazes políticas de segurança pública e privada e, nesse contexto, o videomonitoramento vem surgindo como uma das ferramentas de grande difusão em nosso meio. Em muitos espaços públicos e privados já se podem evidenciar câmeras de monitoramento e não seria diferente esperar que tal avanço tecnológico chegasse aos hospitais e unidades de saúde. Entende-se que o princípio ativo de emprego da vigilância eletrônica é o do controle do comportamento das pessoas, pela inibição e modelagem, através do ato de vigiar, com possibilidade de punir, na perspectiva de resolver ou controlar a criminalidade. Assim, as câmeras de vídeo, estão sendo incluídas nas medidas atuais de enfrentamento do crime, através de um discurso que se apresenta como alternativo e que aponta as seguintes funcionalidades: 1º) visualizar, registrar e guardar a imagem de um fato ocorrido, no intuito de tirar o anonimato da autoria, já que a certeza do anonimato de autoria pode ser considerado um fator facilitador/estimulador do crime; 2º) produzir provas para a investigação policial, favorecendo a diminuição da impunidade, pois também a certeza da impunidade é outro fator facilitador/estimulador do crime e 3º) vigilância ostensiva em tempo real, a qual possibilite identificar as condições de início de uma determinada ocorrência, criando a possibilidade de imediata reação para salvaguardar o patrimônio e a integridade dos indivíduos presentes nesse ambiente. Existem experiências recentes e exitosas, em alguns municípios brasileiros, de implantação de grandes sistemas de videomonitoramento em via pública, com o intuito de ampliar a ação protetiva do Estado, através da visão eletrônica, permitindo uma ação efetiva do policiamento na intervenção precoce nos fatos que estão 2

ocorrendo ou, então, na identificação e na descrição do evento ocorrido e de seus autores para as devidas responsabilizações, o que supostamente inibiria comportamentos criminosos e/ou violentos e preveniria os delitos. No ambiente hospitalar ou ambulatorial, não raras vezes, nos deparamos com registros de ocorrências dos mais diversos crimes, muitos deles atentando contra a vida e a integridade dos pacientes e dos profissionais que lá atuam: furtos e roubos do patrimônio, extravio ou desvio de insumos e medicamentos, agressão física aos profissionais de saúde e aos pacientes, ameaças, coações, roubo de recémnascidos nos berçários, depredação de patrimônio, tentativas de homicídio, dentre outros. Além disso, é sabido que o Estado não dispõe de efetivo policial para se fazer presente em todas as instituições de saúde onde ocorrem atendimentos médicos e, ainda que dispusesse de tal numerário, em certos locais onde ocorrem procedimentos de atendimento à saúde, a presença de pessoas alheias à realidade do paciente implicaria numa quebra da intimidade e do sigilo profissional. A discussão ética que deve permear o assunto da instalação de câmeras de segurança em ambientes hospitalares ou ambulatoriais se refere à relação de custo/benefício da preservação (ou não) da privacidade e a garantia do sigilo da relação médico/paciente, frente ao interesse coletivo, qual seja, o patrimônio público e a segurança de quem ali circula e trabalha. Nisto posto, a instalação de câmeras de monitoramento nos ambientes hospitalares e ambulatoriais pode ser um benefício à segurança, mas pode trazer, em seu bojo, implicações que venham a comprometer a integridade moral, o pudor e a privacidade dos pacientes e das pessoas filmadas. Os conselhos federal e regionais de medicina vêm, ao longo dos últimos anos, recebendo questionamentos sobre a instalação de câmeras de segurança em ambientes de atendimento médico, no entanto, não há consenso sobre esse tema. Dentre os principais pareceres emitidos sobre essa temática, citamos: o Parecer CFM nº 03/1999, o Parecer CRM RJ nº 89/2000, o Parecer CREMESP nº 77.885/2001, o Parecer CRMPB nº 14/2009, o Parecer CRM-PR nº 2305 /2011 e o 3

Parecer CRM-PR nº 1823/2007. O sigilo médico é o mais antigo e universal princípio da tradição médica, estando fundamentado no mais remoto e sagrado Juramento de Hipócrates: O que, no exercício ou fora do exercício e no comércio da vida, eu vir ou ouvir, que não seja necessário revelar, conservarei como segredo. No atual Código de Ética Médica, instituído pela Resolução CFM nº 1931/2009, destacam-se dois princípios fundamentais e quatro artigos que tratam do tema: VI - O médico guardará absoluto respeito pelo ser humano e atuará sempre em seu benefício. Jamais utilizará seus conhecimentos para causar sofrimento físico ou moral, para o extermínio do ser humano ou para permitir e acobertar tentativa contra sua dignidade e integridade. XI - O médico guardará sigilo a respeito das informações de que detenha conhecimento no desempenho de suas funções, com exceção dos casos previstos em lei. Art. 38. É VEDADO: Desrespeitar o pudor de qualquer pessoa sob seus cuidados profissionais. Art. 73. É VEDADO: Revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício de sua profissão, salvo por motivo justo, dever legal ou consentimento, por escrito, do paciente. Art. 74. É VEDADO: Revelar sigilo profissional relacionado a paciente menor de idade, inclusive a seus pais ou representantes legais, desde que o menor tenha capacidade de discernimento, salvo quando a não revelação possa acarretar dano ao paciente. Art. 78. É VEDADO: Deixar de orientar seus auxiliares e alunos a respeitar o sigilo profissional e zelar para que seja por eles mantido. O sigilo profissional é também uma obrigação assegurada em diversos dispositivos legais do nosso ordenamento jurídico: São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação. (inciso X, do artigo 5º, da Constituição da República Federativa do Brasil). 4

Revelar alguém, sem justa causa, segredo, de que tem ciência em razão de função, ministério, ofício ou profissão, e cuja revelação possa produzir dano à outrem. (Artigo 154 do Código Penal Brasileiro) O sigilo profissional não é um dever absoluto e existem situações onde é mandatória a sua quebra, sejam as situações descritas nos artigos 73 e 74 do Código de Ética Médica, sejam as situações descritas na Lei de Contravenções Penais, sob pena de infração ética e legal, respectivamente: "Omissão de comunicação de crime: Deixar de comunicar à autoridade competente: (...) II crime de ação pública, de que teve conhecimento no exercício da medicina ou de outra profissão sanitária, desde que a ação penal não dependa de representação e a comunicação não exponha o cliente a procedimento criminal" (Lei nº 3.688/1941 - A Lei das Contravenções Penais, Capítulo VIII, no inciso II, do seu artigo 66). O projeto de reforma do Código Penal (1998), ainda em tramitação, já reconhece a ausência de violação do sigilo, inclusive naquelas imagens obtidas por meio tecnológicos, desde que isto seja para atender o interesse público legítimo e relevante: Violar, mediante processo tecnológico ou qualquer outro meio, o resguardo sobre fato, imagem, escrito ou palavra, que alguém queira manter na intimidade da vida privada: Pena - Detenção, de um a nove meses, ou multa. 1º. Na mesma pena incorre quem, indevidamente, revela ou divulga imagem,escrito, palavra ou fato, obtidos, por si ou por outrem, ainda que deles tenha participado. 2º Não se compreende na disposição deste artigo a divulgação da imagem ou do som colhidos em local público, ou aberto, ou exposto ao público para atender a interesse público legítimo e relevante (grifo nosso). (Anteprojeto de reforma do Código Penal Brasileiro, artigo 154 - Portaria nº 232, de 24 de março de 1998, do Ministério de Estado da Justiça, publicado no Diário Oficial da União, nº 57-E, Seção I, página 1 a 11, ano CXXXVI, em 25 de março de 1998) 5

CONCLUSÃO Em todo o arcabouço legal e ético que trata do tema do sigilo profissional, verifica-se que a infração ocorre, tão somente, quando há o ato da REVELAÇÃO desse segredo. O fato de haver o registro de informações ou dados de um determinado paciente, por si só, isso não caracteriza a infração, mas tão somente o ato de tornar público tais dados. Noutro ponto, consideramos que o registro visual (ou áudio-visual) do paciente, similarmente ao que se disciplina sobre o prontuário médico, é também de sua propriedade, com a salvaguarda da instituição de saúde, a qual detém a obrigação de preservação do sigilo. Nessa ótica, pode-se analisar que o simples ato da coleta de imagens visuais (ou audio-visuais), por si só, não preenche os pré-requisitos éticos e legais para o estabelecimento da infração de quebra de sigilo profissional. Somente quando tais imagens (ou imagens e sons) são acessadas por pessoas estranhas ao ambiente hospitalar e sem a devida autorização, é que há a prefiguração da quebra do sigilo médico nesses casos. Diante do exposto, concluímos que, se a instituição de saúde optar por instalar câmeras de segurança, ela deve se preocupar em estabelecer os objetivos destes recursos e cuidar da utilização e guarda das imagens geradas, limitando o acesso às imagens das câmeras de segurança, visando resguardar a privacidade e o direito ao sigilo pertinente à relação médico/paciente, evitando-se assim a possibilidade de infrações éticas consoantes nos artigos 38, 73, 74 e 78, do Código de Ética Médica em vigor. Portanto, não infringe o Código de Ética Médica a instalação de câmeras de segurança e/ou circuito interno de vídeo-monitoramento em instituições de saúde, desde que satisfeitas as seguintes condições: 6

1º) Cabe, ao diretor técnico-médico da instituição, a decisão de quais locais ou ambientes devam ter instaladas as câmeras de segurança, exceto nos seguintes locais, onde a instalação das câmeras ficam proibidas: interiores de consultórios médicos e outros consultórios profissionais, interior das salas de procedimentos invasivos ou cirúrgicos, interior de unidades de tratamentos/cuidados intensivos onde haja a circulação de pacientes, interior das salas de curativos e interior de sanitários, vestiários e banheiros; 2º) Fica, o diretor técnico-médico da instituição, responsável para orientar os funcionários incumbidos do acesso e da manipulação das imagens gravadas, sobre a obrigatoriedade de preservação do sigilo profissional e da proibição de revelação desses dados confidenciais e, tais funcionários, deverão assinar um termo de preservação do sigilo das imagens arquivadas/visualizadas; 3º) O diretor técnico-médico da instituição deverá adotar as medidas necessárias para que haja uma senha específica para acesso ao computadorservidor, e que cada funcionário usuário desse sistema seja identificado mediante login e senha próprios, com os devidos registros desses acessos para posteriores identificações, em processos de auditagem; 4º) O diretor técnico-médico da instituição deverá tomar as providências cabíveis para que o computador-servidor, na qual as imagens são visualizadas e arquivadas, seja instalado em sala específica e de acesso restrito ao pessoal autorizado, bem como venha a possuir um mecanismo de deleção automática das imagens mais antigas e em substituição às mais recentes e, caberá ainda ao diretor técnico-médico, especificar qual será o tempo de armazenamento máximo desses dados; 5º) O diretor técnico-médico da instituição deverá adotar as ações pertinentes para que sejam afixados, nos locais de visão das câmeras de segurança, cartazes ou placas indicativas com os dizeres: este ambiente é video-monitorizado ; ou por questões de segurança, você está sendo filmado ; ou neste local, existem câmeras de 7

segurança ; 6º) Que, quando da identificação de quaisquer irregularidades no funcionamento das câmeras de segurança, o diretor técnico-médico da instituição fica obrigado a comunicar o fato ao CREMAL, no prazo máximo de 01 dia útil. Este é o parecer, salvo melhor juízo. Maceió, AL, 11 de JULHO de 2011. Irapuan Medeiros Barros Junior Conselheiro do CREMAL 8