Antibióticos beta-lactâmicos

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Transcrição:

Antibióticos beta-lactâmicos Rodrigo C Santana Estes antibióticos se caracterizam pela presença, em sua estrutura química, do anel β-lactâmico, responsável pela sua ação antimicrobiana. A ligação do anel β- lactâmico com outros diferentes anéis, como anel tiazolidínico, nas penicilinas, ou o anel di-hidrotiazina, nas cefalosporinas, compõem as estruturas básicas que caracterizam as diferentes classes de antibióticos beta-lactâmicos, conforme ilustra a figura abaixo, onde o anel β-lactâmico está marcado com a seta vermelha. Figura1 : Estrutura dos antibióticos beta-lactâmicos (Williams, 1999) ATENÇÃO Devido ao compartilhamento dessa estrutura química, alguns efeitos adversos sérios decorrentes do uso de algum antibiótico beta-lactâmico poderão ocorrer, mesmo quando se trata de drogas de classes diferentes (penicilina e cefalosporinas, por exemplo).

A seguir apresentamos uma lista dos principais antibióticos beta-lactâmicos utilizados na prática clínica. Penicilinas naturais: o Penicilina G (Benzil-penicilina): penicilina cristalina, procaína e benzatina o Penicilina V Penicilinas semi-sintéticas: o Oxacilina Aminopenicilinas: o Ampicilina o Amoxicilina Carboxipenicilinas: o Carbenicilina o Ticarcilina Ureidopenicilinas: o Piperacilina Monobactâmicos: o Aztreonam CARBAPENÊMICOS: o Imipenem o Meropenem o Ertapenem Inibidores da beta-lactamase: o Ácido Clavulânico/amoxicilina, o Tazobactam/Piperacilina o Sulbactam/ampicilina

CEFALOSPORINAS: o Primeira geração: Cefalexina, Cefadroxil, Cefalotina, Cefazolina o Segunda geração: Cefoxitina, Cefuroxime, Cefaclor o Terceira geração: Ceftriaxone, Cefotaxime o Terceira geração anti-pseudomonas: Ceftazidime o Quarta-geração: Cefepime Ao longo do tempo, algumas bactérias adquiriram a capacidade de produzir enzimas, denominadas beta-lactamases, que são capazes de promover a hidrólise do anel beta-lactâmico, inativando a ação destes antibióticos. O associação de um antibiótico deste grupo com drogas com ação inibidora de beta-lactamases (ácido clavulânico, sulbactam e tazobactam) restaura a ação do antimicrobiano contra a bactéria produtora da enzima. Para exemplificar esta situação podemos citar a resistência adquirida pela maioria das cepas de Staphylococcus aureus às penicilina naturais e aminopenicilinas. Ao se associar o ácido clavulânico à amoxicilina, esta combinação passa a exercer atividade antimicrobiana contra as cepas resistentes à amoxicilina. Como veremos mais adiante, este principio também se aplica a algumas bactérias gram-negativas, em que diferentes associações de penicilinas com inibidores de beta-lactamases são usados como o sulbactam e o tazobactam. ATENÇÃO Dentre os antibióticos beta-lactâmicos estão incluídos todas as penicilinas, as cefalosporinas, carbapenêmicos e monobactâmicos Algumas bactérias adquiriram a capacidade de produzir beta-lactamases, que são capazes de hidrólisar o anel beta-lactâmico, inativando a ação destes antibióticos Existem os inibidoras de beta-lactamase que quando associados ao antibiótico originalmente sem atividade contra a bactéria, pode recuperar, e as vezes ampliar, a sua ação contra bactérias produtoras desta enzima.

Mecanismo de ação dos antibióticos beta-lactâmicos Todos os antibióticos beta-lactâmicos possuem ação bactericida. Eles atuam por inibição da síntese da parede celular bacteriana, que é uma estrutura essencial da célula por manter a sua integridade, prevenindo-a da lise osmótica. Devemos lembrar que a osmolaridade no interior da célula bacteriana é bem superior ao do meio em que elas habitualmente vivem, e parede celular é a estrutura fundamental que mantém as bactérias vivas e em seus formatos característicos (Figuras 2 e 3). Figura 2 : Estrutura básica das bactérias Figura 3: Formas bacterianas

A composição da parede celular difere entre bactérias gram-positivas e gramnegativas, conforme esquematizado na Figura 4. Nas gram-negativas a parede celular é mais complexa por envolver mais camadas em sua composição como a membrana externa, além do peptidoglicano. Por outro lado, nas bactérias gram-positivas a parede celular é mais espessa pela maior espessura da camada de peptidoglicano, o principal componente da parede celular nestas células. Figura 4: composição da parede celular em bactérias Gram-positivas e Gram-negativas O peptidoglicano é constituido principalmente por N-acetil-glicosamina (NAG) e ácido N-acetilmurâmico (NAM). A este componente ligam-se às cadeias laterais de tetrapeptídios (CLT) como mostrado na Figura 5.

Figura 5: estrutura do peptiglicano da parede celular de bactéria Gram-positiva A síntese da camada de peptidoglicano envolve a participação da proteína ligadora de penicilina (PBP - penicillin binding protein), que atua como enzima neste processo de síntese. ATENÇÃO As penicilinas exercem sua ação antimicrobiana ao se ligarem e inativarem as proteínas ligadoras de penicilina (PBP).