Rui Benfica e David Tschirley

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Transcrição:

7 de Dezembro de 2012 flash No. 61P Departamento de Análise de Políticas Agrárias Ministério da Agricultura Direcção de Economia Tel: (+258) 82 30 10 538, Fax: (+258 1) 21 41 47 01 Dinâmicas de Participação e Desempenho nos Mercados Agrícolas do Centro e Norte de Moçambique: Evidência de um Inquérito-Painel a Famílias Rurais (2008-2011) Rui Benfica e David Tschirley Este flash examina tendências na participação no mercado por produtores rurais nas regiões centro e norte de Moçambique entre 2008, quando os preços de muitos produtos alimentares subiram para níveis nunca antes vistos, e 2011. A análise usa dados de painel de inquéritos a agregados familiares realizados em 2008 e 2011, para avaliar a dinâmica de participação no mercado entrada, saída, e participação persistente, e tendências na intensidade e desempenho associados com essas dinâmicas. De um modo geral, a participação no mercado aumentou para quase todas a s culturas alimentares relevantes milho, madioca, gergelim, girassol, soja, feijão boer, feijão manteiga e amendoim. Contudo, como resultado de condições agro-ecológicas e de mercado diferenciadas, existe alguma variação entre províncias e culturas. De um modo geral, o acesso a serviços de extensão e informação de mercado parece ter melhorado durante o período (com alguma diferença entre províncias) e pode ter contribuído para um melhor acesso a mercados. Em contraste, o acesso a crédito e à participação em associações de produtores, factores que podem potencialmente contribuir para o aumento da produção e facilitar o aumento e desempenho na participação no mercado, permaneceram relativamente limitados. Introdução: Em Moçambique, a participação em mercados agrícolas por famílias rurais tem sido historicamente baixa. Embora muitas famílias devotem muitos recursos para a produção agrícola e derivem mais de dois terços do seu rendimento desta produção de culturas, são quase que exclusivamente orientadas para a subsistência. Resultados de inquérito indicam que os 40% mais pobres quase não vendem nenhuma de sua produção (TIA, 2002-2008). Em anos recentes, particularmente desde de 2008, os preços de muitos produtos agroalimentares subiram substancialmente no mercado internacional. Diferentes fontes sugerem que os preços recebidos por produtores agrícolas em Moçambique também aumentaram neste período. Estes aumentos deveram-se, pelo menos em parte, ao aumento massivo na procura local relacionada com o crescimento da população urbana e a procura de produtos avícolas, carne e outros, cuja produção usa produtos agrícolas alimentares como ração. Muitas das análises relacionadas com as implicações deste novo ambiente de preços temse focalizado nas implicações para os consumidores. Isto deve-se ao facto de muitas famílias, tanto em zonas urbanas como rurais, serem compradores líquidos de produtos alimentares. Não obstante, preços altos de produtos agrícolas podem também influenciar o comportamento de produtores de forma positiva. A Universidade Estadual de Michigan (MSU) e a Direcção de Economia do Ministério da Agricultura estão a levar a cabo pesquisas para responder a duas perguntas fundamentais neste contexto: (a) Terão os preços realmente aumentado nos mercados em Moçambique? e (b) Se sim, qual foi a resposta dos produtores? Estão neste momento em preparação documentos detalhados focalizados nestas questões. No entando, a equipa iniciou a discussão com a elaboração de dois flashes. Flash #60, recentemente publicado, analisa mudanças nos padrões de produção e de uso de insumos por produtores rurais entre 2008 e 2011. O presente flash avalia a 1

dimensão de mercado, mais precisamente se expectativas de preços mais altos, resultantes do aumento de preços de 2008, geraram uma maior participação no mercado. O estudo é baseado num inquérito de painel administrado a 1,186 famílias rurais no centro e norte de Moçambique em 2008 e 2011. De modo a garantir o seguimento do comportamento de produtores específicos durante o período, a análise usa apenas famílias entrevistadas com sucesso nos dois anos (painel balanceado). Este flash começa por apresentar as taxas de participação e os volumes de culturas vendidos no mercado em 2008 e 2011. Subsequentemente, usa o painel balanceado, para analisar a dinâmica de participação no mercado identificando, para cada cultura, as famílias que nunca participaram no mercado (não participantes), as que participaram em 2008 mas não em 2011 (desistentes), as que entraram no mercado apenas em 2011 (novos participantes), e os que participaram em ambos anos (vendedores persistentes); e comparando os níveis de vendas e a proporção da produção vendida por esses grupos. Seguidamente, analiza-se as recentes tendências no acesso à informação de mercado, serviços de extensão agrícola e crédito, e participação em associações de produtores; e como esta se relaciona com o estatuto de participação no mercado em cada ano. A secção final apresenta conclusões. Tendências na Produção, e Participação no Mercado: Entre 2008 e 2011, verificou-se, para quase todas as culturas, um aumento na proporção de famílias que produzem. Notou-se particularmente a importância crescente de culturas emergentes (gergelim, feijão bóer, girassol, e soja) em algumas províncias. Conforme realçado no flash #60, para a região como um todo, muito mais famílias produziram feijão boer (de 20% a 36%), feijão manteiga (23% a 26%), e amendoim (20% a 26%). O aumento na proporção de famílias que cultivam todas as outras culturas foi relativamente pequena: girassol (3.0% a 3.4%), gergelim (15.9% a 16.2%), soja (3.9% a 4.7%), e milho (93% a 95%). Províncias individuais dominam as mudanças em culturas especificas, a saber: feijão boer (Zambézia), milho (Nampula e Zambézia), e feijão manteiga (Manica e Tete). A produção de gergelim é predominante em Sofala, Manica e Nampula, mas 2 a proporção de famílias que produzem apenas cresceu substancialmente em Sofala (de 35% a 43%). A produção de soja concentra-se principalmente em Tete, onde a proporção de famílias que produzem cresceu de 17% a 19% (ver flash #60). De um modo geral, a proporção de famílias que vendem a sua produção também aumentou entre 2008 e 2011. Na zona de inquérito como um todo, a percentagem de famílias que vendem, baseada em toda a amostra, cresceu de 28% a 33% para o milho; 9% a 22% para o feijão boer; 8% a 11% para o feijão manteiga; 10% a 12% para a mandioca; 3% a 5% para a soja; 2% a 4% para a batata-doce comum; e 0.3% a 1.2% para a batata-doce de polpa alaranjada (Tabela 1). Existem algumas diferenças importantes nas mudanças na intensidade de participação no mercado entre as províncias para culturas especificas. Primeiro, a feijão boer parece ser a história de sucesso na região. A cultura é predominantemente cultivada na Zambézia, onde cerca de 70% das famílias produziram em 2008. Em 2011, a cultura cresceu em importância em todas as 4 províncias, particularmente em Sofala e Manica onde a quantidade vendida aumentou para 5 vezes mais. Com a excepção de Tete, a participação no mercado aumentou em todas as províncias, numa média de 9-22% (taxa de participação no mercado), e um aumento medio de volume de vendas de aproximadamente 47%, de 2008 a 2011 (Figura 1a). Segundo, embora o milho seja amplamente cultivado em todas as províncias, os maiores aumentos nas taxas de participação no mercado foram observadas nas províncias centrais de Tete (14% a 21%), Manica (24% a 42%) e Sofala (26% a 34%), enquanto que a proporção de vendedores caiu ligeiramente em Nampula e Zambézia (Tabela 1). Os volumes médios vendidos pelos produtores foram significativamente mais elevados na região em 2011, particularmente nas províncias do centro. Entrevistas realizadas a grupos de produtores em 2009 sugerem que este aumento na participação no mercado no centro do país deveu-se, em parte, ao surgimento de uma grande moageira (DECA) e à expansão de operações avícolas (Abílio Antunes).

Figura 1. Volume de Vendas e Proporção da Produção Vendida por Participantes no Mercado 2008 e 2011 (a) Volume de Vendas (Kg por Família) Girasol Batata- doce: Regular Batata- doce: Alaranjada Arroz 0 200 400 600 800 (b) Proporção da Produção Vendida (%) Girasol Batata- doce: Regular Batata- doce: Alaranjada Arroz 2011 2008 2011 2008 0 20 40 60 80 100 Ambas unidades de produção iniciaram em 2008 (continuando nos anos seguintes) campanhas agressivas de aquisição cereais na região. Terceiro, a proporção de famílias que vendem gergelim estagnou na região como um todo (10%) mas manteve-se alta e em crescimento em Sofala (de 28% a 33%). Em Manica, onde a proporção de vendedores manteve-se estável em 9%, a quantidade vendida aumentou em cerca de 40%. Quarto, A proporção de vendedores de girassol aumentou de 1% para 2% e a quantidade vendida por família mais do que duplicou (Figure 1a). Em Manica, onde a cultura é predominantemente cultivada e crescendo em importância, a participação no mercado aumentou de 3% a 5% e o volume médio vendido por agregado familiar triplicou. Quinto, a proporção de famílias vendendo soja é baixa mas em crescimento (3% a 5%)., foi principalmente cultivada em Tete, onde a proporção de produtores cresceu de 17% a 19%, e vendedores de 13% a 17%. A quantidade vendida estagnou durante o período. Tabela 1. Proporção de Famílias que Participam no Mercado, por Cultura, Província e Ano (%) Toda Região Províncias e Ano de Inquérito (% entre todas as famílias inquiridas) Nampula Zambézia Tete Manica Sofala 2008 2011 2008 2011 2008 2011 2008 2011 2008 2011 2008 2011 Cereais e 28.3 32.5 27.7 25.9 40.9 39.3 13.7 20.8 24.0 41.5 24.2 31.3 Arroz 2.9 2.8 1.9 2.7 6.4 6.7 0.0 0.0 1.2 0.0 1.7 1.0 2.5 2.4 0.5 3.8 2.1 2.1 0.0 0.0 3.9 2.5 6.8 3.9 3.9 4.4 5.0 3.9 4.3 5.2 6.4 7.7 0.1 1.8 2.6 2.1 e Batata-doce 10.8 12.3 12.0 11.4 18.6 15.1 2.4 3.1 12.4 16.7 2.2 13.9 Batata-doce: Polpa Alaranjada 0.3 1.2 0.0 0.0 0.5 1.3 0.3 1.5 0.0 0.8 0.6 2.5 Batata-doce: Regular 2.4 4.0 0.4 0.0 2.9 2.8 4.2 3.5 3.7 9.6 0.8 6.3 Feijões e Culturas de Rendimento Feijão Manteiga 8.0 10.5 1.9 1.2 7.1 12.7 24.6 26.9 4.7 8.4 1.9 1.0 Feijão Boer 9.4 21.9 1.6 6.4 27.3 55.3 0.5 0.6 0.5 9.7 1.0 8.3 Algodão 4.9 4.6 9.2 13.1 5.5 1.9 2.7 2.7 1.0 0.7 5.0 5.9 Tabaco 4.7 4.8 0.6 0.0 3.5 3.5 18.7 20.1 0.7 0.7 0.3 0.3 Cana-de-açúcar 4.8 3.8 1.7 2.9 7.0 5.2 2.4 0.7 10.5 1.0 1.9 7.7 Girassol 1.0 1.5 0.0 0.0 1.7 0.8 0.1 0.4 3.1 4.6 0.0 2.8 10.4 10.4 17.6 10.8 2.1 4.1 1.4 0.0 9.0 8.9 28.3 33.4 2.6 4.5 0.0 0.0 0.9 3.2 13.3 17.1 0.0 3.0 0.0 0.0 3

Finalmente, com algumas excepções, em média, as famílias que participaram no mercado em cada ano, mantiveram ou aumentaram a proporção da produção vendida (Figura 1b). Apesar de as decisões de cultivo em 2007/08 não terem sido baseadas na expectativa de preços altos, as famílias terão provavelmente vendido mais do que antecipavam porque os preços subiram durante e depois da colheita em 2008. Deste modo, crê-se que a proporção da produção vendida em 2008 foi provavelmente maior do que o normal dados os níveis de produção. Nos anos seguintes, com a expectativa de preços mais altos, tanto as intenções de produção como de vendas terão aumentado, levando a que a proporção da produção vendida tenha aumentado ou, pelo menos, permanecido alta. Participação no Mercado - Entrada, Saída e Participação Persistente: Matrízes de transição de participação no mercado (Tabela 2) mostram a proporção de famílias que (a) não participaram no mercado em nenhum dos anos (não-participantes), (b) participaram em 2008, mas não em 2011 (desistentes), (c) entraram no mercado apenas em 2011 (novos participantes), e (d) aqueles que participaram no mercado em ambos anos (vendedores persistentes). Dado que as decisões de cultivo em 2008 não foram influenciadas pelo aumento dos preços de muitos produtos (visto estes aumentos terem-se observado depois de tais decisões), estas matrizes começam a captar as respostas de produtores aos preços altos que se iniciaram em 2008 e continuaram até 2011. Para manter a consistência na análise de transição da participação no mercado, esta análise focaliza-se apenas em famílias que produziram cada cultura especifica em ambos anos. São de realçar três resultados importantes. Primeiro, das 10 culturas monitoradas aqui, a proporção de novos participantes excede aquela de desistentes em 6, geralmente por uma grande margem. O Rácio de novos participantes por desistente foi especialmente grande para batata-doce (3.5:1), feijão boer (6:1), e soja (4:1). Segundo, para as 4 culturas para as quais a proporção de desistentes excede a de novos participantes, a diferença é apenas grande para o gergelim: aproximadamente 20% dos vendedores de 2008 saíram em 2011, enquanto apenas 11% dos vendedores em 2011 eram novos vendedores. 4 Finalmente, produtores que não venderam em nenhum dos anos são a categoria mais frequente para todos os cereais e amendoim, mandioca/batatadoce e feijão manteiga. Estas culturas continuam a ser produzidas primariamente para o auto consumo, apesar do massivo aumento na participação no mercado por produtores familiares revelada por esta análise. A análise dos resultados por província (não mostrados na Tabela) revela alguns padrões interessantes. Primeiro, para o milho, a Zambézia sobressai com a maior proporção de vendedores persistentes (29%). Manica teve a taxa mais alta de novos participantes (28%). Houve ganhos líquidos de participação no mercado de milho em todas as províncias. Segundo, o feijão boer mostra um padrão forte de crescente e sustentada participação no mercado. Na Zambézia, a província com a maior proporção de produtores, 32% dos vendedores em 2011 eram novos vendedores e 35% eram vendedores persistentes; apenas 5% dos que venderam em 2008 desistiram do mercado em 2011. Desempenho de Vendedores por Estatuto de Transição de Participação no Mercado: Até agora, a análise indica que houve um aumento na participação no mercado pelas famílias rurais. No entanto, as tendências médias no volume de produção comercializada (discutidas anteriormente e apresentadas na Figura 1a) não revelam grande variação. A Figura 2 endereça este assunto, através da análise do volume de vendas por estatuto de transição de participação no mercado, e revela alguns resultados importantes. Primeiro, entre 2008 e 2011, os vendedores persistentes aumentaram o volume de vendas em quase todas as culturas, excepto soja, cujo volume caiu, e feijão manteiga, que não variou (barras escuras nas Figuras 2a and 2b). Segundo, uma análise dos volumes de vendas em 2008 revela que os vendedores persistentes (i.e. os que mais tarde continuaram vendendo) venderam muito mais (em 2008) do que os que desistiram em 2011, com excepção de gergelim, soja e mapira (Figura 2a). Este padrão é particularmente notável para soja: os produtores de soja que acabaram desistindo em 2011, haviam produzido quase o dobro que produziram aqueles que permaneceram no mercado. Finalmente, para todas as culturas nesta análise, os vendedores persistentes tem

maiores volumes de vendas em 2011 quando comparados com agregados que entraram no mercado apenas em 2011 (Figura 2b). Isto explica, em parte, o crescimento relativamente lento nos volumes de vendas para algumas culturas (Figura 1a). Com o tempo, à medida que os novos vendedores que continuem a vender estabeleçam a sua posição de mercado, espera-se um crescimento mais rápido e sustentável. Acesso à Informação de Mercado, Serviços de Extensão, Crédito e Participação em Associações de Produtores: Esta análise não tenta de forma alguma explorar formalmente os determinantes de participação e desempenho nos mercados. Trata, no entanto, de começar a explorar se existem algumas tendências no acesso à informação de mercado, serviços de extensão, crédito, e participação em associações de produtores. Estes são, em princípio, factores chave que podem facilitar o aumento da participação de famílias rurais nos mercados agrícolas e ajudar a melhorar o seu desempenho na comercialização. Os resultados mostram que, de um modo geral, houve um aumento na proporção de famílias com acesso à informação de mercado (36% a 57%) e serviços de extensão (10% a 17%). Existe algumas diferenças entre as províncias. O acesso a serviços de extensão duplicou em Nampula e Sofala e triplicou em Manica. À excepção de Sofala, uma maior proporção de famílias que participaram no mercado (comparada com as que não participaram no mercado) receberam serviços de extensão. Em termos de informação de mercado, o acesso em Nampula foi alto, mas estagnante (50%). Em todas as outras províncias verificou-se um aumento no acesso à informação de mercado. Na Zambézia, onde o acesso quase triplicou (21% a 59%), os participantes no mercado, em cada ano, tiveram muito maior acesso do que os nãoparticipantes. Em outras províncias este padrão é apenas observado em 2011. Acesso ao crédito permanece relativamente limitado. Apesar de melhorias em anos recentes em algumas províncias, a participação em associações de produtores é ainda limitada na região (Tabela 3). Outros factores, não discutidos aqui, que também podem afectar as condições de acesso a mercados pelas famílias inclui infraestrutura física e rede de tele-comunicações. Tabela 2. Análise de Transição de Participação no Mercado para Culturas Seleccionadas, 2008-2011 (%) Culturas Vendidas Agregados Familiares que Produziram em ambos anos (2008 e 2011) (%) Não Venderam em Nenhum dos Anos Entre Famílias que Produziram em 2008 e 2011 Desistentes: Novos Participantes no Vendedores Venderam Apenas Mercado: Vendeu Persistentes: Venderam em 2008 Apenas em 2011 em Ambos Anos (2008 e 2011) Cereais e amendoim 87.6 50.5 13.6 17.5 18.4 Arroz 6.8 77.4 9.9 6.7 6.0 24.3 90.0 4.3 3.1 2.6 7.1 56.6 14.3 17.4 11.7 e Batata-doce 40.9 67.7 15.9 10.9 5.5 Batata-doce Regular 4.2 57.2 6.9 24.1 11.8 Feijões e Culturas Alimentares de Rendimento Feijão Manteiga 12.3 40.1 16.0 22.9 21.0 Feijão Boer 22.4 30.7 5.1 30.0 34.2 6.5 2.2 19.9 11.2 66.7 1.8 5.6 4.6 16.3 73.5 Nota: Exclui culturas de rendimento tradicionais (algodão, caju, e cana-de-açúcar) e culturas com participação no mercado de menos de 2% em ambos anos (Tabela 1). A análise apenas inclui famílias que produziram cada cultura em ambos anos. 5

Figura 2. Volume de Vendas por Estatuto de Transição de Participação no Mercado, 2008 e 2011 (a) Volume de Vendas de Desistentes e Vendedores Persistentes (2008) Girasol (b) Volume de Vendas de Novos Participantes e Vendedores Persistentes (2011) Persistent Sellers Drop Out Sellers 0 200 400 600 800 1000 1200 Persistent Sellers New Entrants 0 200 400 600 800 1000 1200 Conclusões: Este flash analisa tendências e dinâmicas de participação e desempenho nos mercados agrícolas por pequenos produtores no contexto do ambiente de preços altos verificados em anos recentes no centro e norte de Moçambique. Os resultados indicam ter-se verificado um aumento na participação no mercado para as principais culturas, embora haja diferenças na intensidade e magnitude entre províncias, culturas, e estatuto de transição na participação no mercado. Estes padrões refletem condições de base, agroecologia, e crescimento de mercados diferenciados nas várias províncias em anos recentes. O acesso à informação de mercado e serviços de extensão parece ter melhorado (com alguma diferença entre províncias), e pode ter contribuído para o melhor acesso aos mercados durante o período. Contudo, o acesso a crédito e participação em associações mantem-se relativamente limitado. Melhorar e sustentar a provisão desses serviços e oportunidades será crucial para melhorar e sustentar a participação e desempenho nos mercados agrícolas pelos produtores rurais. De modo a ter-se uma ideia mais clara dos factores que determinam a entrada e participação e desempenho sustentáveis nos mercados agrícolas, será necessário levar-se a cabo análises adicionais. Será também importante entender-se a relação entre a participação no mercado e a produtividade agrícola, através da intensificação, para identificar politicas que promovam um crescimento sustentável dos rendimentos rurais e segurança alimentar. Quatro culturas deservam uma atenção especial. Primeiro, o crescimento da produção de feijão boer para a comercialização tem sido espectacular, mas tem recebido pouca atenção. O mercado deste produto precisa de ser melhor entendido para se avaliar a sua sustentabilidade e perspectivas de crescimento. Segundo, o papel de grandes comerciantes formais na compra de milho parece ter sido crucial no desempenho da comercialização deste produto no centro do país. Note-se que na Zambézia, onde a comercialização de milho e comum mas geralmente pequena, as tendências não tem sido igualmente tão encorajadoras. Terceiro, a soja apresenta resultados um tanto misturados e surpreendentes: um aumento notável na comercialização, mas ainda baixo, e reduções nos volumes transaccionados. Um questão com relação a esta cultura e de se a amostra captou de forma adequada as áreas produtoras mais relevantes. Finalmente, o gergelim continua a ser uma cultura marginal em termos da proporção de famílias que produzem e comercializam. 6

Tabela 3. Participação no Mercado e Acesso a Informação de Mercado, Serviços de Extensão, Crédito e Participação em Associações de Produtores Províncias Participantes no Mercado (Vendeu pelo menos 1 cultura) Não-Participantes no Mercado Todos Agregados Familiares 2008 2011 2008 2011 2008 2011 1. Acesso a Extensão ----- Percentagem de Agregados Familiares ----- Nampula 7.3 18.1 4.9 4.8 6.4 12.7 Zambézia 9.0 13.1 7.7 1.6 8.6 10.4 Tete 23.1 27.2 11.1 18.3 18.5 24.2 Manica 12.4 27.2 4.8 21.0 8.2 25.2 Sofala 10.7 20.2 8.2 20.9 9.6 20.4 Total 11.8 19.5 7.7 11.9 10.1 17.2 2. Acesso a Informação de Mercado ----- Percentagem de Agregados Familiares ----- Nampula 49.9 51.5 51.7 45.9 50.6 49.2 Zambézia 24.0 62.8 12.8 44.4 21.0 58.7 Tete 51.5 48.7 20.0 39.7 39.6 45.7 Manica 60.3 57.6 45.0 66.5 51.9 60.5 Sofala 43.2 68.4 18.6 71.5 32.1 69.3 Total 40.4 58.8 29.6 52.0 36.2 56.7 3. Participação em Associações ----- Percentagem de Agregados Familiares ----- Nampula 8.0 7.6 3.0 0.0 6.0 4.5 Zambézia 8.0 12.4 6.4 4.5 7.5 10.6 Tete 8.9 13.5 1.5 2.0 6.1 9.7 Manica 9.4 11.1 8.7 15.7 9.0 12.6 Sofala 9.4 12.8 1.2 7.9 5.7 11.3 Total 8.5 11.7 4.3 5.2 6.9 9.7 4. Acesso a Crédito ----- Percentagem de Agregados Familiares ----- Nampula 5.0 1.6 4.1 5.5 4.6 3.2 Zambézia 1.6 0.7 0.0 2.9 1.2 1.2 Tete 12.5 6.1 0.0 2.7 7.8 5.0 Manica 6.0 7.9 0.4 15.3 2.9 10.3 Sofala 7.3 4.8 0.7 2.5 4.3 4.1 Total 5.5 3.5 1.0 5.3 3.8 4.1 Referências Cunguara, B., J. Mudema, D. Mather, e D. Tschirley (2012). Mudanças no Padrão de Cultivo e Uso de Insumos pelos Pequenos Produtores no Centro e Norte de Moçambique, 2008/2011. Flash #60P. Rui Benfica e David Tschirley são, respectivamente, Professor Associado e Professor, Desenvolvimento Internacional, Universidade Estadual de Michigan (MSU). Apoio financeiro e de substância para a realização deste estudo foi providenciado pela Agencia dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) em Maputo, e Technoserve. Agradecimentos especiais a Duncan Boughton e Cynthia Donovan pelos seus comentários e sugestões. As opiniões expressas neste documento são da responsabilidade exclusiva dos autores e não reflectem a posição oficial do MINAG ou USAID. Autor para Correspondência: Rui Benfica: benficar@msu.edu =================================== Contactos: MINAG/DE tel.: (+258) 82 30 10 538; Fax (+258 1) 21 41 47 01 Rua da Resistência, n 1746, 6 Andar Email: helenasambo12@yahoo.com.br Website: www.aec.msu.edu/agecon/fs2/mozambique ou www.minag.gov.mz 7