A MEMÓRIA COLETIVA E INDIVIDUAL Cibele Dias Borges 1 O primeiro teórico a falar sobre memória coletiva foi o sociólogo Maurice Halbwachs. Segundo Halbwachs (1990), a memória, por mais pessoal que possa ser, é construída socialmente. Ivan Izquierdo (1989) afirma que as pessoas tendem a viver em grupos, organizando-se em sociedades, pois não sabem viver isoladamente. Para isso, criam laços, buscam afinidades, memórias comuns e, a partir disso, criam uma identidade coletiva, uma memória social. Dessa forma, a memória pessoal, e, por conseqüência, a identidade pessoal, acaba recebendo interferências da coletividade, incluindo elementos mais amplos que os individuais. Se nossa impressão pode apoiar-se não somente sobe nossa lembrança, mas também sobre a dos outros, nossa confiança na exatidão de nossa evocação será maior, como se uma mesma experiência fosse começada, não somente pela mesma pessoa, mas por várias (HALBWACHS, 1990, p. 25). Assim, pode-se dizer que, a partir do pensamento de Halbwachs (1990), as memórias são construídas por grupos sociais. São os indivíduos que lembram, no sentido literal, físico, mas são os grupos sociais que determinam o que é memorável, e também como será lembrado. Assim, as memórias social e individual se interligam. Quanto mais fortes são os grupos, mais agregadoras são as memórias. Dessa forma, o que está em jogo não é como as pessoas lembram, mas sim em que contexto isto ocorre. Os grupos aos quais convivemos é que estruturam nossa memória. O grupo é importante, fundamental é o processo de sociabilização que vem através da linguagem que possibilita contar a história. As rememorações vêm de acordo com a vivência que o tempo presente suscita. Recordar é ter uma imagem do passado, essa imagem é uma impressão deixada pelos acontecimentos ocorridos e que permanece fixada no espírito. Ricoeur nos fala desses acontecimentos que ficam fixados no 1 Licenciada em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande FURG. Mestranda do Programa de Pós- Graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural PPGMP na Universidade Federal de Pelotas. cdiasbor@gmail.com
espírito (2010, p. 27) [...] quando narramos coisas verdadeiras, mas passadas, é da memória que extraímos, não as próprias coisas, que passaram, mas as palavras concebidas a partir das imagens que elas gravaram no espírito, como impressões, passando pelos sentidos. Halbwachs (1990) nos diz que a memória coletiva, nada mais é, do que a participação da memória individual de cada sujeito para com o fato, segundo o mesmo autor, diríamos voluntariamente que cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva. (1990, p. 51). A memória é o reconhecimento que é imediato, é a forma do passado agir no presente. Halbwachs (1990) nos aponta que a partir das vivências em grupo, a memória pode ser reconstruída. O autor ainda coloca que toda a memória é seletiva e passa por um processo de negociação para que as memórias individual e coletiva se conciliem. Dessa forma, não bastam os testemunhos de outras pessoas para que as suas memórias sejam incorporadas por um indivíduo. Elas precisam concordar com as memórias já existentes desse sujeito e que tenham alguns pontos semelhantes para que sejam construídas sobre uma base comum. Além disso, as pessoas necessitam da memória dos outros para confirmar suas próprias memórias, para legitimá-las. Quando a memória individual de uma pessoa não condiz, em determinado ponto, com a memória coletiva, essa memória pode ser considerada, segundo Pollak (1989), uma memória clandestina, uma vez que não apresenta coerência com os discursos oficiais. IDENTIDADE Desde o nascimento necessitamos de proteção como seres indefesos e que carecem de auxílio até a sua independência. Ao longo desta trajetória, que irá consolidar a nossa formação, tomamos algumas atitudes que ajudam a marcar o nosso território social. Estas atitudes se refletem exteriormente através de grupos sociais que vamos compondo ao longo do tempo e estes, se identificam por inúmeros códigos, tais como: a cor da pele, os ideais, a nacionalidade, idiomas, dentre outros. Os códigos influenciam na personalidade de um indivíduo e compõe também sua identidade. Mas
esta não se resume em nome, idade, sexo e nacionalidade, é um composto de emoções, atitudes, ideais, ambientações, vivências como cita a psicóloga Sônia Grubits Oliveira (1996, p.32): A construção da Identidade é um processo muito complexo, que ocorre entre diferentes níveis, se processa nos planos sexual, social, profissional, entre outros, a partir de identificações. No plano social, os valores culturais se formam através de normas, hábitos, leis e preconceitos e são fatores determinantes na construção da Identidade. Na família vivemos a história de cada indivíduo, participamos de reuniões, aniversários, viagens, brincadeiras, brigas, mortes e nascimentos, estes acontecimentos nos deixam rastros e registram sentimentos que ajudam a afirmar ou a desestabilizar o nosso lugar perante aquele grupo de convívio que compõe nossa história. Da mesma forma nos localizamos na sociedade. Buscamos a identificação com pessoas que tenham os mesmos valores, pensamentos e comportamentos. Cada indivíduo se sente atraído por aquilo que lhe é familiar, o meio em que estamos inseridos é muito importante para que possamos nos reconhecer e nos autoafirmar como indivíduos que possuem uma história de vida. A identidade de uma pessoa é construída ao longo de sua vivência, estando relacionada a questões culturais, hábitos, etc. Quando nos questionamos a respeito do que somos ou do que fazemos, buscamos relembrar fatos que tenham ocorrido em nossa história e que tenham deixado marcas tão fortes que possam servir de referencial para o que hoje somos, é aí que questionamos a nossa identidade. A professora Vera Maria Antonieta Tordino Brandão 2 (1996) afirma que saber quem somos faz de nós indivíduos singulares reafirmando e marcando nosso território, por isto estes questionamentos são tão importantes, para que possamos nos reavaliar a cada passo dado, para que possamos nos reconhecer através de nossas atitudes. Por que realizamos algumas ações que podem causar estranheza a quem não nos conhece? Por sermos indivíduos diferentes, o primeiro contato é sempre de experimentação, ou melhor, de observação, 2 Pedagoga, com doutorado em Ciências Sociais pela PUC de São Paulo. Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Antropologia Urbana. Atuando principalmente nos seguintes temas: Saber, Tempo, Projeto.
entretanto, qualquer manifestação mais pessoal, desenvolve no próximo uma impressão que pode ser negativa ou positiva. Desenvolvemos uma série de comportamentos, estes refletem nosso estilo de vida, nossa maneira de vestir, no convívio que temos com o próximo, em nossas palavras e ações. Tudo está conectado a carga cultural que carregamos. A identidade é composta destes fatos que ocorrem em nossas vidas, assim experimentamos e vivenciamos, absorvemos o que é mais marcante, o que pode servir como referencial para que possamos acessar a memória e buscar um porquê para o que hoje somos. O Antropólogo Jöel Candau em conferência proferida no 5º SIMP 3, afirmou que não há identidade sem memória nem, tampouco, memória sem identidade. As duas estão diretamente ligadas e entrelaçadas. Candau (2011), nos aponta que coletivamente podemos falar de identidade como uma representação,pois uma vez que o indivíduo esta inserido em um coletivo, esta representado por ponto comum. A identidade, somos nós, em nosso coletivo e em nosso individual. 3 Seminário Internacional em Memória e Patrimônio com o tema Memória e Esquecimento, realizado na cidade de Pelotas no ano de 2011.
REFERÊNCIAS HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990. RICOEUR, Paul. Memória, História e Esquecimento. Campinas, Editora da Unicamp, 2007. p.451-466. BRANDÃO, Vera. Labirintos da memória: quem eu sou?. São Paulo. Paulus. 2008. IZQUIERDO, Ivan. Memória. Porto Alegre: Artmed, 2002. IZQUIERDO, Iván. Questões sobre memória. Unisinos, 2003. OLIVEIRA, Sonia. de. A construção da Identidade Infantil: (A sociopsicomotricidade Ramain-Thiers e a ampliação do espaço terapêutico). São Paulo: Casa do Psicólogo. 1996.